domingo, 1 de fevereiro de 2026

VELOSO DE CASTRO, a descoberta de um militar-fotógrafo na Angola colonial dos anos 1904-1914

 Não há fotografias coloniais, isto é ultramarinas, isto é, no caso, africanas, angolanas, como estas. Não se trata de defender o colonialismo "bom" de um fotógrafo militar envolvido em acções de guerra e de levantamento territorial (não se trata de julgar o passado, nem de o justificar ou avalizar*), nem se trata de apreciar as fotografias do tenente Veloso de Castro, realizadas em Angola entre 1904 e 1914, apenas como arte fotográfica.

* "O exame do passado requer uma abordagem crítica, porque não de trata de endossar ingenuamente as categorias de pensamento em vigor à época, mas requer igualmente uma capacidade de recuo, já que também não se trata de julgar os antecessores a partir de posturas intelectuais contemporâneas” (...nem endossar/avalizar nem julgar). In RETOUR D'ANGOLA, ed. Musée d'Ethnographie de Neuchâtel, 2010, exposição e catálogo modelares sobre a 2ª Missão Suíça em Angola, 1932-33, que além de fotografar fez grandes recolhas de espécies animais e objectos, o que nunca aconteceu com as explorações portuguesas.



 

Não conheço outras fotografias de pretos (não há a raça negra) onde o olhar o outro seja tão interessado (sem a objectificação dos habituais retratos exóticos), tão próximo, empático, não "etnográfico", isto é, fora da formatação "objectiva" das missões coloniais que exploram o diferente e insistem no primitivo. Se Veloso é um contemporâneo de Benoliel, e à sua altura, pelo menos, também me apetece compará-lo a Sebastião Salgado pela dedicada atenção aos grupos humanos e em especial pela relação dos corpos com a paisagem...
Para avaliar a diferença do fotógrafo Veloso de Castro no âmbito colonial-africano ("naturalmente" colonialista mas foi crítico das políticas centralistas de Lisboa e contava com o "progresso" civilizacional dos indígenas), basta comparar, só no espaço angolano, com os álbuns de Cunha Moraes, 1882-88, e da Expedição ao Muatiânvua, 1887, e com as edições posteriores da 2ª Missão Suíça, Neuchâtel, ed. 1934, de Fernando Mouta, 1934, e de Elmano da Cunha Costa, activo em 1935-39, ou visitar o vasto acervo de provas originais reunido por Castro Soromenho.





Em pesquisas no Google e no site Africa in the Photobook, de Ben Krewinkel (https://benkrewinkel.com/), com quem já mantive alguma colaboração, podem visitar-se as publicações referidas, e em https://africainthephotobook.com/early-albums-download/ acede-se às versões digitais de muitas outras edições internacionais sobre Africa, de 1852 a 1934. É um coleccionador e investigador que partilha as suas referências.
A aguardada publicação de um álbum Veloso de Castro será um acontecimento internacional, do ponto de vista artístico e enquanto informação sobre sociedades africanas e o contacto com europeus nos inícios do século XX: práticas sociais nativas, trabalho e comércio, habitação, convivência com os brancos e dependência, campanhas de ocupação ou pacificação, etc. Ampliará o acontecimento que é uma exposição onde se acrescenta à fotografia portuguesa um nome de primeira grandeza antes ignorado (conhecido em fontes escritas mas com uma obra não vista, ou mal vista em imagens deficientes). Era preciso re-imprimir e ampliar para ver de facto Veloso de Castro, escapando assim às preguiçosas rotinas arquivísticas.
Na exposição do Museu Militar organizada por Pedro Reigadas, no âmbito de um trabalho de mestrado, e graças a um imenso trabalho prático de investigação e apresentação, tão diferente das curiosidades académicas endogâmicas, estamos perante 120 fotografias mostradas em impressões actuais de médio formato a partir de negativos em vidro conservados nos arquivos militares, provas estas que asseguram uma extraordinária visibilidade de pormenores e de contrastes de luz, infinitamente superior às provas de época conhecidas e às que se encontram impressas nos livros do autor. São magnificas provas actuais tratadas e impressas por Roberto Santandreu que foram seleccionadas por Pedro Reigadas segundo o critério principal da avaliação estética - uma ulterior edição crítica do acervo alargaria naturalmente a sua abordagem, certamente sem alterar a apreciação actual do fotógrafo-militar.
Inaugurada em 29 de setembro, a mostra tem sido prolongada, agora até 1 de março, vencendo o silêncio, as "reservas" ideológicas de quem não viu ou quis ver mal, e em geral a prática do cancelamento que incide em tudo que escapa a tutelas académicas da moda ditas pós-coloniais, de facto "woke".
Na imprensa a mostra foi, ao cabo de 4 meses de desatençao, objecto de artigos no Expresso e no Público.

HOJE, DOMINGO, 1 de fevereiro, enfim uma capa: extenso artigo de Sérgio B. Gomes sobre a exposição Veloso de Castro / Pedro Reigadas e um comentário de Filipa Lowndes Vicente (numa abordagem revoltante, execrável..., um ataque ad hominem que se substitui à apreciação honesta e objectiva das fotografias, e onde, por exemplo, se refere largamente um processo de cariz moral que lhe foi levantado e de que foi absolvido, o que não se diz), mais uma entrevista da académica sul-africana Patricia Hayes, que veio da Cidade do Cabo, afirmativa e prudente.


soldado cuamato vencido (já não um prisioneiro, depois de reconhecida a vassalagem pelo soba local), a quem foi permitido conservar a arma e os adereços que vinham de militares portugueses mortos na campanha de 1904) Na legenda imprecisa do Público: "guerrilheiro Cuamato em cativeiro, à guarda do Exército de Portugal, durante a Campanha dos Cuamatos, em 1907"

" (...) Um d'estes cornbatentes tivemol-o mais tarde no Cunene, e para lá fôra preso pelo capitão Montez na segunda viagem por este feita com os despachos de Naloeque. Era notavel pelo seu ar de sobranceria e indifferença e por usar um cinto e suspcnsorios respectivos, do equipamento de um dos nossos soldados de

infanteria. Tambern tinha uma espingarda Snyder e os amuletos de guerra que usava suspensos do pescoço

eram dois mechanismos de rclogio, que disse ter recolhido em 1904 no Pernbe, dos nossos mortos, e que invuluraveis se consideravam todos os cuamatos quando usassem qualquer objecto dos que nos tivessem pertencido; d'elles todos se haviam munido n'esse anno de indelevel e pungente memoria.

Este soldado cuarnato, que no Cunene sempre esteve persuadido que morreria ás nossas mãos, foi despedido em paz quando lá chegou a columna, sem que da sua bocca saisse o menor agradecimento e sem que désse sequer mostras de admiração. Quanto aos que apparecerarn cm Naloeque , também se retiraram em paz e com as suas espingardas, que não foram apprehendidas com o fim de facilitar mais tarde a reunião de maior numero e a sua entrega." pp. 242-3, JVC, A CAMPANHA DO CUAMATOI EM 1907, Breve narrativa acompanhada de photographias, Loanda, Imprensa Nacional, 1908 - não um álbum, mas um extenso livro de c. 292 págs.






venus branca (pintura de Carlos Reis) e Venus preta

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

VELOSO DE CASTRO, Angola 6: A ACÇÂO MILiTAR

 Veloso de Castro faz a reportagem da segunda campanha dos Cuamatos, de 1907, que contou em livro.




Alves Roçadas. Note-se que a pose (necessária na fotografia com tripé e chapa de vidro) nunca é hierática e rígida e raramente é formal, "arranjada". O instantâneo possível é lento, e certamente não é, ou é pouco repetido. Na trincheira, os oficiais comem em cima de tambores (!) e a cara do alferes à direita é um acaso que impressiona. 








712 – Assalto ao Cusso – 3ª fase, 1908

537 – Passagem de artilharia numa ravina, 1908

805 – Passagem do rio Catofe, 1908

Metralhadora Hotchkiss da guarnição de Aucongo, 1907

657 – Sapadores de coluna, 1908



596 – Enterro de um soldado, 1908






O CASO DA COLECÇÃO ELLIPSE. COLECÇÂO BERARDO. COLECÇÂO CACE (3)

... E O ATAQUE AO ACERVO BERARDO DO/NO CCB. CARTA PESSOAL A UMA MINISTRA MAL INFORMADA

 


1. Como se pode considerar pela foto junta, ignoro se a Colecção Ellipse é mesmo importante dentro dos acervos de arte contemporânea existentes no CCB, de que é parte central e essencial a Colecção Berardo, que se encontra sob tutela judicial. Os compradores de João Rendeiro para o Fundo e depois Fundação Ellipse, Alexandre Melo (então assessor de Sócrates) e Pedro Lapa (então director do Museu do Chiado) - duas acumulações inaceitáveis, como se discutiu à época -, nunca me pareceram figuras de gosto seguro.

2. Se José Berardo ganhar os processos judiciais q se eternizam, levantados pelos bancos de que é devedor, é provável q lhe interesse manter a colecção no CCB e ressuscitar o (seu) respectivo nome original. A sua ambição foi dotar o país com um museu de arte contemporânea... e depois moderna por dedicação, amor à arte (e à camisola), responsabilidade social e altruísmo. Nunca quis vender as obras que adquiriu, e ouvi-lo a comentar as peças da colecção era uma experiência muito generosa.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

JULIO POMAR e a GALERIA 111 (4) : ANOS 2000

 2002. 19 fev : OS TRÊS EFES - fábulas, farsas e fintas

obras de 1996 a 2002, com um desdobrável e a edição do livro "Apontar com o dedo o centro da terra " com texto de António Lobo Antunes, ed. D. Quixote / Galeria 111 (lançamento a 21 fev.). 

CONVITE. 19 JAN A 2 MARÇO
Ulisses e as Sereias com Guitarra Portuguesa 1001, pastel, fundo litográfico sobre tela



desdobrável capa e folha 2. design H. Cayatte e JP

sábado, 17 de janeiro de 2026

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O NOVO MUSEU RENDEIRO: A Colecção do Estado da D. Sandra* (1 e 2)

 2. (FB: 13.01.26) Um museu ou Centro de Arte Contemporânea para a rua das Fisgas, Pedra Furada - Alcoitão / Alcabideche / Cascais?




É significativo que quem vem a público alarmar-se com a confusão da anunciada localização futura da Colecção de Arte Contemporânea do Estado (CACE é um nome muito feio) no antigo barracão da rua das Fisgas, vindo da falência do BPP (a Fundação Ellipse do banqueiro João Rendeiro), sejam dois antigos responsáveis pelo Museu do Chiado (também erradamente dito Museu Nacional de Arte Contemporânea) que tiveram depois funções, seguintes ou em acumulação, como presidente do Instituto Português de Museus, num caso, e como curador da tal Fundação Ellipse e director do Museu de Arte Moderna - Colecção Berardo, no outro, sem ele se distinguir como director de museus..
Se é insólita a informação oficial sobre a Colecção, que diz retirá-la do CCB, ao qual estava atribuída, para a instalar no labirinto de armazéns em Alcoitão, promovendo-o a uma espécie de novo museu, os dois artigos publicados no Público por Raquel Henriques da Silva e Pedro Lapa não conseguem ser esclarecedores: levantam incertezas, manifestam dúvidas e inquietações, enquanto a tutela dos museus (desde 2023 Museus e Monumentos de Portugal, EPE) se ausenta da sua suposta responsabilidade, sem orientação vocal nem legítimo protagonismo.
A ministra ainda conhece mal a casa, o sector e o meio, está "verde", pelo que surpreende a urgência em anunciar decisões mal fundamentadas. Mais Museu, menos Museu, a Arte Contemporânea goza de uma sabida incompreensão e mesmo desconfiança, rejeição. As trocas de obras e de lugares de arrumação ou reservas, as trocas de programas de museus existentes, e o anúncio de mais um, enquanto faltam recursos e "vontade política" para os que estão no terreno, não defendem a arte nem conferem segurança. Entretanto os profissionais calam-se - estão amordaçados?.
Aliás a Colecção do Estado é um equívoco desviante que se sobrepõe aos museus, esvaziando-os de autonomia e competência e verbas, comprando obras a seu bel-prazer, em geral obras definitivamente efémeras. E a respectiva direcção não inspira nenhuma confiança, o que não se tem dito em voz alta.
Aliás, ao Museu do Chiado veio sobrepor-se o Museu do CCB, sem clareza dos seus respectivos destinos, ambos ditos de Arte Contemporânea, contrariando as expectativas de ampliação que sempre se foram renovando e sempre se atraiçoam: o Convento de São Francisco não se resolve como devia, ali, naquele lugar estratégico.
Aliás, outros museus que deveriam ser fulcrais em Lisboa, o Museu Nacional de Etnologia e o Museu de Arte Popular, continuam esmagados e desertos.
O terreno está um pântano.
*Sandra Vieira Jürgens (https://sandravieirajurgens.com/)





1 (FB 11-01)


(1)
O BARRACÃO RENDEIRO, A COLECÇÃO CACE da D. SANDRA E UMA MINISTRA DESORIENTADA
Nem a Isabel Salema consegue entender as trapalhadas da Colecção do Estado (ex-Colecção SEC)... e as trapalhadas vêm dos anos 80. ENTRETANTO, os museus, os que poderiam ser e já foram grandes museus, os Museus de Etnologia e de Arte Popular continuam sem resolução à vista (o MAP envergonhado) e sem as verbas mínimas para actuar com dignidade (o MNE). Também podiam ser sucessos turísticos, mas nada se faz.
A prioridade é o barracão Rendeiro (e Pedro Gadanho) em Alcoitão/Alcabideche, a arte contemporânea tipo Ellipse/BPP e outras arbitrariedades muito caras - a ministra chegou a parecer mais orientada (nas visitas pelo país e na entrevista única no Expresso) mas parece ter sido capturada. Esta direita não se enxerga, e o PS também andou perdido: apostava em Coches e Tesouro Real... o PSD fez Serrralves, o CCB e o Museu do Chiado ).

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

JULIO POMAR e a GALERIA 111 (3) Anos 1980 e 1990

 3. JP e a 111 - ANOS 80. Depois de 1985: 1989 e 1990 (as séries brasileiras)



1988 - MASCARADOS DE PIRENÓPOLIS, expostos no Arco Madrid (Gal. 111) e na Galeria 111, Lisboa. Catálogo com texto de Manuel Castro Caldas (separata com tradução). Com a apresentação do livro "Os Desenhos do Circo de Brasília" texto de Paulo Herkenhoff ("Pomar visto do Brasil"). .
Manuel de Brito não aceitava compradores estrangeiros, como continuará a fazer, no ano seguinte com Paula Rego, alegando ter clientes interessados. Era um erro, de todos os pontos de vista, q irá justificar o afastamento da feira.

1990, 14 dez. - LOS INDIOS, Arco Madrid (Gal. 111), fevereiro (7 quadros que não estiveram à venda, cedidos pela galeria de Paris, enquanto outros 8 se encontravam no Rio de Janeiro), e LES INDIENS, Galerie Georges Lavrov, Paris, setembro. (10 quadros). Catálogos com o mesmo texto de Michel Waldberg.
Apresentação do livro "Pomar", texto de Mário Dionísio, Publ. Europa-América - é a versão portuguesa de "Pomar" com texto de Michel Waldberg, Éditions de la Différence.

As séries brasileiras estiveram na antologia “Pomar/Brasil” (org. FG: Rio, São Paulo, CAM) mas nenhuma obra podia ficar no mercado brasileiro. Tudo estava capturado pelo mercado nacional.





















Os Desenhos do Circo de Brasília, 1987, estudos para painéis de azulejo, q se seguiram às decorações murais para o Alto dos Moinhos, Metro de Lisboa, participaram em "Pomar/Brasil" e tiveram circulação no Brasil - galerias Paulo Figueiredo, Brasília, e Anna Maria Niemayer, no Rio, acompanhadas pelo referido volume com texto de Paulo Herkenhoff editado pela 111.




Entretanto, Manuel de Brito organiza duas mostras antológicas em Macau: "Pomar" 1989, Gal. do Leal Senado - catálogo com texto de Helmut Wohl; e "Júlio Pomar", com obras da sua colecção, em 1999, Centro de Arte Contemporânea com a Fundação Oriente; cat com tx de José Luís Porfírio.. É levada em 2000 à Galeria Nacional de Pequim

Outras exp em galerias: 1986 - Desenhos, Clube 50, Lisboa, "Páginas de álbum, estudos de bichos", e Gal de Arte de Vilamoura, a convite de Cruzeiro Seixas. 1987, Gal. Gilde, Guimarães.
1996, "Cinco figuras de convite", azulejo, Ratton

4. ANOS 90
Pomar não expõe na 111 na década de 1990.

Em galerias de Paris nos anos 1990-2001:
FABLES ET PORTRAITS, Galerie Gérald Piltzer, 1994, com a publicação de um livro, texto Claude-Michel Cluny.
L'ANNÉE DU COCHON OU LES MÉFAITS DU TABAC, Gal. Piltzer, 1996 (a série dedicada a Ulisses e outrostemas); com um deficiente Jornal da exposição com texto de José Cardoso Pires)
LES JOIES DE VIVRE, Galerie Gérald Piltzer, 1997 (passagem a grandes formatos durante uma grave situação de saude, um cancro; regresso ao tema do Xingu; publicado um álbum com ensaios de Marcelin Pleynet e António Lobo Antunes.
LA CHASSE AU SNARK, L'ENTRÉE DE FRIDA KHALO AU PARADIS, CONTES MORAUX, Galerie Gérald Piltzer, 1999, e Salander O'Reilly Gallerie, Nova Iorque, 2000; publicação de um álbum com texto de Marcelin Pleynet, ed Piltzer.
QUELQUES DESSINS, Galerie Flora J, 2001; com livro homónimo. (A exp entrou em itinerância em Portugal: "Alguns desenhos", Gal. Valbom 2003)
Nesses anos de voragem do mercado, e altos valores, Manuel de Brito recusa-se a comprar em França, o que incrementa a acção de intermediários, galerias Antiks, Cordeiros, Quadrado Azul, Fernando Santos, Valbom etc, e de vários dealers.

Outras exposições em galerias:
1993 Tapeçarias recentes, Gal. Tapeçarias de Portalegre;
"Caracóis", azulejos, Ratton Cerâmicas, com álbum de poemas de Pedro Tamem