sábado, 5 de julho de 1997

1997, Serralves, Alternativa Zero

 EXPRESSO/Cartaz de 05-07-97 

"QUESTÕES ALTERNATIVAS"   

"Contribuição abertamente polémica para a discussão de uma exposição histórico-mitográfica. A «Alternativa Zero» como momento fundador da burocratização das vanguardas"

«Perspectiva: Alternativa Zero» (1)
Fundação de Serralves

«Reapresentar hoje a experiência da "Alternativa Zero" implica a reconsideração de um contexto fundador das raízes da contemporaneidade artística portuguesa, através da reflexão sobre a actividade crítica e curatorial que o combate ideológico de Ernesto de Sousa representa, ao concretizar uma exposição que reunia toda uma geração de ruptura que, desde finais da década de 60, vinha afirmando as suas propostas e ampliando-a no contexto possível que o pós-25 de Abril poderá ter permitido» — João Fermandes (catálogo).
É raro que um discurso que pretende ser história se revele com tal evidência um exercício de mitificação-mistificação. O próprio autor e comissário da exposição o terá sentido, já que inicia assim a frase seguinte: «Não se trata de mitologizar esta experiência...».

Palavras como fundação e raízes sempre serviram para construir ou legitimar mitos, e é uma certa ideia de «arte contemporânea», nascida de uma suposta ruptura com a «arte moderna» que teria ocorrido por volta de 1968, que se propõe como horizonte de actuação da nova direcção de Vicente Todoli e João Fernandes em Serralves.
É de 1969 que data a paradigmática exposição «Quando as atitudes se tornam forma», organizada por Harald Szeemann, em Berna, seguida em 1972 pela Documenta de Cassel que o mesmo comissariou e Ernesto de Sousa visitou; então convertido à «vanguarda», aí teve um encontro decisivo com Joseph Beuys <*>, vindo a organizar a «Alternativa Zero» em 1977.
Tinha sido antes crítico de arte ligado ao neo-realismo, crítico de cinema e cine-clubista, realizou o filme Dom Roberto em 1960-62, foi encenador teatral e animador-agitador em geral, depois artista multimédia e «operador estético», como preferia dizer.

Que significa «mitologizar» no museu os restos (em muitos casos reconstruídos para a ocasião) de uma exposição-acontecimento tão decididamente marcada pelas ideologias do tempo — o «espírito de 68» e a «desmaterialização da arte» —, quando nela se propunham não objectos e obras, mas atitudes, intenções, processos, acções no quotidiano e no «contexto», por definição efémeras?
Que sentido tem, hoje (ainda, ou de novo?), falar da «geração de ruptura» de finais dos anos 60, quando outra se lhe terá seguido nos inícios de 80 (à volta do «Depois do Modernismo») e mais uma se manifestaria nos começos de 90? Sem esquecer que outra já se afirmara no final dos 50, como tentou provar uma recente antologia da década de 60, sob o título «Anos de Ruptura».
Esta sucessão das «rupturas», ao constituir-se numa ziguezagueante continuidade (aceleração última da «tradição do novo», conforme a fórmula de Harold Rosenberg, já de 1960), não exigirá, pelo contrário, a desmistificação do conceito de ruptura e da visão da história como sucessão de gerações?

Repescando como raíz mítica o neovanguardismo de finais de 60, uma actual «vanguarda» plenamente oficializada enquanto poder (no Instituto de Arte Contemporânea, em Serralves e no CCB, nomeadamente através de Isabel Carlos, João Fernandes e Pedro Lapa) sustenta a sua política «geracional» — institucional por definição, burocrática por vocação crítica — gerindo uma alternância de vagas (de rupturas e de modas). Agora, através da fetichização museológica dos vestígios de uma prática artística que pretendia precisamente opor-se a tal destino, em nome do projecto de mudar o mundo.

Transformou-se a natureza do poder, ou completou-se a domesticação de atitudes que tiveram uma dimensão original de contestação globalizante, com sentido político, ético e estético? Ou terá sido o discurso vanguardista, sempre, embora sobre diferentes faces, a afirmação de uma ambição de poder?

Como comissário de exposições, Harald Szeemann defendeu «a transferência do interesse para o processo, deixando de considerar essencial o resultado» (o objecto). Valorizou as «atitudes artísticas» e o «gesto» como «assinatura e estilo» — viriam a seguir as «mitologias individuais», depois de desfeitas as utopias colectivas. Desconsiderou o objecto, as disciplinas e os géneros artísticos, tanto de tradição académica como de anti-tradição moderna. Contrapondo os artistas que descobria aos «fazedores de objectos», Szeemann exprimiu «o desejo de fazer explodir o "triângulo" tradicional da arte: atelier-galeria-museu» e associou a rejeição da realização formal (tradicional ou moderna), o anti-formalismo, a uma ideia de «antiforma social» que reconhecia em alguns comportamentos juvenis emergentes na década de 60.

Foi, em paralelo com a contestação política do tempo (a mobilização contra a guerra do Vietname, o terceiro mundismo, os esquerdismos, as revoltas estudantis), o período dos vários movimentos designados como pós-minimalismo e arte conceptual, processual ou «povera», «land», «body», etc...

Mas, de facto, ao contrário do que sucedera com as vanguardas do início do século, surgidas em oposição à Academia, a nova dinâmica vanguardista já podia contar com o apoio activo das instituições culturais: a tradição da ruptura ía-se tornando a vocação de um sistema burocrático nascido com a inclusão da cultura entre as competências do «Welfare State», sobre a dissolução do sistema académico e a demolição gradual de anteriores concepções de democratização da cultura.
À distância, observa-se que o museu, agora encomendador e promotor directo, e já não só depositário de objectos reconhecidos como património colectivo, passou a deter a primeira posição no mesmo «triângulo» criticado por Szeemann, enquanto a «antiforma social» serviu de legitimação autoritária à oficialização de um poder artístico voltado para a satisfação exclusiva de alguns produtores e do seu «público especializado».

A «Alternativa Zero» deverá ver-se como repercussão nacional dessa dinâmica, com inevitável atraso — embora fosse já mais a síntese de um processo do que um manifesto inaugural. Muito mais alternativo, no entanto, também por volta de 1977, seria o discreto retomar da pintura por António Dacosta...

Em Portugal, o mesmo movimento de institucionalização das neovanguardas decorre acelaradamente após o 25 de Abril, mas, em 1977, as esperanças revolucionárias já tinham ficado para trás. A crise petrolífera de 73 abalara o sistema galerístico antes de se repercutirem no mercado e na prática artística os efeitos de 74: é a um primeiro desinvestimento da produção «tradicional» (pintura e escultura), devido à crise económica, que se seguem as acções de animação revolucionária. (Algo de semelhante, com outra argumentação ideológica, ocorreu nesta década, por efeito da nova crise económica...)

De facto, a «Alternativa Zero» terá associado a algum experimentalismo cuja importância convirá reconhecer (permiti-lo-á a presente exposição?) as desilusões resultantes tanto da paralização do mercado de arte como da diluição de expectativas associadas à revolução. Desaparecidos os «consumidores» e o «povo», os objectos de arte e a agitação político-cultural pareciam deixar de ter destinatários. Recentrar a prática artística sobre si própria, sobre a «essência» e o conceito de arte, as suas convenções e anti-convenções, a atitude e a intenção do artista, seria a resposta «natural» nesse contexto. Uma resposta autista e rapidamente esgotada, como veio comprovar a breve prazo a vaga «pós-moderna».

Entretanto, importa ver que a «Alternativa Zero» já é o resultado de uma confluência da «vanguarda» com o activismo das instituições oficiais — é essencial que a exposição tenha decorrido na Galeria de Arte Moderna de Belém e com o directo empenhamento da Direcção-Geral de Acção Cultural, onde trabalharam artistas como João Vieira, Julião Sarmento, Fernando Calhau, Vitor Belém (também expositores).

Reapresentar hoje a «Alternativa Zero» em Serralves é, acima de tudo, celebrar o «contexto fundador» que tornou o nome do comissário das exposições mais importante que o dos artistas participantes, ou seja, o momento em que o «projecto» se impõe sobre as obras, a intenção sobre o resultado, a atitude sobre o objecto. É assinalar um passo decisivo, para que em Portugal, se viesse a impor, à margem do mercado particular e do sistema museológico, mas também com autonomia relativa face à instrumentalização política por parte dos governos, um aparelho cultural de Estado (sobre o modelo francês) identificado com o «mundo da arte», tido como seu representante e dominador da circulação artística. Um poder de tutela, crítico-administrativo, que, ao sabor das fases de crise ou expansão da conjuntura económica, e sob a aparência das «rupturas geracionais», faz alternar tacticamente não só os padrões críticos como as suas relações com o grande mercado privado, ora associando-se-lhe sem qualquer pudor (nos anos 80) ora condenando-o com vaga argumentação «políticamente correcta» (anos 90).

É um outro sistema académico que assim se reconstrói e, tal como sucedeu antes, é possível adivinhar que a criação artística mais significativa do presente lhe é em grande medida exterior.
Vinte anos é o tempo suficiente para que uma «geração» que não assistiu à «Alternativa Zero» possa transformar a sua memória em restos museológicos, reinjectáveis nesse outro mercado que é hoje a cultura oficial e a indústria estatal do espectáculo artístico.
NOTA:  Devido à data de fecho desta edição, mas cumprindo o primado das intenções sobre os resultados defendido pela «Alternativa Zero», este texto foi escrito antes da visita a exposição onde se recolhem as respectivas relíquias. Outros comentários se lhe seguirão. (2)

(1) Notícia de 05-04-1997 (Actual, pág 3) 

 
Novo programa para Serralves
A programação de Vicente Todolí como director artístico da Fundação de Serralves arranca já no início de Julho com uma exposição que tem o título ainda provisório «Perspectiva 'Alternativa Zero'», depois de antes ter sido designada como «Uma década de ruptura - Os anos 70 em Portugal».
Mais do que de uma abordagem retrospectiva de toda a década, tratar-se-á, de facto, de um projecto em torno da mostra colectiva que Ernesto de Sousa promoveu em 1977 na antiga Galeria de Belém e que teve como subtítulo «Tendências polémicas na arte portuguesa contemporânea». Aí se reuniram praticamente todos os artistas («operadores estéticos», dizia-se então) que trabalhavam em áreas ditas experimentais e conceptuais, num contexto que terá sido, contra as expectativas da época, mais uma oportunidade de balanço terminal do que um momento de ruptura inaugural, mas que tem vindo a ser reconsiderado na presente conjuntura, graças às oscilações cíclicas das «sensibilidades» artísticas e às suas pulsões revivalistas. (...)

sábado, 12 de abril de 1997

Mónica Machado, 1997, Forum Maia

 Expresso Cartaz 12-04-97, pp 14-15

"Memória e imaginário do objecto quotidiano"  <Uff!!> 
"Uma jovem escultora portuguesa de Paris, Mónica Machado, inventa a escultura-mosaico: o objecto comum e o lixo encontram uma nova vida"

Bienal Arte Jovem, Fórum Maia

 

MÓNICA Machado foi, até há pouco tempo, apenas o nome de uma artista portuguesa de formação parisiense que se sabia ter sido premiada no Salon de Montrouge (um «salão» anual de jovens artistas na periferia de Paris) e feito uma primeira exposição com apresentação de Yves Michaud (filósofo e crítico, director da Escola Superior de Belas Artes de Paris, onde M.M. se diplomou em 92 e de onde ele se demitiu em 95).
Depois, a uma pouco vista 2ª Bienal da AIP, em Outubro, em Santa Maria da Feira, Mónica Machado trouxe duas obras, um grande e inquietante carrinho de bebé — Le Landau (Salomé Dolores) — e um corpo feminino que se abria no desvendar do seu interior — O Ovo (Petite Anatomie du Désir). Nos seus barrocos revestimentos de cerâmica e na montagem obsessiva de objectos e fragmentos, animados com movimentos mecânicos, som e luz própria, eram sedutoras e repulsivas «máquinas delirantes», insólitas esculturas de invenção original e carregadas de memórias artísticas.
A emoção dessa descoberta, proporcionada pela selecção do crítico Carlos França, levou a apontá-la aqui como a mais forte revelação de 1996.


Agora, numa outra bienal descentralizada que o Forum Maia dedica à «Arte Jovem», Mónica Machado faz reencontrar a sensação de perturbada estranheza que provoca o confrontro raro com uma obra independente da ilustração disciplinada de qualquer gosto tido por actual ou das «reflexões» que sazonalmente se substituem sobre despudoradas faltas de memória e de ambição — uma obra que é ao mesmo tempo divertida e inquietante, íntima e directamente comunicativa.

Três novas peças a juntar às duas já expostas (e às ilustrações de catálogo de uma individual de 1994, entretanto conhecidas) atribuem a esta presença, outra vez proposta por Carlos França - num diálogo muito estimulante com Sílvia Hestnes Ferreira, Fátima Mendonça e Rui Serra -, o lugar das obras que subvertem as hierarquias estabelecidas.

Mónica Machado tem, graças ao uso do mosaico e em especial do azulejo, partido e usado como revestimento de objectos ou como imagem e escrita, uma surpreendente ligação a tradições portuguesas (mas também a Gaudí e a outros visionários mais marginais). Por outro lado, revisita de modo original situações poéticas de utilização de objectos vulgares, imaginários quotidianos e surreais, práticas da acumulação e da «assemblage», com a energia de quem as comenta  através de um inventário sentimental mas irónico da vida própria.

O objecto de consumo corrente impera na escultura actual. É em geral sujeito a exercícios de disposição (instalação) que lhe confere ora a existência glacial dos alinhamentos nos espaços comerciais, ora a montagem arbitrária do quotidiano. O objecto tal e qual, pós-dadaista por definição, autoriza sempre a atribuição da vontade de ironia ou de crítica, ou é, noutros casos, seguindo as estratégias do incomunicável ou indizível, um «objecto ansioso» (Harold Rosemberg) que reclama do espectador o reconhecimento como obra de arte, se o lugar de exposição desde logo o não garante como tal.

Mónica Machado não circula por aí, vai mais atrás e mais fundo na memória e no imaginário do espectador. Colecciona objectos dentro de objectos, remonta-os e subverte-os por uma prática subtil de "bricollage", «utiliza os recursos do fragmento para produzir uma poesia da miniatura e da associação de ideias» (Y. Michaud), num jogo «ao mesmo tempo erudito e ingénuo» (idem) de «mise en abîme» que usa a forma adquirida da caixa-relicário para a perturbar com um sentido das metamorfoses.

Em L'Imbrication de valises (en carton), de 1994-97, sobre uma estrutura metálica móvel, uma das malas de cartão recobertas de mosaico contém a maquete exacta da sua morada parisiense, retomando o exemplo das casas de bonecas, enquanto outros recantos, janelas e gavetas (dotadas de iluminação local) podem recolher, escritos em fragmentos de azulejo, anúncios de casas recortados de jornal, incluir uma colagem-mosaico de medicamentos ou esconder um livro de fotografias pessoais. Uma longa «legenda» que deveria ter sido exposta orienta o espectador num desvendar das pregas desta escultura em episódios, que, com a chaminé e o espelho retrovisor, é o veículo-memória de um nómada.

Outra peça, A mala da tia Titi, é uma caixa de chapéu transformada em relicário, semelhante àquelas que se podem ver nos cemitérios portugueses, como diz a autora: uma vitrine mortuária referida a um parente preciso, que inclui fotografia, relíquias, louça, iluminação, e onde, como diz Y.M., o mosaico «imobiliza e petrifica o sentimento — ou cristaliza-o».

Em Ordures-Ménagère (morceaux choisis), 1996, em parceria com Gil Bensmana, o uso do lixo como material torna mais evidentes as possíveis relações com  as «Poubelle Menagère» de Arman ou os «tableaux-piège» de Spoerri, mas a regra formal do acaso, a ironia neo-dadaista e a composição pictural dão aqui lugar a uma calculada alteração da leitura dos dados imediatos. Os quadros-relevos de Niki de Saint-Phalle e as máquinas de Tinguely são, noutras obras, referências aproximáveis, mas, numa imprevista associação a tais poéticas, Michaud recorda também as caixas «à» Joseph Cornell e os objectos «à» Meret Oppenheim que se podem encontrar escondidas e miniaturizadas no interior das suas construções.
A enumeração dos materiais usados é extensa: «Caixote do lixo, pá, hélice, metal, resina, iluminação, louça, lixo: latas de conserva, ossos, ostras, cascas, espinhas de peixe, papéis, garrafas, etc...» O caixote eleva-se no ar como um foguetão, dotado de pequenas janelas circulares (lugares para outras surpresas), e o lixo jorra como um vómito, mas também como uma cornucópia, a partir de uma pequeníssima máscara oriental de boca escancarada, colocada num fundo a que a luz local confere uma aparência de braseiro-inferno — onde se verá ainda o resto de uma notícia sobre o terror do Ruanda...

"O meu trabalho consiste sempre em encenar objectos... recuperados através do quebrar e da justaposição, etc... para lhe conferir uma nova vida. onde todas as associações se tornam possíveis e o anacronismo se torna a regra do jogo.» Um jogo admirável.
(Nota: Aguarda-se ainda a publicação do catálogo para o comentário ao conjunto da bienal.)

domingo, 2 de fevereiro de 1997

Veneza 1997: Expresso: Sarmento / Alexandre Melo e Cabrita Reis

Acompanhamento da Bienal à distância

Teria curiosidade em conhecer melhor o norte-americano negro Robert Colescott, de 71 anos, perdido em terra inóspita...

I - Veneza marca Bienal

Expresso/Cartaz/Actual de  2-2-97 

 Sarmento no Pavilhão oficial da 46ª edição, comis. A. Melo

e Cabrita Reis na colectiva de Germano Celant, «Futuro, Presente, Passado»

Germano Celant é o director da próxima Bienal de Veneza, cuja 47ª edição terá lugar em Junho, apesar de se ter admitido o seu adiamento para não coincidir com a realização da Documenta de Cassel e para dar tempo à anunciada privatização e reoganização da estrutura responsável pela «Mostra». O crítico italiano, que foi o divulgador da «Arte Povera» nos anos 60-70 e é actualmente conservador de arte contemporânea no Museu Guggenheim de Nova Iorque, foi eleito em 29 de Novembro, no quinto escrutínio realizado e com o mínimo de votos necessários (9—5), contra Achille Bonito Oliva, comissário da «Bienale» de 1993 e, nos anos 80, paladino da chamada «transvanguarda».

Com seis meses para preparar a Bienal e um orçamento reduzido de pouco mais de 600 mil contos, Celant conta com um prazo muito curto para promover as habituais exposições paralelas às representações nacionais e terá de enfrentar as dificuldades que certamente também serão levantadas pelos países que dispõem de pavilhões próprios nos «Giardini» de Veneza.

Entretanto, Portugal, através do Ministério da Cultura, tinha já designado no início do ano anterior Alexandre Melo como responsável pela representação portuguesa, anunciando-se simultaneamente a escolha do pintor Julião Sarmento.
Uma vez que o país não tem pavilhão permanente, terá de ser alugado um espaço fora do recinto dos «Giardini», tal como sucedeu em 1995, quando José Monterroso Teixeira foi designado comissário nacional e apresentou os escultores José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes.
Recorde-se, a propósito, que Portugal encetara nesse mesmo ano diligências para vir a construir um pavilhão próprio em Veneza e Álvaro Siza Vieira fora escolhido para o projectar. No entanto, ainda não foi decidida a respectiva localização pelas autoridades italianas, mesmo depois do actual Ministério da Cultura ter reiterado as anteriores propostas.
A França, por outro lado,  já tornou pública a designação do artista Fabrice Hybert, de 36 anos, como seu representante.

A edição anterior da Bienal de Veneza foi a única que teve um director não italiano, o crítico francês Jean Clair, que é também o director do Museu Picasso, de Paris. Comemorando-se então o centenário da «Bienale», Jean Clair contou com meios financeiros avultados e apresentou uma grande exposição paralela intitulada «Identidade e Alteridade — Figuras do Corpo, 1895-1995», que constituiu uma reconsideração de toda a evolução das artes plásticas ao longo do século sob o ponto de vista da permanência dos temas do corpo e do retrato, parcialmente ocultados pelas análises que previligiaram a emergência da abstracção e a dinâmica vanguardista do modernismo. Intensamente polémica, mas também inesquecível pela pela excelência do discurso expositivo apresentado no Palazzo Grassi e no Museu Correr e igualmente pela coerência das teses defendidas, a exposição concitou a hostilidade de muitos sectores da crítica e igualmente permitiu recuperar um número total de visitantes que a Bienal perdera nas edições anteriores.
Germano Celant, sendo um crítico de grande notoriedade internacional, detém um perfil totalmente oposto ao de Jean Clair. 
A Bienal de Veneza decorrerá entre 15 de Junho e 4 de Novembro, enquanto a Documenta de Cassel, considerada a mais importante das exposições periódicas mundiais, este ano dirigida pela francesa Catherine David, se inaugura a 19 de Junho e encerra a 28 de Setembro. À concentração das datas somam-se as da Feira de Basileia, de 10 a 16 de Junho.

II - Veneza: Bienal 97

Expresso/Cartaz de 07 Jun.97

A representação portuguesa na Bienal de Veneza é este ano particularmente significativa, com a presença oficial de Julião Sarmento a ser fortemente promovida e com a participação de Pedro Cabrita Reis na mostra colectiva apresentada por Germano Celant, comissário da presente edição. A 47ª Bienal de Veneza abre ao público no dia 15 e decorre num Verão muito concorrido em acontecimentos dedicados à arte contemporânea, com destaque para a Documenta de Kassel e as bienais de Munster (escultura) e de Lyon. Para estas outras mostras, porém, não foram convidados artistas portugueses e deverá notar-se que Julião Sarmento e Cabrita Reis entraram já há vários anos no circuito internacional (Kassel 82 e 87 o primeiro; Kassel 92 o segundo).

Julião Sarmento apresenta uma nova série de trabalhos intitulada «Casanova», no prolongamento das suas pinturas brancas, concebidos para os espaços do Palácio <?>. Portugal não dispõe de pavilhão próprio no recinto da Bienal, os Giardini, e teve portanto, de alugar instalações no exterior, como ocorreu em 1995, mas agora com outra escala de meios. Segundo Alexandre Melo, o comissário da representação portuguesa, a série dedicada ao famoso libertino tem como tema a unidade e multiplicidade da figura da mulher.

A participação é apoiada por um pequeno catálogo para distribuição ao público e, em especial, por uma monografia com centenas de reproduções dedicada à totalidade da obra de Sarmento. O volume é publicado pela Electa em versão inglesa e em português por Assírio & Alvim, com um ensaio de A. Melo e uma longa entrevista feita por Germano Celant, que se encontrava já prevista antes de este ser designado comissário-geral da Bienal. Sempre graças a um substancial apoio do Instituto de Arte Contemporânea, a divulgação internacional de Sarmento foi confiada a uma agência de Nova Iorque, por forma a assegurarem-se referências na imprensa especializada.

Por sua vez, Cabrita Reis estará incuido na mostra «Futuro, Presente, Passado», entre 60 artistas representativos das «promoções» ocorridas nas últimas três ou quatro décadas. As obras que apresenta prolongam a série das «portas» que mostrou no CCB, em «Para Heiner Muller». O catálogo geral desta exposição inclui um ensaio de Alexandre Melo intitulado «O fim ou o princípio», crítico das concepções teleológicas sobre os fins da história, da arte, da pintura, etc e onde se considera a situação artística presente em termos de sobreposições, cruzamentos e pluralidades.

Nas representações nacionais presentes em Veneza, podem destacar-se, em função da notoriedade internacional dos artistas participantes e entre as mais numerosas presenças «excêntricas» , as seguintes:
Bélgica, Thierry de Cordier;
Brasil, Jac Leirner e Waltercio Caldas;
Canadá, Rodney Graham;
França, Fabrice Hybert;
Alemanha, Gerhard Merz e Katharina Sieverding;
Grã-Bretanha, Rachel Whiteread;
Federação Russa, Vitaly Komar and Alexander Melamid, residentes nos Estados Unidos (recentemente apresentados na Gulbenkian através do projecto sobre «a pintura mais desejada»);
Espanha, Joan Brossa e Carmen Calvo, mantendo a tradição de apresentar um artista histórico e outro mais jovem;
Suiça, Helmut Federle e Urs Frei (numa igreja de Veneza).

Os Estados Unidos estão presentes com Robert Colescott, um artista negro (aliás, afro-americano) de 71 anos, praticamente desconhecido no exterior.
Colescott (Oakland, Califórnia, n. 1925) estudou em Paris com Fernand Leger e viveu depois no Cairo, antes de vir a representar um papel significativo do renascimento da pintura figurativa na West Coast durante os anos 60. Desde meados de 70 passou a fazer na sua obra referências directas à sua experiência de afro-americano, incorporando imagens da cultura popular ou paródias raciais de obras primas da história da arte.

A colectiva de Germano Celant é uma exposição destituída de um claro projecto selectivo, em consequência do limitado tempo de concepção. Tratar-se-à de apresentar o panorama actual da criação como um firmamento ocupado por «estrelas» de três ou quatro gerações, que detêm brilho próprio e não podem ser agrupadas em tendências ou orientações colectivas. Em termos cronológicos, o percurso inicia-se com dois artistas afirmados nos anos 50 e na proximidade do expressionismo abstracto, Agnes Martin, nascida em 1912 e de origem canadiana, e o italiano Emilio Vedova (1919), que foram distinguidos com dois Leões de Ouro pela sua contribuição para a arte contemporânea — obras dos dois pintores podem ser vistas no Museu de Sintra.
Revelados a partir dos anos 60 e desde a arte Pop, estão presentes com obras recentes e por vezes inéditas, entre outros, Claes Oldenburg, Jim Dine, Roy Lichtenstein, Edward Ruscha,  Artschwager, Sol LeWitt e Baldessari, Panamarenko, Gino De Dominicis, Giulio Paolini, Luciano Fabro, Zorio e Merz, Buren, Jan Dibbets, Brice Marden, Richard Tuttle, Marina Abramovic, Ann Hamilton, Rebecca Horn, Ilya Kabakov, Gerhard Richter e Anselm Kiefer, Langlands & Bell, Bertrand Lavier, Annette Messager, Franz West, Julian Schnabel, Robert Longo, Francesco Clemente, Tony Cragg, Jan Fabre, Jeff Koons, Haim Steinbach,  Wolfgang Laib, Luc Tuymans, e ainda  Vanessa Beecroft, Dinos and Jake Chapman, Douglas Gordon, Marie-Ange Guilleminot,  Mariko Mori, Maria Nordman, Pipilotti Rist e Sam Taylor Wood.
         

Tags: Biennale di Venezia, Cabrita Reis, Julião Sarmento, venice biennale

quarta-feira, 1 de janeiro de 1997

1997, Picasso, Suite Vollard, Centro Cultural da Gandarinha, Cascais

 Outubro 1997


FALTA de conhecimento directo da obra de Picasso é certamente uma das marcas distintivas da cultura visual portuguesa — corrija-se para incultura e aponte-se o exemplo recentíssimo de um catálogo oficial onde se atribui a Warhol a condição de «primeiro ou único artista do século XX»... Não pode deixar de ter consequências (porque um cromo não é o mesmo que uma pintura) que a primeira exposição monográfica dedicada a Picasso de que há memória tenha decorrido apenas em 1993, dedicada à colaboração com a Companhia de Serge Diaghilev e promovida pelos Encontros Acarte. Este mês, porém, a Câmara de Cascais traz-nos a série de cem gravuras, de 1930-37, que ficou conhecida como «Suite Vollard» e o Museu do Chiado anuncia para dia 28 uma outra exposição sobre obras mais tardias («Picasso e o Mosqueteiro, 1967-72»). Serão preciosas contribuições para que um artista que marcou incontornavelmente três quartos do século XX e tem sido objecto de constantes abordagens temáticas originais — que, com a sua obra desmesurada, é toda uma outra história da arte do século — deixe de ser um pintor «conhecido» mas não visto. 

Apresentada pela Fundação D. Luís, ligada à Câmara de Cascais, a exposição é uma das primeiras iniciativas do novo Centro Cultural da Gandarinha, ainda em construção. Numa pequena publicação que a acompanha, Rui Mário Gonçalves, Salvato Teles de Menezes, José Jorge Letria e José Luís Judas, seus responsáveis a diversos níveis, propõem-na como indicação do nível de intenções da sua actividade futura, e resta-nos esperar que o propósito sobreviva à circunstância eleitoral. 

As gravuras da «Suite Vollard» têm um lugar central na extensa obra gravada de Picasso (mais de 2200 números de inventário) e incluem algumas das suas mais belas produções. O seu título associa-as a Ambroise Vollard (1868-1939), o «marchand de tableaux» que apresentou a sua primeira exposição em Paris, em 1901. Editor de obra gráfica de Gauguin, Redon e Bonnard, e depois de Rouault e Chagal, entre muitos outros, Vollard lançara em 1913 a série «Os Saltimbancos», gravada por Picasso em 1904-05, e encomendou-lhe em 1927 as ilustrações para Chef-d'Oeuvre Inconnu de Balzac. Pouco depois propôs a realização de uma centena de gravuras sem tema preciso, que viriam a ser editadas já a seguir à sua morte e só foram postas em circulação no final da Segunda Guerra. 

A «série Vollard» é habitualmente dividida em conjuntos temáticos: cinco gravuras da «Batalha do Amor», o Minotauro (11) e o Minotauro Cego (quatro), retratos de Rembrandt (quatro) e Vollard (as três finais), mais um conjunto inicial de 27 trabalhos de temas diversos, realizados entre 1930 e 36, por vezes associados aos tópicos anteriores, e um mais extenso corpo central dedicado ao «Estúdio do Escultor», com 46 números. É essa a organização da mais conhecida das suas edições impressas, realizada por Hans Bolliger em 1956. Entretanto, a exposição é acompanhada por uma edição muito cuidada produzida pela fundação Bancaja, de Valência, de onde vêm as obras expostas, que segue uma outra ordenação, estritamente cronológica — deve notar-se, porém, que algumas datações são problemáticas e que os títulos não foram atribuidos pelo autor e são sempre meramente descritivos, variando conforme as edições (de «Abraço» a «Violação», por exemplo).

A sequência da montagem apresentada em Cascais diverge destas duas edições e opta, de um modo muito estimulante, por uma outra ordenação por temas (embora estes não constituam núcleos diferenciados), que é parcialmente coincidente com a sucessão cronológica. Dos primeiros nus isolados, «couples» e modelos adormecidos ou cenas tranquilas do «repouso do escultor» até às irrupções terminais das tauromaquias, à monstrificação dos corpos e ao tema do Minotauro, segue-se um percurso em se acrescentam sucessivamente novos motivos e se adensam as referências simbólicas, num crescendo de carga dramática que é coincidente com as circunstâncias da vida pessoal de Picasso (até à tentativa de divórcio de Olga, em 1935) e com o agravamento da situação política europeia (da subida de Hitler ao poder, em 33, até ao início da guerra de Espanha, em 36). Passo a passo, a atracção sexual torna-se ferocidade, a inocência do sono dá lugar à violência da luta, a posse é ritual de morte e surge o Minotauro como incarnação da bestialidade primitiva, parceiro ou personificação de Picasso.  

É habitual invocar a respeito da «Suite Vollard» a condição de um quase diário onde se registariam as alterações da vida e do humor de Picasso, ao longo dos sete anos da sua produção. Esse é o tempo em que a relação com Marie-Thérèse Walter domina a obra do pintor — a amante tomada como uma referência figurativa constante e o modelo de uma plasticidade ideal, o corpo juvenil e escultural que se reconhece, em paralelo, nas mais extremas metamorfoses físicas que acompanharam os anos de contacto com o surrealismo e nas cenas neo-clássicas que dominam a maioria das gravuras da série. À evolução por períodos estilísticos sucedera, para Picasso, a possibilidade da circulação constante pelas diferentes linguagens formais antes experimentadas, como na «Suite» se comprova.

Para Picasso, o início dos anos 30 fora um tempo de renovado interesse pela escultura, com a aprendizagem das técnicas do ferro soldado junto de Julio Gonzalez e depois com a modelação em relevo. Adquire então o «chateau» de Boisgeloup, perto de Gisors, a 80 Km de Paris, e aí instala um estúdio de escultura: datam de 31-32 as cabeças esculpidas de Marie-Théràse que estão presentes em inúmeras gravuras.

Tema dominante da «Suite», o estúdio do escultor está directamente associado a um dos tópicos mais persistente na obra de Picasso, o pintor e o seu modelo, surgido pela primeira vez em 1914, a interromper o período cubista, num retrato de Éva Gouel. Indissociável do tema do par ou do casal, que atravessa toda a sua obra da maturidade, o tema do pintor/escultor e do modelo pode entender-se como uma profunda meditação sobre a relação do artista com o seu trabalho, como metáfora da criação artística, demiúrgica, e é permanente referência mais ou menos explícita à sua própria vida emocional. Sabe-se desde os anos 60, e em especial desde a recente exposição «Picasso e o Retrato», em Nova Iorque e Paris, em 1996 (EXPRESSO, 1-9-96), que essa dimensão autobiográfica é essencial na obra de Picasso, sendo a representação da figura humana quase sempre referida aos seus amores, encontros e estados emocionais, etc.

sábado, 7 de dezembro de 1996

Fernando Calhau, 1996, ENTREVISTA (na criação do Instituto de Arte Contemporânea)

 


domingo, 1 de setembro de 1996

1996, Os retratos de Picasso, MOMA NY

Os retratos de Picasso 

MOMA, NY

1 - 9 - 96



Depois desta exposição, é ainda mais difícil do que antes definir o que Picasso entendia por retrato. Quem o diz, com visível satisfação, aliás, é o próprio comissário, William Rubin, adivinhando o riso trocista do fantasma do pintor, que sempre gostou de pôr em causa as definições estabelecidas. A certeza das conclusões nem sempre é o mais importante num trabalho de investigação, por mais rigoroso e aprofundado que ele tenha sido, em especial quando está em causa o entendimento e a fruição das obras de arte. Ao contrário do que se poderia julgar, Picasso é ainda um pintor em grande parte desconhecido e pouco investigado.

«Picasso e o retrato», apresentada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque até 17 de Setembro — com passagem para o Grand Palais de Paris, entre Outubro e Janeiro, mas em versão reduzida — constitui a primeira tentativa para identificar, isolar e estudar os retratos pintados e desenhados ao longo da sua longa carreira (a consideração das esculturas não foi ainda possível, devido a limites de espaço e orçamento). Preparado durante cinco anos pelo ex-director do departamento de pintura e escultura do MoMA, desde 1988 seu director emérito, com a colaboração do Museu Picasso de Paris, este é um projecto muito mais complexo do que parece à primeira vista, porque os títulos das obras raramente distinguem a representação de uma pessoa realmente existente de uma figura imaginada ou genérica e, mais ainda, porque, perante a obra de Picasso, o critério tradicional da semelhança entre o modelo e a sua imagem nem sempre pode, ou deve, ser seguido. 

Os 130 quadros e 100 trabalhos sobre papel agora reunidos, alguns deles expostos pela primeira vez, e os muitos outros reproduzidos num catálogo com 757 ilustrações, não pretendem ser um inventário dos retratos que Picasso realizou ou sequer dos modelos que retratou. Pelo contrário, a exposição concentra-se apenas sobre as pessoas mais próximas ou mais decisivas na vida do pintor, todas elas sempre identificadas através de fotografias e curtas informações biográficas. A ordenação é globalmente cronológica, mas, como se de uma sucessão de mostras temáticas se tratasse, os retratos de cada modelo são exibidos em conjuntos separados, dando a ver como o mesmo rosto ou corpo foi sendo diversamente tratado ao longo do tempo, em consequência do aprofundar de um questionamento formal ou, noutros casos, em função da adopção sucessiva de diferentes estilos e por efeito provável da alteração da relação sentimental entre o artista e o seu modelo.   

O resultado é, em primeiro lugar, uma extraordinária exposição autobiográfica, em que figuram, como capítulos de uma espécie de imenso diário íntimo, os pais, os amigos da juventude em Barcelona, as mulheres e as amantes — as quais fornecem, naturalmente, desde Fernande Olivier até Jacqueline Roque, os conjuntos mais numerosos —, os companheiros de Paris, alguns coleccionadores e «marchands», os poetas preferidos  e os filhos do pintor, numa sequência de oito décadas de criação que termina com uma antologia de auto-retratos, incluindo as terríveis imagens do confronto com a morte, aos 92 anos. 

Através dessa galeria de retratos, que em grande parte se poderá ver como um impressionante testemunho confessional sobre a turbulenta vida afectiva de Picasso, é toda  a evolução da sua pintura que a exposição percorre, num exaustivo documentário sobre a inextricável ligação entre a vida e a obra do pintor, que é igualmente uma incessante interrogação da natureza e dos limites da representação pictural. 


NOVOS ESTILOS...


Só muito raramente Picasso realizou retratos por encomenda ou pintou alguém com quem não mantivesse uma forte relação intelectual ou sentimental. O retrato, para ele, é sempre a ocasião, ou o resultado, de um investimento emocional, mas também, em diversos momentos da sua carreira, a marcação privilegiada de uma nova linguagem formal, por exemplo nos casos do retrato de Gertrude Stein, de 1906, ou dos retratos masculinos do período do cubismo analítico, em 1910.  Sabe-se que o retrato da escritora foi iniciado com uma série de mais de 80 sessões de pose, sem resultados tidos por satisfatórios; mais tarde, depois de um verão passado em Gosol, sob o impacto da descoberta da estilização hierática das esculturas do românico catalão, o rosto antes apagado foi rapidamente substituído, de memória, por uma espécie de máscara, de desenho esquematicamente escultural — a solução é a mesma do retrato de Fernande Olivier em Mulher Penteando o Cabelo, da mesma data. A seguir viriam As Meninas de Avignon, o interesse pela esquematização primitivista da «arte negra» e o início do cubismo. 

Quanto aos retratos dos «marchands» Wilhelm Uhde, Ambroise Vollard e Daniel-Henry Kahnweiller, realizados já em plena fase do cubismo analítico, eles parecem funcionar como um teste à possibilidade de manter a semelhança fisionómica num processo de crescente abstractização e conceptualização dos dados visuais, onde a figura se torna cada vez menos reconhecível. A evolução da arte moderna, «libertando-se» dos dados perceptivos para reduzir as formas naturais à respectiva estrutura geométrica, parecia conduzir à impossibilidade do retrato, no momento da deflagração da Primeira Guerra. Retrato de Rapariga, de 1914, é certamente uma celebração de Éva Gouel, mas a hipótese da veromilhança perdera-se com a rejeição do ilusionismo espacial; noutros quadros do mesmo período do cubismo sintético Picasso teve de recorrer à incorporação  de frases escritas («Ma Jolie», «J'aime Eva») para declarar o seu amor.

Pouco depois, porém, cada sequência de retratos das mulheres que Picasso amou e pintou volta a poder ser visto, na expressividade própria de cada um e na diversidade das opções estilísticas sucessivamente adoptadas, como um barómetro dos estados de alma do pintor ao longo de cada uma das suas relações sentimentais. Neles é possível «ler» toda a gama de afectos que vai do desejo à plenitude erótica, da atracção fascinada à dominação, da inquietação ao cansaço ou mesmo ao ódio. Para Picasso, os retratos femininos podiam ser instrumentos de sedução, declarações de amor, registos dos dramas quotidianos ou, terminada a paixão, actos de tortura e exorcismo. 


... E NOVAS AMANTES


O carácter autobiográfico desses retratos deu origem à banalização de uma fórmula que pretende justificar cada período e estilo da obra de Picasso pela entrada de uma nova mulher na sua vida. Fernande Olivier é vista como a musa do período «ibérico» e dos primeiros estádios do cubismo; Olga  Kokhlova identifica-se com o intervalo neo-clássico; Marie-Thérèse Walter dá lugar à fase das metamorfoses surrealizantes; Dora Maar inaugura um expressionismo angustiado, etc. A sequência da exposição torna evidente o simplismo de tal interpretação, mas também comprova a impossibilidade de uma leitura estritamente formalista das mutações estilísticas, orientada por uma busca de motivações puramente plásticas e que ignore a importâncias dos conteúdos expressivos, emocionais e biográficos presentes em cada obra e em cada fase da carreira.  

W. Rubin, que é com certeza o mais competente dos investigadores da obra de Picasso e que, em 1980, também no MoMA, lhe dedicou a mais completa das retrospectivas, com um milhar de obras, tem sobre aquela fórmula uma posição de complexa ambiguidade. Declara taxativamente que «a linguagem artística de Picasso não é determinada pelas entradas e saídas de diferentes amantes na sua vida», mas acrescenta de imediato que «é possível considerar, pelo contrário, que essas entradas e saídas eram determinadas pelo desejo que tinha Picasso de explorar diferentes tipos de experiências artísticas e emocionais».

O mesmo historiador escrevera, a propósito da utilização de objectos tribais (a «arte negra») como pontos de partida de trabalhos de Picasso, que mais do que a fonte de inspiração, nos casos em que é possível identificá-la, o que importa é a metamorfose a que o pintor a sujeita: o que acontece no fazer de um quadro. Ou seja, a identificação de um determinado modelo não explica o tratamento plástico que lhe é dado, mas é um dos factores a ter em conta numa conjunção interpretativa que envolve circunstâncias biográficas, psicológicas, históricas e formais. Por outro lado, Rubin recorda que a constante mutação estilística de Picasso corresponde a uma necessidade sistematicamente sentida pelo pintor de contrariar os riscos do seu próprio virtuosismo, impedindo-se de se fixar num formulário, na assinatura de um estilo e na facilidade do auto-academismo. Picasso entendia o estilo como uma armadilha em que um artista se pode deixar cair, coartando-se a possibilidade de concretizar na sua pintura toda a possível riqueza pictural do seu pensamento e identidade.

Entretanto, o filósofo Arthur Danto, na crítica que dedicou à exposição («The Nation»), faz do lugar-comum de que Picasso inventaria um novo estilo cada vez que se apaixonava por uma mulher uma interpretação igualmente sugestiva: «na medida em que tal é verdade, o estilo pertence à mulher em questão como um atributo seu, como o que ela é para o artista que a ama.»

Num artigo entusiástico que não é fácil compatibilizar com a teoria da arte que desenvolveu, onde faz de Duchamp e Warhol os vectores de um processo evolucionista em direcção ao fim da arte, Danto diz que «Picasso pinta o seu amor, o seu ódio, o seu desdém, o seu desespero, a sua perplexidade, a sua enfermidade, e é por isso que uma exposição apenas de retratos é o melhor caminho para o seu mundo. É como viver a sua vida com ele.» 

Apesar de considerar a invenção do cubismo como a sua maior contribuição, Danto previne que «Picasso não desenvolveu o cubismo para revelar uma estrutura exterior do mundo mas para projectar uma íntima estrutura de sentimentos e atitudes sobre o que no mundo despertava as suas emoções.» Na sua obra, acrescenta, «o mundo real é metabolizado e apresentado ao observador como energia emocional transcrita e tornada visual». No entanto, a complexidade do processo criativo mantem-se por inteiro, quando diz que «a obra artística de Picasso é uma vasta autobiografia pictural, mas é impossível inferir da sua vida o entendimento das suas realizações formais como artista». 


ROSTOS COM NOME


Particularmente significativo é o exame a que a exposição sujeita a habitual identificação do período neo-clássico de Picasso com Olga Kokhlova, a bailarina dos Ballets Russes de Diaghilev que o pintor conheceu em 1917 e desposou no ano seguinte. É sabido que a ela são dedicados os retratos mais realistas, mas que, ao mesmo tempo, Picasso prosseguia as realizações sintéticas e esquemáticas de novos sub-estilos cubistas. No entanto, não é com Olga que se inicia o retorno à representação descritiva, mas exactamente com a já referida Éva Gouel. Data de 1914 uma pintura deixada inacabada e só conhecida depois da morte de Picasso, O Pintor e o Modelo, onde se inclui o seu único retrato «clássico» (Éva morreu no ano seguinte). 

Segue-se a esse ensaio, uma série de retratos desenhados de Max Jacob, Vollard e Apollinaire, de 1915-16, que são momentos decisivos do processo de reconquista da possibilidade do retrato, recuperando a exacta descrição fisionónima, num estilo que é também uma revisitação deliberada do classicismo de Ingres. É sobre essa direcção de trabalho que vem depois incorporar-se a presença de Olga, não sendo esta, ou o universo mundano que o pintor passara a frequentar, que justificam a viragem. 

Toda a complexidade da relação entre os dois estilos, cubista e neo-clássico, simultaneamente prosseguidos, pode ser revelada por uma muito «abstracta» pintura de 1920, Mulher numa Cadeira de Braços, onde Rubin reconheceu um retrato transformado de Olga através do exame com infravermelhos: subjacente ao estádio final encontra-se uma composição clássica na mesma posição e com contornos coincidentes, incluindo o livro que dá origem ao rectângulo ao centro da parte inferior. Desenhos preparatórios confirmam a metamorfose do modelo até à linguagem do chamado cubismo curvilinear.

Por outro lado, é ao mesmo tempo que a tensão se exacerbava no seio do casal Picasso, a partir de 1925, que a figura de Olga se torna menos naturalista e tende para uma espécie de deformação surreal, que culmina em imagens de um monstro predador, seco e agressivo. A temível Banhista Sentada, de 1930, onde o corpo se reduz ao esqueleto estilhaçado e o rosto ao emblema da «vagina dentata», numa imagem que influenciou muito surrealismo biomórfico, é ainda um retrato de Olga, segundo uma confidência feita muito mais tarde pelo pintor. 

Entretanto tinha entrado em cena Marie-Thérèse, a quem o pintor dedicou os retratos onde é mais explícita a expressão da satisfação sexual, mas, por muito tempo a nova modelo-amante-musa foi apenas um corpo e um rosto sem nome. O ano de 1927 foi referido por ambos como data do primeiro encontro, embora investigações recentes a façam recuar um ou dois anos; a questão é polémica, até porque Marie-Thérèse teria então apenas 15 anos, mas Rubin reconhece a existência de desenhos e óleos que a retratam já no inverno de 1925-26. 

Por outro lado ainda, a identificação também recente de Sara Murphy como outra das paixões de Picasso, veio ocupar um inesperado lugar na interpretação do período dito neo-clássico, uma vez que numerosas obras de 1922-23, antes consideradas como representações genéricas da beleza ideal ou sugeridas pela maternidade de Olga, têm afinal por referência um outro modelo e uma outra história sentimental, mas esta, por uma vez, uma «abortada canção de amor» (Rubin). Mulher de Branco, de 1923, é um dos seus testemunhos. Sara era uma bela e rica americana que chegara a Paris em 1921 com o marido e os filhos, entrando rapidamente nos círculos de artistas e escritores (Fitzgerald fez deles os protagonistas de Terna É a Noite). Rubin conseguiu entretanto comprovar, através de exames radiológicos e da observação de estudos preparatórios que o misterioso quadro A Flauta de Pã, de 1923, é o resultado da transformação de uma inicial composição alegórica em que Sara começou por ocupar o lugar de Venus.

Dora Maar entrou em 1936 na vida de Picasso, mas sem substituir a presença sempre discreta de Marie-Thérèse, e surge não exactamente associada a um outro estilo, mas a um novo tipo de mulher. Fotógrafa e pintora ligada aos surrealistas, Dora foi a companheira activa dos anos dramáticos da Guerra de Espanha. Em dois quadros realizados no mesmo dia de 1939, em telas das mesmas dimensões e com a mesma pose, embora certamente sem a presença directa dos modelos, Picasso representou sucessivamente ambas as mulheres com quem partilhava a sua vida, no que parece ser uma meditação sobre o sentido de cada uma das suas relações. O rosto sereno de Marie-Thérèse e a inquietação «expressionista» do de Dora prolongam-se nas curvas suaves de uma e no corpo tenso de outra; Marie-Thérese ocupa um espaço fechado ao exterior, íntimo e recolhido, enquanto com Dora as janelas se abrem para o exterior. 

Muito mais tarde, os 21 retratos de Jacqueline Roque exibidos na exposição são, nas últimas duas décadas de vida do Picasso, a mais comovente demonstração da diversidade estilística a que um mesmo modelo pode dar lugar, evidenciando como cada linguagem desenvolvida pelo pintor — esquemática (cubista), surreal, clássica e expressionista — podia ser permanentemente recuperável e objecto de renovadas explorações.


REINVENTAR O RETRATO


Não é tarefa fácil, nem pacífica, distinguir na produção imensa de Picasso, quase sempre dedicada à figura humana, o que seriam as representações intencionais de pessoas reais, levadas a cabo como retratos «exactos» ou transformados, e, por outro lado, as composições em que a utilização de um modelo concreto deve ser vista como motivo plástico ou exercício de especulação narrativa e ainda as imagens onde se sobrepõem traços de dois ou três modelos ou que correspondem à criação de rostos e corpos idealizados ou alegóricos. 

Picasso não gostava de dar títulos às obras, tal como detestava discutir classificações e terminologias artísticas. No «catálogo geral» da sua obra publicado por Christian Zervos, com a colaboração do pintor, quer a palavra retrato quer a identificação de um determinado modelo surgem de modo aleatório e até contraditório, para além de serem em número ínfimo entre a maioria esmagadora de designações como mulher reclinada, cabeça de mulher, banhista, nu, mãe e filho, etc.

O próprio carácter confessional das obras e a necessidade de manter a discrição sobre as relações clandestinas justificavam os títulos genéricos, em especial durante o demorado episódio da frustrada tentativa para se divorciar de Olga: o nome de Marie-Thérese, por exemplo, foi mantido sempre secreto, mesmo quando a sua presença esplendorosa dominava as exposições da primeira metade dos anos 30. Depois, o livro de Françoise Gilot, Life with Picasso, em 1964, veio publicitar a vida sentimental de Picasso e deu origem a penosas intrigas jornalísticas. Entretanto, o próprio pintor ía procedendo a identificações de modelos em confidências, nas últimas décadas de vida, aos seus biógrafos oficiais Pierre Daix e John Richardson, ou a W. Rubin.

Não é a devassa da vida privada de Picasso que motiva a exposição de Nova Iorque, mas o entendimento do modo como Picasso concebia o retrato e do papel essencial que nele tem a metamorfose do modelo, a qual deve ser vista como ruptura decisiva com a tradição estabelecida do retrato pictural — e mesmo com o retrato expressionista, já no século XX. É particularmente significativo o facto de, ao contrário do que se poderia supor, muitas das representações mais esquemáticas corresponderem a um processo de conceptualização realizado diante do modelo, usando os diversos modos figurais disponíveis, enquanto outros retratos de exacto realismo foram feitos com recurso à sua prodigiosa memória visual. 

O título da exposição traduz todo o carácter problemático da definição do retrato na obra do pintor. Em vez de «os retratos de Picasso», Rubin intitulou-a «Picasso e o retrato: representação e transformação». E em inglês a palavra «portraiture», que é arte do retrato ou da representação, tem um sentido mais amplo que «portrait».

Em cada série invidividual dedicada aos diferentes modelos de Picasso, incluem-se tanto as pinturas e desenhos que podem ser considerados como retratos segundo a interpretação convencional do termo, ou seja, onde se procura comunicar a aparência e a personalidade de modelo cumprindo a condição da verosilhança, como aqueles em que a representação ou referência a um rosto concreto surge totalmente transformada e até irreconhecível. 

Com esta opção, polémica para alguns, a exposição põe radicalmente em causa a noção tradicional de retrato, que tem a semelhança fisionómica por critério, considerando Rubin que Picasso redefiniu os parâmetros e as possibilidades do retrato como género, mais do que qualquer outro pintor da era moderna.

Picasso, segundo a sua tese, não abandonou o realismo, mas deixou de atribuir ao seu entendimento tradicional um papel privilegiado na definição do retrato, dissociando-o de uma obrigatória relação com os dados da percepção directa, na sequência do que, logo em 1912, Apollinaire apontava como ruptura inaugural da arte do século XX na passagem da «arte de imitação» à «arte conceptual».

De acordo com o historiador, Picasso transformou o retrato entendido como documento intencionalmente objectivo, que pressupõe um paralelismo visual entre a coisa vista e a sua imagem, num documento abertamente subjectivo. O retrato passa a ser o registo da reação pessoal do artista perante o seu tema.

É, depois da fotografia, a questão da permanência do retrato na arte do século XX, como prolongamento de uma tradição anterior ou sua renovação radical, que está em causa.  E é também por isso que W. Rubin conclui o seu estudo principal no catálogo estabelecendo um surpreendente paralelo entre Picasso e Leonardo da Vinci, o autor do mais famoso e influente retrato da arte ocidental. Com Mona Lisa, o sentido de intimidade entre o artista e o seu modelo já passara a integrar a tradição do retrato ocidental, e existe uma afinidade profunda entre os dois artistas na capacidade para utilizar pormenores formais para servir intenções expressivas, por exemplo para evocar a tensão psicológica enfatizando a assimetria do rosto humano. «O pintor pinta-se sempre a si próprio», era uma frase de Leonardo que Picasso gostava de repetir.