domingo, 5 de janeiro de 2014

O Salão de 1937 e o Comandante Martins

...eis o que o jornal "A Voz" publica a 12-12-1937 a propósito do I Salão Internacional de Arte Fotográfica e V Salão Nacional, que se realizou na SNBA , sendo que o retrato - de um esquimó, tanto quanto julgo saber, apesar do boné, dos óculos e do cachimbo que parece ser fabrico industrial - é da autoria do Cmdt. AJ Martins com a legenda: "Comandante António José Martins, que apresentou curiosas fotografias das Terras Polares, tiradas a bordo do Gil Eanes". De realçar que os fotógrafos " lá de fora" foram em número superior aos nacionais e que 882 trabalhos expostos é notável. 

(comunicação de Miguel Valle de Figueiredo, no facebook, que agradeço)

apontamentos:

É o 2º artigo (1º em data) que conheço sobre o 1º (5º) Salão e comprova a atenção dada pela imprensa aos certames anuais de fotografia do Grémio, mas é pouco mais do que um registo quantitativo e comparativo das representações nacionais. A Espanha não comparece, e o depois habitual belga Léonard Misonne é um dos poucos referidos pelo nome. 

Diz-se que
"... a arte nacional suporta com galhardia o confronto dos mais célebres profissionais e amadores de além-fronteiras, embora dentro dos processos já conhecidos da ampliação em brometo, bromóleo, ampliação em cloro-brometo, etc." (embora?)


É provável que esse 1º Salão Internacional de 1937 (5º Nacional) tenha sido o último a que compareceu o Comandante António José Martins (1882-1948) - no de 1938 não entrou, e não tenho acesso aos de 39 e 40. Nesse ano de 37 ele encabeçava o conselho técnico do Grémio Português de Fotografia e o movimento fotoclubista parece estar então particularmente agitado. 

O nº 7 (15 de Dezembro) da revista Objectiva, em artigo do seu director, Rodrigues da Fonseca, revela que o júri do Salão foi forçado a fazer uma segunda escolha depois de ter aprovado apenas 25% dos envios, e o Dr. Álvaro Colaço, activo fotógrafo e comentador, propõe uma reforma dos júris, com exclusão dos "chamados críticos de arte".
O momento seguinte é de grande tensão com o início da polémica em torno do 'flagrante' (isto é, o instantâneo e o banal quotidiano), bem como com a organização de um "Concurso e Exposição de Estudo Fotográfico" por parte da Objectiva, em Julho de 38 na SNBA, que teve no júri Mário Novais, San-Payo e M. de Jesus Garcia, da redacção. A crítica da rotina elitista e da pouca audiência do Grémio Português de Fotografia - Secção da Sociedade Propaganda de Portugal (Touring Club), não confundir com o Secretariado da Propaganda Nacional de António Ferro (SPP e SPN) - é insistente na revista, que parece protagonizar uma oposição ao mesmo tempo interna ao Regime e ao salonismo conservador, sendo uma posição modernizadora, associada aos novos formatos e às novas casas de material fotográfico (Instanta, em especial). 

O Cmdt - um importante divulgador da Leica - não participa no Concurso da revista nem parece envolver-se publicamente nesses confrontos. Note-se que na revista de Maio de 1938, nº 12, o Pe Moreira das Neves fizera uma autoritária chamada à ordem para mobilizar os fotógrafos com vista à celebração dos Centenários, a qual parece conter as veleidades reformadoras dos principais fotógrafos da Objectiva, os Drs Álvaro Colaço e Lacerda Nobre.

O recorte acima é pouco legível (é preciso desenterrar a literatura sobre os salões...), mas só a ilustração confirma o Cmdt como uma das figuras mais respeitadas do salonismo do tempo (salonismo é só a designação geral para a mais notória forma de visibilidade da fotografia de intenção artistica, e não um estilo fotográfico - ele acolhe ao longo do tempo os diversos estilos que se afirmam na fotografia de exposição). O Cmdt não terá sido objecto de nenhuma exposição consagratória na sede do SPN, mantendo-se certamente distanciado das iniciativas do Regime (a confirmar).

Na "Objectiva" nº 8 (Jan. de 28) a crítica era assinada pelo importante retratista M. Alves de San-Payo, " O I Salão Internacional de Arte Fotográfica visto 'Objectivamente' " , e parece pretender estabelecer uma norma conciliadora no meio salonista, ao referir-se à "exuberante" representação portuguesa:

"Pescador da Nazaré" do Dr. Álvaro Colaço, I Salão Internacional, Objectiva nº 7, pág. 103

"Os trabalhos do Comandante Martins repletos de sentimento e técnica irrepreensível; as paisagens de Ponte de Sousa, verdadeira sensibilidade de artista; os mimosos trabalhos de João Martins cheios de poesia e saudade; as marinhas e estudos de F. Viana, os tipos de Álvaro Colaço, os bromóleos de F. Bonacho, as paisagens de W. Orton, os estudos de Henrique Manuel e os flagrantes de W. Heim não ficam mal ao lado do que de bom se faz no estrangeiro".
No recorte de A Voz de 1937 (assinado por M.S.) aparece também uma reprodução do assíduo Ernesto Zsoldos.
No Salão de 1938, o nº dos portugueses desce para 30, e o de estrangeiros é muito superior, como será habitual, com envios da Austrália, China, Estónia, Hawai, Hungria (13 autores), Índia e Indo-China, Japão e Nova Zelândia, para referir os mais longínquos (a Espanha ausente), graças ao activismo dos foto-clubes e às remessas colectivas. No júri estão Reinaldo dos Santos, presid. da Academia de Belas Artes, o escultor Leopoldo de Almeida, o velho Júlio Worm, fundador em 1907 da Sociedade Portuguesa de Photographia, e dois homens do Grémio.
                              

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