Um galego universal
Laxeiro, o Carnaval das Formas
Instituto Cervantes, até 6 de Junho
Expresso 31-05-2003
Laxeiro, o pintor galego que o Instituto Cervantes apresenta em Lisboa, foi no início dos anos 80 um nome reclamado como antepassado próximo pelo grupo Atlântica, que então proclamava um neo-expressionismo ancorado num possível «génio do lugar» de raízes célticas. Estava ainda vivo o velho pintor, mas a obra continuou pouco conhecida fora da Galiza, onde a primeira antologia só teve lugar em 1996, no Centro Galego de Arte Contemporânea, de Santiago de Compostela, já a poucos meses da sua morte.
A presente exposição, organizada pela Fundação Laxeiro de Vigo e paralela a uma retrospectiva no Centro Atlântico de Arte Contemporânea, na Grande Canária, faz parte de uma redescoberta ainda em curso, que teve em Havana a primeira projecção além fronteiras. Em Cuba vivera a sua adolescência e teve as primeiras lições de desenho (com memória estimada de um professor português de nome Moreiras…), a par de empregos de operário artístico. Daí data também a impressão causada por uma exposição de Zuloaga, pintor da «Espanha negra» que, com Solana, será uma das suas referências profundas, em diálogo com os exemplos variados de Picasso.
De regresso a Lalín (Pontevedra), onde nascera em 1908, José Otero Abeledo, Laxeiro por alcunha (de «laxe», pedra de granito), tornou-se conhecido como barbeiro-pintor e aproximou-se das tertúlias galeguistas, seguindo em 1931-32 como bolseiro para Madrid para frequentar como aluno livre a Academia de San Fernando. Integra-se então no grupo dos renovadores da vanguarda histórica galega, com Arturo Souto, Carlos Maside, Luís Seoane e Manuel Colmeiro, que desde os anos 20 procuravam modernizar a pintura local num período de forte afirmação cultural e política nacionalista, a seguir brutalmente interrompida pela Guerra Civil e pelo isolamento e exílios posteriores.
Tratava-se à época da rejeição de uma pintura tradicional de folclorismo estereotipado, ao mesmo tempo que se afirmava como uma herança antropológica viva a tradição do imaginário escultórico do românico e do barroco populares (daí a referência comum à «estética do granito»), fundindo-a com as informações internacionais do «retorno à ordem», da inquietação social e do realismo mágico. Com um perfil de autodidacta, Laxeiro desenvolve uma original visão expressionista do universo cultural próximo, na exploração de temas fantásticos do fabulário galego, com figuras carnavalescas de mascarados e títeres, a que se associa a referência literária do «esperpento» (a farsa trágica do absurdo do mundo) de Valle-Inclán.
Dominguez Alvarez, dois anos mais velho, esteve em contacto com essa renovação galega, sem claramente a distinguir das presenças mais tradicionalistas, e procurou sem êxito trazer uma exposição ao Porto, em 1934-35. Esse diálogo nunca se chegou a estabelecer.
Com três dezenas de pinturas, a exposição «Laxeiro, O Carnaval das Formas» é especialmente dedicada à obra dos anos da emigração do pintor em Buenos Aires, entre 1952 e 1970, a que correspondem novas direcções de teor informalista, explorando um expressionismo gestual que às vezes se avizinha da abstracção não-referencial. Mais do que no único quadro anterior, a linguagem da primeira fase reconhece-se em algumas pinturas onde as figuras mais ou menos grotescas são como que esculpidas à espátula com cores terrosas empastadas e contornadas a negro, em espaços quase sempre saturados por rostos pétreos e outros elementos que preenchem um reconhecido horror ao vazio. O percurso de Laxeiro, aliás, é sempre feito de uma grande variedade de registos expressivos, com retornos a linguagens já experimentadas e novos ensaios, sem que se estabeleça uma clara cronologia sequencial ou estabilize um estilo definido ou definitivo.
Um auto-retrato de 1952 estabelece a evidente ruptura informalista, num exercício de desfiguração feito com pincelada solta e violenta, que, lembrando De Kooning, revelará o efeito libertador do contacto com o meio mais informado da capital argentina. Algumas obras de uma figuração gestual próxima de António Saura, e também do último Picasso dos «Mosqueteiros», coexistem com um brutalismo primitivista que pode ter afinidades com o expressionismo do grupo Cobra, mas, embora incertamente datadas dos anos 60, elas não parecem ser realizadas sob alheias influências e antes resultarão de uma inquieta e indisciplinada experimentação.
Em meados dessa década, uma outra linha de trabalhos abandona a construção escultural do espaço, e o desenho passa a delimitar espaços bidimensionais habitados por personagens algo maquínicos ou esparsas sugestões figurativas, numa gestualidade rude de cor mais líquida e aberta, onde ainda se pode supor uma relação com Dubuffet, numa mesma procura de referências ou modelos, sem que não se trate de imitação ou seguidismo. Numa obra que cultiva a diversidade e a instabilidade das linguagens, com uma continuada e «selvagem» liberdade expressiva, a própria irregularidade dos resultados tem a constante frescura que é marca da aventura livremente vivida pelo original pintor galego.
Laxeiro, o Carnaval das Formas
Instituto Cervantes, até 6 de Junho
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