sábado, 19 de agosto de 2006

2006, Cristobal Hara, PhotoEspaña

 Paisagens habitadas

 

Cristóbal Hara, um grande fotógrafo com quem a tradição documental é mais uma vez posta à prova 


Expresso 19-08-2006  em Madrid



Em Lisboa, no CCB, 2009

   


Num programa de muitas exposições à volta do tema Natureza, a grande descoberta do último PhotoEspaña foi o espanhol Cristóbal Hara. Não é um novo fotógrafo, pelo contrário: nasceu em 1946; foi fotojornalista desde os anos 70 e publicou um primeiro livro em 1990, 4 Cosas de España, escolhendo o trabalho a preto e branco depois de já ter feito uma radical passagem à cor; ganhou o prémio para o melhor livro do PhotoEspaña 1999 com Vanitas e publicou na editora alemã Steidl, em 2004, An Imaginary Spaniard, primeiro volume de uma anunciada trilogia. A descoberta tardia na exposição «Contranatura» (Canal Isabel II, Madrid, até 3 de Setembro) assenta já num extenso corpo de trabalho, tão individual como alheio às modas que fazem as notoriedades mediáticas. Não se lhe conhece uma entrevista e faz constar que as fotos falam por si mesmas.


No livro da Steidl há dois capítulos (sequências de imagens organizadas entre «separadores»), já à beira do fim, que se ocupam dos mais poderosos estereótipos do exotismo espanhol: as formas excessivas da religiosidade popular e os touros. Mas as imagens da «Espanha Negra» são agora a cores e não alimentam ilusões sobre a pureza das raízes ou a autenticidade das tradições vernáculas. As procissões e as cenas rituais de sacrifício dão lugar a figuras carnavalescas e sacrílegas, sem que nada alerte o observador para o que é «a realidade» e a sua paródia. O universo do toureio rural (tema de um segundo fotolivro, Lances de Aldea, 1992) aparece na sua extrema pobreza de circo ambulante, como uma rotina triste e sangrenta.


Como é comum na corrente documental espanhola, protagonizada desde finais de 70 por Cristina García Rodero, Cristóbal Hara é um viajante infatigável e o universo das festas e celebrações populares é um meio privilegiado de observação. Mas o que seria a verdade testemunhal das suas fotografias é posta à prova pela perda de referências que identifiquem os assuntos e pela integração num discurso mais vasto (a exposição, o fotolivro) que desestabiliza qualquer distanciamento interpretativo. Aliás, os ritos tradicionais passaram a ser «festas de interesse turístico nacional» e o imaginário da Disney chegou às mais recônditas aldeias. O carrinho de criança puxado pela cadeira motorizada do deficiente pode seguir-se ao acidente de automóvel com um corpo ainda encarcerado, num percurso que põe em sequência o banal e o excessivo, onde só são decisivos os sinais da vida e da morte. Todas as fronteiras são abolidas entre o quotidiano e o extraordinário, a tradição e o acaso, a regra e a excepção. O próprio gosto surrealista pela estranheza dos encontros (ou o «esperpento» de Val-Inclán) é parodiado com um olhar corrosivo, que lembra o humor de Buñuel - não o de Dalí.


Em An Imaginary Spaniard, Hara dispensou qualquer texto e as fotografias não têm sequer menção de lugar, apenas a indicação, junto à ficha editorial, de que foram tiradas em Espanha, de 1985 a 2002, e, a terminar, uma citação não localizada de José Ortega y Gasset: «Só o imaginário pode ser exacto». A interpretação é problemática, até porque o filósofo é mais conhecido por valorizar o peso do contexto (a circunstância), mas é o próprio fotógrafo que assim se identifica como «um espanhol imaginário», e o retrato que faz de Espanha é afinal mais poderoso e perturbador por se apresentar como uma criação ficcional. Em Contranatura existe outra citação, esta de Miguel Torga - «Todos temos uma única paisagem na alma: aquela que primeiro lhe deu a sua dimensão». Mas Hara nasceu em Madrid e passou a infância pelas Filipinas, Alemanha, Estados Unidos e Espanha. Vivia em Hamburgo, no final dos anos 60, quando decidiu ser fotógrafo (por influência de Cartier-Bresson), e foi em Londres e Paris que se tornou profissional. É provável que continue à procura da sua paisagem única.


É também uma antologia (fotos de 1991-2005, por vezes publicadas noutras sequências) e foi organizada como uma abordagem de temas da vida rural - considerando uma das linhas do festival madrileno que esta pode ser um cenário privilegiado para pensar a relação cultura/natureza. A exposição inclui o filme El Hombre que Quería Robar la Virgen, que rodou em 2003 para o canal Arte sobre as festas populares de Baza e Guadix, perto de Granada, e o livro (ed. La Fabrica) tem a habitual e excelente colaboração do designer gráfico Roberto Turégano. As vistas de ruas desertas de pequenas povoações já não só separadores de capítulos e tornaram-se um dos tópicos do projecto, em diálogo com paredes e muros mais ou menos degradados pelo tempo, sob uma tira de céu - lembram cenários de teatro e quadros abstractos. Uma das sequências principais trata de cães (são quase as únicas fotografias que se podem considerar retratos, e recordam os de António Júlio Duarte) e outra de cavalos, mas também se suspendem aí as generalizações simbólicas: há cavalos de carrossel, cavalos selvagens da Galiza (e as festas da «Rapa das Bestas»), um cavalo de Tróia e um pégaso de fim de festa. As fotos não falam por si mesmas. As melhores, como as de Cristóbal Hara, ampliam as perguntas que lhes fizermos.



Jorge Calado: 

https://alxpomar.blogspot.com/2016/05/jorge-calado-escolhas-para-o-dubai.html


Cristóbal Hara

Born 1946 in Madrid, Spain, Hara grew up in the Philippines, USA and Germany, returning to Spain age 8. He studied law and business administration in Spain and Germany before deciding in 1969 to become a photographer. Moving to London, he spent a few years there and exhibited at the Victoria & Albert Museum. Hara switched to colour photography in 1985 and felt free, at last, from the strictures of composition in black and white. Known for his chronicles of rural Spain and her fiestas filtered through the memories of his own childhood. Like with Bill Brandt (in the UK), his ultimate goal is the book, not the exhibition. Vanitas (1998) won the prize for best photography book at PhotoEspaña in 1999. Autobiography, 2007, is the second volume of a trilogy published by Steidl. Recently he has begun a series of so-called 'trivial essays' for Ediciones Anómalas. His photos have also appeared in magazines like Creative Camera, Du, Aperture and others.



sexta-feira, 18 de agosto de 2006

2003, 2006, Jorge de Brito

 Jorge de Brito, a colecção e a Gulbenkian

sábado, 5 de agosto de 2006

2006, Gordon Matta-Clark no Reina Sofia, Madrid, "A arte de destruir" (05 08)

 A arte de destruir

 
        O mito e a obra de Matta-Clark 

Gordon Matta-Clark
Museo Rrina Sofia, Madrid


Expresso 05-08-2006   
 
 
    foto: Gordon Matta-Clark realizando «Conical Intersect», fotografia documental, Paris, 1975
 

Morto por um cancro no pâncreas aos 35 anos, em 1978, após uma carreira de menos de dez, Gordon Matta-Clark tornou-se o mais mítico dos artistas. Já não existem as obras que justificam a fama, o que favorece sempre a circulação dos mitos, e o termo obra não é o mais apropriado a intervenções em edifícios condenados à demolição. Começou por cortar pedaços de paredes e pavimentos, expondo-os ao lado de fotografias dos espaços seccionados. Depois, cresceu a escala das acções «site specific» (num lugar específico) e os cortes atravessaram os edifícios, com formas cuidadosamente desenhadas que abriam vãos e canais de luz através de vários andares e entre interior e exterior - vazios escultóricos rasgados pela desconstrução das estruturas arquitectónicas. Para além duma especulação formal e expressionista que usa edifícios como material efémero, tratava-se de «anarquitectura» com objectivos de crítica política. O processo valeu-lhe a alcunha de Jack, o Estripador, enquanto o carisma, a revolta e a brevidade da vida faziam dele o James Dean da cena artística dos anos 70.

O Museu Rainha Sofia de Madrid dedica-lhe uma grande retrospectiva (até 16 de Outubro), onde estão em destaque os filmes e fotografias documentais, que considerava secundários face à experiência vivencial dos «bilding cuts», e também as fotomontagens, cujo processo cubista de junção de pontos de vista dá a percepção do movimento no espaço, ao mesmo tempo que materializa no mercado dos objectos artísticos e de colecção os testemunhos da acção performativa. Mas a comissária Gloria Moure não quis apresentar fragmentos arquitectónicos deslocados, considerando que essas outras «relíquias resultantes das intervenções» contrariam «o conceito de escultura expandida e de obra que se deve apreciar do interior, a que Matta-Clark insistentemente alude nos seus escritos». O catálogo, ainda por publicar, incluirá os textos do artista.

Filho do pintor surrealista Roberto Matta (1911-2002), afilhado de Marcel Duchamp, nascido em Nova Iorque em 1943 e formado em Arquitectura, Matta-Clark surgiu como artista no contexto da extrema radicalização política do final dos anos 60, após um período em que os movimentos e as teorias se sucederam vertiginosamente. As lutas pelos direitos cívicos, as revoltas estudantis, a oposição à guerra do Vietname, depois as afirmações feministas, projectavam-se intensamente no campo artístico, impondo o respectivo questionamento como último momento da auto-crítica modernista da arte, no espaço mais geral da contracultura.

 
      foto: «Office Baroque», Antuérpia, 1977, cibachrome
 
A nova situação manifestou-se na dinâmica de confluência das várias artes, negando fronteiras entre disciplinas; no primado da acção e do processo face ao objecto terminado e autónomo (a desmaterialização da arte), e na procura de espaços alternativos de circulação, com forte sentido comunitário e à margem dos condicionalismos do mercado, mas na dependência do mecenato público. A fundação da agência federal National Endowment for the Arts em 1965, no âmbito da «Great Society» prometida pelo Presidente Johnson, viera estimular as condições materiais e sociais do neo-vanguardismo e, ao mesmo tempo, abrir caminho ao seu enquadramento pelo museu. Vinte anos depois, a ligação da arte à guerrilha social estava confinada a margens da comunidade cultural recuperadas no amplo mercado consensual dos espaços institucionais, e era absoluta a vitória das indústrias do entretenimento massificado (o vanguardismo esquerdista cumprira o papel histórico de cavar a divisão entre alta e baixa cultura e continuou a ser útil à gestão da sociedade do espectáculo).

As intervenções monumentais na natureza dos artistas da «earth art» (ou «land art»), em especial de Robert Smithson e Dennis Oppenheim, de quem Matta-Clark foi assistente, foram a referência directa de que partiu. Em oposição à fuga do espaço social da cidade, as intervenções destrutivas em edifícios revelariam os condicionamentos arquitectónicos responsáveis pela criação de «consumidores passivos e isolados, viciados na privacidade doméstica e na propriedade privada», como referia o artista a propósito de uma das suas acções mais famosas, Splitting, o corte transversal de uma casa dos subúrbios em Nova Jersey.

A «hermenêutica marxista» reivindicada por Matta-Clark não fica comprovada, mas os filmes e outros vestígios transmitem bem a dimensão utópica e a intensidade física das acções, perigosas e às vezes clandestinas, que realizou também em Génova, Paris e Antuérpia. Outras peças ilustram interesses mais heteróclitos pela alquimia e as transmutações químicas, em fotografias fritas com lâminas de ouro e lingotes de materiais fundidos, ou recordam experiências culinárias e performativas, como a abertura do restaurante Food e acções filmadas.

A sua carreira não se liga a nenhum movimento ou escola precisos, nem teve descendência directa, mas tem sido invocada nos últimos anos por vários comissários e apontada como referência de artistas que exploram situações relacionais ou conviviais, ou a dialéctica entre construção e destruição, como Rirkrit Tiravanija, Rachel Whiteread, Gregor Schneider ou Pedro Cabrita Reis, por exemplo.


2006, Gulbenkian, Cabrita Reis, cinquentenário da Gulbenkian e Jorge Molder (05 08 e 19 08)

 A «Fundação» em obras
Pedro Cabrita Reis constrói instalação em público 

Expresso/Actual  (“Factual”) de 05-08-2006 

Esvaziar a grande galeria central do Centro de Arte Moderna tornou mais pertinentes as dúvidas que existiam sobre os planos para o respectivo museu e a sua colecção, além de também ter vindo sublinhar a falta de uma exposição de primeira grandeza no início das comemorações do cinquentenário da Fundação Gulbenkian. Mas o talento e o brio de Pedro Cabrita Reis serão certamente suficientes para ocupar o espaço que lhe foi entregue por Rui Vilar, com vista à criação de uma instalação de grandes dimensões que aí vai ficar exposta até Abril de 2007. Cabrita Reis está diariamente no CAM a instalar à vista do público a sua obra, a que chamou Fundação, com recurso a alguns materiais e objectos vindos dos armazéns da Gulbenkian e usando também paredes de tijolo, estruturas de aço e lâmpadas de néon. A inauguração será só a 15 de Outubro. 

<Só mais tarde se soube, mas não se divulgou, nunca, que durante a instalação in progress da instalação do P.C.R. um acidente envolveu uma escultura de Canova que ficou irrecupereável.>

 

 & 

«A ‘Fundação’ em obra(s)» II, carta de Jorge Molder
 

19-08-2006 
   

A propósito da notícia «A ‘Fundação’ em obra(s)», incluída no «Actual» de 5 de Agosto (pág. 12), recebemos de Jorge Molder, director do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), a seguinte carta:


«Importa corrigir uma informação falsa, que não respeita os leitores do EXPRESSO e que tem origem na decisão voluntária do jornalista Alexandre Pomar, que assina com as iniciais A.P. Eis a sua correcção: o artista Pedro Cabrita Reis foi convidado por mim para realizar uma instalação no CAM, do qual sou director. A proposta de instalação, muito anterior ao convite, foi igualmente feita por mim à administradora responsável, drª Teresa Patrício Gouveia. Isto significa que sou o comissário da referida exposição. É evidente que o dr. Rui Vilar, enquanto presidente do Conselho de Administração, é, em última instância, responsável por todas as iniciativas da FCG. Quanto aos comentários malevolentes sobre a falta de exposições de qualidade do CAM no cinquentenário da FCG, trata-se de uma variação de um hábito persecutório instituído pelo jornalista Alexandre Pomar desde que me tornei director do CAM. É sintomática a omissão gravosa da exposição ‘Relation’ de Craigie Horsefield e da instalação Book Cell de Matej Krén, inauguradas precisamente a 18 de Julho de 2006, dia do aniversário mencionado. No respeitante à restante programação, sobretudo no horizonte próximo das festividades do cinquentenário, o silêncio é o seu único conteúdo: ‘Amadeo - Diálogo de Vanguardas’, em Novembro, que promete ser uma revelação decisiva, uma exposição da obra gráfica recente de José Pedro Croft, em Outubro, e uma visita inédita ao espólio de Fernando Calhau, recentemente aumentado por doação ao CAM, em Novembro, foram inteiramente ignoradas. Por outro lado, a retrospectiva de Dominguez Alvarez ‘770 Rua da Vigorosa, Porto’, bem como a exposição de pintura de João Queiroz, igualmente patentes e que têm tido, como é público, um notório sucesso, caíram também no esquecimento. Assinale-se que essas exposições se inscrevem no mesmo programa de investigação e reavaliação de obras contemporâneas significativas.»

N.R. - Sobre as celebrações dos 50 anos da FCG, o «Actual» publicou um extenso dossier na edição de 15 de Julho (págs. 4-11). Na notícia que motivou a carta acima referia-se genericamente «a falta de uma exposição de primeira grandeza». As exposições de Alvarez e João Queiroz foram apreciadas em textos críticos publicados a 27 de Maio e 17 de Junho, respectivamente, por sinal ambos assinados por A.P. <ver blogspot 2006> Poderia juntar-se-lhes ainda as referências à exposição sobre a sede e o museu da FCG e, em especial, à vídeo-instalação de Filipa César, abordadas na edição de 1 de Abril <no blogspot>.
 



sábado, 29 de julho de 2006

2006, Serralves, Gego, Barry Le Va e Fernanda Gomes, "Das Américas" (29 07)

Das Américas

 
    Três artistas do outro lado do Atlântico apresentados no programa de Verão de Serralves 

 

Gego, Barry Le Va, Fernanda Gomes

Expresso 29-07-2006

 

        Gego, «Esfera nº 2», 1976 (arame de aço)

 
Três artistas das Américas completam, desde ontem, o programa do Museu de Serralves para o Verão, já iniciado com a exposição do belga Luc Tuymans na antiga Casa. Se este tem notoriedade recente como emblema de mais um revivalismo pictural, embora a sua figuração «deceptiva» não seja consensualmente apreciada (são os críticos que antes desvalorizaram a pintura que agora lhe atribuem importância), Gego, Barry Le Va e Fernanda Gomes são nomes pouco conhecidos, com discretos lugares marginais.

Gego (Gertrud Goldschmidt, 1912-1994) faz parte da história do construtivismo latino-americano, em particular da Venezuela, mas foi menos divulgada na Europa do que os artistas que se instalaram em Paris nos anos 50, como Jesús Rafael Soto (que Serralves expôs em 1993) e Carlos Cruz-Diez. Nascida em Hamburgo, formada em arquitectura e fugida ao nazismo, participou na histórica exposição «The Responsive Eye» (MoMA, 1965), que consagrou a arte Op numa década de múltiplos e efémeros rótulos.

Partindo da abstracção geométrica que evoluiu como arte cinética (com a ilusão ou a realidade do movimento) e da integração da escultura monumental na arquitectura, de que foi sempre professora, Gego desenvolveu um original construtivismo orgânico que a levou a explorar estruturas aéreas em espaços interiores, volumes virtuais sob a forma de ambientes ocupados por redes e malhas de aço («Reticulares»). A exposição «Desafiando Estruturas», que segue para Barcelona e se anuncia como a mais completa jamais realizada na Europa, reúne obras tridimensionais e numerosos desenhos, valorizando a produção das décadas de 60 a 80 numa releitura próxima do neoconcretismo brasileiro.


 

    Barry Le Va, «Estudo para Escultura Dupla Ligada», desenho, 2001

 
Barry Le Va (n. 1941) é outro artista de modesta projecção que conhece agora um novo momento de promoção internacional, com Serralves a apresentar, depois duma digressão alemã em 94, a maior retrospectiva europeia de sempre. Inscrito nos episódios do chamado pós-minimalismo, Le Va tem por caução a presença na exposição «Anti-Illusion: Procedures/Materials» no Whitney Museum, que juntou em 1969 Carl Andre, Robert Morris, Tuttle, Ryman e os músicos Phil Glass e Steve Reich a nomes emergentes como Bruce Nauman, Richard Serra e Eva Hesse. Estes três tinham surgido associados em 68 às orientações da «Process Art» ou Antiforma, com que R. Morris pretendia acentuar a presença física (material e processual) dos objectos, mas já em Novembro desse ano Le Va fora capa da «Artforum».

A sua «marca» pessoal são os espalhamentos ou distribuições de feltro, vidro e madeira sobre o chão, sendo a decisão sobre a forma (ou melhor, antiforma) das obras, se assim se lhe pode chamar, dependente do espaço físico onde se mostraram. Tratava-se, à partida, de objectos que não podiam ser transportadas, portanto efémeros, embora tenham vindo a ser recuperados como valiosas mercadorias artísticas. A produção posterior, que inclui desenhos e estudos, distribui formas em relevo sobre o chão e a parede, atribuindo-se-lhe qualidades expressivas e até um lirismo de índole musical.

Por último, Fernanda Gomes é uma artista brasileira (Rio, 1960) que tem sido apresentada nos grandes certames institucionais, caracterizando-se o seu trabalho, ou a sua actuação, pela utilização de objectos pré-existentes e encontrados - fios, sacos de papel, pedaços de madeira, garrafas, bolas, etc - em intervenções discretas, por vezes quase invisíveis, nos espaços de exposição. Tratar-se-á de pôr em cena uma poética do objecto vulgar e de uso quotidiano, relacionando-o com a arquitectura dos lugares e com outros objectos presentes, invocando-se uma tradição que passaria por Lygia Clark, Hélio Oiticica e Artur Barrio. Sobre a sua apresentação no Porto, anunciou-se que a artista trabalha a relação da arquitectura interior das galerias do Museu com o espaço exterior do Parque.

sábado, 1 de julho de 2006

2006, CCB, Jorge Martins, Colecção Helga de Alvear, Abel Salazar, "Verão no CCB" (01 07)

 Verão no CCB

 
    Três propostas diferentes em tempo de transição entre temporadas e projectos 
 

Jorge Martins «Simulacros - Uma Antologia»    
 Helga de Alvear «Conceitos para Uma Colecção»    
 Abel Salazar «O Desenhador Compulsivo»    
 Centro Cultural de Belém

Expresso 01-07-2006

 

    Jorge Martins, «Slow Ruin», 1998

 
Em matéria de exposições, o Verão no CCB é variado. Estão no programa, ontem inauguradas, a retrospectiva das quase cinco décadas de trabalho de um dos maiores artistas portugueses contemporâneos, Jorge Martins; uma extensa colectiva internacional, incluindo sete portugueses, organizada a partir das 2000 obras da colecção da galerista madrilena Helga de Alvear; e uma visita aos desenhos deixados por uma figura desconhecida das gerações mais novas, Abel Salazar, médico e professor perseguido pelo regime fascista.

O ano tem sido de transição no CCB, entre gestores e entre projectos, prevendo-se para 2007 a transformação do módulo de exposições numa entidade protagonizada pelo «Museu Berardo», o que não impedirá a rotação de mostras temporárias, como sucede na primeira sede da colecção, em Sintra. Depois do enorme êxito de público que foi a apresentação de Frida Kahlo (onde se esteve à beira, pelo menos à beira, da publicidade enganosa, devido à confusão com outra exposição da Tate Britain), as novas mostras não têm condições de popularidade fácil mas são projectos consistentes e dirigidos a públicos diversificados.

A obra de Jorge Martins é exposta em toda a extensão das galerias do piso superior, numa escolha de cerca de 170 pinturas e desenhos realizada pelo artista e por Margarida Veiga, administradora do CCB e comissária. O que permite seguir todo um percurso original e solitário (não identificado com grupos ou movimentos) que alcançou notoriedade logo nos anos 60, no contexto das várias neofigurações internacionais. Nascido em 1940, em Lisboa, o artista instalou-se muito cedo em Paris, num exílio que só terminou com o 25 de Abril, embora o seu trabalho fosse regularmente exposto em Portugal.
     
A partir de meados dos anos 70, a figura humana deixou de estar presente e o artista iniciou um longo processo analítico sobre os meios e elementos da pintura, designadamente sobre a luz, o espaço e a cor, às vezes com utilização da palavra escrita, num caminho que ficou associado à vigência das estratégias reducionistas (minimalismo e conceptualismo). Tratou-se sempre, porém, de recusar as orientações formalistas mais puritanas ou auto-sacrificiais, conduzindo Jorge Martins um itinerário experimentalmente reflexivo em que, de certo modo contra a corrente, explorou a sensualidade dos meios plásticos e as virtualidades da ilusão pictural, mantendo aberta a possibilidade de sugerir outros sentidos para lá da presença literal dos materiais. Mais recentemente, já depois da retrospectiva que a Fundação Gulbenkian lhe dedicou em 1993, o artista voltou a ensaiar os caminhos da representação figurativa, e mesmo tendencialmente narrativa, num trabalho em que as referências à história da arte e a atracção erótica pelo corpo feminino estão muito presentes.


A colecção de Helga de Alvear, considerada a maior de Espanha de iniciativa privada no segmento contemporâneo, foi apresentada no ano passado em exposições realizadas em Cáceres e em Badajoz (no MEIAC), estando prevista a sua instalação em 2007 num novo centro de arte com o seu nome na primeira destas cidades da Estramadura espanhola. De nacionalidade alemã, começou a comprar arte nos anos 60 e associou-se depois à galeria madrilena Juana Mordó, assumindo mais tarde a sua direcção até criar em 1995 outra com o seu nome.

Através de uma selecção de obras de 59 artistas, a mostra documenta os caminhos do «mainstream» institucional desde os anos 1970 até ao presente, com particular interesse por exemplos da chegada da fotografia de grande formato ao mercado de arte.

Exposta na grande galeria do piso inferior, conta com uma primeira sala com trabalhos de Joseph Beuys, Jürgen Klauke, Helena Almeida e Marina Abramovic, representativas de alguns tipos de acções fotográficas dos anos 70, apresentando adiante, num percurso não cronológico, artistas representativos da arte minimal (Donald Judd e Dan Flavin) ou conceptual (Joseph Kosuth e Hanne Darboven). Instalações de grande vulto, como as dos britânicos Angela Bulloch e Isaac Julien (vídeo) ou do brasileiro Ernesto Neto, acompanham as obras de, por exemplo, Barnard Frize, Luc Tuymans, Michael Majerus ou Pia Fries.

    

 Rebecca Horn, «O Híbrido», instalação, 1987


A simultaneidade com a primeira mostra da colecção Ellipse (em Alcoitão) permite apontar a repetição dos nomes de Candida Höfer, Bernd & Hilla Becher, Thomas Struth, Thomas Hirschhorn, Ernesto Neto, Gabriel Orozco, Rosemarie Trockel, Jeff Wall, John Baldessari, Mona Hatoum, Julião Sarmento e Rui Chafes. Outros portugueses representados são ainda Augusto Alves da Silva, Joana Vasconcelos, João Penalva e José Pedro Croft, mas mostra-se um só espanhol, o falecido escultor Juan Muñoz.

 

    Abel Salazar, desenho


Por fim, no espaço habitual da fotografia, cerca de duzentos desenhos de Abel Salazar (1889-1946) são apresentados em colaboração com a Fundação Mário Soares, que procedeu à sua inventariação e restauro, tendo origem na casa-museu com o nome do médico e artista, em São Mamede de Infesta, Matosinhos. Presente em grandes exposições individuais em 1938 e 1940, e depois numa homenagem póstuma em 1946, a sua obra foi reivindicada pelo nascente movimento neo-realista como exemplo de resistência ética, mas tem sido considerada como uma prática amadora marcada pelo gosto oitocentista, o que agora se poderá reexaminar. Nestes trabalhos, e na sua obra em geral, predomina a figura feminina, que tanto pode representar as «elegantes» dos cafés de Paris ou Berlim como mulheres do povo em ambientes de trabalho.


 


sábado, 10 de junho de 2006

2006, 1º leilão de fotografia, Luís Trindade (Potassio Quatro) e Bernardo Trindade, "Começar do princípio" (10 06)

 Começar do princípio

 
        Consolida-se o segundo mercado da fotografia 

expresso 10-06-2006

 

II Salão Internacional de Arte Fotográfica de Lisboa na SNBA, 1939 (Anónimo ou H / M Novais?)

Teve uma inesperada projecção na imprensa, com chamadas de primeira página nos diários, o primeiro leilão exclusivamente consagrado à fotografia que se realizou entre nós, no passado dia 1 (ver pág. 8). Mesmo sem contar com recordes mediáticos, foi, de facto, um assinalável êxito, graças à participação de 55 compradores em cerca de cem licitantes inscritos, além do público curioso, a uma percentagem baixa de lotes retirados de praça (71 em 300, ou seja, 24 por cento) e ao valor global das peças adjudicadas (39 mil euros), que se pode dizer elevado, apesar desta verba confirmar a pequena escala, quase íntima, do acontecimento.

Vários tipos de interessados animaram o leilão e fizeram prova pública de que existe um mercado para a fotografia antiga e moderna (a contemporânea circula em geral pelo mercado de arte). Aficionados por curiosidades de outros tempos, investigadores de diversas áreas da sociologia, da história ou da museologia, profissionais de vários ramos do antiquariato, por vezes com relações internacionais, coleccionadores de fotografia de diferentes perfis, privilegiando uns as vertentes documentais, outros as qualidades estéticas das imagens e a notoriedade dos autores (mas as duas orientações podem associar-se com êxito), conviveram activamente na mesma plateia e festejaram com palmas a ocasião. Espera-se que não cheguem demasiado depressa os «investidores» que têm afectado outros circuitos, para que os valores de mercado possam definir-se sem demasiadas pressões especulativas.

Não se tratou de criar ex nihilo um novo comércio, mas de trazer à luz uma realidade oculta que tardava em consolidar-se com a aparição de um segundo mercado informado e competente que, como na área das artes plásticas, é essencial para um funcionamento mais seguro do campo da criação e da circulação de novas obras. Muitos bloqueamentos têm travado o conhecimento da história da fotografia, nomeadamente, os que favorecem a produção de impressões recentes para colecções e exposições, em vez da procura de provas de época (enquanto estas se deixavam destruir ou iam saindo para o estrangeiro). Por outro lado, concentrou-se toda a atenção pública na promoção das novidades do presente (do que, sem retaguarda credível, resulta depressa uma generalizada desatenção) e circunscreveu-se a memória histórica ao breve passado modernizador dos anos 1950/60, decerto brilhante mas de escassa influência, enquanto ficava por conhecer, por exemplo, o modernismo fotográfico que desde cedo o Estado Novo soube utilizar com eficácia.

A partir de agora, mais caixas de fotografias velhas (e álbuns, revistas, postais, etc.) virão à superfície em casos de partilhas, em vez de serem destruídas como trastes inúteis. Com a publicação de um primeiro catálogo, e o conhecimento dos valores propostos e atingidos (que por vezes começavam muito justamente pelos 10-15 euros e noutras chegaram aos 500/600 para provas de especial interesse), surgiram as referências que servirão de orientação para as trocas seguintes. Com a continuidade das vendas públicas (certamente já em Outubro/Novembro, com aperfeiçoamentos vários) mais provas irão sendo atribuídas, datadas e localizadas, e a alguns autores passarão a corresponder corpus de obras conhecidas, sem esquecer que os anónimos (ou ignorados) deram um contributo muito significativo à fotografia, como o MoMA sempre foi provando.

Já existiam coleccionadores, curiosos ou «connaisseurs», que actuavam num mercado insipiente com as vantagens próprias de serem poucos e discretos. Agora é provável que se fortifique a outra componente essencial deste universo, que são, além dos livreiros antiquários, as leiloeiras e os galeristas especializados, conhecedores da especificidade do sector. A seguir, as instituições públicas ver-se-ão forçadas a corrigir a sua já longa história de inconsequência e desperdício - lembremos o polvo administrativo que foi o Centro Português de Fotografia e a confusão em que mergulhou a Colecção Nacional de Fotografia.

Luís Trindade (da empresa Potássio Quatro, iniciada na área da conservação) e Bernardo Trindade (da Livraria Campos Trindade), com a colaboração de Luís Pavão e o apoio de António Barreto e António Valdemar, bem como de uma alargada equipa movida pelo entusiasmo, deram o pontapé de saída. O interesse pela fotografia, que transcende em muito a perspectiva do lucro imediato e fácil, surgiu associado a uma maneira competente de fazer as coisas. Parece haver condições para este começo reunir condições de continuidade.