sábado, 24 de março de 1990

1990, Cutileiro, retrospectiva no CAM (Hellmut Wohl)(24 03)

 JOÃO CUTILEIRO

Gulbenkian/CAM

24 03 90


Uma imensa obra que, para além do seu êxito público, constitui um problema levantado ao usual entendimento crítico e histórico da evolução artística: J.C. significa a permanência de uma escultura de que sucessivamente se anuncia o seu fim, enquanto trabalho sobre a representação humana, sobre os subgéneros do torso, do retrato, da figura equestre, etc, sobre a monumentalidade, sobre a fronteira do «decorativo». E não se deverá falar de sobrevivência, mas antes do enorme prazer que resulta da continuidade de várias tradições (através das leituras de Rodin, Brancusi, Moore, Giacometti, etc) e da materialidade própria das obras, enquanto sensorialidade das pedras e sensualidade das formas. É da criação de um mundo que se trata, um mundo povoado e compulsivamente reconstruído à imagem da Criação. 

A montagem não pretendeu evitar efeitos de excesso e repetição, optando por privilegiar alguns dos tópicos da obra; outros temas não foram representados, como os «Amantes», os cenários habitados (exp. 111, em 1972), a «Genitalia invendabile» (Leo, 1986). De destacar ainda a importância do catálogo e em especial do estudo de Hellmut Wohl, de há muito um observador atento da arte portuguesa.

No CAM, José Pedro Croft, José Esteves, Pedro Fazenda, Maria Felizol, Manuel Rosa, António Campos Rosado e Silvia Westfalen comparecem numa exp. de «homenagem», assinalando a importância da acção de J.C. para a continuidade da escultura em pedra.(Até 22 Abr.)




sábado, 3 de fevereiro de 1990

1990, U-ABC, Uruguay, Argentina, Brasil, Chile: exp do Stedelijk, Gulbenkian (03-02)

Do sul da América, 13 pintores ou escultores e 10 fotógrafos.

Do Brasil Adriana Varejão,, Emmanuel Nassar, Tunga, Daniel Senise, Leda Catunda, Hilton Berredo

Anna Marianni e Sebastão Salgado

Luis Benedit, Argentina


sábado, 13 de janeiro de 1990

1990, Artes e Leilões nº 2, Joaquim Rodrigo: "O espaço certo"


 

1990, 1994, Museu do Chiado ex-MNAC: "O próximo MNAC", 1990 e "Salvo pelo fogo", 1994

 Franceses renovam MNAC - 1 Dez.90 

O próximo MNAC


13 Janeiro 1990. Cartaz, Actual, pág. 35


Depois do incêndio: O museu fora encerrado em 1987, passando a considerar-se a possibilidade de o instalar noutro local. Pelo despacho nº 37/89, de 10 Abril, Teresa Gouveia nomeia RHS para dirigir o tratamento da colecção, referindo a adaptação do local a galeria de exposições, até à ulterior redefinição dos espaços e da segurança do antigo MNAC.



QUE seria do Museu Nacional de Arte Contemporânea se não fosse o incêndio do Chiado? O mais provável era que todos se fossem esquecendo que um dia o eng. António Lamas (ex-IPPC... ) mandara fechar as portas à indigência em que sobrevivia. 

Houve o incêndio, voltou a falar-se da reanimação da zona, o Governo francês dispos-se a lançar uma acção local de apoio, um arquitecto de nomeada deixou-se fascinar pelo velho Museu, em Maio de 89 foi nomeada uma comissão de reinstalação. E as obras já começaram. O projecto de arquitectura, sob o patrocínio de um «Comité de Parrainage» presidido por Mitterand, integrado por três dos seus ministros, instituições e personalidades francesas, só estará concluído por Março ou Abril, mas já há andaimes na Rua Serpa Pinto e fazem-se sondagens arqueológicas no antigo jardim. 

Jean Michel Wilmotte é um dos arquitectos responsáveis pelas novas áreas do Louvre (nomeadamente aquela onde é evocada a própria história do edifício), especialista na reinstalação de antigos museus. Para o MNAC tem o projecto de integrar o edifício anexo (comprado em 1965 e onde apodreciam as reservas) utilizando-o como entrada principal, área de recepção e distribuição da circulação, zona de exposição de escultura e depois, já no piso superior, como galeria de exposições temporárias. No topo abrir-se-á ainda um enorme terraço com vista para o Tejo. É um edifício misterioso, este anexo, de grossíssimas paredes, enorme pé direito e tecto abobadado a sugerir antiga cisterna; sobre ele ainda subsistem os fornos improvisados para que os frades de S. Francisco abastecessem de pão a cidade que sobrevivera ao terramoto (irão ficar integrados na nova galeria temporária). A passagem às antigas instalações abrir-se- á ao nível do actual jardim, que será escavado para alargar espaços. 

Por outro lado, deverá proceder-se a um reordenamento de zonas interiores por troca com a ESBAL. Para uma fase ulterior, quando, um dia, um qualquer ministro ou secretário conseguir negociar ou impor-se à PSP, ficará a solução dos graves problemas de vizinhança com o paiol, a garagem e a cantina da corporação. 





Entretanto, já os projectos prévios permitem ver que, para além de se poder dar uma nova vida ao antigo MNAC, ficará no Chiado uma apreciável obra de arquitectura. A cargo da França correrão as despesas de Wilmotte, incluindo os estudos de equipamentos de iluminação, segurança, aquecimento, etc, enquanto os custos da execução vão caber ao IPPC. As condições básicas do acordo encontram-se já definidas entre este e os patrocinadores franceses. Com os trabalhos actuais procede-se à limpeza do anexo e à recolha de dados de engenharia ainda necessários ao projecto, além dos estudos arqueológicos. Em Setembro/Outubro deverão arrancar as obras, para durarem cerca de um ano. 

Quando elas se concluírem, o que vai expor o Museu? A coordenadora do grupo de trabalho para a reinstalação, Raquel Henriques da Silva, tem projectos: Eduardo Viana (o menos conhecido dos modernistas) na primeira exposição temporária, que poderá depois viajar para a Europália; em permanência, o séc. XIX e o XX até 40, sujeitos a rotações temáticas, cronológicas, monográficas, segundo o ritmo de restauro e estudo da colecção. 

Mas se esse limite cronológico é o objectivo do MNAC, a verdade é que a questão aparece ainda envolta em hesitações. Fontes portuenses dão conta de largas ambições de Serralves, que traduziriam, aliás, a incapacidade dos responsáveis pela respectiva Fundação e o seu Museu de definirem um projecto próprio. Sugere-se que se não houver um «dote» avultado em quadros por parte da SEC não aparecem os dinheiros para o Museu; diz-se que «eles» querem os primeiros modernistas para o Porto, o que, no entanto, iria prolongar o passado do Museu até 1910 e afogá-lo à partida num século de pequenas histórias; «parece» que o projecto, lógico de todos os pontos de vista, de começar em 40, com os inde- pendentes, os abstractos e os neo-realistas (a 3ª geração modernista), que se afirmaram no Porto, esbarra com os argumentos da ignorância e do novo-riquismo. 

Neste capítulo permanecem as dúvidas. Não são as únicas, novamente segundo Raquel Henriques da Silva: para onde poderão ir as reservas do MNAC (perto de 600 obras ainda na Cidadela de Cascais, 200 na Ajuda, 300 esculturas no Panteão, 200 em Queluz além das 160 que aí estão expostas até Julho e mais uns 1500 dese- nhos)? A que ritmo se farão os restauros que quase todas precisam e para quando ficará a construção, no Paço do Lumiar, da projectada grande zona de reservas que servirá este e outros museus? 


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? 1993?


EM 13 de Janeiro de 1990, o EXPRESSO anunciou que a inauguração do novo Museu Nacional de Arte Contemporânea estava prevista para Setembro do ano seguinte, ainda a tempo de apresentar a retrospectiva de Eduardo Viana que a seguir se levaria à Europália. Uma fotografia das obras já iniciadas no edificio anexo e um desenho do anteprojecto de Jean-Michel Wilmotte provam que não se tratava de uma miragem. O calendário da época, estabelecido enquanto decorriam o levantamento dos edificios e as pesquisas arqueológicas no terreno, previa a entrega do projecto definitivo em Março/Abril de 1990 e, depois, cerca de um ano de obras. Muita água haveria de correr sob tal ponte, mas não é esta a ocasião propícia para remexer em arquivos, agora que, a tempo das celebrações da Capital Cultural, as portas vão abrir. 


Tudo começara em 1987, quando António Lamas, à data presidente do Instituto Português do Património Cultural <ao tempo da SEC Teresa Gouveia>, mandou encerrar compulsivamente o MNAC «pelo estado degradante das suas colecções [ e] particularmente das suas reservas», conforme recorda o catálogo do Museu do Chiado, que vai estar dentro de dias em distribuição. Uma comissão dirigida por José Luís Porfírio foi então encarregada do estudo do património museológico e das condições do edifício que o acolhia desde 1911, e «encarou-se seriamente a possibilidade de instalar o Museu noutro local» - é o que se lê num despacho assinado em Abril de 1989 por Teresa Patrício Gouveia. 


Mas, entretanto, deflagrara o incêndio do Chiado - e nessa manhã de 26 de Agosto, por medida cautelar de emergência, as colecções do MNAC foram evacuadas para a Cidadela de Cascais. Afinal, eram as mesmas chamas que não atingiram o Museu que iriam determinar a sua salvação. Aconteceu que a necessidade de garantir a revitalização da zona da catástrofe desaconselhava de «prosseguir com a ideia de abandonar o actual local, por não ser admissível retirar do Chiado um equipamento cultural» (no despacho citado); por outro lado, surgiu a oferta francesa de uma contribuição para a recuperação da área. Como toda a zona ardida estava entregue ao planos de Alvaro Siza, essa ajuda teria de situar-se nas imediações. Foi então que Jean-Michel Wilmotte, guiado por António Lamas, se apaixonou pelo projecto do Museu e pelas suas dificuldades. 

Em 1990, houve mudanças no Governo; Raquel Henriques da Silva, entretanto nomeada coordenadora do MNAC, foi afastada por Antero Ferreira; o projecto arquitectónico definitivo seria entregue, já a Santana Lopes, em Dezembro de 1991, na Embaixada da França, anunciando-se a conclusão da obra para finais de 1992 ou de 1993, conforme os declarantes (custo então calculado: 300 mil contos). Depois, Simoneta da Luz Afonso tomou posse como directora do Instituto Português dos Museus, e a recuperação do antigo MNAC veio a dar lugar ao Museu do Chiado; Raquel Henriques da Silva voltou à sua direcção; em meados de 93, as obras arrancam.

 

Nas entrelinhas desta cronologia deliberadamente discreta ficam os mais polémicos episódios desta história: a partilha de parte do espólio com o projectado Museu de Serralves (por compromisso de Teresa Gouveia) e as negociações de espaços com os vizinhos do quarteirão, a PSP, o Governo Civil e a Escola de Belas-Artes. Os primeiros mantêm as mesmas posições defensivas no centro histórico e a segunda acabou por ganhar 200 metros quadrados de área expositiva e impor o que talvez seja o mais intrincado circuito museológico do mundo (já sem o primeiro piso com janelas para o jardim e a projectada ligação subterrânea com a biblioteca da Academia Nacional de Belas-Artes). 

Os principais heróis desta aventura consideram, no entanto, que o que importa é apreciar a obra feita e admitem que o futuro continuará a ser propício ao Museu do Chiado. Um dia, talvez venha a ser possível resolver a complexa interpenetração de espaços entre a Escola e o Museu - que é perigosa, além de absurda. O arquitecto Wilmotte está disponível para repegar no trabalho. E, aliás, é toda a redignificação do enorme quarteirão do convento de São Francisco, como pólo central de um futuro Chiado vivo, que fica em projecto. 


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Salvo pelo fogo


12 Julho 1994 - EXPRESSO Revista pp 24 a 27


O  MUSEU ESTAVA ENCERRADO À DATA DO INCÊNDIO E RENASCEU DAS CHAMAS  QUE NÃO O ATINGIRAM COM UM MAGNÍFICO PROJECTO OFERECIDO PELA FRANÇA 


SE NÃO fosse o incêndio do Chiado, se não fosse a Capital Cultural, que teria acontecido ao velho Museu Nacional de Arte Contemporânea, agora rebaptizado Museu do Chiado? 

É o primeiro edifício, mesmo ao lado das obras de Alvaro Siza, a marcar o novo Chiado. Renasceu das
cinzas que não chegaram a atingi-lo na noite de 25 de Agosto de 1988 (ver caixa) e vai ser inaugurado no próximo dia 12, para ficar como uma das memórias de Lisboa 94, tal como as obras do Museu de Arte Antiga e do Coliseu, ou o «lifting» da Sétima Colina. 

No mesmo local, aparentemente quase inalterado, da Rua Serpa Pinto, situa-se agora uma excepcional obra de arquitectura, que constitui - para além da revalorização do antigo recheio do Museu, balizado por um século, de 1850 a 1950, e da prometida actividade futura da galeria de exposições temporárias, que abrirá com os calo tipos do pioneiro Frederick William Flower, apresentado pelo Arquivo Nacional de Fotografia - uma intervenção exemplar no centro histórico da cidade. 


Nenhum passe de mágica enriqueceu a antiga colecção de arte portuguesa do velho/novo Museu, mas o edifício que se vai visitar ganhará uma projecção insuspeitada pelas qualidades da sua arquitectura internacional. O «milagre» chama-se J ean- Michel Wilmotte, de 46 anos, um dos mais destacados arq ui tectos franceses da actualidade, que é também um dos autores do Grande Louvre (Ala Richelieu, salas de exposições temporárias, livraria, etc.). 

Wilmotte, que constrói edifícios moderníssimos em Tóquio-onde tem um dos seus três escritórios, a par
de Paris e Nimes-, é um especialista das intervenções brandas em lugares patrimoniais. A sua actuação, sempre guiada pela força das contingências, pelo espírito do lugar e por uma extrema aplicação nos pormenores e nos acabamentos, ao mesmo tempo maximamente discreta e superiormente sofisticada, é uma obra total, que vai da pele exterior dos edifícios à arquitectura interior, do desenho do mobiliário àilurninação, incluindo ainda as vitrinas e os plintos das esculturas. 


Depois do CCB, de Gregotti Manuel Salgado, Lisboa contará com outro pólo arquitectónico de primeira qualidade, por sinal (e por imposição do espaço envolvente) de inverso sentido: tão subtil e intimista quanto o outro é monumental e afirmativo. 

A portaria do Museu desceu algumas dezenas de metros na Rua Serpa Pinto, do antigo acesso envergonhado que se abria no muro do jardim para o edifício anexo, de sóbria fachada agora embandeirada, comprado em 1965 e apenas utilizado como depósito das reservas e abrigo de pombos. Essa é uma casa de passado misterioso, adossada ao Convento de São 

Francisco, com fortíssimos pilares que sustentam um tecto de abóbadas em tijolo, sobre o qual repousa uma parede de antigos fornos de pão - supôs-se que foram instalados pelos frades para abastecer a cidade sobrevivente ao terramoto de 1755, mas as investigações mais recentes atribuem-lhe data posterior. 

Wilmotte conservou-os intactos na nova galeria temporária, perdendo em superfície de exposição mas
ganhando um forte efeito de presença da história e de diálogo entre materiais que será, sem excesso de protagonismo, um elemento adicional a interessar o visitante. 

O arquitecto defende que «um museu não deve ser um lugar monótono, com uma série de salas todas
iguais e fechadas à cidade, mas sim um lugar aberto ao exterior e animado por mudanças de cor, de luz e de materiais, para que o próprio espaço possa seduzir o visitante, mesmo que ele não seja um conhecedor de arte; é preciso que o espaço seja didáctico e que proporcione um bom passeio, e a educação das pessoas far-se-á pouco a pouco». 


PAGINAS DE HISTORIA

 

A ENTRADA do público faz-se agora por um amplo átrio semeado de esculturas no chão e em altura, num espaço belíssimo que é, desde logo, uma síntese da filosofia que conduziu todo o projecto arquitectónico e também um lugar de imediata definição do programa museográfico, de Soares dos Reis até Jorge Vieira, através de uma antologia de obras centradas num mesmo e essencial tema iconográfico, o corpo da mulher.
Entre os pilares e as abóbadas, aí se evidencia uma forma admirável de trabalhar directamente com os valores da memória e com a afirmação física dos lu- gares, explorando todas as possibilidades de diálogo entre o passado e a modernidade, numa sobreposição de páginas de história que se deixam desfolhar em todas as suas diferenças de cronologia, de materiais, de funções e tecnologias. 

A intervenção de Wilmotte resulta sempre da adição, quase cirúrgica, de novas valências ao espaço anterior, através de próteses contemporâneas que recorrem a novos materiais e sofisticadas tecnologias, numa arquitectura feita com a valorização discreta dos pormenores: «o meu trabalho é o de encontrar transições entre um material e outro», explica o autor. 

«Sempre que deparo com uma pedra interessante, opto por conservá-Ia»: as antigas paredes com as
marcas do tempo deixadas intactas, ou sublinhadas por efeito de uma iluminação minuciosa, tal como os tijolos regulares das abóbadas ou os vãos recobertos por vidro, coexistem com as novas zonas de circulação desenha- das como moderníssimos «enxertos» - greffes»- feitos sobre um espaço (quase) intocado. E nesse grande átrio, também com acesso a uma pequena livraria, que nasce, ao centro, uma escadaria suspensa, em ferro e madeira, que se prolonga por duas «passerelles» que atravessam o espaço lateralmente, em tensão: é o início de um circuito museográfico de 2.700 metros quadrados, distribuído por três edifícios que são também o testemunho de cinco séculos. 

No segundo piso do anexo, sobre um chão que alberga os equipamentos necessários a um museu moderno, situa-se a galeria de exposições temporárias, interrompida por grandes painéis suspensos e móveis, de modelo original, que dividem o espaço amplo entre a parede dos fornos de pão e as janelas para a rua. No topo do edifício, recortado por quatro chaminés de tijolo que se verão também no «logo» do Museu (embora um anexo da Escola de Belas- Artes as tenha vindo desfeitear), fica um amplo terraço com vista para o rio, que acolherá uma esplanada com serviço de restaurante. 

As passerelas que atravessam o «hall» de entrada conduzem à zona da colecção permanente, distribuída por quatro salas de tamanho variável: ir-se-á da primeira geração romântica (passando por Columbano, o pintoreoprirneirodirectorimportantedoMNAC,que continua a ter sala individual) até ao eclectismo da segunda geração modernista, enquanto aqueles a quem o mesmo Columbano chamava os «valdevinos», da Brasileira e do «Orpheu», se verão no espaço anexo de um módulo museográfico original, construído num pátio onde havia antes um pavilhão insalubre; um núcleo final sinalizará a emergência das gerações surgidas nos anos 40-50. E esse o último horizonte geracional do Museu, mas o seu programa futuro fica em aberto. A prová-lo, vai ver-se uma instalação de Rui Serra, feita sobre obras da colecção e mostrada numa apertada galeria de passagem para um segundo bar e para o jardim das esculturas. O circuito continua porum pequeno átrio dedicado à arte francesa e um monástico gabinete de desenhos; ehá espaço ainda para escritórios, mais uma sala polivalente e a zona das reservas escavadas sob o jardim (custo total, 1 milhão e 120 mil contos). A «fachada» que dá para o jardim recorta-se sobre dois vãos de escada, recobre com persianas uma área da Escola de Belas- Artes e anima-se com os ritmos das seteiras que levam luz zenital à primeira galeria permanente e dos óculos
sobre a rua, dois dos quais agora acrescentados. Só lentamente o visitante irá descobrindo as infinitas peças de um «puzzle» criado pela paixão de Wilrnotte por este Museu. «Para mim, ele foi tão importante como o Louvre», diz o arquitecto. Acredite-se. • 






sábado, 6 de janeiro de 1990

1900, Paula Rego: na Tate, na Marlborough e na colecção Saatchie (New British Art) (06-01) e na National Gallery (05-05)




Paula Rego: Tate, Saatchi, Marlborough
06 01 90


1988 foi para Paula Rego o ano da Gulbenkian e da Serpentine, ou seja, das grandes exposições antológicas em Lisboa e em Londres que tornaram mais pública a notoriedade internacional da sua pintura. Depois, ao longo do último ano, sucederam-se as confirmações da entrada da pintora portuguesa de Londres nos círculos mais destacados da circulação artística britânica.

Paula Rego já estava antes incluída entre os poucos contemporaneos ingleses expostos na Tate Gallery; recentemente, uma outra pintura de grandes dimensões foi adquirida pelo Museu: A Dança, concluída no último dia de 88.




«A Dança», colecção Tate Gallery


Igualmente significativa fora já a transferência de Paula Rego para uma das mais importantes galerias do mundo, a Marlborough, com salas em Londres, Nova York e Tóquio. Uma primeira exposição de pintura esteve prevista para esta galeria mas acabou por ser adiada por respeitáveis razões; é que, entretanto, a produção de Paula Rego dera entrada directamente em várias colecções e, em especial, na mais importante das quesão dedicadas em todo o mundo à arte actual, a Saatchi Collection. Em Dezembro, no entanto, a pintora apresentou na Marlborough Graphics uma exposição de gravuras originais; intitulada «Nursery Rhymes», era uma extensa série de trabalhos em aguatinta (em alguns casos 

coloridos manualmente) que referem directamente o universo das histórias infantis e da tradição ilustrativa inglesa, onde animais, brinquedos e crianças participam de igual modo num teatro de fantasia, realismo e crueldade. Duas séries completas dessas gravuras foram adquiridas pelo Victoria and Albert Museum e pela Saatchi.

Esta mesma série de gravuras vai ser igualmente apresentada em Lisboa pela Galeria 111, que já em Junho do ano passado dera a conhecer numerosos outros trabalhos recentes (desenhos a tinta sépia). O desenho e a gravura tornaram-se processos muito utilizados nos últimos anos por Paula Rego em paralelo com o trabalho de pintura, cuja produção passou a ser, entretanto, muito mais lenta devido à própria evolução do seu «estilo» para uma figuração de grande precisão, muito complexa na utilização das perspectivas, das sombras e da paisagem como fundo.

Entretanto, a entrada na Colecção Saatchi deu lugar à inclusão de Paula Rego num livro-calalogo intitulado New British Art in the Saatchi Collection (ed. Thames and Hudson, 15 L), onde quatro das suas pinturas recentes (vistas em 88 na Gulbenkian) surgem ao lado de obras dos pintores Michael Andrews, Frank Auerbach, Patrick Caulfield, Lucian Freud, Howard Hodgkin, Kitaj, Le-on Kossoff, Lisa Milroy, Malcolm Morley, John Murphy, Avis Newman, Sear Scully, Carel Weight e Victor Willing (o marido de Paula Rego, falecido em 88), e ainda dos escultores Tony Cragg, Grenville Davey, Richard Deacon, Julian Opie, Richard Wentworth, Richard Wilson e Bill Woodrow. Curiosamente, o que se intitula «New Art» representa um leque muito alargado de gerações, que vem desde alguns nomes da Pop britânica dos anos 60 (o que é «novo» é a própria promoção da arte britânica e a isso parece estar associada a aspiração ao título de Lord por parte dos Saatchi).

Por último, Paula Rego foi um dos sete artistas entre o quais se decidiu em Londres a atribuição do Prémio Turner de 89, uma das mais importantes distinções mundiais para um artista contemporâneo. Além dos já citados Freud, Scully e R. Wilson, a lista das nomeações incluiu Gillian Ayres, o italiano Giseppe Penone e o escultor Richard Long, acabando este por ser o vencedor.








 

sábado, 7 de maio de 1988

1988, Eduardo Luiz (n.1932)

 Eduardo Luiz 1932-1988

Expresso/Revista


07-05-1988,  p. 28R (“Na Berra”)

Eduardo Luiz vivia há 30 anos em Paris. Destacara-se nos anos 60 entre alguns pintores portugueses que no exílio então necessário participavam directamente das aventuras do que ficou conhecido como a invenção de uma “nova figuração”, e desde então desenvolvera um itinerário pessoal e solitário acolhido com extremadas reacções.
Cesariny incluiu-o entre os poucos surrealistas da sua lista de 1973, mas o pintor negava a atribuição; outros acentuavam um “preciosismo pictural algo poético” (J.-A. França) enquanto Fernando Gil, num texto de uma lucidez rara entre prefácios de exposições (Galeria 111, 1973), situava na pintura de Eduardo Luiz algumas direcções significativas de um futuro possível: “anuncia uma pós-modernidade em que seja de novo possível denotar – mas em que a denotação seja intrínseca à própria linguagem: Balzac depois de Beckett”.


Retrato Clássico, 1981, o/t 124 x 73 cm, Col. Manuel de Brito

Eduardo Luiz juntara um talento virtuosíssimo próprio à liberalidade do ensino da ESBAP dos anos 50, de que ficou a elegância de algumas longilíneas estilizações. Depois, em Paris, as suas “ardósias” ensaiavam na unidade de um mesmo suporte a conjunção de objectos comuns rigorosamente representados com sinais abstractos, escritas e garatujas, onde se abatiam fronteiras de figuração / não-figuração.

O reconhecimento da originalidade do seu percurso viera cedo, por exemplo com a ida à Bienal de S. Paulo e o prémio do Salão da Jovem Pintura na Galeria de Março, ambos já em 1953. As exposições individuais suceder-se-iam no ritmo de uma produção lenta e reflectida, entre Paris e Lisboa, as últimas respectivamente em 1987 e em 1982 – nos últimos anos o seu interesse por disputar lugares em Portugal pareceu diminuir.

Vale a pena, agora, ultrapassar facilidades de catalogação que situavam a obra de Eduardo Luiz como um modo de pintura erótica, como código surrealista e surrealizante, mesmo se a citação de Magritte é uma presença certa (ver foto – Portrait Classique, 1981). A criação pictural, como uso significante de citações e de fragmentos, a pintura como “recapitulação de vestígios”, assim a auto-definiu, era no princípio dos anos 70 uma atitude inventiva. O virtuosismo evidente não era vazio, a astúcia de um jogo de complexas cadeias significantes traduzia o esforço de “partindo da arte abstracta, fazer uma pintura que o não seja”, recusando também a “escrita pessoal, a caligrafia”: um rigoroso projecto mental. Eduardo Luiz morreu em Paris há exactamente uma semana, devido a um súbito acidente de saúde.


Em Julho de 1990, o CAM apresentou uma retrospectiva de Eduardo Luiz comissariada por José Sommer Ribeiro e Maria José Moniz Pereira. Existe Catálogo.
Em Abril-Maio de 1989, exposição e livro, Eduardo Luiz, na Ygrego (depoimentos e antologia).

Ver
"Eduardo Luiz: crítica da crítica", Expresso/Cartaz 11/08/1990, p.10-11.
"Eduardo Luiz e António Areal – Questões de método", Expresso/Cartaz 18/08/1990, pag. 8.

tb
João Pinharanda, "A mentira da pintura" e "Diálogos Norte/Sul", Público A Semana, 20/07/1990, p. 12-13.
José Luís Porfírio, "Alusão, ilusão", Expresso/Revista, 28/07/1990, p. 65R
Emídio Rosa Oliveira, Retrospectiva de EL, Sete, 2/08/90
Rui Mário Gonçalves, "E.L., um perfeccionista" / Gracinda Candeias, "Em memória de um grande amigo" / Cristina Azevedo Tavares, "A pintura como xeque-mate", Jornal de Letras, 14/08/90