22 01 23
Sobre a Módulo escrevi uma vez (em 2016), dirigindo-me directamente a um director-comissário-burocrata sempre em pé:
“já alguma vez pôs os pés na Módulo?
É a galeria que tem apresentado o maior número de fotógrafos e muitos dos melhores (mais tarde passados a outras galerias, como Paulo Nozolino e António Júlio Duarte). Actualmente conta entre os seus artistas com Ana Telhado, Brígida Mendes, David Infante, Mafalda Marques Correia, Tito Mouraz e Virgilio Ferreira; todos eles expõem fotografias - a descoberta de talentos é uma das marcas do Mário Teixeira da Silva, galerista há muitas décadas e também coleccionador. Nenhum deles está presente na BF 16 Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, e não será por acaso. Podemos ver que também nenhum deles foi incluído numa espécie de catálogo chamado "Fotografia. Modo de Usar", que foi editado por Delfim Sardo para o Novo Banco (ed. Documenta) em 2015.
Estas iniciativas orientam-se pelo facciosismo, pela lógica da exclusão, pelo princípio da construção de clientelas, pela demarcação de um sistema galerístico-institucional "curatorial", gerido por um pequeno grupo inter-relacionado (crítico/curadores e galerias). Não põem em geral os pés nas exposições (excepto nas inaugurações das galerias de que dependem ou que fazem depender da sua influência) e escolhem por razões ínvias e de favor, de poder ± corrupto ou suspeito; escolhem em geral não os melhores mas aqueles que não fazem sombra aos seus protegidos dilectos. Estão agora na universidade a fazer e distribuir doutoramentos foleiros, ocupam ou ocuparam lugares em direcções de museus ou centros de arte (lugares que exercem como curadores e não como directores-gestores) e circulam entre posições de poder - voltam sempre à tona, mesmo depois de afastados por algum acidente mais grave. Não é fácil exterminá-los."
O Mário não era "consensual" nem fácil, e desagradáva-me a rotação de nomes, entre outras coisas... Mas convém agora lembrar que, até saírem da Módulo, os seus artistas ficavam fora das selecções, das compras institucionais e dos prémios.
Agora vão todos passar por cima disso nas prosas de circunstância.
<Fiquei mt impressionado com a morte do Mário, que além do + tinha ± a minha idade, mas é muito o que recordo>
O Mário apresentando a sua colecção na Pequena Galeria em 2014
22 01 23
E ainda (coisas antigas): A Galeria Módulo - aliás, o Módulo, Centro Difusor de Artes, fundado e dirigido por Mário Teixeira da Silva - abriu no Porto em 1975 (com uma exp. de Paula Rego) - e em 1979 estendeu-se a Lisboa. Logo no 1º ano fez uma mostra de 3 fotógrafos norte-americanos e em 1976 expôs obras fotográficas de Helena Almeida. Ainda nessa década apresentou Hamish Fulton, Gilbert & George, Jochen Gerz, Fernando Calhau e Julião Sarmento.
Nos anos seguintes (continuando a usar indicações de Filipa Valladares no cat. Casa de Luz, ed. FotoColectanea 2004), expôs Paulo Nozolino, Jorge Molder, Elliot Erwitt, Bernard Faucon, Bruce Charlesworth e Larry Fink, entre outros.
Seguem-se Axel Hütte, 1991; e depois Mário Cravo Neto, Frank Thiel. Nan Goldin em 1994 numa colectiva, James Welling em 1995 e outra colectiva com Cindy Sherman, Tony Oursler e Richard Prince. A seguir, anos 2000, Vick Muniz e Miguel Rio Branco. Já nos anos 2000, Rosângela Rennó, Beat Streuli e Candida Höfer, e tb António Júlio Duarte, José Luís Neto, Duarte Amaral Neto....
23 01 23
Nunca percebi a orientação ou, melhor, não ia percebendo o gosto do Mário, apesar de conversarmos mt qd acontecia ir à galeria, regularmente 1º (no 4º ou 5º andar da AAAguiar, e em especial já no "Casal Ventoso" - tb ia ao Porto, Av da Boavista), esporadicamente depois, qd ele mudava velozmente de escolhas e se virava para maneirismos oficinais q menos me interessavam. Demasiada colagem à rotação das modas e a actualidades estrangeiras ocasionais ou em voga (por ex. Sylvie Fleury, Wim Delvoye, Alan Mc Collum, oportunidades, mas mostrou tb Kiki Smith e David Tremlett, entre outros), demasiada contradição entre escolhas, demasiados abandonos de artistas que mostrara (em especial lamento a ausência do José Miguel Gervásio, que mostrou em 2010 e 2014 e em colectivas, cujo trabalho posterior me parece impor-se, desleixado pelo circuito mundano-oficial), numa espécie de toca e foge instável e incompreensível.
O desinteresse pela informação digital, ou incapacidade de a usar, por economia, e a perda de acesso à imprensa, que o boicotava; a insistência nos preços mt baixos com a rectaguarda segura dos seus clientes regulares; a recusa de obras/artistas maiores que já não seriam "descobertas" suas (artistas já "rodados" dizia); a hostilidade ou exclusão por parte do circuito institucional... são alguns tópicos de conversa, já tardia.
Seria curioso comparar o Mário / Módulo com o Luís Serpa / Cómicos (antes de usar o nome próprio), ambos desaparecidos, este último por mt tempo bem encostado à SEC dp do Depois do Modernismo, tão oficial como a Alternativa Zero, em habilidosas mutações. Marcaram ambos os anos 80 e 90, antes de surgirem novos negócios chegados aos coleccionantes próximos do "poder" da banca e do estado, o q se tornou a mm coisa; ou compradores compulsivos de coisas baratas dos "novos". E importaria ver como foi ostracizado pelos circuitos oficiais, o q tb decorreria do seu idiossincrático "regime".
Agora todos lamentam a morte, no habitual jogo das hipocrisias. O velório decorre amanhã dia 24 das 11h às 16h no Centro Funerario de Santa Joana Princesa (Servilusa) seguindo para o cemiterio dos Olivais.
1. Como é que o Mário desacompanhou (por exemplo ou em especial) o José Miguel Gervásio ? (os melhores ficam de fora pq desorganizam o sistema). Foto no atelier, depois da exp. no Museu de Évora.
2. O que sucederá à sua colecção, mostrada no Museu do Chiado com comissariado de Adelaide Duarte e com catálogo ainda em preparação (depois de se apresentar a parte da fotografia em Barcelona, na Fotocolectanea, em 2014, Casa de Luz, com catálogo). #marioteixeiradasilva #mariodomodulo
25 01 23
Ainda Mario Teixeira da Silva, que fundou e dirigiu desde 1975, então no Porto, a galeria Módulo ou o Módulo Centro Difusor de Arte, como quis chamar-lhe, e que morreu subitamente no domingo, vítima de complicações de uma diabetes sempre mal tratada.
O Mário apresentara em 2022 a sua colecção no Museu do Chiado (ou MNAC), sob o título talvez premonitório "Não sei se posso desejar-lhe um feliz ano", sob o comissariado de Adelaide Duarte. Reunira-a ao longo dos anos da sua actividade de galerista, somando obras que tinha exposto ou que adquirira noutras galerias e em leilões, contando também com obras significativas de artistas estrangeiros, obras de arte "tribal" e outras - aguarda-se ainda a publicação do respectivo catálogo.
Soube agora que decidira doar essa mesma colecção, que conta com mais de 500 obras, em geral de grande qualidade, ao mesmo Museu do Chiado, após a sua morte, e que deixou esse propósito firmado em documentos que se encontravam prestes a ser definitivamente formalizados, aguardando-se o cumprimento da sua vontade.
Algumas obras, fotografadas no Chiado, servem de apresentação da colecção Beatriz Milhazes, Paula Rego, fotografias (que tinham já sido objecto de uma exposição em Barcelona: Casa de luz, em 2005, com catálogo da Fundação FotoColectania), Pousão, Aurélia de Sousa, Silva Porto, Antonio Carneiro e outros.
A história da arte em Portugal deveria abrir um espaço também académico para, ao lado dos habituais silêncios e hagiografias (e erros factuais), inquirir carreiras, realidades, êxitos e sombras. O que foram ou são as galerias reconhecidas com notoriedade e influência devia ser um terreno de investigação e memória; as situações profissionais paralelas dos artistas e galeristas, bem como as relações de privilégio institucional, são uma zona oculta. Ao lado dos caso da Módulo de Mário Teixeira da Silva, como "descobridor de talentos", haveria que recordar a 111 de Manuel de Brito, nomeadamente como retaguarda local de artistas internacionais; a Cristina Guerra como candidata a líder do mercado ligada a Julião Sarmento, João Rendeiro e os Amigos do Chiado; a Cómicos / Luís Serpa vinda do Depois do Modernismo e da cumplicidade dos artistas da SEC/DGA; a Nazoni e a Atlântica, galerias dos anos 90 perdidas em vertigens bancárias e no final na circulação de falsos; e noutro pólo do mercado do luxo, a Cordeiros no Porto com o seu andar de marfins e pratas, com as tardes sociais de sábado, até ao descalabro do negócio. Gonçalo Pena começou uma boa história no catálogo de uma antologia dos anos 60, mas ficou sem continuidade.
No caso do Mário, que foi professor do ensino secundário até à reforma, a par de galerista, inquieta-me que a colecção apareça de facto sobreposta à actividade corrente da Módulo, desviando o que teria de ser o investimento na divulgação dos artistas: que catálogos e livros produziu ou apoiou o Mário? A proverbial austeridade ou avareza tinha um lado por muito tempo oculto: a colecção, e esperava-se mais de um galerista.
E se a descoberta de novos artistas e artistas novos foi uma constante até final, isso significava uma permanente rotação de nomes, abandonando os seus artistas por razões inconsequentes (mas era um galerista exigente e culto) ou fazendo-os abandonar por questões de preços, ou só de trocos - os preços baixos eram uma marca da casa, para o bem e para o mal, assegurando assim as compras regulares de um grupo de fieis. O papel de divulgador, nomeadamente na área da fotografia, prejudicava a continuidade, a consolidação dos seus artistas e, por isso, a verdade do mercado.
Por outro lado, ou não, apesar dos muitos elogios que se lhe fazem, a Módulo não era um local acompanhado pelas compras institucionais, ou era mesmo hostilizado, e são numerosos os casos em que as aquisições dos museus e fundações começavam depois dos artistas deixarem a Módulo. Esse era um dos temas das nossas conversas, e o Mário era o galerista com que eu mais conversava.







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