sábado, 24 de novembro de 1990

1990, Serralves, Colóquio internacional: "Alguém disse MNAM?""


"Alguém disse MNAM?"


EXPRESSO / Revista, 24 Novembro 1990


(Por ocasião de um colóquio internacional sobre o tema do museu de arte moderna promovido pela Casa de Serralves)


ENQUANTO, no Porto, um colóquio sobre o tema «museu de arte moderna» tornava evidente que não há qualquer solução para os impasses em que caíram o CAM (Centro de Arte Moderna), o MNAC (Museu Nacional de Arte Contemporânea) e o anunciado projecto de um Museu Nacional de Arte Moderna - e enquanto a SEC cometia a grosseria de ir anunciar a um museu por haver o seu interesse prioritário em lançar uma feira antes das próximas eleições -, a re-inauguração do Centro Rainha Sofia <ver artigo mm data>, em Madrid, já não é só o reverso de uma realidade pobre e caricata, mas a afirmação de um poderoso centro cuja atracção altera radicalmente as nossas próprias condições de informação cultural. 

E se, para além desse centro, com o qual todo o propósito de competição é em absoluto irrealista, considerarmos que pela restante península se está a estabelecer aceleradamente uma rede de centros de arte e museus de iniciativa regional voltados para a criação actual (e não apenas nos domínios das artes plásticas), poderemos então definir ainda melhor o quadro de uma situação de progressivo isolamento numa periferia cada vez mais desatenta. 

Será seguramente apenas no âmbito dessa rede que poderá pensar-se ainda qualquer projecto português, mas só quando o interesse por estas questões (que são também de ordem política e envolvem uma dinâmica conflituosa de reforço do centralismo de Madrid e de desenvolvimento descentralizado das periferias) ultrapassar o restrito âmbito dos respectivos profissionais. 


Sem preocupação de exaustividade, anote-se o poder da «concorrência»: Instituto Valenciano de Arte Moderno - Centro Julio Gonzalez (IVAM), aberto em Fevereiro de 1989; Centro Atlântico de Arte Moderna (CAAM), inaugurado em Dezembro de 1989, em Las Palmas, Canárias; Museo de Arte Contemporáneo de Barcelona (a abrir em 1992); Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela (a construir com projecto de Siza Vieira); os previstos Centro Extremeño de Arte Moderno (CEAM) em Badajoz e Museo Vostell-Malpartida, em Cáceres; o provável Centro Andaluz de Arte Contemporáneo em Sevilha, para além das Fundações Miró e Tàpies, ambas em Barcelona, e outras de iniciativa privada.

 

É por isso que a intervenção mais positiva feita na Casa de Serralves foi a de Eduardo Lourenço, embora não se tivesse referido a museus nem a arte contemporânea: ocupou-se apenas em reflectir sobre Portugal e a cultura europeia, justificando a exterioridade relativa que permite falar comummente em «nós e eles». E. Lourenço procurou as remotas razões dessa distância (da precoce nacionalidade às barreiras erguidas pela Contra-Reforma, etc.) e, se acentuou que os Pirenéus foram em diversos períodos históricos a linha divisória face à Europa, acabaria por deixar em aberto a hipótese da alteração recente dessa fronteira.

 

O Centro de Arte Moderna da Gulbenkian é uma colecção particular em que dois possíveis núcleos museológicos, os de Amadeo e de Vieira da Silva, se dissolvem por entre os reflexos circunstanciais do trabalho mais ou menos aplicado dos bolseiros da Fundação e algumas aquisições de obras desgarradas, tudo reunido num edifício imprestável - Sommer Ribeiro reconheceu-o. O MNAC é uma herança a conservar como memória histórica de um passado recente de compromissos e incertezas, ou de um «fracasso nacional» como disse Raquel Henriques da Silva; se a oferta francesa da sua readaptação arquitectónica for aproveitada a tempo ganhar-se-ão condições mais condignas de preservação patrimonial, uma boa sala de exposições temporárias no Chiado e uma obra assinada por um grande arquitecto. O Centro Cultural de Belém é um enigma burocrático que está a ser construído sem qualquer programa de utilização concreta; os seus espaços já foram prometidos a todos os usos e ficarão certamente desertos depois da passagem dos funcionários da CEE. 


Quanto ao Museu Nacional de Arte Moderna, para lá de se reconhecer a perseverança de Fernando Pernes, é uma promessa em que ninguém acredita, porque o compromisso momentaneamente alcançado por Teresa Gouveia entre os «fundadores» e o Estado, em particulares condições políticas, é inteiramente ineficaz para se passar à fase seguinte: o orçamento anual da Fundação de Serralves é, de facto, inferior à facturação de uma boa galeria comercial ou aos investimentos de um razoável coleccionador particular. Só porque não há prazos fixados e programas a cumprir, porque o jardim é acolhedor e a Casa se ocupa com qualquer pequena exposição, é que o escândalo de Serralves não tem já a dimensão pública dos casos da Regie Sinfonia ou do Teatro de São de Carlos. 


Na realidade não se falou do MNAM durante o colóquio: deverá ele ser um museu ou um espaço vocacionado para grandes mostras sectoriais e temporárias; se for museu, isto é, se puder reunir uma colecção permanente, terá de circunscrever-se às criações portuguesas ou terá condições para se alargar à arte internacional; e, em qualquer caso, qual é o passado histórico que convirá tomar como objectivo de partida? 

É habitual que tais opções se definam antes de pedir um projecto de construção ao arquitecto, e se preparem durante vários anos antes da inauguração. Em Serralves discutiu-se por vezes a correcção dos termos «arte moderna» ou «contemporânea», mas evitou-se pensar se o MNAM terá condições para se chamar «museu» e «nacional». Ouviu-se contar, com o pasmo adequado, como se trabalha em Nîmes e Antibes (no sul mediterrâneo da França há museus de 20 em 20 km), em Roterdão ou em Barcelona (actualmente, «lá fora», inaugura-se um novo museu de arte moderna ou uma Kunsthalle todos os meses); era preciso que não se falasse do MNAM para não perturbar a recomendável tranquilidade de todos. 

1990, Madrid, Museo Reina Sofia, re-inauguração,

ver 13 Janeiro, p. 35: "O próximo MNAC"

ver 24 Nov. Revista: Serralves: Alguém disse MNAM?, p. 89. b



24 Nov. Revista: O Museu mais próximo (o Reina Sofia). P. 91 + Três identidades, Arte italiana, Giacometti, Tapies. P. 92.


O MUSEU mais próximo é o de Madrid.

O antigo Hospital Geral, situado a50 metros da estação de Atocha, tinha-se  transformado já, em 1986, no Centro de Arte Rainha Sofia. Com mais 5.300 milhões de pesetas de obras de readaptação (perto de oito milhões de contos), depois de 22 meses de trabalhos e de um novo «Real Decreto», tornou-se o Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia. Foi re-inaugurado a 31 de Outubro e pretende agora vir a ocupar um lugar de primeiro plano internacional entre os museus de arte moderna e contemporanea; em números de metros de áreas de exposição (12 505) já está à  frente da Tate Gallery, do Museu de Tóquio ou do MoMA e aproxima-se do Centro Pompidou.

O dinamismo da reabertura, com uma vasta panorâmica da arte italiana do século XX até meados dos anos 60, uma exposição de objectos inéditos de Tapies e a maior retrospectiva desde sempre dedicada a Giacometti, inauguradas sucessivamente com intervalos de uma semana, dá também a medida dos meios investidos e do gigantismo dos propósitos.

Mas a rotação de exposições temporárias, por mais significativas que elas sejam, não faz um museu. Apesar dos enormes meios financeiros disponíveis, Madrid enfrenta as dificuldades resultantes do isolamento que os poderes públicos (mas não os artistas que emigravam «para a Europa») mantiveram durante décadas perante a evolução da arte moderna e contemporânea: inventariaram-se as colecções, reconheceu-se a «indubitável pobreza do ponto de partida» e fazem-se projectos a prazo. Tomás Llorens, que é desde 1988 o director do Museu-Centro (o CARS, abrevia-damente), avisa que há que «ter a coragem suficiente para abrir um museu e a lucidez necessária para compreender que são precisas duas ou três gerações para que um museu comece a ganhar corpo».

E por isso que quando o CARS, a 23 de Janeiro, fizer a apresentação inaugural da sua colecção permanente, a mostrará «como uma primeira aproximação, uma hipótese, como se se tratasse de uma exposição temporária, embora com a duração de dois anos.

Claro que o património disponível inclui obras como as de Picasso, Gris, González, Miró, Dalí e Tapies, para citar apenas nomes cimeiros da modernidade internacional, mas também é certo que lhe falta quase tudo o resto e que se torna cada vez mais difícil disputar nos leilões os Kandinsky, Pollock, De Kooning ou Jasper Johns imprescindíveis a uma panorâmica que se deseje completa da arte do século XX. A alternativa entre um museu restrito aos artistas nacionais e a abertura à história internacional implica opções museológicas radicais, tal como sucede com a definição de um horizonte que percorra todo o século ou marque um qualquer limiar cronológico mais recente a partir do qual se estruture a colecção.


Um relato singular

A escolha da actual orientação do CARS não se fez sem hesitações e polémicas, que afloram ainda por entre as reacções locais à re-inauguração. Eram duas as teses em confronto: a do «centro cultural» e a do «MoMA de Madrid».

Para alguns (por exemplo, para Carmen Giménez, que foi directora-geral de  Exposições ao tempo do lançamento do primeiro CARS e apontou a sua acção principal para a criação de condições que sustentassem o lançamento internacional dos artistas espanhóis dos anos 80, é já impossível recuperar o tempo perdido. Deveria partir-se, por isso, do estabelecimento de uma abertura prioritária à produção artística actual e apostar na circulação — é a tese que encontra, natural-mente, apoios maiores entre os artistas mais novos e os sectores de mercado mais agressivos.

Para os outros (é a posição da actual direcção, apoiada pelo ministro Semprum, mais ligada à valorização das vanguardas históricas do que atenta às recentes evoluções artísticas, contando logicamente com o apoio de artistas destacados de gerações anteriores, como Tapies e Saura) impõe-se fazer o recuo ainda possível, começando desde já a colmatar as lacunas existentes na colecção e deixar em aberto o horizonte de um museu enciclopédico como o MoMA, o Guggenheim ou o Beaubourg.

Um dado curioso sobre as colecções do CARS diz respeito à herança recebida  do extinto Museu Espanhol de Arte Contemporânea (MEAC): das 2372 pinturas e 1350 esculturas aí reunidas não são mais que cinco dezenas as obras «aproveitáveis» para o novo discurso museológico em organização.

Simón Marchán Fiz (vice-presidente do Real Patronato do CARS e autor de importantes obras sobre estética e arte contemporânea) explicou no Porto, com notável rigor teórico, as ambições e os limites do projecto actual, apontado para a apresentação dos «clássicos modernos» e da actualidade — os primeiros já no museu e a segunda no circuito das mostras temporárias. Se, conforme afirmou, todo o museu é uma pura ficção, um relato que deve ter a sua singularidade, o CARS irá construir-se criando constelações em torno das «estrelas» espanholas, desde um primeiro período



 


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Rainha Sofia reabre a 31


05 10 1990

O CENTRO Rainha Sofia de Madrid vai reabrir as suas portas no dia 31, depois de uma nova reforma do edifício.

Duas torres envidraçadas para elevadores colocadas no exterior da fachada, uma outra torre para cargas e serviços, a instalação dum sistema de ar condicionado, alterações das zonas de circulação, a adaptação de espaços para salas de exposição, biblioteca e serviços administrativos são as principais beneficiações introduzidas no antigo hospital que é agora o Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia.

A inauguração far-se-á com uma exposição intitulada «Memória do futuro. Arte italiana dos começos do século até ao pós-guerra», um panorama de 1900 até aos anos 60 através de 300 peças, seguindo-se imediatamente a abertura de uma exposição antológica de Tapiès incluindo objectos, esculturas e obras sobre cartao (dia 7 de Novembro) e de outra dedicada a Giacometti,  com esculturas, pinturas e desenhos (14 de Nov.). Ainda no último trimestre, a 12 de Dez., inaugura-se a 1ª Bienal da Imagem em Movimento, que dará especial atenção à criação em vídeo.

A partir de Janeiro suceder-se-ão uma amostragem de obras primas do Museu Guggenheim (em circulação pela Europa enquanto decorrem obras de ampliação da sua sede), uma exposição de esculturas recentes do inglês Anish Kapoor (que foi presença saliente na última Bienal de Veneza) e uma antologia de Juan Brossa; para Fevereiro anunciam-se o alemão Markus Lupertz, pintura e escultura, e o espanhol Francesc Torres, instalações.

Desenhos de Pierre Klossovski e fotografias da Agência Magnum (Abril); pinturas de Frank Stella e Nicola de Stael (Maio); esculturas de Susana Solano e «Viena: os últimos dias da humanidade» (Junho) preenchem o calendário da temporada, a par de outras mostras antológicas de artistas espanhóis.

Entretanto, abrirá igualmente em Janeiro a exposição da colecção permanente do Museu, ocupando o segundo piso do edifício (entre 20 e 30 por cento da área do Centro, frente a 70 por cento para exposições temporárias). Ainda que o Rainha Sofia tenha herdado a colecção do antigo MEAC e aumentado os seus fundos com aquisições e legados de Picasso, Miró e Dali, o seu director, Tomás Llorens, não tem escondido «a pobreza do ponto de partida do museu».

As cerca de 3000 pinturas e 400 esculturas incluem em especial autores espanhois e europeus de 1920 a 1960, com destaque para o Picasso dos anos 30. Se as limitações económicas são determinantes para que se fale apenas numa «hipótese de museu», também permanece em aberto a definição de um conceito de colecção e a consideração das condicionantes impostas pelo próprio edi-fício.


Rainha Sofia, Surpresa no , 11 Jan.91

Rainha Sofia: projectos alterados, 19 Jan.91