Módulo
2016
António Carrapato é um fotógrafo com uma carreira original, iniciada como fotojornalista, mas já com diversas exposições que foram mostrando o seu trabalho de autor (Museu de Évora, 2009, apresentada por Joaquim Caetano; A Pequena Galeria - esta uma mostra de grupo e itinerante, em 2013, que organizei ).
Está agora na galeria Módulo. Alentejano, é um homem com um humor raro - e o humor é uma das marcas fortes do seu trabalho fotográfico - de que se serve com um excepcional sentido de oportunidade para dar a ver e comentar a sua região (e não só - outra das suas direcções de trabalho é intencionalmente europeia). Com a atenção muito desperta para o acaso, para o encontro imprevisto e acidental que marca muitas das suas fotografias, o que implica um muito ágil sentido de composição <o instante decxisivo>, ele constrói, de facto, séries temáticas que se assemelham a programas conceptuais.
A opção seguida pelo comissário da mostra e pelo galerista consistiu em apresentar mais de uma centena de imagens em pequeníssimos formatos (9, 12 cm), agrupadas em conjuntos que apontam pistas de entendimento ou núcleos de trabalho. Pode não ter sido a melhor estratégia para introduzir a obra de António Carrapato no circuito dos coleccionadores de fotografia, mas esta é, por outro lado, a possibilidade de uma abordagem antológica que confirma a respectiva importância.
Não é um jovem fotógrafo (um artista emergente, uma revelação, um nome descartável na próxima época) e não tem o apoio de uma rede suspeita, para não dizer mafiosa, que consegue, por exemplo, ocupar o Museu do Chiado com uma exposição comercial acompanhada por uma iniciativa editorial também comercial - o acesso aos dinheiros da DGPC (Património Cultural, supõem-se) assegura essas e outras facilidades. Carrapato é um artista com obra feita, que às vezes me lembra o meu fotógrafo espanhol preferido, o Cristobal Hara, que ele naturalmente não conhecia.
(...desagradado dessa opção expositiva com miniprovas - acho que fazem falta formatos razoáveis).
press:
28 maio de 2016, até 28/06
António Carrapato foi durante bastante tempo fotojornalista do jornal Público, mas em paralelo foi desenvolvendo um trabalho de fotografia criativa. Conhecido num grupo mais restrito de pessoas do meio fotográfico, tem agora a sua primeira exposição antológica nesta galeria cobrindo um período desde que vai de 1985 a 2015, começando no preto e branco e prolongando-se pela cor.
A exposição tem a curadoria de José Soudo, que realizou um trabalho verdadeiramente notável na selecção e montagem das 103 fotografias que constituem a exposição.
Encantamento é o título dado pelo curador a esta seleção do trabalho fotográfico de António Carrapato, mas passemos ao texto escrito por José Soudo para a ocasião:
(... Vilém Flusser ) Vem tudo isto a propósito dos trabalhos, deste trabalho fotográfico em concreto, do António
Carrapato, amigo de longa data, com quem me cruzo há mais de 25 anos, pois sempre que os
“leio”, sou remetido para um estado de “ENCANTAMENTO”.
Estas séries, que nos são dadas a ver neste espaço da Galeria Módulo, carregadas de pequenas e enormes subtilezas, assim como de abordagens tão delicadas e intimistas, têm (para mim), o condão de nos evidenciar os poderes ocultos deste fotógrafo, qual mágico, para nos seduzir e inebriar, provocando sensações de embriaguez e felicidade, apenas porque lhe olhamos as imagens.
Percam o vosso tempo com elas, pois quem sabe se não é isto que o velho Flusser nos quer dizer quando afirma que …”as fotografias não têm nada de mágico porque são técnica pura, no entanto são imagéticas, porque vivem de magias...
António Carrapato, nascido em Reguengos de Monsaraz no ano de 1966, começa a sua carreira nos anos 90, a fotografar para os principais jornais portugueses.
Em paralelo desenvolve um trabalho de autor, em que constrói uma temporalidade de
acasos significativos com um humor muito específico.
É no território rural do Alentejo, mas também em contextos urbanos internacionais, que utiliza a sua capacidade de observação para criar um universo visual onde a relação entre o homem e a sua envolvente revelam subtis ironias ou absurdas coincidências.
António Carrapato estou fotografia no Ar.Co e apresenta um curriculum de exposições colectivas apreciável de que poderemos destacar Aldeias Gémeas, Museu da Aldeia da Luz (2013), Riso, Fundação EDP (2012), Nós, Museu de Évora (2009). Recentemente figurou na exposição intitulada Grupo de Évora com curadoria de Alexandre Pomar ,que se iniciou na Pequena Galeria em Lisboa e depois circulou por Sines (Centro Cultura Emérito Nunes) e Évora (Palácio D.Manuel) durante o ano de 2013.
A obra fotográfica de António Carrapato encontra-se em várias publicações como Planeta Ovibeja(2008, Arte na Fundação Luso-Brasileira(2007) e Extensão do Olhar, Uma antologia visual da fotografia portuguesa contemporânea (2005) da Fundação PLMJ.





















2011 A de Animal
05/15/2016
Nuno Viegas na Colecção Cachola
Certamente a lista de artistas da Colecção António Cachola está ainda "in progress", mas parece-me chocante notar-se já a falta de um pintor que o próprio colecionador quis associar especialmente à inauguração do seu Museu em Elvas: o Nuno Viegas, que pintou três grandes telas à escala dos corredores do antigo hospital, com destino à instalação inaugural: essas grandes pinturas sobre tela, que se referem ao lugar do museu enquanto hospital e à específica função deste, bem como uma série associada de trabalhos sobre papel, foram realizadas num atelier em Benfica, alugado durante um ano - e aí as pude ver logo que concluídas. Mas as obras não foram apresentadas na inauguração, de que encarregou João Pinharanda, e só algumas outras obras foram mais tarde expostos (2012).
Acho o Nuno Viegas um dos artistas mais importantes entre os surgiram ou se afirmaram nas primeiras décadas do novo século, mas o "gosto oficial", o mecanismo das exclusões institucionais, com a sua lógica clientelar, tem coartado a visibilidade da sua obra. Aposto que é uma das grandes apostas originais da colecção - que na maior parte dos nomes segue a rotina dos artistas do sistema galerístico-oficial. N.V. teve uma única mostra institucional em 2004, “A tinta envenenada”, no Centro Cultural de Cascais, e expõe regularmente, desde 2002, na galeria Arte Periférica. Não é fácil resistir ao muro de isolamento que é habitualmente levantado à volta dos artistas que se destacam da mediania que o sistema favorece, mediania formada por pequenas promessas surgidas à volta de três ou quatro nomes oficiais, envolvidos num sistema protector que eles próprios controlam, sob a tutela das "galerias líder". Acontece que a protecção dada às emergências fugazes e à mediocridade ambiente - tal como a insignificância de uma crítica oportunista - está a tornar o meio das artes visuais num terreno sem credibilidade, minado pelas suspeitas e só sustentado por tutores institucionais, de que se afastam espectadores e compradores. Os leilões, onde o segundo mercado estabelece os valores do reconhecimento das carreiras, estão a confirmar o descrédito do sistema oficial.
Duas pinturas de grande formato do Nuno Viegas mostradas na exposição "Génesis" do Museu de Arte Contemporânea de Elvas (na foto instaladas no Museu): "A colisão improvável", 270 x 360cm, 2008, e "A nuvem que nos separa", 270 x 360cm, 2008.
Têm o defeito de serem a cores e não do preto e branco, conforme o regime vigente, e de não serem "minimalistas" - pelo contrário, são maximalistas, podem ser observadas como comentários do presente (em vez de serem apenas um exercício formal, ou uma obra de arte sobre a ideia de arte), são comunicativas e despertam emoções, são livres de tutelas escolares ou críticas, são formal e materialmente poderosas na sua realização pictural, são abertamente imaginativas quanto à sua temática figurativa e narrativa.
Da colecção António Cachola fazem parte as três telas adquiridas pelo coleccionador na perspectiva da inauguração do seu museu, a que acima me refiro, mais 14 desenhos dentro da mesma temática, bem como outras duas telas de grande formato adquiridas mais tarde e que integraram a exposição "Génesis" do MACE em 2012. Defendo que são obras mais poderosas e radicais do que a generalidade das peças da colecção. Suspeito que é por isso que se exerce alguma censura - ou será distração?