quarta-feira, 26 de março de 2025

2025, Porto, Colecção Ilidio Pinho apresentada pela Universidade do Porto

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"Aula do visível, obras da coleção Ilídio Pinho"

Edificio Abel Salazar, antiga Faculdade de Medicina





A colecção Ilídio Pinho (aliás, da Fundação com o seu nome) é uma das maiores coleções privadas de obras de artistas portugueses - seria possível apresentar mais outra exposição, ou mais duas ou três, a partir do seu acervo.

E seria mais conveniente ter como comissário de uma tão alargada apresentação pública outro que não o seu responsável, Miguel von Hafe Perez - seriam outros critérios, outros olhares, outra leitura da colecção e das aquisições, recentes ou não.
O menos que se pode dizer por agora é que a seleção é irregular e conjuga peças de museu e obras relevantes e outras que o não são. A "abrangência" não resulta, nem efectivamente importa numa colecção acertada. Privilegiaram-se aquisições do comissário? Compromissos locais? Acasos do mercado? A série de fotografias de grande formato, no final, não parece convincente, e resultará de um "fenómeno" cronológico.

Se o espaço no edifício restaurado (agora pertencente à Universidade, e com o nome de Abel Salazar) é ingrato, ou mesmo impróprio, com a sequência árida de pequenas salas em dois pisos superiores, assinale-se a falta de informação na fachada, sem a projeção mediática que tem a Reitoria próxima. Percorri-o sozinho, entre as meninas vigilantes, apesar de estarmos no centro do Porto.

A colecção tem sido mostrada com frequência (nomeadamente em 2021 na Fundação Arpad e Vieira da Silva, muito abreviada) e muitas obras têm sido cedidas para diversas exposições.




Júlio, 1930, sem título conhecido.e Almada Negreiros, 1941, Natureza morta.
Mário Eloy, 1935, Uma mulher e dois homens (?).

Amadeo Souza Cardoso


Ainda a colecção e duas considerações (II):
além dos núcleos de obras de Amadeo Souza Cardoso (5) e Vieira da Silva (18 títulos!), os outros núcleos da colecção mais numerosos, poderosos e representativos são dedicados a dois Júlios, Pomar e Resende, os quais constituíram grandes opções iniciais do coleccionador. Ora a exposição actual reduz Resende a uma obra única de 1973 e Pomar a 3 obras (1972 e 1985) que não se podem considerar os melhores exemplos das suas carreiras e da colecção. Porquê? O que aconteceu? Alguma coisa contra? A colecção aparece assim muito desfalcada e ficará a justificar-se uma futura exposição conjunta dos dois Júlios, com as obras da colecção IP, dois pintores de longo curso com com origem ou passagem no Porto e itinerários cronológicos paralelos.


Alentejanos, 1951 96x72cm


Pintura #9, 1959 100x80cm

Pintura, 1975 69x55cm


Mulher de balança, 1978 90x120cm





Paula Rego (O meu tio no Dordogne 1972) e Júlio Pomar (Nevermore 1985)

Este é um espaço difícil para fazer exposições, e não foi adaptado para o efeito. A montagem é precária, improvisada, usando-se apenas painéis construídos para poupar (?) as paredes, deixando vazio o grande espaço central ao longo do qual se sucedem as salas como portas de escritórios - é tudo muito económico, apressado e sem catálogo.




Começa-se muito bem o percurso com uma parede de Amadeos (5 obras) e 3 paredes 3 (!) de Vieiras (10), mas a seguir a coisa complica-se. Depois ou a par da Vieira, os núcleos mais visíveis da colecção não são os dos Júlios Pomar e Resende, que chegaram a constituir o alvo principal do coleccionador. O comissário Miguel von Hafe Pérez* não os quis destacar, ou porque não lhe interessam ou para dar lugar a mt coisa diversa e de importância variável, que corresponderá às aquisições que tem orientado depois de dividir o acervo em dois capítulos com bastante arbitrariedade: a "Coleção Vivências" (que reune artistas que se poderão dizer históricos, e também outros actuais) e a "Colecção Sonhos", com "contemporâneos" ou mais recentes - na realidade a divisão não se entende.

A exposição é em grande medida uma oportunidade perdida, e não teve o impacto público que a colecção merecia.
A Colecção Ilídio Pinho é uma das maiores do país e é dedicada à arte portuguesa dos séculos XIX a XXI, com raras excepções.

*O Miguel H.P. é também curador desde 2025 da Colecção da FLAD, em Lisboa, e igualmente do Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, além desta Col. Ilídio Pinho no Porto (e ainda? do Museu do Futebol Clube do Porto)