terça-feira, 28 de julho de 2026

2026, Alice Neel, histórias e silêncios americanos (3)

 Quem foi Alice Neel? Como se faz a história contemporânea? Como procede a crítica? Quem expôs, referiu ou analisou a Alice Neel nas últimas décadas? Como se ignorou ALICE NEEL até ao séc. XXI?



1. Robert Hughes, um dos grandes críticos norte-americanos, 1997, no índice passa de Nauman, Bruce para Neagle, John.
2. "Art since 1945", 2000, de Nauman, Bruce para Neo-expressionism.
3. "Walker Evans & Company", Peter Galassi, MoMA 2000, de Wright Morris para Nicholas Nixon (e a Grande Depressão e o Retrato são tópicos do volume)
4. "The American Century, art & culture 1950-2000", Lisa Phillips, Whitney Museum 1999.

"...raw depictions of human vulnerability and intensity" p. 46;
"Pull My Daisy" p.68; "
"... they embraced subject matter and psychological content"...
"Several older artists, among them Guston, Neel, Pearlstein, Twombly... Neel, who had been at work since the thirties, was valued for her frank and confrontational portraits of strong-willied characters depicted against blank groans. Both (Guston and Neel) used rough, somewhat crude and expressionist methods in their emotionally charged works -- the paint announced itself as material even in the service of subject matter. Both embraced the subjective and emotional and helped pave the way for the reintroduction of recognizable subject matter in painting." p. 260; rep. John Perrault 1972, Col. Whitney.
5. "Art in the Seventies", Edward Lucie-Smith, 1980.
"Erotic Feminist", rep. John Perrault 1972. "Political Art- feminist", rep. Andy Warhol" 1970, Col. Whitney. Refere retrospectiva em 1975 no Georgia Museum of Art, Athens, Georgia.
6. "Modern Art Despite Modernism", Robert Storr, MoMA 2000. ignorada no capítulo "Depression Era Realism & the American Scene". De Nadelman, Elie passa o índice para Noguchi, Isamu (e Jim Nutt, Guston "Postmodernism"...)
Storr virá a participar no filme de Andrew Neel e a publicar no catálogo "Alice Neel: The Cycle of Life", Victoria Miro 2017.

7. "Making Choices", Galassi, Storr, Anne Umland, MoMA 2000. De Munkacsi,Martin a Nelson, George... <vê-se que o MoMA foi o museu sempre + sectário: ver números 3, 6 e 7>

COMO SE RECONSTROI A HISTÓRIA e a arte viva?

&

À procura da Alice Neel nas estantes. E só está num dos quatro livros.
1. Não está no primeiro, de 1995, que foi uma grande montra de um século de "Figuras do corpo" na edição da Bienal de Veneza comissariada por Jean Clair, no respectivo centenário. (ver artigo no comentário). O turning-point do "regresso do corpo" era Baselitz e Guston, numa opção mais mediática)…




1. Bienal de Veneza de 1995 exposição do Centenário comissariada por Jean Clair e um imenso catálogo:" Identidade e Alteridade - Figuras do corpo 1895-1995". 
O auto-retrato e o corpo nu (sexuado, doente, morto) são tópicos destacados, incluindo os capítulos "O regresso do corpo 1962-1985" e "O corpo real e virtual 1985-1995". O "turning Point", em 1962-1973, é marcado por Baselitz e Guston, a que se segue o capitulo "Human Clay, o barro humano: a exp organizada por Kitaj em 1976 incluiu Arikha, Freud, o próprio Kitaj, António Lopez, e aparece também Chuck Close (mas não há pops e hiper-realistas). Clemente está adiante, é o único dos "regressos à pintura" dos anos 80. O subcapítulo "Arts amandi" conta com Georgia O'Keeffe. O nigeriano Ousmane Sow é a única presença de um artista do Terceiro Mundo. A fotografia feita por mulheres aparece com bastante força: Diane Arbus, Nancy Burson, etc, num capítulo "real-virtual" confuso, com a sul-africana Jane Alexander, que dominava o topo do Palácio Grassi, e Mona Hatoum. 
Estão Marlene Dumas e Maria Lassnig de passagem, e antes os rostos de Helene Schjerfbeck (Finlândia, 1862-1946), mais Chantal Wiki (auto-retratos obsessivos - Zurique n.1963), mas não se marca qualquer entendimento de mudança com as obras de algumas mulheres que são decisivas, ignoradas ou não: é que Paula Modersohn-Becker, Frida Kahlo e Alice Neel não comparecem na exp. de Veneza. As mulheres presentes fazem só parte da cronologia, não sustentam um foco próprio; J.C. não quis compilar um hit-parade mas fazer a crítica do sistema das vanguardas e de algumas ideias feitas, segundo escreve. Depois de ter sido um crítico vanguardista (revista "Art d'Aujourd'hui"), foi autor de grandes exposições, incluindo Duchamp a abrir o Pompidou, tornou-se conservador e reaccionário, às vezes um idiossincrático insuportável.

A CONTINUAR



  • terça-feira, 21 de julho de 2026

    2026, Isabel Sabino, "NADA", em Loures: uma conversa

     Isabel Sabino, "Do, don't", 2026, tríptico 81x270cm, técnica mista de tintas acrílicas sobre tela.



    1. (dia 18)
    Apetece dizer que é a exposição de uma jovem artista, embora se trate de uma professora catedrática aposentada da FBAUL, com uma já longa carreira que se pode considerar discreta, por se fazer fora das habituais e totalitárias escolhas institucionais.
    Poderia falar de "imaturidade" no sentido que Witold Gombrowicz elogiava no seu romance "Ferdydurke", mas é mais fácil falar da frescura, agilidade e experiência/experimentação, ou vitalidade como que espontânea desta pintura nova com que a Isabel Sabino prossegue os seus caminhos. O contrário de uma obra estabilizada em processos, onde há invenção e surpresa tanto na maneira de fazer pintura como nas pistas descritivas e ficcionais que se oferecem.
    A exposição intitula-se "Nada", o que inclui vários sentidos que se descobrem em andamento e em especial numa sala negra onde a luz é intermitente e os desenhos se apagam e se lêem numa escrita luminescente.
    Há por aqui rios e mares de pintura por onde nadamos. Há paisagens, onde a natureza nos atrai pelos seus caminhos e que por vezes parece convulsiva, ameaçadora. De início não considerei que ao pintar o estado do mundo aqui se inclui também a reflexão sobre o seu fim anunciado, a representação da catástrofe possível.

    Está até 4 de outubro em Loures, na Galeria Municipal Vieira da Silva, Parque da Cidade de Loures ou Parque Adão Barata (ver o cartaz abaixo)

    segunda-feira, 20 de julho de 2026

    1995, A bienal de Veneza de Jean Clair, "Identidade e Alteridade": Corpo a corpo

    "Corpo a corpo" 

    O 2ºartigo sobre a 46ª Bienal de Veneza de 1995, a exposição central, 

    IDENTITY AND ALTERIY - FIGURES OF THE BODY 1895/1995, comissariada por Jean Clair.


    EXPRESSO/Revista 24 -06 - 95

    Com a aproximação do fim da década, vão multiplicar-se os projectos retrospectivos sobre a arte do século XX. Mas, se o centenário da Bienal oferecia a Jean Clair a oportunidade de uma primeira revisão da história da modernidade, o polémico director do Museu Picasso não ficou subjugado pelas regras dos inventários de obras-primas.
    «Identidade e alteridade — Imagens do Corpo, 1895-1995» não é nem pretende ser uma síntese de toda a arte do século, embora tenha conseguido reunir em Veneza, graças ao prestígio do seu autor, um acervo irrepetível de 600 obras vindas de todo o mundo, do MoMA de Nova Iorque ao Ermitage de Moscovo, a qual ficará como um incontornável ponto de referência.



    domingo, 19 de julho de 2026

    Marlene Dumas sobre Alice Neel, em 2010 (2)

     "Alice Doesn’t Live Here Anymore"

    Marlene Dumas on Alice Neel

    When Alice Neel started to become better known in America in the early 1970’s, I was an art student in South Africa. By that time, in my existential search for the human face and figure, I knew the work of Bacon and Hockney and looked at the photographs of Diana Arbus and the silk screens of Andy Warhol, but no-one showed me Alice Neel. However, when I did  finally stumble on a reproduction of her work somewhere, it immediately stuck. Strangely, when I got to Holland in the late 70’s, no one there knew about her either.

    I never met Alice Neel in person. It was not because she was a woman or had a difficult life that I fell for her. It was not because of her witty writings that I was attracted to her work. I only discovered that to my surprise, much later on.

     

    Andy Warhol 1970     / Marlene Dumas The Painter 1994: https://www.moma.org/collection/works/101473

    sábado, 18 de julho de 2026

    A pintura das mulheres desde Paula Modersohn-Becker, desde Alice Neel... (1)

     A pintura de mulheres é realmente diferente: mais íntima, mais 'directa' e vivida, menos programada e ideológica.

    Escrevi isto por cauda da Menez na antiga 111 (CAMB) e da expectativa da Alice Neel em Serralves.

    Fui-me lembrando da Paula Modersohn-Becker - uma ‘pioneira’, 1876-1907, vista no MAM Paris em 2016 - , da Frida Kahlo, Suzanne Valadon,  Miriam Cahn, Chantal Joffe, Nathanaële Herbelin (vista no Museu d'Orsay em 2024), Paula Rego, Graça Morais, e a Marlene Dumas, que está agora por toda a parte.

    E passaram por cá (EDP) a Miriam Cahn em 2025: "O que nos olha" - depois do Reina Sofia em 2019: "everything is equally important" - e a Maria Lassnig (Fundação Arpad e Vieira em 2018). Mas trazem-nos fósseis como a Maiolino (EDP) e a Holzer (Serralves), e não sei da Barba no CAM... Mas está a Menez no CAMB/Campo Grande e a Graça Morais em Algés, até 16 agosto.

    Quem ficou incomodado com o q escrevi acima abriu os sites das pintoras que referenciei? Se é q não as viu “ao vivo”? Parece-me que não é tanto o preconceito como a recusa de ver pintura. Não se trata de pintura feminina ou feminista (mas pode ser), trata-se de pintura diferente e, hoje, melhor. Em alguns casos são obras que foram por vezes longamente ocultadas nas histórias do academismo moderno, em especial Alice Neel.

    ASL: acho muito bem que defendas a arte, a pintura feita por mulheres . e é verdade mas não se aplica só ás mulheres mas todas as minorias. A pintura feita pelas minorais, mulheres, gays, outsiders, os ditos doentes mentais, africanos tem todas as qualidades que referes. a questão não se resume a um género mas uma sensibilidade criada a partir da exclusão

    Tens razão. Não referi acima a qualidade da pintura enquanto pintura (no que tem de descritivo, ou de indizível, de construção formal, de processo), mas só algumas características ou qualidades que de facto se encontram também nos outsiders. Não tem a ver com minorias e com a exclusão, quando existe, que não é geral: os casos de reconhecimento e sucesso são muitos. Mas sim, a consciência da exclusão e da desigualdade pode ser estimulante. 

    Trata-se de ganhar espaço para o questionamento e a representação da vida pessoal, em que o retrato e o auto-retrato têm papel decisivo, não como género ou disciplina tradicional (convencional) mas como comunicação e afirmação, subjectividade e intersubjectividade. A auto-representação íntima, a exposição pessoal, que vai muitas vezes até ao auto-retrato nu, não me parece ter paralelo na pintura de homens, pelo menos como prática insistente ou sistemática. A afirmação física do corpo e o erotismo explícito são marcas importantes. Desde a Paula Modersohn-Beker, a Frida Kahlo e por aí fora. Também o retrato se afirma como cumplicidade, intimidade, e identidade social - em Alice Neel. Não há relatos íntimos e familiares como os da Chantal Joffe e a Nathanaelle Herbelin. E Marlene Dumas é um caso mais vasto, como um/uma dos maiores pintores do presente.

     Tens nos autoretratos e cenas da vida intima dos outsiders e gays, o eakins, o bacon, o Cadmus, o munch, o Ensor, o schielle. Nunca mais acabam. Os do Hockney e do Freud.e tantos mais.

    sim, mas nesses não são o foco principal da respectiva prática da pintura. Não têm o sentido da afirmação íntima e se quiseres identitaria. E refiro o presente, mesmo se com “pioneiras” ( a Paula M-B, a Frida, a Suzanne Valadon etc). Não digo que foram os/as melhores pintores da segunda metade do séc XX, mas hoje, no presente e em actividade, são os /as q mais me interesssam. Ao lado de um Robert Colescott, de um Kerry Marshall, dois afro-americanos.

    A: Bacon e Freud relacionam-se com os confrontos entre realismos e abstraccionismos dos anos 50 em Inglaterra; Bacon trata da impossibilidade da figuração e da narração, Freud da possibilidade do realismo. 
  • 1: Existirá uma técnica ou estilo intrinsecamente "masculino" ou "feminino"? Mas há uma arte feminista que surgiu no século passado como movimento para reinvindicar o papel das mulheres no mercado da arte e combater o apagamento das artistas mulheres.

    A. Discordo: não é questão de técnica ou estilo (livrem-me dos estilos). São à margem dos estilos…. E das “vanguardas”. E não se trata de um “movimento para…” são casos sempre diferentes, com percursos diversos, mas pessoais, livres, íntimos, vividos e vívidos, irreverentes etc

    1: desculpa mas não percebo. Cada mulher é um caso diferente? E depois? Um não estilo mas sempre individual e irreverente? Enfim...o que tu quiseres.

    A: sim, cada grande mulher pintora é um caso diferente e individual. A história da arte moderna e contemporânea é cada vez mais uma história de individualidades (não de nomes mas de obras, de carreiras), irredutíveis a estilos colectivos. Os artistas podem ter lançado ou adoptado um estilo no início da carreira, depois (se têm carreira….) libertam-se, tornam-se singulares. Vê por cá a Paula, a Menez, a Graça. Vê o Vallotton e o Bonnard…. E o Picasso. A má crítica segue rótulos, estilos, movimentos, porque não saber ver nem escolher.  

    A história das individualidades, das obras singulares e independentes, é a grande questão do presente. Mas o mercado institucional foge disso, não tem meios e vive de fósseis, sobras, notas de roda-pé…. 

    1: não me quero alongar nesta discussão, mas a historiografia moderna utiliza a tensão dialéctica entre o coletivo e o individual. O movimento/ estilo serve como o plano de fundo (o idioma da época), enquanto a individualidade representa a voz única que "deforma", expande ou subverte esse mesmo idioma. Ambas as dimensões completam-se sem se excluirem. Não digo mais nada.

    A: não digas, mas repensa o que dizes. "historiografia moderna" o que é? Volto a dizer: a história das individualidades, das obras singulares e independentes, é a grande questão do presente. As "escolas", os estilos, as vanguardas passaram à história e esta está a refazer-se rápidamente, desocultando o que a "historiografia moderna" escondeu, menosprezou, ignorou. Estamos a assistir a uma grande reviravolta (não digo revolução, porque o termo faz mal). Por isso... o Vallotton, a Alice Neel... tantos que não cabiam num estilo ou no "idioma da época"

    1: Sempre foi assim só que agora está tudo mais "acordado" para qualquer coisa de novo, mas que de facto é muito antigo, que é o regresso à vida dos artistas. Claro que falo em historiografia moderna e contemporânea. Gombrich falava em artistas "plural singular" ao mesmo tempo que desqualificava a ideia de arte. Mas lembro-te que Giorgio Vasari foi também o pioneiro absoluto dessa abordagem individual. Com a sua obra monumental "Le Vite de più eccellenti pittores, scultori, e architettori"(publicada pela primeira vez em 1550), ele fundou a própria disciplina da História da Arte através da biografia das individualidades artísticas.

    A. Houve sempre regressos à vida (o Vermeer, o La Tour, por exemplo), mas o q está em causa agora é deslocar a atenção dos estilos colectivos, movimentos, correntes, rupturas e vanguardas para o que há de próprio, pessoal, livre e independente, autoral, em carreiras que se constroem em continuidades no tempo para além do “idioma da época”, como dizes. Já não há movimentos, depois dos pops, fluxus, arte povera, minimal-conceptualismo, etc. Já não há manifestos nem vanguardas, nem políticas nem artísticas. Há por vezes modas como noutros espaços do consumo e do gosto, porque o consumismo artístico é um grande mercado. 

    Trata-se de ver , de aprender a ver antes de falar, de saber ver em vez de aplicar etiquetas e rótulos, pratica q entre nós teve expressão maior com os irmãos Gonçalves. Trata-se de virar do avesso a “historiografia moderna” do bando da revista Octobe


    2. Não generalizemos, não generalizemos… São sempre juízos algo redutores…

    A. não generalizo, obviamente. Escrevi “de mulheres” porque são algumas. São juízos redutores quanto a Alice Neel, Chantal Joffe, Menez e por aí fora? Estás a ver bem?

    2. sim, se é esse o ponto e esses exemplos.

    3. Tirando algumas religiosas pintoras destacou-se no panorama feminino português Josefa de Óbidos e Joana do Salitre até ao séc. XVIII. No séc.XIX começaram a surgir vários nomes. Mas alguma foi disruptiva? Alguma se afastou das correntes e foi vanguarda?
    A. A situação foi mudando no séc. XX, com o fim das "escolas" e das vanguardas. É uma situação nova que permite rever a história passada.

    A AI 'dixit':
    Pioneiras (Séculos XVII e XVIII)Josefa de Óbidos: 1630 – 1684
    Joana do Salitre: c. 1690 – 1761
    Transição e Pré-Vanguarda (Século XIX)
    Maria Augusta Bordalo Pinheiro: 1841 – 1915
    Fanny Munró: 1846 – 1926
    Aurélia de Sousa: 1866 – 1922 (A figura disruptiva de transição)
    Vanguardas e Modernismo (Século XX)
    Mily Possoz: 1888 – 1967
    Sarah Afonso: 1899 – 1983
    Maria Helena Vieira da Silva: 1908 – 1992

    Não se trata de fazer uma lista de mulheres pintoras, nem de tentar identificar um canon feminino. Nem as condições sociais e culturais de épocas anteriores estimulavam a permitiam a afirmação feminina, deliberadamente feminina (± feminista em alguns casos): Mily e Sarah. A Vieira acompanha e avança dentro de estilos do seu tempo. Já a Aurélia poderá ser uma 'pré-pioneira' em obras isoladas.