Sobre os mercados institucionais
Volto à conversa com a Helena Mendes Pereira, permita que a trate assim, com admiração, sem nos conhecermos ainda pessoalmente. Sou um chato, mas acho que a Helena, com a sua apreciável ingenuidade e o acelerado voluntarismo, meteu-se em trapalhadas, enfiou o pé na argola ou pôs a pata na poça, mais coloquialmente.
Quero dizer que o artigo do DN (09 06 26 - um ensaio sobre a arte que tem, afinal, por assunto a "identidade") seria uma boa oportunidade para nos elucidar sobre o mercado da arte - o mercado não é o mal, a arte sempre existiu no mercado, ou nos mercados, a igreja, os príncipes, o poder, em suma, antes de se ter democratizado entre menos ricos com a ascensão das burguesias no séc. XIX (o povo foi sempre só consumidor, ou entra no mercado dos cromos). E hoje os museus, nacionais, locais, fundacionais, empresariais, pessoais, ou seja, as colecções institucionais ou afins, são hoje um grande mercado poderoso e influente, preponderante (seguido com devoção pela crítica e a imprensa: ...o "Y" ou o "E" viajou a convite de X). Mas note-se que o mercado dos cromos continua a ser maioritário e descontrolado - basta ver as feiras de artesanato, as galerias discretas, as decorações de hotel.
Na minha opinião, essa presença ostensiva e mesmo agressiva dos mercados institucionais, que se diz ser "política cultural", e de que a imprensa é o reflexo cúmplice, tem afastado o público amador (ou "amante", não gosto da palavra assim empregue) e os pequenos ou médios coleccionadores privados, mais compradores devotados que coleccionadores - a palavra coleccionador assusta.
A Helena (MP) - através da empresa Zet Galeria de arte e com rectaguarda ou extensão no MuZeu - presta serviços de "Consultoria para Aquisição de Obras de Arte" ("...em várias áreas da gestão cultural e artística da curadoria, dispondo de um largo histórico de projetos que podem ser consultados em 'Território'": (ver https://zetgaleria.com/pages/servicos). Há aqui um excesso de actividades que parecem incompatíveis e fazem entrar o grupo dst (MuZeu, galerias, campus, serviços, etc) numa vertente empresarial que deixa de ser escrutinável.
Mas por tudo isso a Helena está nas melhores condições para nos esclarecer sobre o que está errado na compra do varão com blusões "customizados", como diz, por quase 80 mil euros. Tanto mais que depois de Serralves também expôs a dupla Vale & Ferreira em 2025-26 e adquiriu para o MuZeu uma peça de grande formato que agora expõe (ver foto e https://zetgaleria.com/.../vale-ferreira-braga-nova-iorque).
As compras institucionais têm "regras" próprias e não se pagam valores exorbitantes, excepto se se quer prestar favores à galeria e/ou aos artistas. Em geral - até porque as obras não se disputam nos leilões, com preços públicos - aplicam-se grandes descontos (40% ou mais, ou pelo menos 50% como acontecia com o Berardo): compram-se conjuntos de obras (e o artista oferece algumas), compram-se peças de grande dimensão que não interessam a privados e que são incomportáveis nas reservas das galerias ou nos depósitos alugados - a pintura é mais fácil de arrumar, mais vendável, mais coleccionável. Compram-se fundos de exposição que uma galeria produziu e obviamente não vende, e compram-se instalações que não têm destino fora dos armazéns. É fácil localizar essas peças (obras ou tralhas) em exposições institucionais: enchem museus mais facilmente que a pintura...
E em especial, com a meta da representação no museu, desconta-se e/ou oferece-se, se não for a Colecção do Estado da Sandra Vieira Jurgens a comprar - nesse caso, é fartar vilanagem.
Eu não peço à Helena (MP) que nos diga por quanto a dst comprou o urinol "customizado", essa escatologia não-pós-duchampiana sem graça mas muito "identitária". O segredo è a alma do negócio. Nem pergunto que descontos a dupla de artistas fazia à Zet Gallery para a respectiva exposição (40%? com ou sem despesas de produção?).
Não há transparência no mercado de arte (nos leilões também não), mas a falta de critério, de razoabilidade, de seriedade mínima torna isto um poço sem fundo. As décadas de vanguardas e de anti-arte (é um conceito operativo, não uma calúnia), o fim dos grandes discursos modernistas e dos grandes críticos acreditados, a financiarização do mercado da arte e da arte em geral, a espectacularização dos museus locais e das colecções privadas, a desvalorização das competências nos mercados institucionais, etc, não auguram um destino verosímil. Os lazeres vão dispensando o consumo da arte...
&
Um artigo de opinião no DN. 09 junho
A Helena Mendes Pereira é uma força da natureza, uma mulher do norte (isto é uma amabilidade, um elogio) que dirige (Direção Geral e Curadoria) duas galerias Zet (em Braga desde 2014, em Lisboa 2025) e um museu, o MuZeu (2026), e também uma plataforma-serviço de venda de obras que "atua transversalmente no mercado de arte" além de "prestar serviços em várias áreas da gestão cultural e artística da curadoria".
É algo de diferente no "mundo da arte", sustentado pelo grupo dst e o seu patrão-modelo José Teixeira. Só podemos acompanhar com interesse.
Mas neste artigo de opinião no DN de hoje desvia-se do tema que motivou a sua intervenção (ou ignora-o intencionalmente) e não comenta as alegações que fiz sobre três compras do Estádio (fui sucinto...), onde interessava em dois casos o nível de preços pagos e outro a representatividade de obras adquiridas. Quanto à credibilidade e regras do mercado da arte nada diz, nem quanto à chamada Colecção do Estado e à sua arbitrária direcção. Questões de fundo que me motivaram - será honesto ignorá-las e escrever um manifesto 'a latere'? Acho que não, e é pena. À HMP interessa a "batalha das identidades" e vem tentar passar um atestado de qualidade à obra em causa. Não me pareceu convincente.
Trate-se dessa "batalha", a ofensiva queer, ou da luta de classes, do pós-colonialismo, da eco-sustentabilidade ou das guerras contemporâneas, importa sustentar as temáticas para além da descrição-ilustração dos activismos militantes e do enunciado adjectivado dos propósitos. São os propósitos que justificam os entusiasmos, e a apreciação (a opinião e o juízo crítico fundamentado) não ultrapassa o nível da campanha ideológica (aqui a política de costumes?). É pena. As dobras da história da arte estão cheias desses casos e os museus vão destinando às reservas o que adquirem sob a pressão dos momentos conjunturais.
+
A fazer doutrina: "Há uma geração de críticos e de atores do sistema da arte português que, não obstante gravitarem no ecossistema centralista e lisboeta (o que, neste caso, nem se aplicaria) está vinculada a um conjunto de linguagens, narrativas e formas de pensar diacrónicas que se entrelaçam muito pouco, sequer toleram, as formas de ver e pensar do século XXI. Rejeitam a construção e afirmação de outras identidades, que não são, necessaltalente, novidade, mas que desviam o foco de uma tutela das ideias feita pelos livros da História da Arte e pelos seus autores estabelecidos. E a História, como a História da Arte, para se escrever e inscrever, necessita do tempo e da distância dos dias, e nem sempre habita as urgentes e consequentes ações do presente." Perguntas:
1. existe uma geração de críticos e actores do sistema (uma só geração?) vinculada a linguagens 'diacrónicas' que gravitam no ecossistema? Ou já estão fora de um ecossistema (institucional) dominante focado nas identidades de género, nas marcas coloniais, etc? A frase tem endereço? 'Diacrónicas' é um termo acertado? Quer dizer históricas? É o mesmo que antiquadas?
2. Os críticos em exercício e com tribunas públicas rejeitam alguma coisa e em especial rejeitam as "outras identidades", ou de facto seguem diligentes as tendências, actualidades e modas (e já não vanguardas, que não há)?
3. De um lado está o "conjunto de linguagens, narrativas e formas de pensar diacrónicas" e do outro as "identidades" a construir e afirmar? São as "identidades" versus "linguagens, narrativas e formas"?
4. Há autores estabelecidos que tutelam as ideias? Mas quem tutela as instituições e as colecções institucionais não são autores institucionalmente estabelecidos?
5. De um lado estão "as urgentes e consequentes ações do presente", do outro "o tempo e a distância dos dias" que a "História da Arte, para se escrever e inscrever, necessita"? Valha-nos Zygmunt Bauman e o seu "campo de batalha".
Faz-se guerrilha em Braga?
+
E ainda:
1. a dupla Vale & Ferreira apresentou uma grande exposição na Casa de Serralves. Um semanário (ou um crítico de um semanário) considerou que era a melhor exposição de 2025.
2. A galeria Cristina Guerra vendeu à Colecção do Estado por cerca de 80 mil euros a obra mais publicitada da exp. de Serralves, uma verba que alguns consideram desproporcionada. Eu também e trouxe o assunto às "redes".
3. A Zet Galery apresentou uma exp. individual da dupla Vale & Ferreira em 2025-26 e adquiriu pelo menos uma obra de grande dimensão - um urinol neo-pós-duchampiano "costumizado" - que está exposto no MuZeu.
4. A galeria Cristina Guerra apresenta agora uma outra exp da dupla Vale & Ferreira que consiste em balcões de bares que são periodicamente animados por cenas performativas.
5. A guerrilha da "identidade" (de género?) está bem instalada no terreno institucional e no mercado e na crítica (na imprensa) que resta, ocupa-os; não é uma franja social ignorada, não é uma vanguarda hostilizada, mas faz-se passar por isso e faz da queixa uma estratégia - para "capitalizar, neste caso.



Também opinou o Pedro Adão e Silva no Público, a dar cobertura aos 80 mil: O cronista que esteve ministro foge da questão dos preços, que me importou, e refugia-se numa história de saias, salvo seja.
ResponderEliminar