sábado, 15 de agosto de 1992

1992, Lourdes Castro, Fundação Gulbenkian, duas notas

 LOURDES CASTRO

Fundação Gulbenkian "Além da Sombra" 

e Ratton Cerâmica

15 08 92


L.C. foi, nos anos 50-60, um dos protagonistas de um processo complexo de aproximação da criação artística portuguesa da actualidade internacional, assente num largo movimento de emigração que a instituição da Fundação Gulbenkian e a conjuntura político-colonial favoreceram. Foi igualmente um dos raros participantes directos, em Paris, na definição de uma nova conjuntura artística, estruturada em sucessivas vagas em torno dos conceitos de Novo Realismo, arte Pop, Nova Iconografia, Nova Figuração. A sua obra, aqui mostrada numa dimensão antológica (mas não retrospectiva, desde logo porque não se expõem as obras que no final dos anos 50 permitiam situar L.C. entre os cultores da abstracção lírica ou do «neo-impressionismo»), foi regularmente exibida em Portugal (individuais em 1964, 1970, 1979; larga presença em 1985 na exp. «Diálogo») e desde cedo seleccionada para representar o país no exterior.

Agora é todo um itinerário coerentemente desenvolvido em torno da exploração visual e objectual de um mesmo «achado» ou obsessão temática que na Gulbenkian se dá a ver: a sombra projectada (contorno ou silhueta) de uma forma como processo de apropriação do real, primeiro, e como sistema de representação, depois. Os trabalhos de assemblage que abrem a exposição (aproximáveis de obras de Louise Nevelson, Spoerri e em geral do clima neodadaista que marcou o início dos anos 60) funcionam aqui como directa indicação de um contexto mais vasto em que as impressões de Klein, as moldagens e compressões de César, as acumulações de Arman, ou as «combine paintings» de Rauschenberg, restabeleciam a escolha e a apropriação como atitude decisiva.

Passando da impressão serigráfica da sombra de objectos à fixação dos contornos projectados de pessoas, jogando com a marca da presença e o vazio da ausência manifesta, L.C. estabelecia as bases de um sistema figurativo que se continuou numa sucessiva descoberta de suportes, processos e aplicações: da tela trabalhada em superfícies lisas para o plexiglas (e do suporte bidimensional à multiplicação dos planos), seguindo depois um itinerário de crescente desmaterialização nos lençóis bordados (a partir de 68) e no teatro de sombras (1973), até um mais recente retorno à produção de objectos no campo das artes aplicadas (azulejo e tapeçaria), assente em novas pesquisas sobre o uso dos materiais.


22 08 92

O facto das antologias e retrospectivas da Gulbenkian não serem acompanhadas por quaisquer panoramas internacionais que aproximem os espectadores do conhecimento da produção internacional contemporânea, distinguindo inovações, mimetismos ou situações retardatárias, tem óbvias consequências em termos de isolamento cultural. É particularmente significativo que a obra de L.C., emigrada em 1957, não possa ainda ser inserida pelo espectador comum no contexto externo de que fez parte, sabendo-se como a artista foi um dos protagonistas de um dos mais fecundos processos nacionais de actualização criativa. Essa inexistência de circulação informativa, que traduz a irremediável marginalidade portuguesa, não é, por outro lado, alheia à evidente dificuldade de afirmação internacional dos artistas nacionais (com a excepção de dois ou três casos, que, alias, adoptaram outras nacionalidades), até porque os mecanismos de troca e co-produção têm uma eficácia notória neste sector. Importaria poder situar L.C. no contexto do Novo Realismo francês e observar como o seu trabalho com as sombras nasce das práticas de apropriação que caracterizaram as propostas neodadaístas de inícios de 60 (das acumulações de Arman às bandas desenhadas de Lichenstein); depois, com os trabalhos em plexiglas, a sua evolução para um sistema de representação aproxima-a de uma «nova» figuração gráfica e elegante, a que o jogo formal do desdobramento dos planos e das transparências mantém um cunho inventivo.

Com a passagem aos lençóis e ao teatro, as sombras recuperam o seu sentido de desconstrução e desmaterialização, como vestígio e como acção, radicalizando o itinerário global de L.C. A tela iluminada que à entrada da exp. confronta os visitantes com as suas proprias sombras não é um efeito cenográfico, mas um outro marco desse percurso.


Exp, do CAM programação Sommer Rbeiro, Lourdes Castro e Manuel Zimbro


20 julho - 6 setembro

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