domingo, 17 de maio de 2026

2007, Margarida Correia, "THINGS" na 111

Margarida Correia

 05/18/2007 (no Blog Typepad, depois Wordpress, agora Blogspot)

Com Edgar Martins, com Brígida Mendes, com Margarida Correia, e outros haverá, muitas das fotografias de novos autores portugueses estão a ser feitas fora de portas. Importa agora a terceira, com uma primeira exposição na Galeria 111, "Things", depois da presença forte na Monumental em 2006, com "Saudade", onde tinha sido também possível consultar o prometedor catálogo de  "Gueiko e Maiko", de uma exposição em Torres Vedras. 

A partilha de espaços de escrita <no Expresso>tinha então adiado um primeiro comentário, e agora confirma-se que se consolida a coerência do trabalho e a continuidade dos processos e  projectos, com a variação suficiente para se tratar de um aprofundamento de direcções.  A revisão do percurso pode fazer-se em https://www.margaridacorreia.com/


 

 Living room I, 2006, C-Print (74 x 94 cm)  

Tratava-se então (2006) de uma série de trípticos ou de composições triplas, onde constavam uma fotografia familiar recuperada, em geral cena ou retrato de grupo; o registo isolado e objectivo, actual, de um objecto reconhecível nessa primeira imagem, quase sempre uma peça de vestuário (ou chapéu, óculos), e  de um retrato contemporâneo de alguém que usa esse mesmo objecto. Nesse jogo de reconhecimentos abria-se um trânsito entre épocas, gerações, gostos ou modas vestimentares, mas era também o retrato contemporâneo, em condições de encenação e cumplicidade com o fotógrafo, que se afirmava como género, ou como problematização de uma prática. De uma adivinhada circulação familiar (passando de mães a filhas os objectos e as suas memórias, ou situações) transitava-se também para uma relação de companheirismo entre artista e modelo. O que poderia ser um exercício escolar tinha uma eficácia e uma abertura de sentidos, uma suspensão de certezas, que lhe asseguravam outra projecção.    

Agora importam os cenários domésticos e os retratos neles situados, sempre discretamente expostos, avolumando-se uma ideia de concentração sobre dois lugares (Roterdão e Lisboa) e duas famílias, num processo de lenta aproximação do observador a espaços e relações de intimidade - o site confirma a identidade e a localização de duas séries paralelas. Importam as figuras retratadas, entre exposição e intimidade, os espaços ou cenários em que se incluem, a relação entre ambos (as figuras e os seus lugares), alguns objectos que  assumem uma presença mais relevante e certamente significativa, algumas redes de relações familiares que se sugerem ou esboçam, mas também os lugares por si mesmos, só parcialmente ou parcimoniosamente legendados. Há sempre sucessivas leituras para cada fotografia, isolada, em sequência, revendo-se o conjunto, etc.

Numa grande variedade referencial das imagens fotográficas, surgem fotografias isoladas (retratos, pormenores de interiores domésticos, objectos), mas também dípticos e trípticos, por vezes incluindo páginas de álbuns fotografadas onde se reencontram os objectos vistos nas fotos actuais. Havendo um prévio projecto estabelecido, a produção dos trabalhos (as fotografias isoladas ou em séries) parece construir-se como o avolumar da distância entre o programa e o resultado - nada é óbvio ou unívoco. A cada aproximação as imagens parecem resistar mais à ideia da ilustração de um projecto, ganham  sempre mais  densidade significante,  atraem mais a curiosidade   do observador e mantêm-no à distância.

Note-se como mesmo no caso mais directo de apropriação de uma fotografia anterior se criam as sucessivas instabilizações de sentidos, num contexto (ensaio ou ficção?) em que o que se vê é sempre a pequena parte do iceberg.

(?) 


Daphne de Jong, MOMA (1982), 2006, C-Print, 25" x 20" (64 x 51 cm)




sexta-feira, 15 de maio de 2026

1987, "OS PINTORES DA EUROPA" à escolha para Estrasburgo em 16 de maio

 OS PINTORES DA EUROPA, parte I, 16 maio 1987

Propostos 16 pintores para a escolha de 2 nomes pelos leitores do Expresso


1987, "OS PINTORES DE EUROPA", exposição-concurso e colóquio

 UM EPISÓDIO EUROPEU EM 1987, OBVIAMENTO ESQUECIDO

A PINTURA DA EUROPA APRESENTADA EM ESTRASBURGO, EXPOSIÇÃO CONCURSO por iniciativa da revista EIGHTY

16 países e 75 artistas - 4 portugueses. 

Por Portugal: António Dacosta e Graça Morais, por escolha dita institucional; Paula Rego e Eduardo Batarda escolhidos por votação "popular". Participaram na selecção o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, o Tempo e o Expresso (4 páginas e "16 PINTORES DOS ANOS 80", na Revista de 16 maio)

Arquivo Expresso, 12 dezembro 1987 (artigos de José Luis Porfírio: "Grandes e pequenos em Estrasburgo" e A P: "Por um lugar no mercado" - exposição e colóquio no Parlamento Europeu com Bonito Oliva)

terça-feira, 5 de maio de 2026

2026, "Tratado", livro de amigos e de retratos do José M. Rodrigues, edição EGEAC

 Já saiu o livro da exposição do José M. Rodrigues na Galeria Avenida da Índia, 28 09 a 22 12 2024. "Tratado". Era um espaço ingrato, árido, enorme, mas o livro é perfeito.

São retratos de amigos e familiares, tornados intimidades fotográficas e exercícios de invenção do que pode ser o retrato. Sempre em poses demoradas, pensadas caso a caso, ao ritmo (não ao acaso) das relações, das cumplicidades, das situações de comunicação mútua, intercomunicação encenada e afinal sempre surpreendida, vivida e/ou vívida. É um trabalho muito pessoal, mesmo íntimo, mas aberto, uma escolha de amigos que paradoxalmente se dirige a todos os não-participantes e observadores disponíveis. Retratos frontais ou não (os rostos ocultados, até por vezes de costas), dialogando com a paisagem ou o próximo ambiente natural, a vegetação, com alguma iluminação dirigida e por vezes com uso de espelhos. Mãos, cabelos, corpos, alguns auto-retratos não narcísicos, rostos singulares ou grupos de 2 e 3, nomes com datas nos títulos, no final, em geral muito recentes (2022-24) mas também vindos desde 1996 - o retrato e/ou a presença de modelos, os rostos e corpos, são uma das muitas "vertentes" da muito extensa e diversa obra do José Rodrigues.
Magnífica impressão na Maiadouro, em apenas 300 exemplares, edição EGEAC / Galerias Municipais. 40 fotografias em páginas duplas, abreviando a exposição.
Magnífico design gráfico de Arne Kaiser https://www.arnekaiser.com/ Os livros são cosidos e todas as fotos ocupam mais do que uma página, com cortes meticulosamente medidos.
Textos a ler de Óscar Faria, comissário da exposição, de José Bértolo sobre "alguns livros de José M. Rodrigues", do próprio artista e dos responsáveis pela programação da galeria (Sara Antónia Matos e Pedro Faro).

2022, viagem a Gandía: Fideuà uma reportagem

 Fideuà em Gandía (aliás Daimús), 01 10 2022, uma festa familiar, uma narrativa:

segunda-feira, 4 de maio de 2026

2026, o José Manuel Rodrigues e Gandía, memórias nos seus 75 anos

 A fotografia e o resto



Desfoco da fotografia para me lembrar de uma viagem directa a Gandía com o Zé, partilhando o volante. Abaixo de Valência, aonde nunca tinha descido; a cidade de onde partia a família dos Bórgias no século XV - o Zé dedicou-lhe uma série conceptual "La producció de la presència", em 2010, evocação teatralizada dos tempos dos três papas, com que interveio nas celebrações do 5º centenário do nascimento de São Francisco de Borja (foi o 4º duque de Gandia, 1510-1572; wiki/Francisco_de_Borja).


Era então (01 a 04 outubro 2022) o tempo das festas -- Fira i Festes, em honra desse São Francisco, patrono da cidade --, nos inícios de outubro, e nunca vi nada assim: os espectáculos de rua ao longo do percurso demarcado, com excelentes teatros, orquestras e circos actualizados, e depois o cortejo nocturno dos demónios mascarados e do fogo de artifício lançado aos pés dos espectadores-participantes, ora em fuga ora envolvidos pela cor, fumo e pólvora: o Correfoc de la Colla de Dimonis numa "noite mágica de fuego y tradición", e em Espanha as festas antigas mantém uma energia única, organizada e vibrante (o grande Cristóbal Hara visitava-as com génio, e a Cristina García Rodero também). 

E igualmente em Gandía acedi à excelência das paellas locais (mais o fideuà e arròs a banda ou al forno) em festas familiares e almoços de fim de semana com casais amigos da Fabi. Uma ocasião sem paralelo de gastronomia convivial só acessível aos íntimos. Eram dois lados da Espanha viva, em toda a sua excelência.


Outra memória pode ser a das fotografias do Zé que aconteceu programar por três vezes. Parte substancial do meu gosto pela fotografia vem da lição do Zé, quando comecei a acompanhar os Encontros de Coimbra, aos quais trazia os seus contactos holandeses, quando era possível reunir no programa Nozolino, Molder, o José Rodrigues (ainda sem o M. de Manuel), mais a Ether de António Sena. Isto logo em 1982 nos 3ºs Encontros, ainda não havia o Albano, quando se afirmou a geração dos novos fotógrafos nacionais e já internacionais, quando o público da fotografia convergia em Coimbra. Foi um dos fundadores do grupo Perspektief de Roterdão, programava a respectiva galeria e trouxe "A touch of Dutch Photography".

sábado, 2 de maio de 2026

ARQUIVO 1996, há 30 anos, um mês de abril de exposições internacionais em notas do Cartaz do Expresso

Um mês em 1996, abril 

A circulação de exposições não era o que é hoje. Via-se Matisse na Fundação Arpad & Vieira, o Grupo Cobra (vindo do Stedelijk de Amsterdão) e Julio González (do Centro Reina Sofia) e ainda a Magnum na Culturgest, Tàpies no CCB, vindo do Auditorio de Galicia, de Santiago de Compostela - e outros mais; havia vários colaboradores a escrever notas e artigos. E viam-se pintores africanos no Espaço Oikos, uma ONG sediada junto à Sé que à época tinha uma assinalável acção cultural e importava a Revue Noire. 

A circulação internacional de exposições chegava a Portugal; mais tarde são só os directores e comissários que viajam. Não há informação, não há referencias. Nesse ano ainda se poderiam ver em Lisboa GEORGE ROUAULT na Gulbenkian, ARSHILE GORKY no CAM, NAM JUNE PAIK e TOM WESSELMANN na Culturgest.


05 04 96

EDOUARD BOUBAT

Institut Franco-Portugais

Todos os lugares comuns foram ditos sobre Boubat, o «correspondente de paz» segundo Prévert, mas as suas fotografias, que se sabe serem um dos paradigmas da tradição humanista, descobrem-se ou voltam a ver-se incólumes à passagem do tempo, dos estilos ou das modas. São raras, aliás, as suas imagens que transportam a marca de um tempo preciso, talvez porque, como sucede com as fotografias da Nazaré e do Minho (1956-58) ou com a série «Anjos», sobre as procissões do Norte (1973), nelas reconhecemos — em «momentos em que não se passa nada, salvo a vida de todos os dias» — as marcas mais fundas de um país. «Les Voyages» reúne imagens feitas ao longo de quatro décadas, do México ao Tibete, e é uma notável exposição. (Até 29)

A 15 04 "Toda a beleza do mundo - as viagens fotográficas de Boubat, com passagens repetidas por Portugal"



Edouard Boubat, «Nova lorque, Ponte de Brooklyn», 1982



HENRI MATISSE

Museu Arpad Szenes/ Vieira da Silva

Nos estudos para a grande pintura mural "A Dança", encomendada pelo Dr. Barnes, no início dos anos 30, Matisse serviu-se pela primeira vez do recorte de papeis previamente coloridos a guache, processo que continuaria a usar quando a idade ia tornando mais difícil o manejo dos pincéis, e que lhe permitiria explorar novas relações entre a cor e o desenho. «Recortar a cor ao vivo lembra-me o talhe directo dos escultores», escreveu o pintor em "Jazz", um belíssimo livro publicado em 1947, impresso ao «pochoir», cujas «imagens de tons vivos e violentos provêm de memórias cristalizadas do circo, de contos populares ou de viagens». (até 5 Maio)