domingo, 28 de agosto de 2016

Fernando Guedes

 O crítico de arte Fernando juedes

Editor, poeta, amigo e cúmplice de Fernando Lanhas desde os anos 40, Fernando Guedes (n. Porto, 1929 - 2016) foi também crítico de arte, e nesse papel assumiu uma importância que tem sido pouco reconhecida por razões ideológicas e em especial pelo inquistamento de posições dominantes neste meio.

Entre outras publicações, F.G. reuniu colaborações dispersas em "Pintura, Pintores, etc", ed. Panorama - SNI, 1952 (actividade e livro que mereceu menos do que uma menção de J. A. França na sua história do séc. XX - a oposição entre os dois permite situar uma linha de omissões e incorrecções da historiografia portuguesa). Depois, "Estudos sobre Artes Plásticas - Os anos 40 em Portugal e outros estudos", INCM, 1985, é uma justa resposta à exposição sobre os Anos 40 organizada sob a tutela do mesmo J.A.França na Fund. Gulbenkian. Em especial, o seu testemunho analítico é essencial para acompanhar a intervenção do grupo dos Independentes do Porto, activos de 1943 a 1950, e onde se integram os inícios das carreiras de Júlio Resende, Fernando Lanhas (o principal animador), Nadir Afonso, Júlio Pomar, Arlindo Rocha, Victor Palla e outros. E também, por consequência, os inícios da abstracção, no Porto, depois atrasada para 1952, em Lisboa, entre outros efeitos.

Escreveu textos de crítica e divulgação nas revistas Graal, Tempo Presente, Rumo e Panorama, e nos jornais Diário Ilustrado (nº 1 em 1956, vespertino de qualidade impresso na gráfica do Diário da Manhã, orgão oficial do regime), Diário de Notícias e Diário da Manhã, o que o situa desde logo como um autor da direita ideológica, mas que no seu caso não diminui a qualidade da observação crítica. Foi um crítico atento e isento, particularmente interessado no abstraccionismo (ver a "Tábua cronológica da pintura abstracta em Portugal", de 1952), escreveu também alguma coisa sobre arte infantil e apresentou no pós-guerra artistas ingleses como Wyndham Lewis, Paul Nash, Henry Moore e Sutherland

 Tive há tempos a indicação de que Fernando Guedes organizou (ou foi só um dos participantes?) uma intervenção provocadora que ocorreu em 1960 contra a estreia no Teatro Capitólio, em Lisboa, da peça "A Alma Boa de Setsuan", de Bertold Brecht, apresentada pela Companhia de Maria della Costa, visando a sua interdição. O episódio motivaria algumas rupturas pessoais definitivas no meio ligado às artes. (Se não corresponde à realidade, desminta-se agora.) <Jorge Silva Melo já veio dizer que sempre ouviu "falar de Manuel Múrias como o organizador dos "eventos" anti-brecht-della costa; mas também de Goulart Nogueira">

Em termos pessoais, cabe referir a gentileza de me ter enviado, nos anos 90, fotocópias de todos os catálogos dos Independentes e alguns outros da época, num gesto raro de colaboração e reconhecimento mútuo.

(capas da ed. cartonada e corrente)




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terça-feira, 28 de junho de 2016

Moçambique depois de 1981

CRONOLOGIA

1981 - «Moçambique, a Terra e os Homens», 1º Salão Nacional de Arte Fotográfica, Maputo (Concelho Municipal, 3 Fev.), na origem da Associação Moçambicana de Fotografia - AMF - por empenho de Samora Machel, no contexto da guerra civil (1976 - 1992). Moçambique, a Terra e os Homens, ed. AMF, 1982, Maputo, printed Edicomp, Roma,1984.; Introdução de José Luís Cabaço, ministro da Informação - port., fr, ing, it. Com Ricardo Rangel (capa), Kok Nam, Carlos Alberto (Vieira), Daniel Maquinasse, Danilo Guimarães, João Manuel Costa (Funcho), Jorge Almeida, José Soares, Luis Bernardo Honwana, Luis Souto, Martinho Fernando, Moira Forjaz, Naita Ussene, entre 41 autores.

1981 - Rogério, Momentos, exposição na Fundação C. Gulbenkian, Junho / Julho, Lisboa. Catálogo com textos do autor.

1983 - Moira Forjaz, Muipiti, Ilha de Moçambique, textos de Amélia Muge, Luís Filipe Pereira e da autora, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, por ocasião da visita de Samora Machel a Portugal. Moira Forjaz & Susan Maiselas (photographs by), text by Albie Sachs, Images of a revolution: mural art in Mozambique, Harare, 1983  / Imagens de uma Revolução, ed. Frelimo - 4º Congresso 1984 (imp. Minerva Central). Ruth First (pictures by Moira Forjaz), Black Gold: The Mozambican Miner, Proletarian and Peasant, St. Martin's Press, New York - Harvester Press, Brighton.

1983 Criação do Centro de Formação Fotográfica (CFF), Maputo, com apoio da cooperação italiana.  A partir de 2001, Centro de Documentação e Formação (CDFF). Direcção de Ricardo Rangel até 2009. 

1990 - Karingana ua Karingana, Il Mozambico contemporaneo visto dai suoi fotografi, a cura di Gin Angri, introduzione di Mia Couto. Ed. Coop, Associazione Nazionale Cooperative di Consumatori, Milano. Ed. bilingue, it. & port, textos de Mia Couto e Gin Angri (Catalogo della Mostra, Palazzo d'Accursio, Bologna). Com Ricardo Rangel, Kok Nam, Alfredo Mueche, Alfredo Paco, Fernando Martinho, Joel Chiziane, Jorge Almeida, José Cabral (capa), Luís Souto, Naita Ussene, Rui Assubuji, Sérgio Santimano. fotógrafos do Instituto de Comunicação Social (ICS), da Agência de Informação Moçambicana (AIM), da cooperativa fotográfica Alpha e também dos professores e ex-alunos do Centro de Formação Fotográfica,.
A guerra civil, a reconstrução o país

1992 - Uma vida a reportar a vida, pref. de Leite de Vasconcelos, ed. ENACOMO, Empresa Nacional do Comércio, Maputo. Com R. Rangel, K. Nam, J. Cabral, N. Ussene, Martinho Fernando…

1993  - Moçambique, Cinco Olhares: António Valente, Joel Chiziane, José Cabral, Kok Nam, Naita Ussene, produção CIDAC, exp. no Forum Picoas, Lisboa , 23 Abril – 2 Maio. Cat. com texto de Mia Couto.

1993 - Africa, Africa, editors Olaf Gerlach Hansen and Vibeke Rosttup Bøyesen, ed. Images of Africa, Denmark, 80 pág. "Is the first joint presentation of so many African photographers". De Moçambique: José Cabral, Martinho Fernando, Naita Ussene. 

1994 - Ricardo Rangel, Fotógrafo de Moçambique / Photographe du Mozambique, Coédition Editions Findakly, Paris/Centre Culturel Franco-Mozambicain, Maputo. français/portugais. tx de Zé Craveirinha, Mia Couto. Retrato por Rogério.

1994 - Revue Noire, nº 15, «Moçambique / Photographies», dir. Jean Loup Pivin, Paris, déc. 94 – jan. fev. 95. Moçambique: textos de Simon Njami, Aida Gomes da Silva, etc. Fotografias de Ale Júnior (capa), Alfredo Paco, José Cabral, Kok Nam, Naita Ussene, Rui Assubuji, Sérgio Santimano. 2. In "Une nouvelle photographie», Jean Loup Pivin. Com Rangel, Ale Junior, Assubuji. Santimano.

1994 - Rencontres de la Photographie Africaine de Bamako, Mali, org. Fondation Afrique en Créations, 5 - 11 Déc. Ricardo Rangel apresentado por «Revue Noire» ("Notre pain de chaque jour, les nuits de la Rue Araújo", 1960)

1996 -  In/sight. African Photographers, 1940 to the Present, dir. Enwezor Okwui, Guggenheim Museum, Nova Iorque, itinerante. Com Ricardo Rangel («Our Nightly Bread»).

1996 - Língua Franca, 16ºs Encontros de Fotografia de Coimbra, exp. colectiva e cat. c/ apresentação de M.C. Serén (edições em 1996 e 1998). Com Sérgio Santimano («Luisa Macuácua», 1992-95). 

1996 - 2es Rencontres de la Photographie Africaine de Bamako, Mali, org. Afrique en Creations. 9-15 Dezembro. Ricardo Rangel in «Regards Croisées» com Yves Pitchen, John Liebenberg, Pierrot Men); «Collectif Mozambique» (?) na secção Photo-reportage.

1997 - Maputo - Desenrascar a vida - Fotografias, Selecção, organização e textos de Nelson Saúte. Ed. Ndjira / Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. Tipografia Lousanense. Lisboa. Cronologia elaborada por António Sopa (1500-1976). Fotos Centro de Formação Fotográfica, de Rangel, José Cabral, Rui Assubuji, Martinho Fernando, Naita Ussene, Alfredo Mueche, Carlos Cardoso, Gin Angri, Lise Lotte, etc 

1998 - L’Afrique par Elle-même, Maison Européenne de la Photographie, Paris, Juin-Aout (it. São Paulo,  Cape Town, Berlin, Londres: Africa by Africa: A Photographic View, 1999; Smithsonian, Washington, Nova Iorque; Anthologie de la Photographie Africaine et de l'Océan Indien, sous la direction de Pascal Martin Saint Leon, N'Goné Fall, Jean Loup Pivin. Éditions Revue Noir, Paris. Editions française, anglaise et portugaise (Brasil).

1998 - 3e Rencontres de la Photographie Africaine, Bamako: «Ja Taa» / "Prendre Image", cat. ed. Actes Sud. Sergio Santimano, «Cabo Delgado - Une histoire photographique de l’Afrique». »L'Afrique par elle-même" (extraits).

1998 - José Henriques e Silva, Pescadores Macua, Baía de Nacala, Moçambique, 1957-1973, Exp. Arquivo Fotográfico de Lisboa; ed. Câmara Municipal de Lisboa e Comissão dos Descobrimentos, Lisboa.

2001 - IVs Rencontres de la Photographie Africaine, Bamako: R. Rangel (expo. monographique); R. Assubuji, Luis Basto, S. Santimano, «Memoires intimes d’un nouveau millénaire» (expo. internationale).

2002 - Iluminando Vidas - Ricardo Rangel and Mozambican Photography / …e a Fotografia Moçambicana, dir. Bruno Z’Graggen e Grant Lee Neuenburg. Exp. Biene, Suíça; AMF, Maputo e Bamako, 2003; Culturgest, Porto, 2004; Joannesburg e Cape Town (Iluminando Vidas .Fotografia Moçambicana 1950-2001. Ricardo Rangel & the Next Generation), 2005.  Cat. ed. Christoph Merian Verlag, 2002,  two versions: English/Portuguese (softcover) / German/French . Tx. B. Z’Graggen, Allen Porter, Simon Njami,  António Sopa, Calane da Silva. Com Rangel, K. Nam, Joel Chiziane, João Costa (Funcho), R. Assubuji, A. Paco, Luís Basto, N. Ussene, Alfredo Muache, M. Fernando, Ferhat Vali Momade, Albino Mahumana, J. Cabral, Alexandre Fenías, S. Santinano.

2002 - PhotoFesta, Primeiros Encontros Internacionais de Fotografia, prod. AMF, comissários Rui Assubuji e Sérgio Santimano. Homenagem a Daniel Maquinasse; exp. Rogério («Verdade»), Sebastião Langa, Luís Abelard; Bamako 2001, etc. / PhotoFesta 2004, IIºs Encontros: Kok Nam («Grande angular da amizade»); João Costa («Cheiro a Independência»); colect. CFF - «Modos de Ver»; colectiva «Saudade de l’Espoir» (Ilha da Reunião, 2003) / PhotoFesta 2006 IIIºs Encontros: José Cabral («As linhas da minha mão»); S. Santimano («Terra Incógnita»); Mauro Pinto e Albino Mahumana («Ver Matola»)

2003 - Vs Rencontres de la Photographie Africaine, Bamako. Moçambique: «Iluminando Vidas»; Rui Soeiro (exp. international - «Rites sacrés / Rites profanes»); Mauro Pinto, «Ports d’Afrique»

2004 - Africa Remix, Contemporary art of a continent, dir. Simon Njami, Dusseldorf; Hayward Gallery, London;  Centre Pompidou, Paris, 2005; Tokyo, Stockholm, 2006; Johannesburg, 2007. Exp. col. e cat. Com R. Assubuji, Luís Basto, S. Santimano.

2005 - VIs Rencontres de la Photographie Africaine, Bamako, "Un autre monde»: Moçambique: Abilio Macuvele, Acamo Maquinasse, Rui Assubuji, Tomas Cumbana.

2006 - Snap Judgments: New Positions in Contemporary African Photography, dir. Enwezor Okwui, ICP International Center of Photograpy, Nova Iorque; Miami; Stedlijk Museum, Amsterdão, 2088: Luís Basto.

2006 - Sérgio Santimano, Terra Incógnita (Niassa), M'siro (ed. do autor), Uppsala, Suécia / VII Rencontres de la Photographie Africaine, Bamako, 2007.

2006 - «Réplica e Rebeldia, Artistas de Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique», dir. António Pinto Ribeiro, prod. Instituto Camões. Maputo, Luanda, Salvador da Baí­a, Rio de Janeiro, Brasí­lia e Praia. Com R. Rangel, Alexandre Santos, L. Basto, T. Cumbana, Mauro Pinto. Cat. Port.-Ing.

2010 - «Ocupações Temporárias», prod. Elisa Santos, Maputo: com Mauro Pinto (e Filipe Branquinho, documentação), catálogo em DVD; 2011, com Filipe Branquinho e Camila de Sousa; 2013 «Ocupações Temporárias – Documentos», Fund. Gulbenkian, Lisboa. Coord. Elisa Santos e António Pinto Ribeiro. Camila de Sousa, F. Branquinho, Mauro Pinto.

2011 - IXs Rencontres de la Photographie Africaine, Bamako. Expo. Pan-Africaine. Mário Macilau (The Zionists / Maziones).

2011 - BES PHOTO, CCB - Museu Berardo, Lisboa, e Pinacoteca, S. Paulo, Mário Macilau; 2012, idem, Mauro Pinto, «Dá licença!» (premiado);  2013, Lisboa e  Instituto Tomie Ohtake, S. Paulo, Filipe Branquinho, «Showtime»; 2016, Novo Banco Photo 2016, Lisboa: Félix Mula, «Idas e Voltas».

2011 - Mauro Pinto, Influx Contemporary Gallery, «Maputo - Luanda - Lubumbashi» / Gal. Bozart, Lisboa / Gal. 111, Lisboa 2014.

2012 - Mário Macilau, Gal. Influx Contemporary, Lisboa, «Taking Place» / Gal Belo-Galsterer, Lisboa «Tempo», 2013 / Galeria Belo-Galsterer «Moments of Transition», 2014

2013 Filipe Branquinho, «Occupations, portfolio, Revue Caméra, dir. Brigitte Ollier, nº 2, Avril-Juin, Paris / Galeries Photo FNAC Montparnasse, Paris / Galeria Bozart, Lisboa / Regarde-moi, Photoquai, exp. col., Musée du Quai Branly, Paris / Jack Bell Gallery, Londres «Showtime».

2013 Present Tense, Photography from Southern Africa, exp. col. e cat. port., tx fr., ing.; org. António Pinto Ribeiro, «Próximo Futuro», Fund. Gulbenkian, Lisboa, Porto e Paris. Mauro Pinto e Filipe Branquinho («Chapa 100»)

2013 - De Maputo, José Cabral e Luís Basto, com homenagens a Moira Forjaz e Rogério. Org. Alexandre Pomar, A Pequena Galeria, Lisboa. 

2015 - Filipe Branquinho, Paisagens Interiores / Interior Lanscapes, org. Alexandra Pinho, Instituto Camões, Maputo / Gal. Av. da Índia, EGEAC, Lisboa, 2016. Exp. e Cat. / Rencontres de Bamako, Expo. Pan-Africaine «Telling Time», 2015, exp. col.
















segunda-feira, 27 de junho de 2016

Fotografia em Moçambique, história antiga

O que faz a importância excepcional da fotografia de Moçambique, se valorizarmos não a actual concorrência internacional no mercado dos festivais e instituições mas a continuidade e pluralidade criativa de várias gerações de fotógrafos? De facto, essa continuidade - pouco sustentada externamente, embora divulgada - só parece ter paralelo na fotografia da África do Sul, que obviamente está um patamar acima, porque é um imenso país com uma imensa história. Como se devem ponderar as variáveis que fazem a diferença da fotografia de Moçambique? Atravessam-na duas marcas constantes, a insistência no documentário social, renovando os seus caminhos, e a recusa (ou incapacidade) do exotismo, que ocupa muito do panorama africano e africanista.
A fotografia moderna de Moçambique começou pela década de 60 com dois fotojornalistas mestiços de longas carreiras, ambas iniciadas na imprensa colonial: Ricardo Rangel (1924, Lourenço Marques - 2009, Maputo) e Kok Nam (1939, LM - 2012, Maputo). Fica datada uma clara ruptura com o tempo anterior com a publicação do semanário ilustrado «Tempo», a partir de 20 de Setembro de 1970, onde Rangel publicava os «editoriais» fotográficos («Objectiva R.R.») e as reportagens da vida dos bairros negros, com a cumplicidade do jornalista e poeta José Craveirinha. Antes, houve alguma actividade do Núcleo de Arte e salões de amadores. E, muito mais atrás, os dez «Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique» editados por José dos Santos Rufino (1929, impressos por Broschek & Co., Hamburgo), que continuaram sempre presentes. 

Tem de sublinhar-se a personalidade forte de Ricardo Rangel e a capacidade de se afirmar como profissional brilhante e fotógrafo insubmisso numa carreira sempre ascendente na imprensa colonial. Foi também activista do Jazz, a música dos negros que muito se cruzou com a fotografia. E certamente reconhece-se a transigência táctica do poder colonial perante o fotojornalista mestiço (de ascendência grega) e oposicionista, a favor da aparição de elites intermédias entre as veleidades dos extremistas brancos e as ambições dos nacionalistas negros, como quem divide para reinar e aposta em vários tabuleiros. Entrou como aprendiz num laboratório fotográfico, nos anos 40, tornou-se um impressor reconhecido e foi o primeiro fotojornalista "de cor" na imprensa branca - desde o «Notícias da Tarde», em 1952, no «Notícias», em 1956, e chegando a chefe em «A Tribuna», 1960-64; depois na Beira, 1964, no «Notícias da Beira» e no «Diário de Moçambique» e na revista "Voz Africana", estes dois publicações da Diocese da Beira, presidida por D. Sebastião Soares de Resende. De novo no «Notícias» 66-70 e a seguir o «Tempo», de que foi um dos fundadores. Após a independência, foi fotógrafo-chefe no «Notícias» em 1977, director do semanário «Domingo», 1981, etc. Foi também o pilar da criação em 1983, com apoio da cooperação italiana, do Centro de Formação Fotográfica (Centro de Documentação e Formação - a partir de 2001), que continuava a dirigir aos 85 anos.
A repressão política poupou-o (foi preso a distribuir panfletos nos anos 40, como conta no filme de Licínio de Azevedo «Ferro em Brasa», de 2006), e a censura nunca o silenciou, mesmo se algum do seu trabalho terá desaparecido. Depois, atravessou a revolução socialista e a guerra civil e a normalização relativa, dita social-democrata, também como figura independente e como formador de fotógrafos. Foi eleito para a Assembleia Municipal de Maputo (1998-2003) pela lista de cidadãos Juntos pela Cidade, e criticou a nova imprensa oficial em "Foto-jornalismo ou foto-confusionismo" (2002, ed. da Universidade Eduardo Mondlane), manifesto muito ilustrado contra o mau uso da fotografia e da legendagem (foto-aberrantismo, copulismo, ilogismo, ilusionismo, etc) no principal diário de Maputo, o «Notícias».) Travou sempre a mesma luta em diferentes condições políticas, com habilidade e firmeza.

Em 1994, a cooperação francesa editou um primeiro livro, «Ricardo Rangel, Photographe do Mozambique / Fotógrafo de Moçambique» (Éditions Findakly, Paris), que o mostrava como fotógrafo crítico da sociedade colonial, autor de imagens emblemáticas sobre a diferenciação racial e social, incluíndo os brancos pobres. E logo nos 1ºs Encontros de Bamako, no mesmo ano, a sua obra começou a ser divulgada com a série «Notre pain de chaque jour, les nuits de la Rue Araújo (1960)», apresentada pela «Revue Noire», que então publicava um número monográfico sobre Moçambique (nº 15, Décembre). Note-se que a «descoberta» de Moçambique acontece quando surgiam os primeiros panoramas da fotografia africana - «As (suas) fotos envelhecem como as de Doisneau ou de Strand alguns decénios mais cedo; ou seja, pouco ou nada, só o cenário é marcado pela história», escrevia Jean Loup Pivin na «Revue», em «Une nouvelle Photographie - L’ombre et le noir»).

Enwezor Okwui consagrou-o como um dos grandes fotógrafos africanos em 1996 na exposição e no livro «In/sight. African Photographers, 1940 to the Present» (Guggenheim Museum, Nova Iorque). Também aí era a longa série das fotografias dos bares e das mulheres da Rua Araújo ( "Our Nightly Bread» ), que lhe assegurava a maior notoriedade. Iniciara-a ainda nos anos 60 com a aparição das películas mais sensíveis, e continuou, com uma notória cumplicidade hedonista, até que a governo da Frelimo deteve a «última prostituta» - é essa foto que está na origem do filme «Virgem Margarida», também de Licínio de Azevedo, 2013. O álbum «Pão Nosso de Cada Noite», bilingue, só foi editado em 2005 (ed. Marimbique, Maputo, impresso em Santo Tirso). Rangel compareceu também em «The Short Century - Independence and Liberation Movements in Africa 1945-1994», organizada por Okwui Enwesor, em 2001 (Museum Villa Stuck, Munich; depois, Berlim, Chicago, Nova Iorque). Um último livro: «Ricardo Rangel, Insubmisso e Generoso», vários autores, org. Nelson Saúte, série Kulungwana, ed. Marimbique, Maputo 2014 (imp. Norprint, Santo Tirso).


É indispensável juntar a Rangel o nome de Kok Nam, outro fotojornalista notável e de carreira corajosa e muito longa. Começou a trabalhar nos anos 50 no laboratório e casa de produtos fotográficos Focus, onde já estivera Ricardo Rangel como impressor. Em 1966 passa como repórter fotográfico para o "Diário de Moçambique" - na delegação em Lourenço Marquese depois na sede na Beira. Em 1969 e 70 trabalha no "Notícias" de Lourenço Marques e no vespertino "Notícias da Tarde", sob a chefia de Rangel. Acompanhou a a criação  da revista "Tempo", onde continuou depois da independência e onde em 1990 era chefe de redacção. Foi entretanto um grande repórter das destruições e da fome ao tempo da guerra civil, também capaz de devolver a dimensão humana aos combatentes da Frelimo, forçado a manter-se na rectaguarda por precaução política, em contraposição e diálogo com o fotografo-guerrilheiro Daniel Maquinasse, que viria a morrer com Samora Machel em 1986. 
Repórter do tempo colonial e da «revolução popular», são particularmente relevantes as fotografias de grupos e os retratos, deixando um espólio imenso ainda a desbravar, de que dá conta o livro «Kok Nam. Preto no Branco», vários autores, org. Nelson Saúte, série Kulungwana, ed. Marimbique, Maputo, 2014 (imp. Norprint).
Depois da aprovação da primeira Constituição multipartidária do país, em 1990, e da Lei da Imprensa, em Agosto de 1991, fundou com outros jornalistas, vindos quase todos dos quadros da Agência de Informação de Moçambique (AIM), da revista «Tempo» e do semanário «Domingo», o primeiro orgão de comunicação independente do controlo estatal e governamental, o projecto Mediacoop (1992). Ao «MediaFax», marco na mudança pluralista da imprensa moçambicana, sucedeu o semanário «Savana» em 1994, de que foi director até à morte. 

Outras datas, outros nomes

Em 1972 Rui Knopfi (1932, Inhambane - 1997, Lisboa ) publicou um álbum de poemas e fotografias sobre a Ilha de Moçambique: «A Ilha de Próspero», Edição Minerva Central, Lourenço Marques. Era um «roteiro privado» e também patrimonial, publicação pioneira, sem continuidade.
Do mesmo ano é «Moçambique a Preto e Branco», com Rangel, Kok Nam, Rui Knopfi e outros, amadores salonistas, edição natalícia da CODAM, empresa portuária de Lourenço Marques, com organização não creditada de José Luís Cabaço, que viria a ser ministro da Informação da República Popular.
Em 1973 aconteceu a primeira exposição de Rangel, Rogério e Basil Breakey, fotógrafo de Cape Town, realizada no Núcleo de Arte (e parece que também na Beira). É o jazz que os liga e deverá ter sido Rogério a fazer Rangel passar da página impressa à parede. Expõem de novo em 1975, na Casa Amarela, com mais nomes: Rangel, Kok Nam, B. Breakey, Peter Sinclair e outros (sic - Informação do catálogo de Rogério, F. Gulbenkian, 1981.

Rogério ou Rogério Pereira (1942, Lisboa - 1987, Setúbal) é uma figura mais meteórica, um artista inconformado e informado, que terá sido especialmente influente graças à circulação pela África do Sul. Fez a transição do tempo colonial para o pós-independência, foi professor de fotografia durante dois anos em Maputo, mas regressou a Portugal em 1979, inadaptado em todos os regimes.

Fotografou desde 1966, em Lourenço Marques, trabalhou no «Sunday Times» de Johannesburg, em 1968; teve colaboração publicada na revista «Drum» (1969, 1973). Participou em exposições colectivas em Johannesburg e Cape Town desde 1969 (refere "Images of Man", promovida pelo "International Fund for Concerned Photography"). São informações extraídas do catálogo de uma mostra desgarrada (descontextualizada) que realizou na Fundação Gulbenkian. («Momentos», 1981), mal recebida por António Sena mas saudada na revista «Nova Imagem» de Pedro Foyos (importante portfolio no nº 1, Julho de 1980, com entrevista de Victor Dimas, «‘O fotografo tem de estar dentro da razão’»). Estava-se diante de um fotógrafo radical, revoltado, com imagens de uma grande veemência crítica, indisciplinadas, sintonizadas com rupturas dos anos 60/70. Fotografias vibrantes, duras, «tremidas», sub-expostas, inquietas.

O espólio regressou a Maputo e é conservado pela sua família africana. Em 1990 foi-lhe dedicada uma retrospectiva em duas partes na Associação Moçambicana de Fotografia, com a colaboração de Rangel, Kok Nam e José Pinto de Sá, que escreveu o texto do catálogo. Em 2002, a 1ª edição do PhotoFesta, Encontros Internacionais de Fotografia de Maputo, dedicou-lhe uma exposição antológica com o título “Verdade”. Em 2013 n’A Pequena Galeria recordei-o com duas magníficas fotos esquecidas na Colecção Gulbenkian numa mostra de grupo («De Maputo», com José Cabral e Luís Basto, também com Moira Forjaz).

Bem relacionado com jornalistas-escritores como Luís Bernardo Honwana e Craveirinha, e em geral com o meio das artes, Pancho Guedes (Amâncio de Alpoim Miranda Guedes, 1925, Lisboa - 2015, África do Sul), formado em Joanesburgo, fez desde o início dos anos 60, pelo menos, um uso funcional e eficaz da fotografia, sem que a tenha valorizada como objecto de arte e exposição. Arquitecto, pintor e escultor, fotografou sempre muito, e tudo, coligindo retratos e informação documental; é relevante a sua presença fotográfica impressa, com o respectivo design gráfico: manifesto “A cidade doente, várias receitas para a curar. O mal do caniço e o manual do vogal sem mestre”, dupla página em «A Tribuna», 9-6-1963; artigos ilustrados em «Aujourd’hui: Art et Architecture», nº 37, 1962, Paris, sobre os «Mapogga» (agora, Ndebele), e «Architecture d’Aujourd’hui», 1962, Juin-Juillet, sobre a sua arquitectura. Moira Forjaz frequentara a casa-atelier da rua de Nevala desde 1961, ao tempo das pontes estabelecidas com o Ibadam Club e a revista «Black Orpheus», de Ulli Beier, na Nigéria.
Viria a ser descoberto como fotógrafo, nas suas mais tardias fotografias de viagem, a partir da África do Sul e de Lisboa, em «Pancho Guedes nunca foi ao Japão», edição de José Luís Tavares, Lucio Magri e João Faria, ESAD, Matosinhos, 2015.


À margem desta narrativa ficou José Henriques da Silva (1919, Lisboa - 1983, Lisboa; em Nampula desde 1956). Engenheiro civil, fotógrafo activo entre 1957 e 1973, com um uso caloroso e intimista (relacional - fez em especial retratos) das imagens, junto das populações negras locais, mas sem expressão pública. Viu-se no Ar.Co, em 1983, uma selecção organizada por Joana Pereira Leite, a que se seguiu em 1998 a edição de «Pescadores Macua. Moçambique, Baía de Nacala 1957-1973», com impressões de Michel Waldmann e grafismo de Victor Palla. Ed. Câmara Municipal de Lisboa e Comissão dos Descobrimentos, Lisboa. Com exposição no Arquivo Fotográfico de Lisboa, e também em Moçambique.

sábado, 28 de maio de 2016

2016, António Carrapato, Módulo

Módulo 

2016 


António Carrapato é um fotógrafo com uma carreira original, iniciada como fotojornalista, mas já com diversas exposições que foram mostrando o seu trabalho de autor (Museu de Évora, 2009, apresentada por Joaquim Caetano; A Pequena Galeria - esta uma mostra de grupo e itinerante, em 2013, que organizei ). 





Está agora na galeria Módulo. Alentejano, é um homem com um humor raro - e o humor é uma das marcas fortes do seu trabalho fotográfico - de que se serve com um excepcional sentido de oportunidade para dar a ver e comentar a sua região (e não só - outra das suas direcções de trabalho é intencionalmente europeia). Com a atenção muito desperta para o acaso, para o encontro imprevisto e acidental que marca muitas das suas fotografias, o que implica um muito ágil sentido de composição <o instante decxisivo>, ele constrói, de facto, séries temáticas que se assemelham a programas conceptuais. 

A opção seguida pelo comissário da mostra e pelo galerista consistiu em apresentar mais de uma centena de imagens em pequeníssimos formatos (9, 12 cm), agrupadas em conjuntos que apontam pistas de entendimento ou núcleos de trabalho. Pode não ter sido a melhor estratégia para introduzir a obra de António Carrapato no circuito dos coleccionadores de fotografia, mas esta é, por outro lado, a possibilidade de uma abordagem antológica que confirma a respectiva importância. 

Não é um jovem fotógrafo (um artista emergente, uma revelação, um nome descartável na próxima época) e não tem o apoio de uma rede suspeita, para não dizer mafiosa, que consegue, por exemplo, ocupar o Museu do Chiado com uma exposição comercial acompanhada por uma iniciativa editorial também comercial - o acesso aos dinheiros da DGPC (Património Cultural, supõem-se) assegura essas e outras facilidades. Carrapato é um artista com obra feita, que às vezes me lembra o meu fotógrafo espanhol preferido, o Cristobal Hara, que ele naturalmente não conhecia.


(...desagradado dessa opção expositiva com miniprovas - acho que fazem falta formatos razoáveis).


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28 maio de 2016até 28/06


António Carrapato foi durante bastante tempo fotojornalista do jornal Público, mas em paralelo foi desenvolvendo um trabalho de fotografia criativa. Conhecido num grupo mais restrito de pessoas do meio fotográfico, tem agora a sua primeira exposição antológica nesta galeria cobrindo um período desde que vai de 1985 a 2015, começando no preto e branco e prolongando-se pela cor.

A exposição tem a curadoria de José Soudo, que realizou um trabalho verdadeiramente notável na selecção e montagem das 103 fotografias que constituem a exposição. 

Encantamento é o título dado pelo curador a esta seleção do trabalho fotográfico de António Carrapato, mas passemos ao texto escrito por José Soudo para a ocasião: 


(... Vilém Flusser ) Vem tudo isto a propósito dos trabalhos, deste trabalho fotográfico em concreto, do António

Carrapato, amigo de longa data, com quem me cruzo há mais de 25 anos, pois sempre que os

“leio”, sou remetido para um estado de “ENCANTAMENTO”.


Estas séries, que nos são dadas a ver neste espaço da Galeria Módulo, carregadas de pequenas e enormes subtilezas, assim como de abordagens tão delicadas e intimistas, têm (para mim), o condão de nos evidenciar os poderes ocultos deste fotógrafo, qual mágico, para nos seduzir e inebriar, provocando sensações de embriaguez e felicidade, apenas porque lhe olhamos as imagens.


Percam o vosso tempo com elas, pois quem sabe se não é isto que o velho Flusser nos quer dizer quando afirma que …”as fotografias não têm nada de mágico porque são técnica pura, no entanto são imagéticas, porque vivem de magias...



António Carrapato, nascido em Reguengos de Monsaraz no ano de 1966, começa a sua carreira nos anos 90, a fotografar para os principais jornais portugueses.

        Em paralelo desenvolve um trabalho de autor, em que constrói uma temporalidade de     

        acasos significativos com um humor muito específico.

É no território rural do Alentejo, mas também em contextos urbanos internacionais, que utiliza a sua capacidade de observação para criar um universo visual onde a relação entre o homem e a sua envolvente revelam subtis ironias ou absurdas coincidências.


António Carrapato estou fotografia no Ar.Co e apresenta um curriculum de exposições colectivas apreciável de que poderemos destacar Aldeias Gémeas, Museu da Aldeia da Luz (2013), Riso, Fundação EDP (2012), Nós, Museu de Évora (2009). Recentemente figurou na exposição intitulada Grupo de Évora com curadoria de Alexandre Pomar ,que se iniciou na Pequena Galeria em Lisboa e depois circulou por Sines (Centro Cultura Emérito Nunes) e Évora (Palácio D.Manuel) durante o ano de 2013.


A obra fotográfica de António Carrapato encontra-se em várias publicações como Planeta Ovibeja(2008, Arte na Fundação Luso-Brasileira(2007) e Extensão do Olhar, Uma antologia visual da fotografia portuguesa contemporânea (2005) da Fundação PLMJ.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Jorge Calado: escolhas para o Dubai; Dubai Photo Exhibition 2016

Spain and Portugal—Dr. Jorge Calado

Edgar Martins

Gérard Castello-Lopes

Helena Almeida

Jose Luis Neto

Joshua Benoliel

Maria Lamas


Cristina Garcia Rodero

Cristóbal Hara

Joan Colom

Ramón Masats

Dubai Photo Exhibition will bring together artworks from 23 countries, selected by 18 curators, celebrating the harmony and diversity of global photography on an unprecedented scale. Guided by the curatorial vision of Head Curator Zelda Cheatle and other world-renowned curators, visitors will experience the evolution of photography through a selection of artworks from the 20th and 21st century.

The exhibition will be presented in a purpose-built “temporary museum” in Dubai Design District (d3), Dubai’s centre for art and design industries. Dubai Photo Exhibition is created by HIPA to promote Dubai as a cultural hub, cultivate artistic appreciation for photography, foster dialogue, and nurture photographic excellence through education. 

Countries and curators:
Australia—Alasdair Foster
Belgium and Holland—Els Barents
Brazil—Iata Cannabrava
China—Huang Yihuang 
Morocco & Egypt—Hicham Khalidi (Morocco) and Ayman Lotfy (Egypt)
France—Fannie Escoulen
Germany—Frank Wagner
Hungary and Czech Republic—Kincses Karoly
India—Devika Singh
Japan—Mariko Takeuchi
Korea—Sunhee Kim
Mexico—Magnolia de la Garza 
South Africa—Federica Angelucci
Spain and Portugal—Dr. Jorge Calado
UAE—Jassim Al Awadhi
UK and Ireland—Martin Barnes
USA and Canada—Natasha
Egan

domingo, 15 de maio de 2016

Nuno Viegas 2001 2002 2003 2004 (Cascais) 2008 2009 (Arte Periférica) 2016 (Col. Cachola)

 Nuno Viegas desde 2001

2011 A de Animal

Arte Periférica 5 nov. CATÁLOGO (tx NV)

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05/15/2016

Nuno Viegas na Colecção Cachola

terça-feira, 3 de maio de 2016

João Francisco 2016 "Predelas e Volandes"

 


A loja de Gersaint (3 de maio - Il de junho 2016)

João Francisco

Predelas e Volantes

3 a 7 de maio

Espaço Cultural das Mercês