terça-feira, 3 de novembro de 2015
MOIRA FORJAZ
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Moçambique, 4 fotógrafos
Tem de referir-se a personalidade forte de Ricardo Rangel e a capacidade de se afirmar como foto-jornalista independente e crítico com uma carreira sempre ascendente na imprensa colonial, até à direcção da revista Tempo no início dos anos 70 (e conta aí a transigência táctica do poder colonial com um grande fotógrafo mestiço e oposicionista, alimentando alternativas intermédias entre as veleidades dos independentistas brancos e os nacionalistas negros, favorecendo elites mestiças para como quem divide para reinar e aposta em todos os tabuleiros).
A repressão política poupou-o (preso a distribuir panfletos nos anos 40) e a censura nunca o silenciou quando intervinha como editorialista fotográfico. E Rangel passou ao novo regime da independência, atravessou a revolução e a guerra civil e a normalização relativa, como figura independente (também crítico da nova situação) e como formador de fotógrafos. Criticou a nova imprensa oficial em "Foto-jornalismo ou foto-confusionismo" (2002) e foi eleito para a Assembleia Municipal de Maputo (1998-2003) pela lista de cidadãos "Juntos pela cidade". A mesma luta em diferentes condições políticas, com uma habilidade excepcional.
Entretanto, é indispensável juntar a Rangel o nome de Kok Nam, parceiro de jornais e da Tempo, grande foto-jornalista de carreira também muito longa ( repórter da guerra civil na rectaguarda e mais tarde director do semanário Savana até à morte).
E falta perceber qual foi o papel de Rogério - Rogério Pereira (n. Lisboa 1942 - Setúbal, 1987) -, fotógrafo português em Moçambique, regressado no final da década de 70, inadaptado aos vários regimes. Fotografou desde 1966 em Lourenço Marques; trabalhou no Sunday Times, Johannesburg, 1968. Colaborou na revista Drum (1969, 1973), presente em exposições colectivas em Johannesburg e Cape Town desde 1969 e 1972 (refere "Images of Man", promovida pelo "International Fund for concerned photography"), segundo informações do próprio no catálogo "Momentos", Gulbenkian 1981 - de uma exposição que à data foi desvalorizada, e estava-se diante de um fotógrafo radical, revoltado e irrecuperável, com imagens de uma grande veemência crítica, indisciplinadas. Frequentou os meios do jazz com Ricardo Rangel e certamente facilitou a relação deste com outros fotógrafos sul-africanos. Imagino que foi Rogério que levou Rangel a expor com Basil Breakey (fotógrafo de jazz de Cape Town) em 1973, no Núcleo de Arte, fazendo-o passar da página impressa para a parede de uma galeria. Em 2002, a 1ª edição do Photofesta, Encontros Internacionais de Fotografia de Maputo, dedicou-lhe uma exposição de homenagem.
Sem contactos conhecidos com Rangel e Rogério, mas bem relacionado com jornalistas como Honwana e Craveirinha, e em geral com o meio das artes, Pancho Guedes faz um uso moderno e eficaz da fotografia, sem que esta seja valorizada em si mesmo como disciplina funcional e/ou arte, ou objecto de exposição. Não é nem se intitula fotógrafo, é arquitecto, pintor e escultor. Mas fotografa tudo, e é relevante a sua presença fotográfica impressa no início dos anos 60: o manifesto “A cidade doente, várias receitas para a curar. O mal do caniço e o manual do vogal sem mestre”, dupla página em A Tribuna, 9-6-1963; as páginas de Aujourd’hui: Art et Architecture, nº 37, 1962, com os "Mapoga", e Architecture d’Aujourd’hui, 1962, Juin-Juillet, sobre a sua arquitectura. Também neste domínio tem uma intervenção irreverente e influente. Moira Forjaz encontra-o desde 1961. No Núcleo de Arte, de que foi colaborador activo, movimenta-se uma Tertúlia Fotográfica e alguns amadores dos quais vêm a participar em "Moçambique a Preto e Branco", ed. de Natal da empresa Codam, 1972, cuja nota introdutória é seguramente da autoria de José Luís Cabaço, depois ministro da Informação da RPM.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
2. "O Museu Nacional de Arte Popular, praticamente vazio há anos, deverá fazer parte da lista de melhorias necessárias. Em 2013, Barreto Xavier disse que queria ter um projeto para o espaço até finais de 2014. A tutela trabalhou “muito com o Brasil”, com o objetivo de ter em Portugal “um grande centro cultural do Brasil”, e, em simultâneo, um centro cultural de Portugal do outro lado do Atlântico. No entanto, o diálogo com a ministra brasileira da Cultura, Marta Suplicy, foi interrompido com a sua demissão da pasta, em novembro de 2014. Barreto Xavier chegou a visitar o Rio de Janeiro e São Paulo com o objetivo de encontrar um espaço para a cultura portuguesa, mas, “até hoje, apesar de haver vontade de ambas as partes, ainda não há do lado do Brasil uma proposta efetiva de um edifício compatível com a presença portuguesa” numa daquelas duas cidades. Com a implementação do projeto de gestão integrada, e “independentemente de quem for o próximo Governo”, é urgente “encontrar uma solução relevante” para o museu. Só não especifica se apenas projetos museológicos serão considerados."
in, "Um dia à boleia de Jorge Barreto Xavier. O deve e o haver de três anos à frente da cultura"
From Maputo (2013)
"De Maputo", em 2013 no Centro InterculturaCidade
“DE MAPUTO” Fotografias de José Cabral e Luís Basto (e duas pequenas homenagens a Rogério Pereira e Moira Forjaz)
25 de Julho 18:00 Inauguração da exposição
26 de Julho Apresentação de filmes e livros sobre a fotografia em Moçambique

José Cabral. Maputo 1989
Entre o pioneiro Ricardo Rangel e os novos fotógrafos que têm passado pelo BES Photo e o Próximo Futuro da Gulbenkian – Mário Macilau, Mauro Pinto e Filipe Branquinho –, existem as obras dos que se distanciaram daquilo a que se pode chamar a escola moçambicana de fotografia, a tradição fotojornalística e humanista, que conta, aliás, com um número extenso de bons autores. José Cabral (n. 1952, Maputo) é o homem da ruptura, que veio trazer ao colectivo da fotografia de Moçambique a necessidade do discurso pessoal, fundado num conhecimento alargado da fotografia internacional e na abertura a interesses culturais amplos, para além do quadro nacional e africano.
A referência autobiográfica presente nas suas últimas três exposições (“As Linhas da Minha Mão”, 2006 Maputo, 3º Photofesta; “Anjos Urbanos / Urban Angels”, 2009, P4 Photography, Lisboa, e Maputo; “Espelhos Quebrados”, 2012, Maputo) é uma contribuição corajosa para pôr em evidência o papel e o lugar de quem observa, e que assim, ao expor também a sua história própria, intervém lucidamente como artista nos acontecimentos do presente de um país em mudança. Durante e depois da dinâmica colectiva, com as suas vicissitudes imprevistas, e também terríveis, era tempo de cada um se interrogar a si mesmo e ao possível sentido do percurso comum. Vêem-se agora em “De Maputo” obras escolhidas dessas três exposições: a antologia pessoal, as crianças (os filhos de Cabral e os dos outros, com uma óbvia diferenciação de cor de pele e de meios sociais) e por fim os quase auto-retratos que sinalizam percursos de vida e relações (agora sob o título geral “De Perto”).
José Cabral é hoje a referência cultural e o mestre indisciplinado dos jovens fotógrafos, com uma extensa obra realizada desde que em 1975 começou a trabalhar como fotógrafo no Instituto Nacional de Cinema, a que se seguiram alguns poucos anos de repórter fotográfico de agência, depois no Notícias e no Domingo, com Rangel em 1981-82, mais tarde professor no Centro de Formação Fotográfica, de 1986 a 1990. Em 1996 publicou o primeiro livro A Guerra da Água, edição da Ébano Multimédia associada ao filme de Licínio de Azevedo com o mesmo nome (a cores, com problemas de impressão). Tem tentado viver como fotógrafo em Maputo, o que é bem difícil.

Luís Basto, Cadeira II, Maputo, 2013
Luís Basto (n. 1969, Maputo) é igualmente um autodidacta, com um discurso próprio e reconhecido, que esteve presente em colectivas internacionais como “Africa Remix” (2004) e “Snap Judgments – new positions in contemporary african photography” (2006) de Orkui Enwezor, aqui como único representante de Moçambique. Ao mesmo tempo que tem construído um grande banco de imagens documentais do país (www.mozambiquephotos.com), é um fotógrafo da cidade e da capacidade de sobreviver que aí se refugia: “Os anos vazios passaram; com eles o destino de uma geração que deveria combater pelas razões de outros homens. Muitos nascidos na paz não têm memória das vidas fragmentadas que inundavam a cidade como almas penadas. Donde viemos e onde estamos agora enquadra-se menos no tempo que nas dimensões de espaço da cidade. Estamos nas janelas, atrás das portas, cidadãos reflectidos em todas as nossas contradições.” – Berry Bickle e Luís Basto, em Luís Basto fotógrafo, 2004, Éditions de l’Oeil, Montreuil.
Recuando no tempo, a exposição inclui presenças simbólicas de dois autores que, de modos diferentes, trouxeram a experiência adquirida na Rodésia e na África do Sul para desenvolver em Maputo percursos originais e afirmativos nos anos posteriores à independência, ambos mais tarde interrompidos.
Rogério Pereira foi um fotógrafo e fotojornalista com itinerário na África do Sul (1968-1977), em Moçambique (1973-1979) e em Portugal (1979-1987), que se destacou com uma produção politicamente empenhada e inquieta, de grande exigência formal. Nasceu em 1942 em Lisboa, foi aos sete anos para Moçambique, e morreu de cancro em Setúbal em 1987 com 45 anos. Em 1973 expôs no Núcleo de Arte com Ricardo Rangel e Basil Breakey. Em 1981 mostrou o seu trabalho na Fundação Gulbenkian (“Momentos”). Em 1990 foi-lhe dedicada uma retrospectiva em duas partes na Associação Moçambicana de Fotografia com a colaboração de Ricardo Rangel, Kok Nam e José Pinto de Sá, que escreveu o texto do catálogo. Uma outra retrospectiva integrou o 1.º Photofesta, em 2002, com o título “Verdade”.
Moira Forjaz é a autora de Muipiti, Ilha de Moçambique (com texto de Amélia Muge, Imprensa Nacional, 1983 – editado sem a sua supervisão). Nasceu no Zimbabwe em 1942; visitou Lourenço Marques desde 1961; com formação em Graphic Arts na Johannesburg School of Arts and Design, trabalhou como fotojornalista na África Austral desde 1964, e viveu em Maputo entre 1975 e 1988; participou na formação da Associação Moçambicana de Fotografia em 1981 e realizou dois filmes nesse mesmo ano. Outras publicações: Ruth First, Black Gold: The Mozambican Miner, Proletarian and Peasant, St. Martin’s Press, New York / Harvester Press, Brighton, 1983 (fotografias), e Images of a Revolution: Mural Art in Mozambique, Zimbabwe Publishing House, Harare, 1983 (Albie Sacks, texto; Moira Forjaz e Susan Meiselas, fotografias). Voltou a expôr em 2009, “Kukumbula (Memórias) 1976 – 1986”, Espaço de Kulungwana, Maputo, e prepara actualmente um livro sobre a sua obra.
A organização da exposição teve a colaboração de Filipe Branquinho em Maputo e em Lisboa.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
José Cabral 18 fotografias
JOSÉ_CABRAL_18_fotografias (Leiria 2015)
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Moçambique 40 anos 4 fotógrafos. Leiria
6 Junho - 22 de Agosto
1. Uma história breve (e recente) da fotografia em Moçambique em 4 vitrinas
4 fotógrafos de Moçambique
Moira Forjaz - José Cabral - Luis Basto - Filipe Branquinho
A fotografia em Moçambique, somando os caminhos do fotojornalismo, da documentação e da afirmação artística, constitui uma das dimensões mais reconhecidas da produção e da identidade cultural do país. Para isso contribuiu em especial a figura e a obra de Ricardo Rangel (1924-2009), fotógrafo de imprensa influente desde os anos 60, que se impôs no tempo colonial e exerceu uma eficaz acção formativa depois da independência. Apesar das dificuldade criadas pela longa guerra civil e pela debilidade económica do país, até tempos recentes, Moçambique tem conhecido condições para a prática e a divulgação da fotografia que constituem um caso singular no panorama africano, comprovado por toda uma galeria de autores relevantes e uma assinalável continuidade criativa.
Para apresentar a importância da fotografia moçambicana, optou-se nesta exposição por reunir um conjunto alargado de obras de quatro fotógrafos com lugares destacados e também diferenciados ao longo do tempo, em vez de se procurar reunir uma antologia interessada na enumeração exaustiva dos muitos nomes dessa mesma história. A mostra conta com obras expostas desde 2009 em várias iniciativas e com outras escolhidas para este novo projecto, cuja oportunidade se sublinha na ocasião em que se celebram os 40 anos da independência de Moçambique.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Gravura
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Entrevista de autor não identificado no site da CMTV. O filme o SOLAR DOS JORGES e a exposição na Galeria Municipal - Paços foram coisas que gostei de fazer. Como estará a casa agora?
http://cm-tvedras.pt/artigos/detalhes/jorge-soares/
Jorge Soares
01.07.2015
Azulejos, bidés, candeeiros, pequenas esculturas, bancos, aspiradores, mobílias, telefones, brinquedos… Uma infinidade de objetos reaproveitados fazem do “Solar dos Jorges” um mundo de fantasia singular no concelho, construído ao longo de décadas por Jorge Soares. Antigo jogador de futebol do Benfica, fixou-se há já alguns anos na Boavista depois de reformado. A sua moradia e todo o seu pitoresco universo foram recentemente alvo de um trabalho de vídeo realizado por Alexandre Pomar e Tiago Pereira, o qual esteve patente na Paços – Galeria Municipal. À [Torres Vedras], Jorge Soares falou desse seu mundo, bem como de outras questões como a importância do reaproveitamento de materiais, o seu percurso de vida, a terra que o acolheu e algumas curiosidades interessantes da sua carreira desportiva…
Como começou este seu interesse em recolher material para fazer as “obras de arte” que estão patentes no seu solar?
Bem, já quando era miúdo a minha professora de desenho dava-me sempre muito boas notas e dizia-me que tinha muito jeito para o desenho. Entretanto cresci, apareceu o desporto, fui inclusivamente jogador de futebol do Benfica nos juniores, pratiquei também outras modalidades como o atletismo e o voleibol, e essa faceta artística acabou por ficar para trás. Aliás, naquele tempo já ganhávamos como juniores no Benfica, e desisti também por isso dos estudos. Depois casei, nasceram os meus dois filhos, e agora quatro netos, até que comecei a aspirar ter uma casa de férias. Comprei esta casa na Boavista em 1972. A minha mulher faleceu por volta do ano 2000 e, estando reformado, resolvi fixar-me aqui. Se ficasse em Lisboa acabava nos jardins a jogar à sueca e assim estou por aqui a fazer o que me dá prazer, que são os meus trabalhos.
Ainda no tempo em que trabalhava passava pelos vazadouros e ia tentando encontrar alguma coisa que me despertasse a atenção. A partir daí comecei a juntar coisas como é o caso daquelas pias, às vezes encontrava bocados de azulejo partidos e ocorria-me que com aquilo podia fazer uns “bonecos”... Como tenho algum jeito para o desenho, primeiro concebo os trabalhos no papel e depois recorto os azulejos com uma turquês. E assim, a pouco e pouco, fui construindo este mundo, também com poemas que ia fazendo e colocando nas paredes, para além de ir colecionado todo o tipo de objetos, alguns dos quais tenho dentro de casa…
todos nós temos jeito para qualquer coisa
O que me influenciou também para enveredar por estes trabalhos foi o facto do meu pai, que era pedreiro, fazer o aproveitamento de materiais. Por exemplo, havia pessoas que tiravam os azulejos das paredes para as pintar e ele aproveitava, ou tiravam madeiras para pôr alcatifas, e ele fazia o mesmo. Para além disso punha-me a endireitar pregos para reaproveitá-los. E assim ficou esse bichinho em mim. Os azulejos de flor-de-lis que tenho no muro da minha casa eram inclusivamente dele.
Entretanto, as pessoas que passavam pela casa davam-me os parabéns pelos meus trabalhos, incentivando-me a construir este mundo de fantasia.
Para além do seu gosto pelo reaproveitamento de materiais e de passar o seu tempo de reforma a executar estes trabalhos, houve alguma situação que tenha de forma especial despoletado o seu gosto para realizá-los?
Sim. Na altura em que já estava na pré-reforma, a junta de freguesia da zona da Alameda, em Lisboa, organizou um curso, em que até participou o juiz que condenou as FP 25. Durante a semana, ao fim da tarde, a junta disponibilizava o espaço e os materiais e éramos coordenados pelo professor Melício. Até chegou a ser equacionado fazer-se escultura, mas acabou por não acontecer, acabando por se fazer essencialmente trabalhos de pintura. Na sequência desse curso, fizemos inclusivamente exposições em vários locais e chegámos a vender trabalhos. Lembro-me até de um quadro que fiz de S. Jorge e que desapareceu numa dessas exposições. Tinha a intenção de o colocar aqui, mas como tal não foi possível acabei por fazer outro com bocados de azulejo. Foi uma experiência interessante, de vários meses, com gente de todas as idades e era bom porque não pagávamos nada. Talvez tenha sido essa experiência que despoletou em mim a vontade de realizar trabalhos artísticos.
Como escrevi algures aqui na minha casa, todos nós temos jeito para qualquer coisa. No meu caso descobri nessa altura o meu jeito para os trabalhos artísticos.
Tem tido muitas pessoas a visitar o seu solar?
Sim, tenho tido muitas visitas. Os meus trabalhos têm sido muito apreciados.
Já tenho até sido solicitado para abrir a casa a grupos escolares e a outros. Até para fazer aqui uma peça de teatro. Apareceu também aqui o Alexandre Pomar que se interessou muito por isto, e o seu pai, o Júlio Pomar, também já cá esteve. Fiquei muito feliz pelo facto do Alexandre Pomar e o Tiago Pereira, filho do músico Júlio Pereira, se terem interessado pelo meu trabalho e terem feito o vídeo que esteve patente na Galeria Municipal. O Sérgio Godinho também passou por aqui, e gostou muito… A provar tudo isto é o “livro de honra” onde os visitantes podem deixar as suas impressões da visita.
Sou conhecido como o “Gaudi da Boavista
E como é que as pessoas fazem as visitas?
De várias formas. Há pouco tempo apareceu aqui um grupo de amigos que me contactou. Outros passam aqui à porta, param para ver, e eu convido-os a entrar. Há pessoas que até perguntam quanto custa a entrada e obviamente digo que não custa nada. Às pessoas que veem aqui até proponho que tragam familiares, vizinhos, amigos. Há também outros que param, mas acanham-se e não entram. E passam por aqui inclusivamente muitos estrangeiros, que também deixam no livro as suas dedicatórias.
Para além disso, o Expresso esteve aqui e fez uma reportagem com grande destaque na sua revista sobre a minha casa. Há pessoas que até me dizem que já têm ido a muitos museus e nunca viram uma coisa assim. Eu fico muito contente, claro…
Houve até quem me chamasse Gaudi. Sou conhecido como o “Gaudi da Boavista”, e quando fui ao programa do Goucha, ele até me chamou de “Gaudi português”. Aumentou a parada (risos)… Além da TVI também estive na SIC.
Como fim de vida, é uma boa forma de passar o tempo…
Quais são os motivos dos seus trabalhos, as suas fontes de inspiração?
É algo que é difícil de explicar. Eu posso ter um sonho, com determinada situação, e então, transporto isso para o papel e depois executo. Nos jornais, nas revistas, na televisão, também vejo coisas que me inspiram.
Há algum trabalho seu de que goste de forma especial?
Gosto de todos, mas principalmente da figura do S. Jorge a matar o dragão. Escolhi essa figura porque por um lado S. Jorge tem o meu nome e por outro lado é um santo guerreiro. Também tenho alguns quadros com animais e aves de que gosto muito. Aquelas duas parabólicas com um corvo e uma gaivota, que são o símbolo de Lisboa, também é um trabalho de que gosto de forma especial.
A figura do S. Jorge tem alguma relação com o facto de ter chamado a esta sua casa “O Solar dos Jorges”?
Sim, mas o nome desta casa tem mais a ver com o meu nome e o dos meus filhos. Dei esse nome a esta minha residência porque há umas décadas atrás havia ruas que não tinham nomes e as pessoas tinham de dar nomes às suas casas. Dentro desta casa criei até ruas com o nome de familiares como forma de homenagem.
Acha que o seu trabalho é importante no sentido de alertar para a reciclagem dos materiais, numa altura em que não se aproveita nem se arranja nada, compra-se tudo novo?
Eu acho que é importante. Tive um colega numa profissão diferente, já há muitas décadas, que falava da reciclagem, numa altura em que ninguém ligava a isso. Já na altura ele falava da importância de reaproveitar as coisas inclusivamente de forma a matar a fome. Ele batia muito nessa tecla e isso ficou-me na memória, o que também contribuiu para que enveredasse por este caminho de aproveitamento de materiais.
Ao longo da sua vida que profissões e ocupações teve?
Fiz o 5.º ano do liceu, depois o desporto tomou conta de mim, e fui conciliando a vida desportiva com a profissional. Quando cheguei a sénior o Benfica enviou-me para a Régua com um rapaz que veio de Moçambique com o Eusébio, o Zambane, e fui lá campeão de Vila Real. Depois fui jogar para o Loures e o presidente desse clube arranjou-me um emprego num escritório, foi o primeiro que tive. Fui também na altura campeão distrital. Eu queria continuar lá, mas estava vinculado ao Benfica que me enviou para Portimão. Não estive muito tempo no Algarve, acabei por me desvincular do Benfica, e fiz o resto da minha carreira desportiva em clubes como o Nazaré, o Alhandra, o Povoense, o Desportivo dos Olivais e o Costa da Caparica. Até que em 1975 tirei o curso de treinadores. Foi o primeiro em Portugal, em que participou por exemplo o Manuel José. Treinei clubes do distrito como o Venda do Pinheiro, o Vitória de Lisboa, e outros. Fui ainda árbitro. Paralelamente fui vendedor de bebidas, depois fui para uma empresa em que tive como função a de chefe de armazém e trabalhei ainda numa empresa de ar condicionado. Para conseguir amealhar mais algum dinheiro vendi também livros no Círculo de Leitores.
Tendo feito a sua vida em Lisboa, porque escolheu a Boavista para segunda habitação?
Comecei por ver casas na Costa da Caparica, mas não queria ficar muito próximo de Lisboa para manter algum afastamento do trabalho. Ainda vi umas casas no Algarve mas concluí que ficava muito longe. Até que resolvi dar uma volta pela Ericeira e Santa Cruz. Só havia aqui um problema que era o tempo, era uma zona de muito vento. Hoje em dia não é nada comparado com antigamente, quando o tempo era mais agressivo. Lembro-me de estar em tronco nu no quintal e parecia que tinha agulhas a espetar no corpo. Na altura falei com um construtor que tinha uma casa para vender em Santa Cruz, mas que precisava de obras, e acabei por não comprar essa. No entanto ele sugeriu-me esta na Boavista, que acabei por comprar.
E tem gostado desta zona?
Acho que é uma zona agradável. Está-se aqui bem, não falta nada…
Estou na minha casa de manhã à noite, onde passo o meu tempo. De vez em quando também vou dar uma volta, mas passo a maior parte do tempo em casa.
Ainda me lembro de quando aqui cheguei a estrada ser em terra batida. Hoje é alcatroada. Tem havido uma evolução e qualitativa imensa…
Teve uma boa recetividade da instalação/exposição sobre o seu trabalho que esteve patente na Galeria Municipal?
Sim. As pessoas foram dizendo bem dela e no próprio dia da inauguração os presentes estavam bastante agradados…
Não é muito normal pessoas que vêm do mundo do futebol desenvolverem interesse pelas artes…
Sim, é mais pela parte musical que os futebolistas se interessam…
A título de curiosidade, houve alguns colegas seus dos juniores do Benfica que se tenham tornado conhecidos?
Sim, o Simões, por exemplo. Tenho até uma história muito interessante com o Simões. Na minha juventude, com um conjunto de rapazes benfiquistas, fui aos treinos de captação do Benfica. Éramos seis e nenhum ficou. No entanto não desistimos e fomos ao atletismo e dos seis ficamos três. Modéstia à parte, fui considerado o melhor e inclusivamente fui campeão de atletismo pelo Benfica. Só que quis de novo jogar futebol e fui às captações do Sporting. Não falei com nenhum dos meus colegas benfiquistas, fui lá, e acabei por ser aproveitado. E assim fiz uma época nos principiantes do Sporting, que corresponde atualmente aos juvenis. Joguei com jogadores como o Pedro Gomes, o Oliveira Duarte, o Crispim, que atingiram um certo gabarito. E quando acabei a época fui de novo ao Benfica para me submeter às provas. Quando disse que tinha sido jogador do Sporting aceitaram-me logo. E o treinador dos juniores, que era um argentino, chamado Valdeviezo, perguntou-me se eu conhecia o Simões. Perguntou-me se ele era bom, eu disse que sim, e questionou-me porque não jogava pelo Sporting. E o que se passava era o seguinte: o Almada pediu determinado valor ao Sporting pela sua transferência, o que não foi aceite. O Sporting manteve-o durante um ano e passado esse tempo o Simões ficava desvinculado do outro clube sem ser necessário pagar o que quer que fosse. Nos treinos o Simões até jogava contra mim porque na altura eu era defesa direito e ele era extremo esquerdo. Defrontávamo-nos os dois, mas eramos muito amigos. Um dos primeiros jogos que fiz pelo Sporting até foi aqui em Torres, ele acompanhou-nos, mas não podia jogar. E então o Simões esteve um ano no Sporting sem jogar, mas acabou por ir para o Benfica porque este clube chegou a um acordo financeiro com o Almada. Posso dizer que a vinda do Simões para o Benfica teve o meu dedo…
É bom ter a sensação que passei por este mundo e fiz qualquer coisa de relevante
O Simões viria inclusivamente a ser campeão europeu de juniores. Eu e o Bernardes de Torres Vedras chegamos a ser convocados para essa seleção, até tenho uma fotografia tirada com ele, que jogava no Torreense, mas dos 22 convocados houve 6 que não foram à Áustria, e nós fomos desses que acabaram por não ir ao campeonato. Naquele tempo era assim…
Tem algum desejo, ambição, para o futuro?
Bom, gostava de ter saúde para continuar a fazer isto. Por outro lado, que as pessoas venham visitar o meu solar. Por outro lado ainda, que a Câmara continue a apoiar as artes e a cultura.
Para além de fazer um ou outro objeto, não tenho nenhum objetivo em especial. Tenho 73 anos e apenas gostava de ficar para a posterioridade. É bom ter a sensação que passei por este mundo e fiz qualquer coisa de relevante…
Outros Sites da Autarqu
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Ângela Ferreira, com uso indevido de Jorge Dias e Margot Dias
segunda-feira, 22 de junho de 2015
sexta-feira, 17 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
O artista espontâneo
Depois encontrei artista espontâneo num escrito de Fernando Pessoa referente a Alberto Caeiro:
"Dir-lhe-ei, e estou certo que concordará comigo, que nada há mais raro neste mundo que um artista espontâneo — isto é, um homem que intelectualiza a sua sensibilidade só o bastante para ela ser aceitável pela sensibilidade alheia; que não critica o que faz, que não submete o que faz a um conceito exterior de escola ou de moda, ou de “maneira”, não de ser, mas de “dever ser”."
terça-feira, 14 de abril de 2015
O Solar dos Jorges
sábado, 11 de abril de 2015
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Pequena Galeria: Retratos
Auto-retratos e retratos de fotógrafos
Podem percorrer-se as duas paredes compactas de fotografias seguindo-lhes os números e o roteiro impresso. Pode deambular-se livremente pela Pequena Galeria apontando reconhecimentos ou preferindo a disponibilidade para os encontros ocasionais. Podem identificar-se figuras com notoriedade pública, nomes conhecidos, ou perseguir afinidades pessoais e gostos próprios, os desconhecidos.
A quantidade (e as qualidades) das fotografias reunidas pelo Guilherme Godinho e a Marta Cruz oferece múltiplas pistas e permite muitos diferentes itinerários. Por exemplo através dos auto-retratos: de Emílio Biel, circa 1895 (que também aparece logo ao lado fotografado por Carlos Relvas, numa prova com o passepartout impresso do autor, apresentada em Paris em 1882), de Fernando Lemos, de José Cabral (por duas vezes, em família, em provas vindas da mostra "Anjos Urbanos" (P4, 2008), e também retratado por Luís Basto, em 2004), de José M. Rodrigues e António Júlio Duarte, de Rita Barros (na foto junta).
E mais de Inês Moura aka Cretina ( http://c-r-e--t--i-n-a.tumblr.com/ ) e da sueca Malin Bergman https://instagram.com/vivaladiva_/ , já com uma outra dinâmica serial e de projecto, encenando o autor como actor, ou como modelo num jogo de construções-ocultações. E entre outros casos ainda a averiguar o Self Portrait de Guilherme Godinho é já outra coisa.
Aos quais - auto-retratos - se podem juntar os retratos de fotógrafos por olhos alheios: Man Ray por Ida Kar, Ricardo Rangel por Sérgio Santimano, no lançamento de Pão Nosso de Cada Noite, em 2005, numa prova pertencente a José Cabral; Manuel Álvarez Bravo por Clara Azevedo (nos Encontros de Coimbra de 1984), Paulo Nozolino por Luís Pereira, de 2012.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Exposição Colonial de 1934, Henrique Galvão (doc.)
"O império Português na primeira Exposição colonial Portuguêsa : realizada no Palacio de Cristal do Pôrto de junho a setembro do ano de 1934, Album-catálogo oficial : documentário histórico, agrícola, industrial e comercial - paisagens, monumentos e costumes, 1934"
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Brito Camacho, 1923
"O preto é mais do que uma besta e menos de que uma pessoa?
Ha, então, que fazer, em relação a elle, uma zootecnia que seja um pouco mais do que élevage, a creação e preparação de animaes de trabalho, tanto mais uteis quanto forem mais aptos e mais fortes.
O preto é um homem como o branco, apenas retardado de muitos séculos no seu desenvolvimento moral?
Ha, então, que o instruir e educar como se fosse branco, desenvolver gradual mas sucessivamente as suas faculdades animicas, só com o elementar cuidado de não exigir que elle faça o que os brancos não puderam fazer, isto é, saltar d'um estado de sociabilidade rudimentar, quasi zoologica, para um estado de socialização perfeita.
Se o preto, nas regiões tropicais, não pode ser substituido pelo branco nos seus labores agricolas, tudo aconselha, o humanitarismo e o interesse, a olhar para elle com solicitude, impedindo que se desvalorize pela doença e prematuramente se aniquile pela morte. Sinto-me negrophilo pela razão e pelo sentimento, ficando assim marcada uma orientação ao meu procedimento governativo."
Alto comissário em Moçambique de 1921 a 1923














