quinta-feira, 9 de abril de 2026

2006, Dreyer & Hammershoi no Ordrupgaard de Copenhaga

 Dreyer & Hammershoi

O pintor e o cineasta reunidos numa exposição exemplar, em trânsito entre Copenhaga e Barcelona 

07-10-2006




«Interior», c. 1903-04
 
Vilhelm Hammershoi não é só um artista relevante no mapa da pintura dinamarquesa. As retrospectivas que o apresentaram no Museu d’Orsay e no Guggenheim de Nova Iorque em 1997-98 (e na Kunsthalle de Hamburgo em 2003) revelaram um grande artista solitário da viragem dos séculos XIX e XX. A obra, alheia às vanguardas oficializadas pelas sínteses da história da arte, chegou a ser bastante admirada fora da Dinamarca, mas o pintor (1864-1916) mergulhou no esquecimento ao desaparecer com 52 anos durante a I Guerra Mundial. Sucedem-se nos seus quadros, melancólicos e austeros, pequenas variações de vistas de quartos desertos ou com vultos femininos isolados e absortos, por vezes de costas. O silêncio dos espaços e das figuras, na ausência de episódios narrativos, leva a que sobre eles se projectem interpretações opostas. Atravessa-os uma estranha tensão entre vazio e harmonia, entre a calma e equilíbrio de uma intimidade reservada ou a angústia de um drama secreto, prisão doméstica ou ameaça, talvez um peso existencial de matriz protestante. Pintou também, sempre numa gama estreita de cores, dominada pelos cinzentos, alguns nus monumentais e enigmáticos, retratos, paisagens enevoadas ou sintéticas e lugares históricos.

A descoberta de Hammershoi começara já antes com a valorização das diversidades nacionais na pintura dos séculos XIX-XX e o interesse pelo simbolismo. Os países nórdicos estiveram em foco em «Northern Light: Realism and Symbolisme in Scandinavian Painting», com direcção de Kirk Varnedoe, em Washington e Nova Iorque, em 1982-83, acompanhada por mostras em ambas as cidades dedicadas apenas ao «pintor do silêncio e da luz».

O americano James Whistler é uma referência directa, visível na simplificação das linhas e da gama cromática que se afasta do realismo convencional, e é mais geométrica e ascética no dinamarquês. A associação ao simbolismo faz-se por via da melancolia enigmática, mas sem revivalismos românticos e mitos nórdicos, o que o liga aos belgas Fernand Khnopff e Léon Spilliaert. Robert Rosenblum, do Guggenheim, traçou afinidades desde Vermeer e Pieter de Hooch a Caspar Friedrich e a Edward Hooper. A mostra de Hamburgo, que chamou a Hammershoi um protagonista do movimento simbolista, colocou-o em diálogo com obras de Ferdinand Hodler, Khnopff, Degas, Nolde e Valotton. Entretanto, têm sido referidos ecos em artistas recentes como Gerhard Richter ou Luc Tuymans, por via da imitação de fotografias (o olhar fotográfico de Hammershoi é outra coisa), e até em Gregor Schneider (já visto em Serralves), cuja casa Ur faria referência aos espaços domésticos do dinamarquês.


 


«Gertrud», 1964
 
Uma nova exposição no Ordrupgaard de Copenhaga (o Museu do Impressionismo Francês, que em 2005 Zaha Hadid ampliou com um novo edifício) veio agora abordar Hammershoi através da relação com Carl Dreyer (1889-1968), apontado como o seu melhor herdeiro e passando da atenção à história da pintura para a observação dos dispositivos imagéticos e narrativos do cinema. No catálogo de 97, Poul Vad, biógrafo do pintor, começava por afirmar que Dreyer encontrou nele, logo em 1918, a combinação da intensidade emocional com uma austera e clássica estrutura visual que marcou o seu sentido da composição da imagem e desenho cenográfico dos filmes. Gertrud (1964) é, para um dinamarquês, inimaginável sem Hammershoi. A tese foi posta à prova numa retrospectiva paralela de Dreyer no Museu d’Orsay. E é ela que está na origem da exposição «Hammershoi >Dreyer. The Magic of Images», inspirada e co-comissariada por Jordi Balló, director do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, que a receberá em Janeiro-Abril. Jordi Balló é autor de Imágenes del Silencio, Los Motivos Visuales en el Cine, sobre composição visual e sentido iconográfico, ou seja, sobre dispositivos fílmicos cujo poder evocativo e riqueza de sentidos ultrapassam a mera qualificação como «quadro pictórico» (por exemplo, a mulher à janela ou ao espelho, a «pietá», as escadas, etc.).

Estruturada em cinco capítulos (o rosto, interior, a figura, exterior, a luz e as linhas), a mostra reúne em cada secção grupos de pinturas e fragmentos de filmes, acompanhados por fotografias de álbuns pessoais e imagens de trabalho do cineasta, numa montagem exemplar de eficácia e sobriedade. Através da comparação com outra forma de representação, o entendimento da pintura liberta-se das malhas estreitas das genealogias estilísticas e das leituras formalistas que trocam o sentido das imagens pela «autonomia» modernista do plano da tela.

A propósito do primeiro filme, The President, Dreyer disse ter-se inspirado em Whistler (a citação do retrato da mãe, Arranjo em Preto e Branco, de 1871, é uma imagem emblemática do filme, de cuja literalidade se arrependeu) e igualmente em Hammershoi, que nunca conhecera pessoalmente. Subvertendo a questão das influências, são as palavras do cineasta que iluminam agora o pintor. Por exemplo, quando afirma: «A arte deve descrever a vida interior, não a exterior. Por isso, temos de nos afastar do naturalismo e encontrar vias para introduzir a abstracção nas nossas imagens... a via mais óbvia chama-se simplificação... Essa abstracção pela simplificação e o insuflar de uma alma num objecto pode ser praticada por um realizador com meios modestos... Pode dar-se a alma de um quarto pela simplificação que remove todas as coisas supérfluas, deixando os poucos objectos que de uma maneira ou outra dão testemunho da personalidade do residente ou caracterizam a sua relação com a ideia do filme» (1955). As analogias formais, os dispositivos iconográficos aparentados, são aqui, em pintura e cinema, maneiras idênticas de abrir caminhos à imaginação do espectador, «baseadas na convicção de que a maior intensidade dramática ocorre no interior de uma casa, de uma imagem, de uma face» (J. Balló). É por se despirem de elementos expressivos que os interiores de Hammershoi podem ser vistos como lugares de protecção ou prisão.



2026, Lourdes Castro na SNBA (3)

 Com a documentação que agora é exposta na SNBA, em geral pela primeira vez, não é só o itinerário da Lourdes Castro que se percorre. A viragem de 1955-60, com a afirmação de uma nova geração que sucede à de 1945, fica visível nos catálogos e recortes de uma imprensa que então era atenta (do Diário da Manhã e do Panorama ao República). Contrariam-se ideias feitas sobre a rotina e o alheamento do meio nacional, e mostra-se a imediata notoriedade da LC e amigos, activos na revista Ver, de estudantes da ESBAL (ed. de abril 1955 não exposta), e da sua Galeria Pórtico, 1955-57.



Em 1955 participa na 9ª EGAP, certamente convidada por Julio Pomar, como René Bertholo. Depois de reprovada na Escola é capa do Século Ilustrado (abril 1957 - ver legenda no comentário abaixo: "Os jovens pintores sem benção"). Exposições na Pórtico e partida para Munique e Paris.
Em 1959 está na 5ª Bienal de São Paulo, em 61 na 1ª Bienal de Parisa e nos salões seguintes, com RB associado à Figuração Narrativa (Mythologies Quotidiennes no MAMVP em 64) - é um caso raro de integração imediata nas movimentações colectivas (parisienses) da década. As edições KWY, exposições de grupo e edições, de 58 a 63-64, asseguraram uma projecção rápida.
A dinâmica neo-realista tinha chegado ao fim, numa coincidência significativa com o aparecimento da Gulbenkian, instituída em 1956; a relação com a política mudava, deixando de recusar-se a colaboração com o SNI, designadamente nas bienais internacionais; os católicos do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, com Teotónio Pereira, José Escada e outros, desde 1953, traziam outras orientações (expõe no Centro Nacional de Cultura em 55, com Escada) ; o mercado alarga-se com novas galerias, em especial a Diário de Notícias, desde 1957, dirigida por Faria de Carvalho.

2026, Lourdes Castro na SNBA (2)

Esta é uma exposição feliz (outras podem ser depressivas, subversivas, indiferentes, etc). Tudo se passa a partir ou em torno do quotidiano (os objectos usuais, as práticas correntes), das amizades e cumplicidades (os amigos, os retratos), dos "lavores" (bordados, costura, recortes). Como se a facilidade e a felicidade se tivessem encontrado numa pequena prática artística, de vanguarda (?) e despreocupada(?), que defende tranquilamente o seu lugar no mundo e no mercado das artes tidas por maiores. Sem urgência, mas ocupando um lugar bem visível, e sem "mensagem" para lá dessa facilidade-felicidade que é uma arte de viver.

A exposição não marca rupturas ao longo de uma carreira extensa que foi pondo em prática, e em cena, diferentes modos de fazer - e de fazer pouco, o bastante para ser mais uma arte de viver do que uma carreira. O inicial abstraccionismo dito lírico, a mancha e o gesto (1956-59?), em que outros se estabeleciam como estilo comum, e já era tão "académico" como as receitas escolares que na Escola a excluíam. As caixas em que acumulava objectos e que pintou de prateado (62-63), também uma prática então colectiva ("nouveau realisme"), mas o exemplo de Louise Nevelson bloqueava um caminho que exigia escala e meios de produção - já coexistiam com os espalhamento de figuras e contornos desenhados, seguindo Arman e acompanhando de outro modo Bertholo. Depois, já como "linguagem" própria, os contornos recortados, sombras projectadas que ficaram como marca indelével e disponível para muitas variações, em pintura (63), em plexiglas (64), depois em lençóis bordados (69) e logo em teatro ou performance (66, 72), em desenhos e fototipias de flores (72). Primeiro em acordo com o gosto pop pelos múltiplos (e os gadjets de artista), depois com vocação decorativa - a tapeçaria e o azulejo - sem nunca se banalizar como mercado invasor.

A retrospectiva  de 1982 na Gulbenkian ("Além da sombra") não mostrou as iniciais abstracções, ou não figurações - entrava com os auto-retratos escolares (..."excluída" na Escola), era desde logo a representação questionada. A de 2010 em Serralves ("À luz da sombra"), partilhada com a produção pessoal discreta ou marginal de Manuel Zimbro, deixou de fora os múltiplos/gadgets e a produção decorativa - queria ser mais etérea. Nos dois casos, a informação documental era escassa e ambas as mostras tinham uma visível intenção de auto-apresentação, assim propostas também como obra própria. Tudo é diferente nesta exposição póstuma de grande dimensão ("Existe luz na sombra", apresentada por Márcia de Sousa), que tem por base o espólio deixado por Lourdes Castro (ainda de incerto destino) e por agora depositado no MUDAS. Museu de Arte Contemporânea da Madeira. É uma primeira aproximação a um inventário, mesmo que o levantamento documental esteja apenas em curso.

Magic Circus, 1971

Sacos de compras


 Flores

 

domingo, 29 de março de 2026

2026, Lourdes Castro na SNBA

 A documentação apresentada é um dos trunfos da exp da Lourdes Castro na SNBA.

É talvez excessivo o número de obras expostas, prefiro mostras mais compactas e escolhidas quando a produção é continuada.
É excessivo o número de obras dos primeiros anos de Lisboa, a "abstracção" impressionista/expressionista que era então a regra. Os objectos e as caixas dos primeiros anos 60 ficaram de lado no itinerário, e são o começo parisiense.
Gostava que as obras do espolio da artista fossem identificadas como tal, em vez de referenciadas como "colecção particular" sem distinção de colecções privadas. O herdeiro e sobrinho Nuno Brasão depositou em 2022 316 objetos e 241 conjuntos documentais no Mudas - Museu de Arte Contemporânea da região. “O contrato em causa tem a vigência de cinco anos, renovando-se automaticamente por períodos sucessivos de um ano”.
As obras decorativas, tapeçarias e azulejos, da "fase" madeirense tardia têm uma sólida presença.
O catálogo da retrospectiva de 1992 na Gulbenkian, organizada por Lourdes Castro e Manuel Zimbro, além de Sommer Ribeiro, continua a ser a leitura de referência.

Mas é só uma primeira impressão, tenho de voltar.





nas fotos: a "arte-gadget" (as gravatas impúdicas)
O Grand Magic Circus de Jerome Savary, "Chroniques coloniales ou Les aventures de Zartan, frère mal-aimé de Tarzan", que vi na Cité Universitaire em 1971 (onde está a Lourdes?).

E fui repescar os artigos sobre a exp. no CCB sobre o grupo-revista KWY no Expresso de 2001

2026, Arquivo, o outro blog desde 2007, Worpress

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/

 acesso à PESQUISA de textos por assuntos:

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/?s=indice 

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/?s=indice&fbclid=IwY2xjawRDJypleHRuA2FlbQIxMABicmlkETAyeDVnUVJXcUhsNzNPb3dQc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHnpN99j2GmEWB9oipw28E3PEMN2wmHkuydCPB7oysF1dYOjrBzLj5iC987Kf_aem_3Ns31kvb-QubH_dkFcL8WQ 

 

O blog Typepad (2007-2025) desapareceu por extinção da marca . 

Continua a aparecer em alheias referências bibliográficas mas sem haver acesso.

Em princípio muita coisa passou para o Wordpress, mas muitas imagens perderam-se

Arquivo 

O outro blog desde 2007 vindo do Typepad desde 2007 

Arquivo Alexandre Pomar Vindo do Typepad desde 2007

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/page/2/?s=chiado


sexta-feira, 27 de março de 2026

2026, João Francisco, "Paredes de Papel", Torres Vedras (último dia)

 João Francisco, Torres Vedras, último dia de "Paredes de Papel " na Fábrica das Histórias/Casa Jaime Umbelino, instalação de pintura (ou "pintura expandida"). Duas salas, duas estratégias de ocupação.

Foi um dos acontecimentos periféricos (e discretos - não se trata de um pintor mediático ou oficializado, um artista da corte) que aconteceu em 2025. Com ele mesmo na inauguração (foto abaixo).

Uma das salas é assim, o "Quadro azul", com intervenção do João Francisco sobre dezenas (ou centenas?) de antigas folhas usadas de moldes de tapetes de de Arraiolos. A outra sala é um jardim, e ambas respeitam e se apropriam dos espaços anteriores do coleccionador-proprietário

É outro dos meus pintores preferidos.

 A SALA AZUL





Ele mesno na inauguração, descrevendo o paciente processo de construção do seu trabalho e apontando as suas pistas e referências históricas



João Francisco, "Paredes de Papel" em Torres Vedras, "um jardim"

João Francisco em Torres Vedras: "Paredes Pintadas", duas instalações de pintura em salas dFábrica das Histórias - Casa Jaime Umbelino. (02/10/25)

27 set. a 28 março 2026

Aqui, "Sem título - um jardim", 2025, tinta acrílica sobre papel, a ocupar todas as paredes:






"Tendo como ponto de partida os extraordinários papéis pintados na China e exportados para a Europa a partir do séc. XVII, e que ainda sobrevivem em muitos palácios e casas da nobreza, entramos num jardim onde árvores se sucedem, envolvendo a totalidade do espaço. Talvez este jardim, ao contrário das cenas idílicas e auspiciosas presentes nas porcelanas e papéis chineses, seja menos belo ou elegante. Não será certamente menos convidativo à contemplação e à meditação. Talvez seja o jardim que precisamos, ou merecemos, no tempo presente em que vivemos." João Francisco




Na folha de sala que escreveu (e ele é um pintor erudito e é sempre o seu melhor intérprete - e legível, objectivo e inteligível) aponta para um prato de porcelana chinesa que colocou na outra sala em lugar de destaque:


"Este fantástico e raro prato chinês (em porcelana Kraak e possivelmente do séc. XVII) apresenta na decoração do seu painel central um jardim onde, rodeada por plantas, uma ave pousa numa estranha estrutura, quase uma escultura modernista. Esta "estrutura" representa na realidade, embora com alguma fantasia, uma pedra Gongshi, pedras com formas bizarras que eram apreciadas pelos eruditos chineses pelas suas qualidades estéticas e usadas em exercícios de contemplação e meditação.

O que encontramos na segunda sala é então, à imagem desta deliciosa imagem pintada em porcelana, "um jardim"."


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É o que se pode chamar pintura expandida, onde a "imitação" de papel de parede não se repete como padrão, antes se mostra como um jardim contínuo onde árvores e arbustos circundam o espaço sobre uma faixa de terra na qual se acumulam como restos objectos variados, pedras e folhas secas, livros e cartas de jogar, um caderno desenhado, meia caveira animal, uma sapatilha, etc. e também um auto-retrato pintado. Outro encontra-se numa árvore do painel central, entre janelas, acompanhado por retratos que o têm acompanhado em diferentes pinturas (Gauguin é o mais evidente, outros a identificar). 


E nas árvores à volta há flores, fitas coloridas e pássaros pintados, por vezes acompanhados por outros empalhados, juntando peças das suas colecções às que pertenceram ao proprietário da casa, Jaime Umbelino. 


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Passando do quadro à instalação de pintura, J.F. prossegue com o papel de parede ou "Parede de papel" a exploração que antes passou pela referência à tapeçaria "mille-fleur" (gal. 111 2018) e por outras árvores pintadas (Sintra 2022)


"mille-fleur" (gal. 111 2018)



Sintra 2022