sexta-feira, 5 de outubro de 1990

1990, Lapiz nº 70, dedicado a Portugal: "Artes à portuguesa" (05-10)


A "Lapiz" é a mais importante revista de artes plásticas que se publica em Espanha. Tem vindo a tornar-se uma publicação competitiva com as congéneres internacionais, articulando com êxito a actualidade local e externa, a novidade e os ritmos longos, o ensaio e a crítica, enfim, reflectindo bem a própria riqueza do mundo artístico espanhol.

No Verão publicou um número especial dedicado por inteiro a Portugal, que logo em torno do P da capa é apresentado como «um lugar longínquo e escondido para alguns europeus, mas também um país que vive uma autêntica eclosão criadora». De facto, para além de uma normal atitude promocional do produto, parece cada vez mais ilusório dizer, como diz Pilar Rubio no seu editorial, que Portugal «é um dos grandes desconhecidos da Europa».

Não é por acaso que a temporada de Madrid abriu com exposições individuais de Cabrita Reis e de Leonel Moura nas galerias Juana de Aispuru e Oliva Aruna, e que artistas como Sarmento ou Pedro Proença e João Paulo Feliciano, entre outros, também já entraram nos circuitos lo-cais. As presenças regulares na ARCO, algumas exposições de grupo, duas largas mostras panorâmicas (a colecção do CAM no MEAC e «Portugal Hoy», embora ambas pouco vistas e com contestáveis selecções) e até as colaborações portuguesas mais ou menos frequentes na imprensa espanhola têm alterado radicalmente o isolamento anterior. Portugal, afinal, vai sendo um pequeno país conhecido em Espanha, embora lhe faltem, por ser pequeno e desgovernado, os meios para explorar mais agressivamente as relações estabelecidas.


São Alexandre Melo (sob a perspectiva arte e mercado), João Pinharanda, Bernardo Pinto de Almeida (o coordenador deste número especial) e Ruth Rosengarten que se ocupam do panorama actual das artes plásticas nacionais para além de José-Augusto França com um texto distanciado e obscuro, num conjunto inicial de colaborações de «prestígio» que inclui Manoel de Oliveira e Siza Vieira. E é com estranheza que se observa o predomínio das análises globalizadoras, às quais a coincidência com o fim dos anos 80 faz tomar a forma, algo absurda numa publicação estrangeira, de balanços da década; a enumeração de artistas, de grupos, de exposições colectivas e problemas locais é levada a um excesso informativo de difícil legibilidade.

A falta de articulação entre os autores e, por outro lado, alguma possível dificuldade em seguir as mutações de superfície ocorridas ao londo da década — que corresponde, aliás, ao próprio tempo de exercício da (nova) crítica — conduz a uma dispersão de referências com um efeito próximo do da muito criticada tendência nacional para as exposições excessivamente «abrangentes» (são 26 os artistas com obras reproduzidas e muitos mais os citados!). Mesmo sendo Portugal um pequeno país, a ideia de uma apresentação global — ainda que quase restrita à «geração de 80» — está sempre condenada ao falhanço numa iniciativa deste tipo; aos críticos seria antes de pedir a clareza de opções definidas.

Por outro lado, a própria vontade de identificar a actualidade com a novidade, com os artistas «revelados» ao longo da década (com poucas excepções), é uma marca de dependência epidérmica das estratégias mais aparentes da divulgação internacional, que A. Melo expõe com a objectividade habitual. O que parece menos acertado é a sua afirmação de que «a globalização do mundo da arte se manifesta como um movimento cada vez mais forte e irreversível». Se é esse o objectivo *estratégico-e-artístico de alguns intervenientes, a resistência dos mercados e das histórias nacionais é persistentemente comprovada pela realidade internacional. Na mesma revista é Ruth Rosengarten quem o recorda «é mediante a especificidade, mais que através de uma vaga noção de internacionalidade, que tem lugar o intercâmbio e se atravessam as fronteiras culturais» - naquele que é o mais lúcido artigo da «Lapiz», dedicado a quatro pintores portugueses no estrangeiro (Vieira da Silva, Paula Rego, Pomar e Dacosta).


Sobre arquitectura escreve Paulo Varela Gomes, felizmente mais opinativo que exaustivo, enquanto o campo da fotografia é entregue a António Sena. Aqui, a exiguidade do número de autores e da sua divulgação (são duas distintas cronologias) autoriza o desafio de uma «Pequeníssima história da fotografia em Portugal» que é um trabalho inovador a merecer maior divulgação. Que essa história já se confunda em muito com a própria acção de A. Sena e da Ether não poderia ser ocultado.


(Lapiz, n° 70, Verão 1990, 98 pág., 800

P., 1400$00; 10 n°s por ano, Madrid - import. Livrarias Leitura e Gal.

Cómicos/Luis Serpa)



 

Sem comentários:

Enviar um comentário