quinta-feira, 30 de dezembro de 1999

Paulo Ferreira (1911-1999)

 "Um artista do SNI"

Expresso 30 Dez. 1999 (revisto)

FALECEU no passado dia 23, no Estoril, com 88 anos, o pintor, decorador e ilustrador Paulo Ferreira (Paolo), que foi um dos mais efectivos representantes artísticos do regime anterior, um protagonista do chamado estilo SNI (Secretariado Nacional de Informação). Fixado em Paris a partir de 1948, foi também chefe dos serviços artísticos das Casas de Portugal em Paris, Londres e Nova Iorque, entre 1954 e 1974.
Nascido em 1911, começou a publicar ilustrações em 1929, no «ABC» e na «Civilização», e foi cenógrafo e figurinista para a companhia de bailado Verde Gaio ao longo de toda a década de 40 – essa sua actividade está documentada no Museu Nacional do Teatro. Participou na decoração do pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris com um painel de azulejo; na Exposição do Mundo Português e nos Salões de Arte Moderna do SPN/SNI, onde obteve o Prémio Sousa-Cardoso em 1939 e o Prémio Tagarro em 1949, para além de integrar equipas de decoradores das pousadas nacionais e das representações portuguesas em Feiras e Exposições internacionais. Em 1942 organizou a 1ª Exposição dos Artistas Ilustradores Modernos.
.Entretanto, em alguns elementos biográficos que o próprio artista divulgou figuram outras informações não confirmadas, como a sua aproximação ao movimento da «Presença» (a revista não publicou até 1937 qualquer colaboração sua), atribuindo-se também a autoria de desenhos surrealistas desde 1931. (Era um reconhecido mitómano.)
Em 1958, na Casa de Portugal em Paris, e no ano seguinte na sede do SNI, comissariou a primeira retrospectiva de Amadeo de Sousa-Cardoso, com obras que tinham ficado na posse da viúva do pintor, que era então também uma modesta funcionária da Casa de Portugal (o que se traduziu numa longa tutela exercida sobre a Lúcia de S.C.). Entre várias outras mostras que organizou - como a dedicada a Francis Smith, em 1967, em Lisboa -, Paulo Ferreira coordenou para a Fundação Gulbenkian, em 1972, uma exposição sobre os contactos de Robert e Sonia Delaunay com Amadeo Sousa-Cardoso, Eduardo Viana, José Pacheco e Almada Negreiros, cuja troca de correspondência publicou no mesmo ano (com reedição em 1981). Entretanto, com a sua intervenção (com a sua intermediação, e o empenho do arq. José Sommer Ribeiro), a Gulbenkian veio a adquirir numerosas obras de Amadeo a Lúcia de Sousa-Cardoso. Uma última monografia, "Amadeo Sousa-Cardoso: Peintre Portugais, 1997-1918", publicou-a em 1995, em Paris, incluindo mais correspondência inédita.
Paulo Fereira foi autor de três pinturas murais alusivas à Estremadura no Museu de Arte Popular inaugurado em 1948.

Retrato de Paulo Ferreira por Mário Eloy
"Vida e Arte do Povo Português", de Francisco Lage, Luís Chaves e Paulo Ferreira, com direcção artística deste, com desenhos seus e fotografias de Mário Novais. Secretariado da Propaganda Nacional, Edição da Secção de Propaganda e Recepção da Comissão Nacional dos Centenários. Com uma introdução de António Ferro.Lisboa, 1940. 
«Paulo Ferreira e seus Amigos», que reuniu à sua obra trabalhos de muitos artistas com quem conviveu ou se cruzou ao longo da vida.
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