Não esperava que o Diogo Ramada Curto alinhasse com o primarismo, o obscurantismo e a deturpação da história (quando não é ignorância) que impera na exposição do MNE, a pretexto de Desconstruir e Descolonizar....
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Vejam-se três passagens do seu artigo, rápido e leviano, com erros óbvios:
1. "Só a partir da década de 1920 <será gralha?>, surgiu o luso-tropicalismo mas as propostas freyrianas só encontraram eco em Portugal, depois da Segunda Guerra. <no seu livro de 2022 abaixo referido DRC escreve o contrario> Margarido considerou que o atraso na recepção da obra de Freyre se deveu, sobretudo, ao facto de não existirem em Portugal condições para entender a linguagem das ciências sociais ou da sociologia. De qualquer modo, as ideias de Freyre foram usadas de modo truncado, tendo em vista a sua instrumentalização na consciência e na prática coloniais portuguesas. Na argumentação de Margarido, ...etc" pág. 260.
2. “Por exemplo, o sonho salazarista de que Portugal não era um país pequeno exprime um "delírio nacionalista" e imperial, bem representado em mapas destinados à propaganda <foram da iniciativa do colonialista Henrique Galvão, depois perigoso oposicionista>. Após 1974-1975, o mesmo sonho imperial - que já fora reformado para se afirmar o carácter excepcional do "mundo português", deixando cair as noções de império e colónias - acabou por ser transferido para o domínio da língua e da cultura. Uma operação que permitiu continuar a afirmar a "grandeza" de Portugal, esquecendo a cultura dos outros.” p 262
3. "Em estreita ligação com a influência da sociologia de Florestan Fernandes, o que continua a estar em causa debaixo das ideias de lusofonia não são meros <meros!> projectos culturais ou linguísticos, evocados em discursatas diplomáticas de circunstância ou comemorações; o que está verdadeiramente em causa são interesses e políticas económicas determinados por fluxos migratórios e pelo mercado laboral. Pois é nestes últimos que será possível encontrar o nexo dos movimentos de abertura e de contracção de angariação de mão-de-obra, tanto os que se prolongam no tempo como os sazonais. Só através da compreensão de tais movimentos (e das políticas que lhes correspondem) se poderá fugir aos riscos de abordagens que tendem a concentrar-se em meras <meras!> políticas culturais e da língua, que são quase sempre áulicas, circunstanciais e comemorativas. Que a cultura em tempos pós-coloniais e as políticas etc..." p. 263/4
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Como se sabe a formulação do luso-tropicalismo surge só nos anos 50, embora esteja em grande medida subjacente na teoria de G Freyre desde pelo menos "Casa Grande & Sanzala", de 1933, que escreveu em Portugal durante a ditadura de Getúlio Vargas. O livro teve eco por cá junto dos sectores democratas do colonialismo progressista, tal como aconteceu depois com "O mundo que o português criou" (1940), o qual "foi mal recebido pelo campo político em Portugal, onde reinavam as concepções racistas" (Laurindo Mekie Pereira, ver comentário).
António Sergio escreveu o prefácio da edição brasileira, que foi incluido na ed. portuguesa de Livros do Brasil (anos 40 e anos 70, 2ª ed.). <A BN não tem essa primeira ed. brasileira mas posso vender o meu exemplar...> Na Fund. Mário Soares existe uma versão fotocopiada do prefácio vinda do Arquivo Mário Pinto de Andrade. Está acessível.
Lembremos também, sem alargar a pesquisa, que não me compete fazer, os artigos da Seara Nova de Maria Archer (foi-lhe dedicado um colóquio em 2022: https://www.publico.pt/.../homenagear-escritora-maria...
E a revista «O problema colonial», Seara Nova (n.º especial), n.º 68/69, 9 de janeiror 1926 , é anterior. https://pt.reviseara-nova/issue/iss_0000000670
DRC interessa-se em especial pelo percurso de José Osório de Oliveira, intelectual do regime que então se relacionava com G.F. e mais tarde veio a tomar a defesa da Diamang contra ele, Freyre....
A cumplicidade de G Freyre com o regime afirma-se em 1952-53 graças a um convite de Sarmento Rodrigues <ministro do Ultramar e responsável por reformas da administração colonial, foi governador de Moçambique de 1961 a 64 e mandado de regresso por Salazar - era um liberal do regime > para percorrer as colónias, mas é preciso relevar a crítica pesada que Freyre faz ao domínio da Diamang como a excepção portuguesa no campo das relações com os negros, o que motiva em resposta um maior investimento da empresa do comandante Ernesto Vilhena <ministro das Colónias e dos Negócios Estrangeiros da República, deposto pela junta de Sidónio Pais, fundador da Diamang em 1917 e presidente até 1966, maçom e grande coleccionador de arte, abertamente racista, impulsionou o Museu do Dundo> nas publicações e iniciativas culturais. E GF distancia-se do regime quando começam as guerras de libertação.
A sua obra e o seu pensamento são por cá mal conhecidos e o nome é usado como um espantalho na vulgata póscolonial.
A ligeireza de Diogo RC é tanto mais estranha quanto ele percorre a bibliografia da época e sobre a época no capítulo “Um álbum fotográfico da diamang” no livro "O colonialismo português África de Livingston a Luandino", ed 70, 2022.


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