sábado, 25 de agosto de 1990

1990, Fotoporto 2ª edição: "Sertembro: as fotos do Porto"

 Setembro: as fotos do Porto

25 08 90


exposições de Sena da Silva e Paulo Nozolino,

Christer Strömholm  (Jorge Calado - 29 Set.90_)

e Neal Slavin (O Portugal de Neal Slavin - J.Calado - ? **)

, organizadas por António Sena (Ether), 

Mimmo Judice, comissário Manuel Magalhães.

Nicholas NixonPictures of People, MoMA, Eurico Cabral

(Foi o 2º e último FotoPorto, depois inviabilizado por desacertos com Santana Lopes e Serralves)

** ver 15 de Novembro de 2016: A. Bracons:  https://fasciniodafotografia.com/2016/11/15/neal-slavin-portugal-1968-1990/



DA PRIMEIRA para a segunda edição do Fotoporto, que decorrerá a partir de 20 de Setembro na Casa de Serralves, é óbvio o crescimento do projecto e o enriquecimento do programa. São sete as exposições que serão apresentadas simultaneamente, até 28 de Outubro, e mais duas outras darão sequência ao Fotoporto em Novembro e Dezembro. Mas é nos critérios da sua selecção que a diferença se estabelece.

Se na bienal do Porto se acolhem algumas importantes exposições vindas do Museu de L'Elysée, de Lausanne, do MoMA, de Nova lorque, ou do Comptoir de la Photographie, de Paris, apresenta-se por outro lado um número significativo de exposições inéditas produzidas para a ocasião: é o caso das duas exposições nacionais, de Sena da Silva e Paulo Nozolino, e das de Christer Strömholm e Neal Slavin, todas elas organizadas por António Sena, e ainda da de Mimmo Judice, de que é comissá-rio Manuel Magalhães.

Observa-se também a opção por fotógrafos não expostos em Portugal - no caso de Strömholm é a primeira re-trospectiva fora do seu país de origem — ou por autores com relações com a fotografia portuguesa, como sucede com Neal Slavin. E todas as exposições inéditas serão acompanhadas por catálogos próprios, enquanto para as restantes será distribuído o catálogo original acompanhado de uma sepa-rata com as traduções.


Sena da Silva, que em 1987 expôs na galeria Ether fotografias de1956/57, será objecto de uma retrospectiva que inclui 68 trabalhos, alguns deles recentes.

Paulo Nozolino apresentará um ano de trabaho em 30 fotografias, de 1989 e 1990 — um período de viragens na sua vida, da instalação em Paris, de muito trabalho comercial, do «Photo-roman» com Vásquez-Montalbán e de numerosas viagens pela Mauritânia, Barcelona, Sul de França, etc.

As duas exposições são produzidas pela Ether e entrarão depois em itinerância.

A sua apresentação far-se-á em novas áreas recuperadas nos jardins da Casa de Serralves, a primeira no antigo celeiro e a segunda no lagar.


Chris Strömholm será igualmente objecto de uma retrospectiva, com 180 trabalhos, de 1930 a 1990. Strömholm é um sueco nascido em 1918, que foi membro entre 1949 e 1953 do grupo Fotoform; dirigiu depois, em Estocolmo, até 1974, uma importante escola de fotografia (Fotoskolan), e tem uma extensa obra praticamente desconhecida que em certos aspectos antecipa Witkin

Quanto a Mimmo Judice, é um fotógrafo italiano que veio recentemente fotografar a Portugal as obras de Alvaro Siza.


Passando as exposições «importa-das», John Philipps é autor de Os Ultimos Dias de Saint-Exupéry, uma ex-posição organizada pelo Museu de l'Élysée, de Lausanne. Fotojornalista e amigo íntimo de Saint-Exupéry, acom-panhou-o durante a sua participação como aviador na Segunda Guerra Mundial, registando o último período da sua vida.

The Birmingham News Centen-nial Photographic Collection inclui fotografias realizadas em 1988 por Duane Michals, Bruce Davidson, Gordon Parks e Robert Frank, e constitui um projecto documental destinado a assinalar o centenário daquela cidade do Sul dos Estados Unidos (reorganiza-da com outros trabalhos franceses, a colecção foi exposta em Arles, em 1989, com o título Deep South).

Un regard sur la photographie sovietique é uma colectiva de 39 autores contemporâneos de Moscovo, Leninegrado e Vilnius, seleccionados por Marie Françoise George, que se irá ver no belo edifício (do arq® Alcino Soutinho) da Câmara de Matosinhos Apresentada na anterior edição do «Mois de la Photo», em Paris (88), pelo Comptoir de la


Passando as exposições «importadas», John Philipps é autor de Os Ultimos Dias de Saint-Exupéry, uma ex-posição organizada pelo Museu de l'Élysée, de Lausanne. Fotojornalista e amigo íntimo de Saint-Exupéry, acompanhou-o durante a sua participação como aviador na Segunda Guerra Mundial, registando o último período da sua vida.

The Birmingham News Centennial Photographic Collection inclui fotografias realizadas em 1988 por Duane Michals, Bruce Davidson, Gordon Parks e Robert Frank, e constitui um projecto documental destinado a assinalar o centenário daquela cidade do Sul dos Estados Unidos (reorganizada com outros trabalhos franceses, a colecção foi exposta em Arles, em 1989, com o título Deep South).

Un regard sur la photographie sovietique é uma colectiva de 39 autores contemporâneos de Moscovo, Leninegrado e Vilnius, seleccionados por Marie Françoise George, que se irá ver no belo edifício (do arq Alcino Soutinho) da Câmara de Matosinhos Apresentada na anterior edição do «Mois de la Photo», em Paris (88), pelo Comptoir de la Photographie, inaugurando então o movimento de descoberta de um continente fotográfico desconhecido, a exposição fez depois uma larga itinerância (França, Moscovo, Chi-cago, Londres e Turim) e seguirá ainda para o Japão e Tulsa.


Durante os primeiros dias do Fotoporto decorrerão colóquios com a presença de vários dos fotógrafos representados e com comissários e críticos. Simultaneamente será exibido na capela de Serralves um ciclo de filmes feitos por 42 fotógrafos: Moving Pictures Films by Photographers da American Federation of Arts.

Mais tarde, a 8 de Novembro, inaugurar-se-ão as exposições de Nicholas Nixon e Neal Slavin (até 9 e 30 de Dezembro, respectivamente). A primeira, que tem como comissário Eurico Cabral, vem do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, intitula-se Pictures of People («Imagens de Pessoas») e inclui trabalhos de 1977 a 1988: grupos, retratos de idosos, estudos de nu, retratos de pessoas com sida, etc., nos quais Nicholas Nixon (n. 1947) utiliza uma câmara de grande formato.

Neal Slavin (n. 1941) é também um fotógrafo americano, famoso pelos seus retratos de grupos, mas as imagens a expor são as que em 1968 realizou em Portugal com uma bolsa Fulbright e foram recolhidas no livro Portugal editado em 1971 pela Lustrum Press. A exposição é inédita (uma série de trabalhos sobre Conímbriga foi exposta durante os VIII Encontros de Coimbra) e inclui outras fotografias não publicadas.







sábado, 11 de agosto de 1990

1990, Eduardo Luiz, Polémica

não chegou a ser uma polémica, porque o João Pinharanda não me respondeu (e foi uma respeitável posição).

No Expresso Actual de 11 de Agosto, pp. 10 e 11, "Eduardo Luiz: crítica da crítica"; 

18 de Agosto, pág. 8, "Eduardo Luiz e António Areal – Questões de método"; 

e 25 de Agosto, pp. 8 e 9, "Areal: palavras e/ou obras". Os jornais eram diferentes (Expresso e Público). As preferências mantêm-se inalteradas.

Eduardo Luiz Fundação Gulbenkian, exp. comissariada por José Sommer Ribeiro

https://gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes/exhibitions/775/

Exposição retrospetiva e itinerante da obra de António Areal (1934-1978), organizada pelo Centro de Arte Moderna em parceria com Fundação de Serralves, onde foi previamente apresentada de 3 de maio a 24 de junho de 1990, comissariada por João Pinharanda

https://gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes/exhibitions/779/






EDUARDO LUIZ: CRÍTICA DA CRÍTICA


extractos ocasionais


Em nenhuma outra área da criação artistica é tão absoluta a inexistência de informação histórica estabelecida, credível mesmo no seu registo facrual e cromológicao, quanto a que diz respeito às artes chamadas plásticas em Portugal no século XX.

[…] 

Escreve João Pinharanda, sentencioso: “A retrospectiva de E.L., tendo o mérito de mostrar um pintor desconhecido, não chega para justificar a necessidade do seu conhecimento”. Poderia dizer-se, de facto, que E.L. é um pintor pouco visto, mas nunca que é um desconhecido – basta apontar (fazendo sociologia da arte, e não história) que lhe cabem 3 entradas na lista dos 20 quadros mais caros em leilões portugueses […] O que sucede, então, é que EL era, e continua a ser, um pintor desconhecido por J..P; e ele, à partida, não queria, não precisava, de o ver. A prova: JP, contraditório, diz logo adiante que “E.L. compartilha, com muitos outros nomes, uma aura de desconhecimento”, e indica-o como paradigma dos “processos de mitificação” que seriam comuns na “nossa historiografia”: E.L.  e outros “flutuam no caldo de uma história em relação à qual não sabemos como valorá-los, onde situá-los, como classificá-los”. Para ficarmos a saber, JP remexe rápido na história de EL e conclui: “O seu circuito internacional – mesmo francês – é, também, na linha do destino de todos os emigrados portugueses, nulo”: Estamos pois, antes de vista e pensada hoje a pintura de EL, perante a afirmação liminarmente clara de que são a circulação e a “representação” internacionais a bitola decisiva para abordar uma obra e rever a “nossa historiografia”. 

Entretanto, se já é abusivo qualificar como “nulo” um circuito que inclui, de 63 a 87, oito exposições individuais no estrangeiro (e 4 em Portugal, entre 50 e 82), é ainda mais errado extrapolar das actuais condições de circulação internacional para as que vigoravam até meados da década de 80. […] Por outro lado, se JP fizesse uma consulta à “nossa historiografia”, descobriria que é o lugar que nela ocupa EL que é de facto “nulo”. 

A sua carreira, a sua eventual “mitificação”, foram feitas no campo do mercado, pelos coleccionadores, contra a crítica e a historiografia. É que o culto da asneira vem de longe, passando de pai a filhos e agora a netos. França (“homenageado” por E. L. num quadro de 66 presente na retrospectiva) encontrava-o em “caminhos de um preciosismo pictural, algo poético”, “explorando um imaginário erótico surrealizante, com variado sucesso” – e a sua História do século XX não diz mais, em 1983 (p. 408). R. M. Gonçalves sobre a “melhor exposição” de E.L., telegrafava: “Um frígido maneirismo é subtilmente auxiliado pelo método da paranóia-crítica, com uma meticulosa execução” (Colóquio, Março de 1983).

Ao entrar por fim no terreno da crítica, JP desinteressa-se por completo do facto de a pintura de EL se inserir (por volta de 1964, precisamente em paralelo com António Areal e com milhares de outros pintores em todo o mundo) entre as múltiplas direcções então ditas neofigurativas (não naturalistas) que nesse tempo se afirmavam: era, “depois” da abstracção, o “regresso” à representação, às coisas, ou aos seus vestígios, às imagens das imagens. E seguindo por aí, depois de um mínimo ensaio de compreensão cronológica e de interpretação, se poderia então discutir a originalidade ou o epigonismo; a vitalidade de uma problemática ou o anquilosamento de um estilo; os custos, muito nacionais, da “autofascinação” (JP), da “virtuosidade acrobática” (EL) ou da tentação da elegância e da obsessão do “bem feito”; a tendência para passar da invenção da pintura ao fabrico de um código e à gestão do vocabulário, os riscos de uma outra retórica. Mas JP condena, apressado: “EL está preso num formalismo que a temática justificará, mas do qual não sabe distanciar-se ironicamente (através da exploração de uma atitude neomaneirista ou neobarroca, por exemplo) ”. 

Sucede que toda a pintura de EL, a partir das “ardósias” (que são um regresso irónico aos objectos, uma “lição de coisas”, e puderam por isso ser vistas dentro da família da Pop), é um diálogo irónico com a historia da pintura, mais precisamente com o renascimento, o maneirismo e o barroco, fixado numa imensa teia de citações servida por um virtuosismo excepcional – ao qual JP chama, em mais um equivoco surpreendente, “uma execução hiper-realista”. Toda a pintura de EL (que era um amador fiel do xadrez como Duchamp) é um jogo (pensado depois de Malevitch e da abstracção formalista, depois de Magritte, Ernst e Delvaux) sobre a alusão da realidade e a distanciação: entre a representação dos objectos em segundo grau, a sua presença ilusionística (forçada até ao trompe l’oeil), e a respectiva interrogação enquanto imagem pictórica, através de um vasto leque de processos (distanciadores, se for preciso) que vão das molduras, gavetas e fitas à execução seca e fria (a neutralidade de uma “escrita anónima”, EL) à rede de disfunções dos objectos e em especial á articulação de espaços a 2 e a 3 dimensões no mesmo suporte (o “trompe trompe l’oeil”, EL) e ao permanente e explícito uso da citação. Assim, esta pintura, cada vez mais feita sobre a tradição da pintura, é sempre mais irónica que onírica – e por aí se deveriam travar apressadas leituras sobre os seus “pressupostos surrealistas”, que resultam de se ignorarem quer os pressupostos do surrealismo, quer os seus antecedentes. De facto, se em Magritte se exerce pela pintura a crítica das imagens, a prova da traição do visível e do enigma do real, em EL reconstrói-se a possibilidade das imagens e trabalha-se o enigma da pintura, a (voluptuosa) “mentira da pintura”, conforme o óptimo título de JP. Ao abordar uma pintura que tem atrás de si uma história, não se pode, pelo menos, deixar de entrar em diálogo com as leituras que anteriormente lhe fixaram já um lugar no campo do saber, eventualmente para as rever ou negar. (…) 

EL e A. Areal, ambos se relacionam com o surrealismo (de modos bem diversos, embora) e ambos se associam à reutilização da “figura” iniciada internacionalmente em finais de 50, fazendo da recusa da abstracção, por que ambos passaram, uma próxima afirmação polémica de modernidade (íntima ou panfletária, em cada caso). Não se esgotam aqui os pontos de cruzamento, mesmo se eles devem servir para situar opções radicalmente opostas: a presença obsessiva de arquétipos como a caixa e o círculo; a rejeição da expressividade e da pintura-pintura na neutralidade das superfícies lisas e na procura das imagens-emblemas; o uso dos fundos negros e a investigação sobre a fragmentação espacial do suporte; a questão da habilidade e da elegância, explorada num, e no outro manifesta como possibilidade e rejeição (veja-se o desenho tardo-surrealista e a passagem pela abstracção informal e gestual); o lugar da morte como abismo explicitamente meditado; o interesse pela pintura na pintura, pela historia e a citação. De cero modo, são os mesmos anos 60/70 portugueses que estão em questão na FCG, confrontando exemplarmente destinos da emigração com as possíveis circunstâncias nacionais, num paralelo processo de relacionamento difícil com a modernidade. A mais caricata das atitudes é transformar a coincidência na primária defesa de um pintor contra outro, circulando da rejeição à mitificação: são duas atitudes acríticas, simetricamente assentes na ignorância do que cada um tem a ver com a história e, em ultima análise, hoje, na dificuldade de ver.


 

sábado, 14 de julho de 1990

1990, Política Cultural, SEC, "Os anos de ouro?" (17-03; 05-05; 14-07; 28-12)

POLITICA CULTURAL 



SEC: OS ANOS DE OURO?


Após os primeiros 6 meses de Santana Lopes. Da Europália a Lisboa’94 e o resto


EXPRESSO, Cartaz, 14 Julho 1990, pp- 34-35


É PROVAVEL que a modéstia nas intervenções oficiais sobre a cultura, nos últimos anos, tenha correspondido à exiguidade dos orçamentos disponíveis. Mas também é admissível que a grandiloquência demonstrada há poucos dias por Santana Lopes, ao anunciar o período de 90-94 como «os anos de ouro para a cultura portuguesa», vise, antes do mais, tomar posições para enfrentar com mais energia as próximas negociações sobre orçamentos no interior do próprio Governo. 

O certo é que esses anos serão essencialmente preenchidos pelo cumprimento de obrigações exteriores a que o Estado português não poderia fugir por mais tempo sem deixar de satisfazer os compromissos mínimos do relacionamento europeu: a Europália em Bruxelas, em 91; o semestre de presidência do conselho das Comunidades, em 92; a capital europeia da cultura, em 94. 


É um calendário de acontecimentos efémeros que impõe vastas acções e recursos (em especial nas áreas dos espectáculos e das exposições), que em si mesmo constituirão oportunidades positivas e factores de criação, mas que pouco alterará uma situação de carências e atrasos generalizados, sem que, ao mesmo tempo, ocorra a inclusão da cultura no quadro dos planos de desenvolvimento do país, a afectação de meios financeiros significativamente mais elevados, a clarificação de linhas estruturais de política cultural.

 

Tudo indica, assim, que os equipamentos e infraestruturas indispensáveis, como os auditórios, as orquestras, as salas de exposição, os museus correctamente apetrechados, etc., continuarão, no final dos «anos de ouro», a faltar; as políticas de apoio à criação e à difusão, manter-se-ão, para além das necessidades do momento, no seu habitual nível mínimo. O atraso cultural do país tenderá a medir-se cada vez mais por comparação com o que se faz nas cidades de província dos países próximos (com Las Palmas, Sevilha, Valência, Bordéus, etc), perdida definitivamente a possibilidade de disputar qualquer lugar entre os centros europeus. 


«Um programa como nunca foi feito» 

Santana Lopes, ao fazer seis meses de exercício de funções, anunciou em conferência de Imprensa «um programa como nunca foi feito». Se, aparentemente, nunca se terá prometido tanto em tão curto tempo, na realidade, o secretário de Estado amalgamou aquele calendário de celebrações com um leque disperso de medidas pontuais para todos os sectores que tutela, sem que pareçam impor-se claras perspectivas globalizantes, hierarquias ou prioridades. Às declarações de intenções em diversas áreas, muitas vezes excessivamente vagas, somam-se as promessas de iniciativas, indispensáveis e positivas umas, e outras que ora retomam programas já antes formulados ora se afiguram de exequibilidade improvável ou de alcance discutível. 


Positivo é o anúncio do lançamento imediato de uma campanha de inventariação do património nacional, que deverá incluir os particulares, a Igreja e as autarquias e procurará salvaguardar a livre circulação de bens culturais a partir de 93. 

A proposta de lei a enviar à Assembleia em Outubro para revisão da Lei do Mecenato, com especial incidência no domínio do património, será igualmente aguardada com expectativa. 

No domínio dos museus conta-se o lançamento de um projecto piloto de autonomia financeira do Palácio de Queluz, ensaiando novas formas de gestão desburocratizada, e também a revogação do decreto que integrou o Museu de Arte Popular no Museu Nacional de Etnologia, reconhecendo justamente a diferença de objectivos das duas instituições e integrando o edifício de Belém num projecto de revitalização da zona ribeirinha. Por outro lado, se parecem correctas as declarações referentes à maior abertura dos museus e monumentos às crianças e aos deficientes, já surgem como prioridades discutíveis os anúncios da criação de um Museu da Criança e outro do Cinema, ao mesmo tempo que o documento divulgado é omisso quanto à recuperação do Museu de Arte Contemporânea (já em fase de projecto com apoio da França) e ao lançamento efectivo do Museu de Arte Modema do Porto, há muito previsto para Serralves. Tal como ficou por fazer a clarificação sobre quais os equipamentos a situar no Centro Cultural de Belém. 


Quanto a grandes projectos na área patrimonial, Santana Lopes destacou a recuperação do Palácio da Ajuda e zona envolvente e a intervenção em Sagres como «prioridade cimeira», apoiando a instalação aí de uma Escola de Ciências do Mar. Por outro lado, preconizou a supressão da faixa rodoviária que liga o Cais do Sodré ao Terreiro do Paço e a recondução da Ribeira das Naus a «centro permanente de evocação da gesta dos Descobrimentos». 

Também para a zona ribeirinha anunciou-se a criação de um centro de exposições temporárias das artes e ofícios tradicionais e a instalação de uma livraria de artes e espectáculos, aberta 24 horas por dia (!), na zona envolvente do Museu de Arte Popular. 

Passando ao teatro e à dança, as intenções vão da aprovação de um novo regulamento de apoio ao teatro ao anúncio da realização anual de um ciclo «Verão da Nova Dança Portuguesa», visando a itinerância de grupos peIo país - quando se julgaria que a Nova Dança está ainda à espera dos primeiros estímulos à criação. Anuncia-se a redistribuição das verbas para o apoio ao teatro, destinando metade dos respectivos valores à recuperação de salas; o impedimento sistemático durante dois anos da desafectação de salas de espectáculos às artes cénicas ou ao cinema, assim como a recuperação faseada das principais salas de teatro e a promoção de iniciativas para recuperação do Parque Mayer. Sobre S.Carlos ficou a pairar uma ideia de encerramento temporário, para além da intenção de alterar o seu estatuto para o de uma Fundação com participação de capitais privados. 


Por outro lado, Santana Lopes prometeu já, para 91 , entre 27 de Março e 25 de Abril, a realização, pela primeira vez, de um Festival Internacional de Teatro, divulgando importantes companhias estrangeiras e desenrolando-se em Lisboa, Porto, Évora, Coimbra, Braga e Setúbal, «pelo menos». (Ficou por referir que tal projecto não se fará à custa do estrangulamento de outros festivais existentes e à espera de melhores dias.) Sem horizonte temporal definido ficou o anúncio, sob a epígrafe «Teatro Novo», da exploração pela SEC de uma sala de espectáculos para apoio a novos valores e tendências cénicas. 


O Congresso da Imaginação 

Como intenção apenas esboçada surge o anúncio de que a arte equestre, o fado, o folclore e a música modema serão «novas áreas» de intervenção, mas foi já anunciada a realização de um «Grande Congresso da Imaginação» e a constituiçãode um novo departamento da SEC «dedicado exclusivamente à detecção e estímulo das formas inovadoras de criatividade». 

São, neste caso, ambições tão vagas como as que estarão por trás de uma também prevista «semana dos artistas portugueses ausentes ou dos artistas portugueses universais» (para Junho de 91, em Lisboa) que daria «a conhecer ao público português a grande qualidade e mérito artístico de nomes, em grande parte, ausentes» (no sentido de radicados no estrangeiro). Ou tão fantasistas como um já anunciado programa anual de animação nas regiões fronteiriças, com início em 92. 

As artes plásticas, sector de decisiva competição internacional na actualidade, surgem «contempladas» apenas com o anúncio de uma exposição internacional «de grande impacto», no Porto, em Junho de 91 , enquanto a fotografia é referida no caso da criação de uma colecção pública (já em curso desde 1989 e a expor pela primeira vez em Novembro próximo), da comparticipação na recuperação das novas instalações do CEF de Coimbra no Edifício das Caldeiras e .na «edição de uma obra fotográfica sobre Portugal contemporâneo». 


Os.sectores do livro e do cinema contam na orgânica da SEC com departamentos próprios, cuja acção tem sido mais estruturada. Para o primeiro, Santana Lopes destacou o apoio às livrarias e a instauração do princípio do preço fixo; para o segundo, prometeu que «a Cultura assumirá, como lhe compete, um papel preponderante no Secretariado Nacional para o Audiovisual», além de se referir à promoção de uma sociedade de capital de risco destinada a financiar as produções nacionais e à privatização de uma parte do capital da Tóbis. 

Dentro de mais seis meses, aprovado o OGE para 91, clarificados os projectos vagamente enunciados, ver-se-á se brilham os «anos de ouro» de Santana Lopes.


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Veneza: bienal sem Portugal


Expresso Cartaz, Actual, 17 Março 1990, pág. 36


PORTUGAL não estará oficialmente presente, pela segunda vez consecutiva, na Bienal de Veneza, cuja próxima edição se inaugura a 27 de Maio. E se, em 1988, no entanto, um pintor português, Pedro Proença, fora integrado numa das mais importantes secções da Bienal, o «Aperto», destinada a revelar novos criadores independentemente das representações nacionais, nenhum outro artista foi este ano seleccionado: Portugal não existe na mais famosa das grandes exposições internacionais. 

Contactado pelo Expresso, um porta-voz da SEC confirmou que não foi oportunamente designado um comissário para decidir a presença portuguesa na Bienal, mas revelou, por outro lado, que existe o propósito de reatar a participação a partir de 1992 e também que foram recentemente transmitidas indicações à embaixada em Roma para se procurar assegurar um espaço condigno para as futuras representações. 


Com efeito, até 1984, Portugal dispunha de um pavilhão próprio cedido pela Bienal; a partir desse ano passou a integrar um pavilhão colectivo, em condições consideradas menos favoráveis. Uma vez que não existiam disponibilidades financeiras para encarar a construção de um pavilhão próprio, e tendo a SEC, entretanto, passado a apoiar as presenças portuguesas nas feiras de arte (trata-se de um terreno complementar, que não substitui a comparência nas grandes bienais internacionais), interrompeu-se em 1988 a ida oficial a Veneza. Segundo a mesma fonte, a SEC terá voltado agora a considerar ser vantajoso para a circulação internacional dos artistas portugueses reatar a presença em Veneza nas melhores condições possíveis. 


É este um terreno de actuação que a política oficial tem praticamente abandonado - exceptuando a presença regular na Bienal de São Paulo, confiada ao comissário José Sommer Ribeiro, director do CAM, e de facto suportada pela Fundação Gulbenkian. Não se trata, no entanto, de estar apenas fisicamente presente com meia dúzia de obras nas mostras internacionais; toma-se necessário assegurar condições para uma participação activa e competitiva, o que passa sempre por meios de promoção significativos que não têm sido considerados (em 1988, Pedro Proença recebeu um subsídio de 160 contos para apoiar a edição de um catálogo, a divulgação da sua participação, a publicidade nas publicações especializadas, os contactos com críticos e «curators». etc...; outro exemplo: em 1990, um programa de seis exposições cm Espanha do mesmo artista conta com um subsídio de 200 contos...). 

Fontes ligadas a galerias nacionais referiram igualmente ao Expresso que não foram este ano desenvolvidos ou apoiados nenhuns contactos com os comissários do «Aperto», que constitui uma das mais importantes plataformas internacionais de lançamento de jovens artistas. Convites para deslocações de comissários a Portugal para visitar ateliers e exposições, ou mesmo os envios regulares de dossiers e catálogos, são práticas desenvolvidas por todos os países e actualmente imprescindíveis para assegurar o conhecimento externo das produções nacionais, mas que em Portugal são deixadas por realizar ou abandonadas à iniciativa das galerias privadas. 

A criação de um Instituto, Centro ou Direcção oficial que seja publicamente responsável pela actividade nesta área (organizando também exposições, importando outras do estrangeiro. promovendo comissários nacionais, estabelecendo relações internacionais regulares — sabendo-se que as influencias mais poderosas não se movem pelos canais diplomáticos) parece ser indispensável. 

Entretanto. artistas com condições para se afirmarem no terreno externo parecem existir e a circulação constante de criadores portugueses por galerias estrangeiras é um facto que o comprova. Há igualmente solicitações para representações portuguesas que ficam por corresponder, ou que são mal aproveitadas seguindo-se o critério arcaico das colectivas que incluem «todos» os artistas. Uma pintora como Paula Rego conhece ultimamente uma projecção internacional inédita; apesar da sua dupla nacionalidade (portuguesa e inglesa por casamento) competiria a Portugal tentar assegurar as condições para a circulação de retrospectivas da sua obra ou apresentá-la como forte candidata aos grandes prémios das maiores bienais. Mas já foi a Grã-Bretanha que a apresentou em São Paulo, em 1995.


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Arte Antiga e novas maneiras 

Cartaz, Actual, 5 Maio 1990. pág. 34


 MARlA Alice Beaumont foi substituída por Natália Correia Guedes à frente do Museu Nacional de Arte Antiga, num processo que está a ser objecto de diversas críticas (nomeadamente, por parte do Grupo dos Amigos do Museu) e que, se não poderá ser considerado irregular, foi, pelo menos, de uma flagrante deselegância ou inabilidade política. 

A anterior directora ocupava o cargo há 18 anos, com competência geralmente reconhecida, sabendo-se que pretendia pedir a reforma dentro de meses (por motivos de saúde), logo que procedesse à inauguração de algumas salas do Museu remodeladas depois das obras de instalação da XVII Exposição do Conselho da Europa. Essas obras pretendiam recuperar o uso da luz zenital (luz solar) no andar superior do Anexo, e arrastaram-se por vários anos devido à insuficiência das verbas atribuídas para o efeito. 

No dia 18 de Abril, Maria Alice Baumont foi convidada pelo actual presidente do Instituto Português do Património Cultural para um cargo de sua assessora para a área da museologia. Antero Ferreira teria deixado perceber que precisava do lugar vago no Museu das Janelas Verdes com urgência, mas aceitou o pedido de um prazo de uma semana para uma resposta definitiva. No dia imediato, porém, a directora do MNAA seria surpreendida pela publicação no Diário de Notícias da notícia da nomeação da nova directora e resolveu de imediato pedir a sua passagem à reforma. 

Uma fonte do IPPC viria posteriormente a justificar a substituição pela «necessidade de imprimir maior dinamismo ao MNAA», referindo a propósito que «várias salas se encontravam encerradas» mas omitindo qualquer menção às obras prestes a terminar. Outras notícias entretanto publicadas insinuam erradamente que diversas obras essenciais do acervo do Museu não se encontravam patentes ao público. 

Quanto a Natália Correia Guedes, foi fundadora do Museu do Traje e primeiro presidente do IPPC, dirigindo últimamente o Museu dos Coches, uma instituição considerada de menor importância. Uma vez que possui «o mais forte currículo da profissão», segundo reconhecem outras fontes ouvidas pelo Expresso, não é a sua nomeação que se presta a ser objecto de críticas, mas apenas a forma como todo o processo foi conduzido.



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Despachar o património 


28 Dez. 1990 Cartaz. P. 34-5.


SABE-SE que as coisas estão mal nos vastos domínios do Património Cultural. Fica agora a temer-se que estejam muito pior do que se sabia. Isto é: a partir de agora só se sabe o que o sr. presidente quer que se saiba. Sem autorização, ninguém fala. 

O despacho é de 6 de Dezembro. Aí fica dito que qualquer responsável dos «Serviços Centrais, Regionais e Dependentes do Instituto Português do Património Cultural”, (ou seja, por exemplo, o director de um museu) só pode conceder entrevistas «excepcionalmente e mediante autorização da Direcção». O «relacionamento» com os meios de comunicação social passa a ser «exclusivamente assegurado» pela mesma Direcção do IPPC através do respectivo Gabinete de Imprensa. 

A medida de controlo administrativo assinada pelo presidente do IPPC, Carlos Antero Ferreira, visa silenciar pessoas que não são meros funcionários públicos mas responsáveis por instituições culturais de primeira importância, e contraria em absoluto uma anunciada intenção programática de atribuição progressiva de autonomia (administrativa e financeira) a museus e palácios nacionais, de que Queluz deveria ser um primeiro e próximo exemplo. 

Trata-se agora, afinal, de reforçar o centralismo de uma entidade já reconhecida oficialmente como um dos maiores «monstros» da administração pública, impondo a funcionarização estrita de responsáveis que, pela sua função de animadores culturais, de criadores, de investigadores, etc., deveriam ser algo mais que anónimos servidores do Estado todo poderoso. 

 O acesso de autoritarismo sucede-se a notícias vindas a público sobre um pedido de exoneração apresentado pela direcção do IPPC, na sequência de críticas à  ineficiência dos respectivos serviços formuladas pelo próprio secretário de Estado da Cultura. O que permite pensar que as razões da crise não foram resolvidas, mas que se procurou acautelar o silêncio futuro sobre os seus efeitos. 

Há motivos para impor o silêncio, de facto, quando a situação dos principais museus do país se encontra à beira da ruptura, com obras de conservação paralisadas, com os programas de exposições temporárias reduzidos ao mínimo (e em muitos casos suportados por entidades privadas), com funcionários com salários em atraso, com insuficiente condições de segurança e vigilância, com os recursos mínimos de funcionamento esgotados e com o pagamento das contas da água, electricidade e telefones com meses de atraso (em vários casos sob ameaças de corte eminente dos fornecimento por parte das empresas públicas). Invocando as razões gerais da redução do .défice do sector público, os orçamentos de 1990 sofreram congelamentos que não permitiram sequer corrigir os efeitos da inflação; para 1991, apesar do crescimento do montante global atribuído pelo OGE à Cultura, foram impostos a todos os serviços valores «iguais aos montantes orçamentados para 1990, após os congelamentos», para além das despesas em remunerações permanentes e dos investimentos assegurados pelo PIDDAC. A conjuntura é de tal modo grave que já só a imposição autoritária do silêncio, após algumas primeiras «fugas» de informação, pode travar o protesto - em muitos casos, o desespero - dos responsáveis. 

Não são estes, naturalmente, os considerandos invocados pelo despacho de 6 de Dezembro. O que aí se diz é que «se torna imperioso evitar o veicular de informações parcelares e desinseridas de um contexto mais vasto e global inerente às políticas e prioridades de gestão superiormente definidas e aprovadas». 

As «prioridades de gestão» da SEC são hoje as do curtíssimo prazo: preparar festividades pré-eleitorais e substituir os dirigentes que se demitem. O património pode esperar mais uns meses. Em silêncio,

sábado, 30 de junho de 1990

1990, Sol LeWitt no Belém Clube-Museu, Fernando Gonçalves. E 1993 o Zutzu

 

O Belém Clube de Fernando Gonçalves (ex São Jerónimo - depois Zutzu...) com intervenção de Luís Serpa, arquitectura de interiores de Manuel Graça Dias.


1993, no Restaurante Zutzu

03-27-93


Pedro Cabrita Reis tem desde o passado sábado uma obra instalada num espaço exterior de Lisboa. A encomenda é do Restaurante Zutzu, inaugurado em Janeiro sobre o mercado da Rua de São Bento (R. Nova da Piedade 99), e "as alquimias da cozinha" estiveram, naturalmente, na base da sua concepção: é um grande painel rectangular e vertical com cinco por três metros, cuja superfície plana, em cobre, é animada por autênticos tachos de diferentes dimensões, formas paralelipipédicas e tubagens, sempre igualmente em cobre, ou também de borracha preta no caso de alguns tubos que estabelecem ligações entre os objectos. 

A obra (de "arte pública", para usar uma terminologia em voga, mas pouco precisa) eleva-se a partir da porta do restaurante - que foi desenhada, tal como o seu interior, mobiliário e serviço de louças, pelos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira - até se destacar sobre o início do telhado. Dotada de alguns pontos de luz própria, esta escultura de parede, monumental, ganha assim uma presença diversa de dia e de noite. 

Instalado no local no primeiro dia de primavera, o trabalho de Cabrita Reis será substituído no início do Outono por outra obra da autoria de Julião Sarmento, de acordo com o projecto do proprietário do restaurante, Fernando Gonçalves, que esteve anteriormente ligado ao São Jerónimo e ao Belém Clube-Museu: a rotação das peças deverá seguir o seu curso bi-anual e todas elas serão realizadas com vista à posterior desmontagem e reutilização noutros locais. "O destino das obras não será uma garagem", garante Fernando Gonçalves, cujas intervenções mecenáticas se têm alargado ao patrocínio de exposições. 

Quanto à peça, pode dizer-se que cumpre eficazmente a função de criar um acontecimento sobre uma fachada de certa pobreza arquitectónica, não se limitando a constituir um simples elemento decorativo. É um objecto de forte visibilidade, que interrompe a parede sem excessiva agressividade, e cujos elementos referem sem complexos a actividade que se desenvolve no interior, ao mesmo tempo que prolongam o vocabulário metafórico de Cabrita Reis, depois de outras obras onde explorou as ideia da casa ou o interior doméstico, a água e a sua circulação, ou o hospital e a presença da morte. 

Sobre o restaurante, acrescentar-se-á que não se tem dedicado apenas a cuidar do cenário, e que as incursões feitas se revelaram igualmente satisfatórias. Mas essa é matéria para outro especialista.