sábado, 16 de setembro de 1995

esculturas com histórias, made in England  

Expresso 16-9-95


ESCULTURA BRITÂNICA

Fundação de Serralves, Porto


Diante dos jardins de Serralves está agora pousado o corpo em bronze de uma mulher reclinada, e o visitante desprevenido julgará que a obra de Henry Moore sempre ocupou aquele lugar, tão poderosa é a ligação entre as duas naturezas que assim se enfrentam, a paisagem geometrizada do jardim à francesa e a estática figura vestida, mas em pose de alerta, que ao mesmo tempo se vê como presença humana e mítica. 

Essa obra de 1952-53, realizada quando a notoriedade de Moore dava à arte moderna inglesa o primeiro momento de forte projecção internacional, quando a derrota da barbárie nazi parecia autorizar um novo optimismo humanista e a multiplicação das encomendas levava o escultor a reatar com a tradição do bronze, depois de uma prática exclusiva do talhe directo mais identificado com as convicções do modernismo (a «verdade dos materiais»), não é exactamente o ponto de início físico e cronológico da mostra de «Escultura britânica contemporânea — de Henry Moore aos anos 90».  


São as pequenas esculturas abstractas de Barbara Hepworth, exercícios de tensão biomórfica entre massas e vazios, em pedra ou madeira, que acolhem quem entra na exposição de Serralves, e aquela estátua de Moore certamente apenas se verá, desde o interior da Casa, quando já vai avançado o itinerário do visitante por entre os diversíssimos objectos construídos (e já não criados...) pelos artistas das gerações seguintes, que o acompanharam até à morte em 1985 e lhe sucederam. 

É uma experiência empolgante esse reencontro com o monumento e em especial com a forma humana, única na exposição, depois de se circular por entre obras em que a escultura se assume como procura da forma pura ou reflexão sobre as condições da existência de um volume no espaço; ou em que o artista se interdita a representação do corpo e da natureza para deles tomar ainda e apenas a sugestão da forma orgânica, ou para esboçar a necessidade das suas invocações metafóricas; ou onde a criação se transforma em acto de escolha e remontagem de materiais encontrados, tomando a cidade como novo espaço natural, mas talvez já pós-humano, ou se processa quase só como deslocação do objecto usual, passando-o do mundo do quotidiano para o espaço do museu. 


Um dos méritos desta exposição britânica reside, precisamente, no facto de proporcionar uma acessível problematização do que é a escultura nos dias de hoje, sobre um horizonte cronológico longo de cerca de seis décadas, colocando a fasquia em obras que impuseram uma modernidade capaz de ombrear com as criações maiores de outros séculos e que continuam a ser plenamente eficazes para o espectador contemporâneo. Nesse itinerário através de objectos, sempre atravessado por continuidades e rupturas, por momentos de acção e reacção (também entre professores e alunos, segundo a tradição do ensino inglês), é possível fazer sentir e entender tanto a simultaneidade temporal das diferentes estratégias criativas como um processo evolutivo que nunca é uma narrativa linear, numa mostra que não propõe ao espectador nem a nostalgia de uma altitude perdida nem a certeza de um progresso alcançado. O que alguns considerarão uma atitude conservadora pode ser antes compreendido, por isso mesmo, como um desafio raramente proposto. 

É uma demorada história, embora através de obras de apenas 14 autores, que a exposição sintetiza, e esta deverá ser vista, de facto, como um duplo percurso. Por um lado, o que é proposto ao visitante de Serralves pelos comissários Keith Patrick e Maite Lorés é a experiência empírica do enfrentamento com — e entre — os objectos e não uma evolução museologicamente congelada. Sem uma rígida ordenação cronológica nem barreiras entre escolas, é o «discurso» das obras no presente que se impõe, nas suas múltiplas relações de contiguidade e oposição. 

Por outro lado, é estabelecida a possibilidade de uma leitura compreensiva da sucessão das conjunturas criativas e das suas problemáticas teóricas através dos ensaios de K. Patrick e de Fernando Pernes, no catálogo e no jornal da exposição, e ainda nos textos de parede dedicados a cada artista. Na criação dessa dupla direcção, do olhar e da leitura, sem relações ilustrativas entre si, podem reconhecer-se quer uma rara eficácia expositiva não historicista (conseguida em difíceis condições de espaço), quer as qualidades didácticas da mostra, também sem que estas se sobreponham à energia emocional e aos possíveis sentidos próprios das obras.  

O percurso histórico é sistematizado em seis momentos essenciais e outras tantas gerações (uma noção sempre problemática, embora cómoda), que vão da afirmação de uma possível identidade nacional  da escultura britânica, nos anos 30/40, com Henry Moore (1898-1985) e Barbara Hepworth (1903-1975), até dois últimos artistas revelados na mais recente passagem de década, Grenville Davey (1961) e Rachel Whiteread (1963), ambos, aliás, já distinguidos pelo prémio Turner atribuido pela Tate Gallery. 

Não se procede, no entanto, a uma uniforme distribuição cronológica dos autores: a mais extensa representação corresponde à situação criativa definida nos anos 80, quando a chamada «nova escultura britânica» se constituiu como uma segunda vaga de larga projecção internacional, aqui representada por obras de Tony Cragg (1949), Bill Woodrow (1948), Alison Wilding (1948), Richard Deacon (1949), Richard Wentworth (1947), Anish Kapoor (1954) e ainda Julian Opie (1958). A essa década de afirmação colectiva — mais do que movimento ou geração — se poderia acrescentar, entre outros, o nome ausente de Antony Gormey (1950), mostrado há um ano pela Gal. Pedro Oliveira, também no Porto, notando ainda que o mesmo período proporcionou novas direcções de trabalho ou o acréscimo de atenção pública a outros artistas mais velhos, como Barry Flanagan (1941) ou Ian Hamilton Finlay (1925), igualmente não incluidos nesta mostra.


Entre Moore e os anos 80, a história percorre-se em ritmo mais acelerado, apenas com as presenças de Anthony Caro (1924), William Tucker (1935) e Richard Long (1945), como representantes de outras três possíveis gerações, segundo um duplo critério de selecção que apenas retém artistas que alcançaram um efectivo reconhecimento externo e que, para além de sinalizarem uma transitória conjuntura artística, continuaram activos como escultores.

As limitações de espaço de Serralves  — e também do Auditório de Galícia, de Santiago de Compostela, em produção conjunta — impuseram aos comissários um drástico poder de síntese e também a coragem de fazer opções claras (pessoais e discutíveis, naturalmente). No catálogo, o ensaio e numerosas fotografias ampliam, porém, a escala do projecto. 

Notar-se-á que se omitiu a representação da chamada «geração intermédia» entre Moore e Caro, de que fazem parte escultores que exerceram directa influência na formação de Jorge Vieira e João Cutileiro: Reg Butler (1913), Lynn Chadwick (1914) e Kenneth Armitage (1914), considerados «as grandes vedetas da jovem escultura inglesa» por Michel  Seuphor, num livro de 1959 (La Sculpture de Ce Siècle, Neuchatel). Conhecida como «geração da geometria do medo» (Patricia Bickers, «Artpress», Maio 1995), pela prática de uma escultura figurativa de tradição humanista que pareceu expressar na tortura dos corpos as angústias existenciais do tempo, ela foi silenciada no final dos anos 50, diante da emergência do formalismo americano e da arte pop. 

É com Anthony Caro que se afirma, a partir de 1960, uma nova orientação decisiva, através de esculturas construídas em metais soldados, com uma elegância abstracta que, depois dos sentidos humanistas de Moore, se recusa sempre à procura de possíveis conteúdos ou referências simbólicas. Ainda em 1994, Michael Fried podia considerar Caro como «o mais importante escultor das últimas décadas» (e «nada menos que clássico», em título da mesma edição da revista «Artpress»), ao apresentar obras recentes com que, aos 70 anos, acrescentava novas direcções ao seu trabalho, na passagem da leveza do desenho no espaço à exploração dos valores plásticos da massa, do volume e da densidade das formas.

Se Eduardo Paolozzi (1924) está ausente, é apenas com Tucker, escultor e teórico, que se representa a descendência formalista de Caro, a «New Generation» (exp. na Whitechapel, 1965) que integrou Phillip King e Michael Bolus, também com significativa influência em artistas portugueses, como Ângelo de Sousa e outros escultores que experimentaram as chapas recortadas, em sínteses entre minimalismo, Pop e Op.  

Por último, é referida apenas com Richard Long uma geração que, a partir de 1968, escolheu direcções críticas que levaram a pôr em causa o entendimento da escultura como objecto permanente e autónomo, com abertura aos domínios da instalação ambiental, da acção ou atitude efémera, da fotografia e do vídeo. Gilbert & George, Hamish Fulton, Bruce McLean, John Hilliard, Flanagan e Craig-Martin poderiam ter representado esta «geração» de artistas conceptuais («The New Art», Hayworth Gallery, 1972) que em grande parte deixaram de se reconhecer como escultores, mas a escolha de Long, além de se impor pela sua maior notoriedade, permite situar a importância específica de uma renovada relação com a natureza, de profunda tradição inglesa. Alberto Carneiro está directamente associado à mesma conjuntura.

A esta reagiriam os artistas do conjunto seguinte, já nos anos 80, regressando a atitudes menos analíticas em que se estabelecia um novo interesse pelo retorno à autonomia do objecto escultórico, outra vez fixo e permanente, e também uma maior atenção ao material e ao processo de fabrico como factores essenciais da criação artística, sem que a preocupação pelo conteúdo surja separada de uma abordagem mais formal das obras. Os objectos voltam a ser sensuais sem serem expressionistas ou formalistas, jogando com a distinção entre os mundos dos objectos escultóricos únicos e dos objectos da vida quotidiana, por vezes permitindo leituras sócio-políticas (Cragg e Woodrow) e noutros casos simbólicas (Kapoor).


Ao cumprir este itinerário, no qual se notará que os dois últimos escultores apresentados (Davey e Whitehead) já não se diferenciam claramente das diversas problemáticas da década de 80, a exposição define como regra das suas escolhas o terreno da continuidade do objecto escultural enquanto tal, com exclusão dos trabalhos que deslocam para outros «media» a interrogação sobre a presença dos corpos no espaço. Não se acolhem, por isso, situações recentes em que a rejeição ou nostalgia do objecto volta a ser um ponto de partida para a renovação (e reedição) de pesquisas que marcaram o anterior ciclo especulativo, através da instalação ambiental, do vídeo e da fotografia, como se pôde ver também no Porto, em 1993, com os jovens ingleses mostrados nas Jornadas de Arte Contemporânea.

Curiosamente, a essa ausência corresponde igualmente a «falta» de dois artistas tão significativos como Gormey e Flanagan, com os quais seria possível estabelecer, através da presença do corpo humano e do conteúdo antropológico ou, no segundo, do regresso paródico ao bronze e à estatuária, produtivos diálogos com a escultura de Moore.

Entretanto, importa sublinhar rapidamente a eficácia visual e problematizadora da montagem desta exposição, através de duas situações particularmente significativas. Na sala final do primeiro piso, a junção de obras de Long e Cragg permite situar de um modo exemplar o trânsito, por oposição significante e continuidade formal, entre a importância da acção (de que a obra é só um vestígio) e a valorização do objecto, tal como a passagem da referência à natureza, como lugar de refúgio, para a intervenção a partir do mundo urbano e do quotidiano.


No espaço anterior, central no primeiro piso de Serralves, a concentração de três obras de Caro, Deacon e Davey estabelece um arco muito forte entre objectos que partem sempre da construção em metal e que deixam aperceber de modo divergente quer as condições dos seus processo de fabrico quer os seus sentido expressivos ou conteúdos, indicando sucessivos entendimentos da escultura. Flap (aba, lado), de 1976, feito num aço reaproveitado que exibe valores picturais na superfície oxidada e encerada, fecha-sa às leituras do respectivo significado para impor uma presença apenas formal. Tooth and Claw (garra e dente), de 1986-92, explicita desde o título a sugestão biomórfica, entre o esqueleto e a prótese, ao mesmo tempo que expõe abertamente o processo industrial de construção em aço galvanizado, impondo uma escala gigantesca mas aberta e dando visibilidade às articulações aparafusadas e à carpete interior que não têm eficácia estrutural. Also (também), de 1994, é um volume de aço pintado que deixa em dúvida a sua origem no mundo dos objectos do quotidiano ou a construção pelo escultor, impondo na sua escala e colocação em desiquilíbrio a inultrapassável ambiguidade de uma forma que parece familiar e funcional e, ao mesmo tempo, desafia a classificação. Da presença imediata de valores apenas formais ter-se-á passado primeiro à afirmação de questões de processo e sentido da escultura, depois a uma última manifestação do enigma persistente que caracteriza o objecto artístico.

sábado, 9 de setembro de 1995

1995, Kabakov no CAM, Encontros Acarte

Arte total 

Foto Alberto Frias/Expresso

KABAKOV, Incidente no Museu ou Música Aquática, Centro de Arte Moderna 

Expresso 9-9-95

 

Os Encontros Acarte são um contexto particularmente atraente para a apresentação de Ilya Kabakov, o mais famoso dos artistas ex-soviéticos, autor de «instalações totais» que é possível considerar como «peças de teatro onde os objectos se substituem aos protagonistas» (Robert Storr). Exposição ou espectáculo, Incidente no Museu ou Música Aquática, apresentado em 1992, em Nova Iorque, e remontado na galeria do Centro de Arte Moderna, é uma criação narrativa e cenográfica, uma obra de ficção plástica (?), em que a pintura, a música, a escrita e o espaço onde tudo acontece se integram num todo indissociável. 




O visitante encontra à entrada, no lugar habitual, o título da instalação e os nomes de Kabakov e do compositor Vladimir Tarasov, acompanhados por um texto sobre o que julga ainda tratar-se de uma exposição — é provável que então não o leia. Verá a seguir cartazes onde se anunciam obras do pintor Serguei Y. Kocholev, oriundas do Museu de Arte de Barnaul, e catálogos seus mostrados numa vitrine, entre outros editados pela Gulbenkian; retira depois um folheto de apresentação e entra directamente para a sala de um antigo museu, inundada pela água que cai do tecto sobre recipientes improvisados. 

Nas paredes há pinturas identificadas por tabelas que as situam entre os anos de 1926 e 1936, nas quais reconhecerá imagens de um realismo de tradição russa, embora modernizado por enquadramentos fotográficos e pela influência de Cézanne, com cenas aproximáveis do realismo socialista mas que não são as imagens heróicas da construção do poder soviético ou dos seus líderes. Encontrará também um curto texto assinado por M. Snitkova, historiadora de arte, onde se faz a evocação biográfica de Kocholev.  

Talvez o visitante, então já fisicamente integrado na «obra», tenha reconhecido a musicalidade dos sons da água que pinga ou se recorde da referência ao compositor. Talvez utilize mesmo um dos sofás da sala para assistir ao «concerto»... ou para procurar resposta às suas dúvidas no texto impresso que traz consigo. Aí lerá que «nesta instalação inventada de forma totalmente artificial, há todavia um elemento 'sério', que nada tem de brincadeira; trata-se de uma peça composta a partir de sons aquáticos pelo compositor Vladimir Tarasov» — enquanto os quadros, diz-se, «foram pintados por um artista fictício». 




 

No mesmo folheto, que se entenderá como um elemento da obra total, tal como as paredes do museu, a inundação, a luz, as pinturas e os sons, é proposta uma «chave» para a instalação: «O conceito subjacente a esta obra é, parece-nos, muito simples. O ponto de vista muda de repente e a catástrofe, a destruição, transformam-se em criação, em construção. (...) a destruição de uma situação artística (impossibilidade de contemplar tranquilamente uma obra pictórica) engendra de forma inesperada uma outra criação não menos artística: o aparecimento de uma sala de concerto, dos seus 'instrumentistas' e dos seus 'ouvintes'. Tudo foi invertido, virado do avesso.» O texto é anónimo e a sua prosa impessoal («parece-nos» ?!) é ainda mais um jogo com a noção de autoria — com a individualidade e a subjectividade que é usual atribuir ao criador artístico —, e com o reconhecimento de uma qualquer realidade finalmente estável.

Não se está apenas, como se poderia pensar num primeiro momento, perante uma possível metáfora da desagregação do sistema soviético, nem diante da encenação literal de uma demolidora problematização do sistema da arte. Mas também é certamente razoável que não nos detenhamos na chave fornecida, depois de uma experiência em que os níveis de realidade, as atribuições de autoria, os personagens e as obras vão sendo sucessivamente denunciados e recriados, num jogo de extrema ironia a respeito da ambição e do reconhecimento da arte. 

Se a precaridade de uma iconografia oficial é sugerida pelo incidente no museu soviético, notar-se-á que Kabakov poderia ter-se apropriado de reproduções de obras clássicas do realismo socialista, em vez de produzir ele própio pinturas originais «de maus pintores soviéticos, isto é, de outros artistas ou de mim prórpio quando trabalho por encomenda», como diz numa entrevista onde também afirma: «Parei de pintar porque não tenho talento» (catálogo do Centro Beaubourg, 1995). 


Ao atribuir obras reais a um fictício pintor supostamente prestigiado (e ao criar a outra ficção de um concerto, convocando um compositor que realmente existe, segundo testemunhos credíveis), é o carácter precário que tem sempre a notoriedade e a memória de um qualquer artista que está em questão — e, afinal, também o reconhecimento do próprio Kabakov, que antes foi oficialmente ignorado no seu país e tem hoje uma carreira institucional em todo o Ocidente. E é igualmente o contexto expositivo como elemento e condição do sentido das obras (o museu, a história da arte, a crítica — e a «arte do contexto» que domina grande parte da criação artística actual) que aqui se põe em cena.

Esses são alguns dos temas constantes na obra de Kabakov, em especial nas instalações de grande escala que começou a realizar depois de ter abandonado Moscovo em 1988. A memória e a sua perda, o que sobrevive, ou não, de uma existência individual, entre histórias privadas e história universal, pode ser questionado a respeito de um artista, no quadro óbvio do museu, mas também no caso da vida do indivíduo «anónimo» — outras instalações constituem biografias de personagens vulgares, apresentando documentos anódinos ou colecções de objectos pessoais. Por outro lado, é sempre com a relação entre a criação plástica e a palavra (a efabulação, a descrição, a crítica, a teoria) que Kabakov trabalha, em instalações onde a ficção — e não o discurso filosófico, semiológico ou político sobre a arte, como procura de uma verdade teórica — é um derradeiro sentido englobante.  

Na instalação do CAM, o jogo infindável onde os significados se contradizem, se desmontam ou se suspendem, e em que as autorias se afirmam como personagens sem que uma voz autoral se imponha como última, Kabakov coloca-se numa posição radicalmente céptica sobre o que é a definição da arte, pondo à prova o sistema institucional da arte e as práticas de recontextualização dos objectos.

Se aqui se propõe a ideia de um desastre que se transforma em criação, em outras obras assiste-se à exposição das condições de vida do cidadão comum, à museologização do lixo ou, em Les doutes de l'artiste ou la conspiration des incapables, Berlim, 1994, à recuperação de pinturas que foram rejeitadas e destruídas por um artista e que são expostas por iniciativa de um crítico que se serve de referências a Derrida e a Foucault... Notar-se-á, entretanto, que a esse «não importa o quê» apresentado como obra de arte não basta a recontextualização num quadro instuitucional, mas ocorre sempre a sua inscrição numa situação alargada em que o contexto é ele próprio um objecto de criação ficcional, numa relação entre artes plásticas e literatura que se abre em abismo sem conclusão possível. A «dialogicidade polifónica» de Bakhtin é habitualmente invocada a respeito de Kabakov e dois outros artistas poderiam ser recordados, Marcel Broodthaers e o seu Museu das Águias e também Patrick Corillon.


Nascido na Ucrânia em 1933, Kabakov ocupou sempre uma insólita posição entre os artistas soviéticos, oficiais e da oposição: formado como ilustrador em 1957 pôde assegurar uma estabilidade profissional impossível para os vanguardistas, graças a uma carreira regular de mais de 150 livros ilustrados, ao mesmo tempo que integrava o meio artístico soviético não oficial e se tornava conhecido no Ocidente com desenhos e albuns onde se ensaiavam versões absurdas do mundo do quotidiano, que em muitos casos viria a desenvolver nas obras posteriores. 

Segundo diz Kabakov, as suas obras actuais pretendem «assimilar as outras formas de artes plásticas mas também outros géneros (a literatura, a música, o 'show'), isto é tornar-se o 'Gesamtkunstwerk', a obra de arte total, com que se sonhava no princípio do século». Mas são também todas as suas instalações que se podem entender como fragmentos de uma obra total que é a criação continuada de Kabakov, e que ele próprio compara a uma árvore com os seus diversos ramos, ganhando cada criação isolada o seu possível sentido na relação que estabelece com as restantes obras, como partes de um único universo ficcional.   

 

sábado, 17 de junho de 1995

1995 Bienal de Veneza, Jean Clair


Veneza 1995

No ano do centenário da Bienal, o ano de Jean Clair, Portugal esteve representado por José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes, sendo comissário José Monterroso Teixeira, então director de Exposições do CCB.

Publicaram-se à data duas noticias sobre a representação portuguesa (chegara a convidar-se Paula Rego e Álvaro Siza para projectar o Pavilhão de Portugal) e dois textos extensos sobre a bienal, em semanas consecutivas.

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"Veneza, Cem anos de guerrilha"

EXPRESSO/Revista de 17-06-95

A Bienal de Veneza faz cem anos, mas, mais do que a celebração do centenário, esta é a bienal de Jean Clair, o primeiro estrangeiro a ser nomeado director do sector das artes visuais da Mostra e, certamente, o mais polémico personagem de todo o actual universo artístico. Polémico, note-se, já não significa o mesmo que vanguardista, numa situação geral em que «a tradição do novo» é promovida directamente pelos museus e outras instituições oficiais: quando a inovação ou «arte jovem» são o centro e não as margens do sistema, o que é controverso, hoje, é afirmar uma relação de distanciamento crítico perante as regras de funcionamento do mundo da arte.

Director do Museu Picasso de Paris e especialista de Marcel Duchamp, ex-crítico de vanguarda — hoje tratado como reaccionário e «arrependido», ou «conhecido pelas suas reservas perante as novas gerações e sobre a própria definição da modernidade», segundo uma informação oficial francesa —, ensaista de formação psicanalítica, Gérard Regnier/Jean Clair foi o organizador das grandes exposições do Centro Pompidou sobre Duchamp, Magritte, Balthus, Bonnard e também das mostras retrospectivas «Les Réalismes, 1919-1939» e «Vienne, L' Apocalypse Joyeuse».
A sua ruptura com o «mainstream» fez escândalo em 1983, graças à publicação de Considerations sur l'État des Beaux-Arts — Critique de la Modernité, um panfleto por vezes excessivo e obviamente nostálgico onde fazia um terrível balanço do «progresso» das artes, da «tradição da ruptura» instituída pela modernidade e também da própria modernidade, enquanto estética da «innovatio», como um dos dois grandes flagelos do primeiro meio século (o outro foi o nazismo). À «institucionalização acelelerada de novas categorias estéticas como o não-importa-o-quê e o quase-nada», que dominariam o curso da arte desde os anos 60, contrapunha Jean Clair o «regresso ao 'métier' e à figura», defendendo a ideia de renovação, que não rejeita a tradição, como base de um possível «renascimento», contrário à fatalidade hegeliana da morte da arte.
Colocar Jean Clair à frente da Bienal «é como entregar um jardim de infância à guarda de Herodes» — assim resumiu um crítico italiano toda a expectativa que antecedeu a inauguração. O balanço crítico dos estragos e a previsão dos seus efeitos a longo prazo serão agora terreno aberto para a contraposição de diferentes pontos de vista, se não vingar a táctica do silêncio que tem respondido a muitas outras vozes incómodas, como as de Octavio Paz, Robert Hughes, Thierry de Duve, Rainer Rochlitz, etc.
De qualquer modo, parece inquestionável que o papel central de Jean Clair nesta Bienal resulta tanto da importância excepcional da mega-exposição histórica que directamente organizou para Veneza, como da notória fragilidade da grande maioria obras apresentadas nos pavilhões nacionais e nas muitas exposições paralelas que compensaram a suspensão do «Aperto», o sector oficial dedicado desde 1980 aos jovens artistas.

ANTROPOMETRIAS

O centenário das Exposições Internacionais de Arte (a designação Bienal de Veneza inclui, de facto, os festivais anuais de cinema e os outros programas bienais dedicados ao teatro, à música e, mais recentemente, à arquitectura) podia ter proporcionado uma edição rendida à auto-celebração do passado da Mostra ou uma revisitação conformista da história do século através de um qualquer inventário de obras-primas ou de movimentos artísticos.
Jean Clair, no entanto, conseguiu evitar os riscos de um programa apenas comemorativo, apropriando-se da tradição temática das últimas bienais para apresentar uma gigantesca exposição em que o itinerário retrospectivo constitui, de facto, a defesa  de uma original e polémica reconsideração da história, pensada contra a tradição formalista, e é também uma desencantada meditação sobre o «declínio» que, cem anos depois, se sucederia à decadência do anterior «fin de siècle».
«Identidade e Alteridade — Imagens do Corpo, 1895-1995» é um projecto onde Clair retoma o tema da exposição «L'Âme au Corps», que apresentara em Paris, no Grand Palais, no final de 1993, partindo do estudo da inter-relação das formas de representação do corpo humano nos territórios das artes e das ciências (que nunca foram estanques). O itinerário vai do positivismo e do triunfo da antropologia normativa, que vieram dar o golpe de misericórdia ao últimos vestígios do culto das proporções ideais dos modelos clássicos, até uma actualidade que seria definida quer pelas novas tecnologias da imagem digitalizada e interactiva, quer pela «predominância dos temas da doença, do sofrimento, do sexo impossível e da morte» (J.C.).
Toda a exposição é marcada por uma defesa acerba da permanência dos temas da figura humana, em especial do nu e do auto-retrato, ao longo de um século visto como dominado pelo império da abstracção, que Clair tende a ver apenas como um afloramento de uma pulsão iconoclasta também permanente através dos tempos, valorizando no seu desenvolvimento alguns artistas, ou fases das suas obras, que são habitualmente excluídos da história canónica das inovações. Mas quem esperava a ilustração de um novo «regresso à ordem» encontra um trajecto guiado por uma interrogação trágica sobre a dificuldade crescente dessa vontade de representação do corpo, entre os dados da informação científica e da fotografia, a tentação da máquina e os desastres da guerra, as normas totalitárias e as pulsões da abjecção, no qual se incluem numerosos artistas com projecção nos anos mais recentes. Afinal, a exposição parece mais identificada com o «espírito do tempo», na sua evidente atracção pela escatologia e pela violência, do que com a sacralização da história e das disciplinas tradicionais.
Distribuida em três núcleos (Palácio Grassi, Museu Correr e Pavilhão Itália, com uma extensão e uma importância que justificam uma próxima abordagem autónoma), a exposição conta ainda com uma produção anexa, «O Eu e o seu Duplo», dedicada a «Um Século do Retrato Fotográfico em Itália». Afinal, 1995 é também o ano do centenário do bilhete de identidade, tal como da descoberta do raio X, da radiactividade e do cinema.

É uma outra grande exposição, essa promovida pela Comuna de Veneza, que pretende ser a directa evocação do passado da Bienal, através de alguns dos seus momentos mais fortes, das consagrações oficiais e das aquisições para os museus italianos, dividida em dois núcleos complementares dedicados à pintura e escultura, desde 1895 até 1968 (no Palácio Ducal), e às artes decorativas, que estiveram presentes na Bienal até 1972 (em Ca'Pesaro).
«Veneza e a Bienal: Itinerários do Gosto» é um muito interessante olhar sobre as convenções académicas dos primeiros tempos da Mostra e sobre a sua lenta abertura a outras inquietações artísticas (e, por ausência, também sobre as relações de rejeição de correntes como o cubismo, o futurismo e a abstracção), sobre as distâncias entre a tradição italiana e a afirmação de novos valores internacionalistas, mantidas até ao final da 2ª Guerra, e, em geral, sobre a relatividade da ideia de obra-prima. A importância do simbolismo no processo italiano de oposição ao academismo dos Salões e a prolongada especificidade de uma produção plástica que, sob complexos circunstancialismos políticos, tentou manter uma ligação viva com os exemplos clássicos são outros dados curiosos que se impõem ao espectador, numa exposição que não visa exactamente uma celebração da arte italiana, mas em que também dominam os temas do corpo e se insinua, por outro lado ainda, a questão essencial da relação interrompida entre as «artes maiores» e as artes decorativas.
São questões afins que marcam o pavilhão italiano, onde as presenças do cenógrafo Pier Luigi Pizzi e do estilista Roberto Capucci motivam estranhas contestações. Acompanhado pelo comité de consultores da bienal (Maurizio Calvesi, Gillo Dorfles, Gabriella Belli, Giulio Macchi e Hans Belting), Clair apresenta um conjunto heteróclito de artistas, onde as suas escolhas pessoais se encontram entre as mais controversas — Ida Barbarigo, Ruggero Savinio e um Vito Tonguiani cuja estatuária desportiva não é fácil de distinguir dos realismos totalitários. Em geral, parece querer-se documentar, acima de tudo, a diversidade das gerações e tendências  que coexistem no terreno, de Clemente à escola dos anacronistas em versão neo-metafísica (Paola Gandolfi, Stefano Di Stasio), da tradição abstracta à versão kitsch dos «nuovi-nuovi» (Luigi Ontani), numa reafirmação da autonomia italiana perante as circulações internacionais ou, em última instância, numa oposição provocatória face ao ritmo de visão imposto pelas circunstâncias próprias de uma mega-exposição.

PRÉMIOS

Mas a 46ª edição da Bienal (houve interrupções durante as duas guerras, atrasando a numeração do centenário) são também os 31 pavilhões estrangeiros presentes nos Giardini, mais as representações de outros 19 países que ocupam galerias, igrejas e palácios da cidade — como sucede com Portugal, regressado a Veneza depois de uma última participação em 1986. E ainda as incontáveis iniciativas paralelas com que os países mais ricos desdobram as suas representações e propõem os seus mais jovens artistas. Como dar conta dessa diversidade infindável de participações individuais, de referências culturais mais ou menos exóticas, de gerações e de projectos, num tempo que não parece propício à renovação dos estilos colectivos?
A lista dos prémios oficiais pode constituir uma primeira linha de abordagem, em que se volta a deparar com a forte influência de Jean Clair, ainda que este tenha afirmado a sua discordância com a atribuição de distinções: «Reinstauremos os prémios a partir do momento em que o academismo seja restabelecido nas artes plásticas. Numa situação em que não há ensino, excepto o ensino da dúvida, se tal coisa pode existir, a ideia de um palmarés não tem rigorosamente nenhum sentido» (in «Journal des Arts»). Para o director da Bienal, esse futuro academismo será «o regresso a uma comunidade de indivíduos participando de uma mesma profissão (métier) e partilhando os mesmos ideiais». 
De qualquer modo, um juri oficial em que se destacaram a presença do espanhol Thomas Llorens e a ausência de Robert Hughes, ainda anunciado nos catálogos, atribuiu os leões de ouro de pintura e escultura a Ronald B. Kitaj e a Gary Hill, ambos apresentados na exposição histórica, e o do melhor pavilhão ao Egipto.
Em Kitaj, pintor americano exilado em Londres e Paris, que esteve no início dos anos 60 associado à afirmação da Pop britânica, foi distinguida «a coerência de uma pesquisa que redescobre no 'Moderno' os trilhos da pintura europeia e traz uma nova abertura à imaginação colectiva», representada com obras dos anos 76-77 e 84, entre outros artistas que cultivam a pintura de modelo vivo, como Hockney, Lucien Freud, Lopez García e Avigdor Aricka. Mas a distinção também teve certamente em conta a retrospectiva que circulou no ano passado por Londres, Nova Iorque e Los Angeles (sendo, aliás, objecto de uma hostilidade da crítica britânica que atingiu proporções raras) e o próprio papel de Kitaj em defesa da figuração e da pintura da «Escola de Londres», por ocasião da exposição «The Human Clay», de 1976, cujo título é retomado por J.C. nessa secção da mostra retrospectiva. Ao lado de Hockney e Aricka, Kitaj é realmente um dos maiores pintores vivos, e também um dos menos vistos.
Por seu lado, Gary Hill, também norte-americano, será um exemplo maior da necessidade de continuar a interrogar a presença e a representação do corpo através das novas tecnologias da imagem. Comparece com uma instalação inédita, Wither Shines, em que dois ecrãs limitam um espaço negro cujo chão é ocupado por um labirinto de barras de aço,  onde a passagem dos espectadores desencadeia a audição de um texto bíblico; tal como na obra que se pôde conhecer em «Multiplas Dimensões», no CCB, os meios mais sofisticados são utilizados com uma deliberada depuração de efeitos, fazendo da presença física  a origem de uma inquietante interrogação sobre a eficácia da imagem e da comunicação.
Entretanto, o mesmo interesse pelas pesquisas tecnológicas justificará também três das menções honrosas concedidas a Richard Kriesche (Austria), Jehon Soo Cheon (Coreia) e Hiroshi Senju (Japão), que apresentavam instalações com recurso à processos informáticos, ao vídeo e à fotografia microscópica (ver foto). Uma outra menção faz a sempre conveniente distinção de um italiano, Nunzio, enquanto a irlandesa Kathy Prendergast mereceu o prémio para um artista de menos de 40 anos, atribuibuido a uma série de pequenos mapas desenhados onde a malha urbana se pode ver ambiguamente como ilustrações anatómicas — o corpo, de novo.
Claramente político, ainda que as obras expostas consiguam controlar as marcas do exotismo e da produção dependente que são tão comuns aos países periféricos, é o Leão de Ouro atribuido ao Egipto, cujo pavilhão, segundo o juri, «propõe com êxito a integração num complexo itinerário arquitectónico da obra de três jovens artistas que associam a tradição da arte moderna ocidental com antigos modelos da cultura egípcia». Único representante do mundo árabe, o Egipto é um país fortemente ameaçado pela pressão do fundamentalismo, que no discurso de Jean Clair surge como uma nova e muito próxima ameaça iconoclasta que paira sobre a Europa: «Quando vemos o que se passa na Argélia... é todo este nosso sistema cultural centrado sobre o culto da imagem que pode, dentro de dois ou três decénios, ser totalmente varrido.»

GEOGRAFIAS

Entretanto, a apresentação de artistas consagrados revela-se uma estratégia comum a vários países — não se sabe se em resposta à crise, se como aproximação ao possível gosto de Jean Clair. É o caso do escultor César, apresentado pela França, que consegue ainda surpreender quem já não esperava mais do que a repetição de um formulário vulgarizado. Uma acumulação de compressões de automóveis com 540 toneladas (o título) impõe a sua monumentalidade no espaço interior do pavilhão com um poderoso acerto de escala e também com a energia de uma certa picturalidade assumida pela parede de sucata; em paralelo, alguns esmagamentos parciais de Citroen ZX novos, negros e reluzentes, oferecidos pela marca, apresentam-se como peças de parede, formalmente eficazes e impressivos como manifestação de um consumo absurdo.
O pavilhão britânico, por seu turno, apresenta uma vasta antologia de Leon Kossoff, outro dos pintores da «Escola de Londres», em cujas telas se repete obsessivamente um reduzido leque de opções temáticas directamente referidas a um quotidiano pessoal — retratos, nus, paisagens urbanas vista da janela, estações de metropolitano —, tratadas com pesadas sobreposições de matéria e um desenho esquemático. Nessa contradição insinua-se a ideia de uma construção laboriosa e o congelamento de um estilo, embora se esteja sem dúvida perante um respeitável pintor.
Mais débeis são as opções históricas da Espanha, com o pintor Eduardo Arroyo e o escultor Andreu Alfaro a revelarem apenas grandiosas condições de produção. Takis, apresentado pela Grécia, encerrou o pavilhão com uma pose contestária, destituida de sentido para quem souber que a sua obra há muito se orientou para a intervenção em espaços exteriores; a originalidade das construções electromagnéticas ou dos sinais luminosos e sonoros, afirmada desde os anos 60, mereciam uma mais bem calculada representação.
Outro escultor consagrado, esse americano de ascendência italiana, Mark Di Suvero, ocupa com sete gigantescas obras as margens do Grande Canal, num projecto acolhido pela bienal à margem da representação oficial. As pesadas vigas de aço industrial elevam-se com a leveza de desenhos construidos no espaço, que, por vezes, a cor vermelha acentua ainda mais, associando a monumentalidade da escala urbana a elementos móveis que baloiçam lentamente com o vento. Entretanto, o pavilhão dos Estados Unidos é ocupado por uma série de instalações video de Bill Viola, pretenciosas ou dificilmente observáveis nas condições de um desfile constante de espectadores.
Na mesma área do vídeo é particularmente curioso o pavilhão da Suiça, onde Peter Fischli e David Weiss apresentam os seus Arquivos Panópticos, visíveis em 12 ecrans tv em emissão permanente. São cerca de 80 gravações de mais de cem horas de registo, feito em tempo real, de viagens ou de observação de situações de trabalho, lazer, espectáculo, desporto, etc: «em vez de tornar visível o invisível, como pretende a tradição da arte, F. & W. tornam invisível o visível (o quotidiano), registando-o nas suas longas sequências filmadas» (do catálogo). Com uma aparente natureza de «ready mades», repousantes no imenso itinerário da Bienal, os filmes contrariam os efeitos estetizantes geralmente procurados pela arte-video e ganham a cumplicidade do espectador numa situação em que toda a expectativa é anulada a favor de uma continuidade não ficcional, neutra e inexpressiva.
Entretanto, um outro artista suiço, Christian Marclay, ocupa toda a nave de uma igreja com gigantescas ampliações de banais fotografias de amadores, impressas sobre finíssimos véus, mostrando-se as respectivas provas originais em cada um dos altares. Aqui, uma mesma indiferença das imagens apropriadas, testemunhos de situações privadas, contrapõe-se a uma eficaz ocupação de um espaço carregado de outros sentidos.

DESCOBERTAS

No plano das descobertas gratificantes, raras na bienal, situa-se o artista dinamarquês John Olsen (1939). Apresenta uma muito extensa produção de desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, «assemblages» e vitrinas de objectos encontrados, que constituem um universo original de criações intimamente ligados a uma existência solitária de caçador e recolector, à margem da cultura urbana. Cadáveres de animais, plantas mortas e materiais muito diversos consumidos pelo tempo e pelo mar são absorvidos numa prática de apropriação e reciclagem permanente, que parte de referências de uma formação artística tradicional (mais evidente no desenho) para o despojamento de uma experiência muito directa dos ciclos da vida e da natureza. As esculturas partem da observação de formas animais e ganham uma gravidade estranha nas suas escalas monumentais (ver «Sumário»).
No pavilhão do Brasil, Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) é a revelação de um original criador «alienado», internado durante 50 anos numa colónia psiquiátrica. As peças bordadas que sintetizam memórias pessoais associam-se, como inventário do mundo e preparação meticulosa da morte, a outros objectos insólitos que são surpreendentemente próximos das montagens, acumulações e relicários da tradição erudita, mas que se vêem com um acréscimo de ingenuidade e aparente humor.  Outro brasileiro, Nuno Ramos (S. Paulo, 1960), apresenta obras que se identificam como marcas fossilizadas de animais, em lages de pedra arenosa e numa barroca moldagem em alumínio.
Quanto a Portugal, as presenças de Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes e José Pedro Croft constituem a representação correcta (e possível no seu curtíssimo tempo de preparação) da energia que se reconhece à actual escultura nacional. As peças reeditam problemáticas experimentadas e mostram-se numa galeria da Praça de São Marcos que é fronteira à esplanada do frequentadíssimo Café Florian, o que garantiu à inauguração as presenças convenientes, apesar da dificuldade de um acesso oculto. O que mais importa é, afinal, o regresso a Veneza  e a perspectiva da construção de um pavilhão próprio nos Giardini, que Santana Lopes terá deixado confiada a Siza Vieira — espera-se agora que a desarticulação entre o comissariado pessoal de José M. Teixeira e as competências oficiais do Instituto Português de Museus, bem como os condicionalismos da troca de governos, não inviabilizem uma consideração oportuna do projecto.
Outra inesperada presença portuguesa é de João Tabarra, com uma fotografia utilizada no desdobrável-cartaz que anuncia o «Aperto 95», iniciativa com que três dezenas de centros de arte europeus, da Espanha à Austria, resolveram responder ao cancelamento da secção veneziana dedicada aos novos artistas, colocando sob aquela designação as suas programações de Verão.
A oposição mais visível a Jean Clair acabou, aliás, por concentrar-se na questão da anulação do «Aperto», respondendo o director da bienal com argumentos de ordem financeira ou burocrática e também com críticas dirigidas aos critérios de selecção das suas últimas edições. O local utilizado pelo «Aperto», o Arsenal, seria um espaço sem condições museológicas mínimas e, por isso mesmo, condicionava «subrepticiamente, insidiosamente» a apresentação de um único tipo de práticas, as instalações de obras efémeras e «site-specif». Clair lembrou também que «a modernidade fez-se em grande medida contra a Bienal», durante os seus muitos anos de exclusão das vanguardas, dizendo ver com bons olhos a possibilidade desta sua edição, que pretendia «coerente, forte e discutível», vir a gerar reacções e anti-corpos.
No entanto, o peso da história e a ausência do «Aperto» são já contrariados em Veneza por uma profusão de exposições paralelas, promovidas por diferentes países e acolhidas no programa oficial. É o caso de umamuito infeliz mostra francesa comissariada por Jean-Yves Jouannais, «História da Infâmia», dedicada a lançar «o descrédito sobre a obra-prima e a ridicularização do objecto de arte». A propósito, deve ler-se o número de Junho da revista «Art Press», de que é o chefe de redacção, para conhecer a dimensão da esquizofrenia instalada nos meios da arte — Catherine Millet, directora da mesma publicação, foi a responsável pela escolha de César e excede-se na sua resposta às defesas dos artistas «jeunnnes» (sic) e «vanguardisticamente correctos».
Outra mostra, patrocinada pelo Arts Council, reune em «General Release» alguns novos ingleses. Passa-se por aí do  humor fatigado e da subservão institucionalizada dos franceses para a aplicação escolar, sempre apoiada por protocolos escritos que justificam o desejo de sentido dos exercícios. Jane e Louise Wilsom, vistas nas Jornadas'93 do Porto, apresentam inquietantes fotografias de universos de pesadelo: a sua obra «é psicótica, psicadélica e psíquica» (sic) e interpreta as ruas tortuosas de Veneza «como uma metáfora arquitectónica do labirinto da insignificância». Os frascos de Adam Chodzko (na foto) são «uma interpretação das perdas fisiológicas que ocorrem na busca da experiência extrema». Na pintura de Gary Hill «os temas são claramente identificáveis, mas a nova iconografia do artista opõe-se a qualquer forma de conclusão lógica». Elizabeth Wright fotocopia as listas telefónicas de Veneza com uma redução a 65 por cento do formato para «reportar os objectos quotidianos a uma imagem de si próprios». Etc.
Mais radical, na via de uma indiferenciação total dos objectos e de uma desrazão essencial de todas as práticas artísticas, é uma colectiva de holandeses e flamengos, «Among Others», promovida pela Fundação Mondrian. O jogo compulsivo, a acumulação de restos, o desvio das funções imperam como actividades que prescindem de forma e de sentido para se reinscreverem, apenas como acções, numa realidade caótica.



Veneza 1995 - 2

O 2ºartigo sobre a 46ª Bienal de Veneza de 1995, sobre a exposição central, IDENTITY AND ALTERIY - FIGURES OF THE BODY 1895/1995, comissariada por Jean Clair.

"Corpo a corpo" 

EXPRESSO/Revista 24 -06 - 95

Com a aproximação do fim da década, vão multiplicar-se os projectos retrospectivos sobre a arte do século XX. Mas, se o centenário da Bienal oferecia a Jean Clair a oportunidade de uma primeira revisão da história da modernidade, o polémico director do Museu Picasso não ficou subjugado às regras dos inventários de obras-primas.
«Identidade e alteridade — Imagens do Corpo, 1895-1995» não é nem pretende ser uma síntese de toda a arte do século, embora tenha conseguido reunir em Veneza (até 15 de Outubro), graças ao prestígio do seu autor, um acervo irrepetível de 600 obras vindas de todo o mundo, do MoMA de Nova Iorque ao Ermitage de Moscovo, que ficará como um incontornável ponto de referência.


Exposição temática, ela afirma a importância central, ao longo de um século que costuma ser visto sob o signo da abstracção, da representação do corpo e do rosto, em especial do nu e do auto-retrato, constantemente investidos pelos artistas como uma necessidade íntima e inexplicada de confronto consigo mesmo e com os outros — quer através da continuidade das disciplinas tradicionais, a pintura e a escultura, quer em novos «media» como a fotografia e o vídeo, a «acção» e a instalação.
Reinterpretação da história da arte recente, entre tradição e ruptura, e não simples regresso a uma ultrapassada contradição entre figuração e abstracção, a exposição do centenário é deliberadamente parcial e provocante, enquanto afirmação de um ponto de vista e mesmo de um gosto pessoal que se verá como uma nova batalha de um itinerário crítico dirigido há anos contra as versões redutoras da modernidade (ver edição anterior da «Revista»). É uma história oposta às versões banalizadas desde o final da 2ª Guerra, a partir do eixo Paris-Nova Iorque, que se identificam com um processo linear desde Cézanne ao cubismo e à abstracção, depois às neo-vanguardas dos anos 60, numa sequência de cortes definitivos com a tradição, desconstruções das convenções e reducionismos constantes, até um eventual fim anunciado da arte que seria também, com a impossibilidade de novos -ismos, a emergência pós-moderna, regressiva ou paródica, de uma diversidade pós-histórica.
Exposição a diversos títulos problemática, ela poderá ser vista ainda como uma resposta ao «progressivo» estreitamento do território da arte ao universo dos seus especialistas profissionais, porque o desaparecimento do público não é uma consequência indiferente de uma história que passou (sem dilacerantes rupturas...) da subservão à institucionalização das vanguardas, cujas obras, aliás, se deveriam esgotar no próprio poder de negatividade e rarefacção estética. Importa saber que, apesar da democratização da cultura, do turismo e indústrias culturais, os visitantes da Bienal foram decrescendo dos 450 mil de antes da 1ª Guerra para menos de cem mil na década de 90.

NORMAS

A releitura da lugar do corpo na arte do século XX, desocultando, em grande medida, o não visto ou o recalcado, é uma aposta na defesa de certos artistas excluídos do discurso museológico dominante por serem inclassificáveis ou marginais em relação a uma história rectilínia (Beckmann, Stanley Spencer, Gaston Lachaise ou Arikha), na valorização das maturidades e dos itinerários longos, contra a prevalência das fases de afirmação e juventude (Picasso e Bonnard, De Chirico e Kokoschka), na revelação das rupturas individuais contra os interditos modernistas, tantas vezes censuradas ou desentendidas (Malevitch e Giacometti, Pollock e Guston), bem como na descoberta da produção originária de países periféricos, nomeadamente os do centro da Europa, aliás, segundo um exacto entendimento de Veneza como eixo de cruzamentos entre Oriente e Ocidente, entre a tradição católica da imagem sensorialmente exuberante e o diferente valor cultual do ícone bizantino. 
Esse retorno permanente ao tema, às obsessões e também às próprias formas do corpo, regresso compulsivo do mesmo e interrogação sempre renovada da imagem própria e do outro, relação carnal que é também a experiência directa da presença do sexo e da morte, da máscara e da doença, não é, no entanto, a história pacífica de uma mera continuidade da tradição — o corpo do século XX, segundo demonstra Jean Clair, não é nunca o dos modelos clássicos congelados pela Academia, mas um novo corpo de que no final de 800 se apropriaram as ciências experimentais, a antropologia normativa e também a psicanálise.
Militante anti-formalista, atento às questões do conteúdo e do sentido da «vida das formas», Clair considera a arte como uma das dimensões da história das ideias e, por isso, o seu programa expositivo, de facto multidisciplinar, é construído sobre uma permanente referência ao avanço dos conhecimentos e das técnicas, e, em especial, às respectivas consequências  sobre as linguagens artísticas, sobre as convulsões da política (as guerras, a emergência das utopias, os totalitarismos) e ainda sobre as mutações mais imprecisas do que se pode designar como «espírito do tempo», numa longa viagem entre dois fins de século — entre decadência e declínio, na sua perspectiva desencantada.
O horizonte cronológico de partida, a primeira Bienal, é sinalizado como uma data marcante da história das ciências e das mentalidades. Nesse ano surgem as fotografias com raio X do interior do corpo e discutem-se as provas científicas do Santo Sudário, descobre-se o cinema, generaliza-se o uso do bilhete de identidade, em ligação com a antropometria judiciária e criminal, que estende uma mesma confiança reformadora na classificação e na norma às questões do génio, da criminalidade e da loucura; Charcot publica os estudos sobre a histeria e Freud troca a neurofisiologia pelos caminhos da ciência dos sonhos. Em pleno triunfo do cientismo positivista, com a sua crença de que a essência do ser humano se pode reduzir a um certo número de dados físico-químicos, quantificáveis, a voga das «maravilhas da ciência» prolonga-se numa vaga imensa de espiritualismo, que compreende as versões mais fantasmagóricas do espiritismo e do ocultismo (e de que partilham Mondrian e Kandinski, Kupka e Boccioni).
Sobre o simbolismo que domina o final de 800 e as realidades invisíveis que a ciência desvenda estabelecem-se as pontes para uma representação do imaginário que conduz à pintura abstracta; a cronofotografia (Marey) disseca o movimento dos gestos, e Degas e Eakins tomam-na por modelo, antes que os futuristas a traduzam em vertigem da velocidade; as matemáticas e a quarta dimensão alteram a representação do espaço e do tempo, na sequência directa das experiências sobre a visão da cor dos pós-impressionistas. O triunfo da antropologia normativa, com os inventários fotográficos de Bertillon e de Lombroso, prolonga-se com a acção de Paul Richer, professor de anatomia na Escola de Belas Artes de Paris, num gigantesco esforço de fixação de novas medidas das proporções humanas. Mas artistas como Munch, Ensor ou Gerstl vão opor a «reivindicação expressionista» a essa dinâmica normalizadora e as Demoiselles de Avignon constroiem-se sobre inúmeros estudos que questionam a possibilidade de novos cânones para o corpo.

ABISMOS

Seguindo um percurso cronológico definido — o positivismo (1895-1905), «a incoerência da vanguarda» (1905-15), «em direcção ao homem novo» (1915-30), «artes totalitárias e arte degenerada» (1930-45), o pós-guerra (1945-62), etc —, a exposição justapõe objectos com diferentes estatutos que permitem, ou não, distinguir a obra de arte da representação científica, da máquina e das imagens popularizados pelas novas técnicos. As experiências de medida e moldagem do corpo surgem referidas nas antropometrias de Klein ou nos retratos de Chuck Close, a maleta antropométrica de Bertillon vê-se ao lado de Stoppages Étalons  de Duchamp, as fotografias espíritas aproximam-se de imagens simbolistas, os desastres da guerra registados pela medecina confrontam-se com as suas versões artísticas,  as representações da histeria prolongam-se na obra recente de Louise Bourgeois, as primeiras fotos feitas numa morgue contrapõem-se às de Serrano, e mais do que a cor e a diferença de escala importa aí o peso da actualidade, a sida. Nesse trânsito entre objectos e tempos, é também a desconstrução da novidade que Clair persegue, opondo inovação e originalidade, e entendendo esta, sobre a raiz etimológica, como diferente regresso às origens.
Por outro lado, a sucessão dos núcleos históricos é interrompida por salas temáticas dedicadas ao auto-retrato, à representação da morte («ars moriendi») e do sexo («ars amandi») — e nestes três tópicos se condensa, afinal, toda a interpretação subjacente à mostra de Clair, uma viagem aos abismos do humano guiada por um autor que toma a figura da Medusa, emblema do sexo e da morte, como o exacto paradigma da visão do artista (em Méduse, 1989).
Aliás, a exposição inicia-se sob a dupla invocação do que foi o primeiro escândalo moral da Bienal e da Homenagem a Cézanne, de Maurice Denis (1900). Il Supremo Convegno, de Giacomo Grosso, reduzido a um único rosto sobrevivente (enquanto a mostra «Veneza e a Bienal, Itinerários do Gosto» se inicia com a exibição de uma réplica), é uma composição académica onde cinco mulheres nuas rodeiam com poses lascivas o caixão de um homem, que mereceu do então patriarca de Veneza a imediata condenação da Bienal. A Homenagem, por outro lado, é tanto uma referência ao mestre da pintura moderna como a memória da experiência perdida dos grupos de artistas, servindo de passagem, através de uma série de retratos colectivos, para um primeiro espaço temático dedicado ao trânsito da academia ao café (Dix e Kokoschka, Immendorff e o Caffè Greco de Guttuso), como dissolução da comunidade artística, outra ideia recorrente no discurso do comissário.
Com a sua exposição,  Clair interroga-se «por que se tornou tão difícil representar a singularidade de um corpo» quando toda a arte precedente o conseguia fazer com um júbilo que continua hoje a perturbar os visitantes do museu. De certo modo, é a dificuldade dessa vontade de representação que aqui se sumaria, por vezes com opções questionáveis que levam a privilegiar a evidência maneirista dessa mesma dificuldade, traduzida na densidade dos empastos (Freud, Kossoff, Leroy), tal como se acentua na sua antologia o gosto por uma visão torturada do corpo, como fragmento, ferida, decadência, sacrificando alguns outros exemplos maiores em que se afirmaria o prazer feliz dos corpos, a sua integridade e pujança sensual. «Neste fim de século, o clima da arte e da sociedade é razoavelmente mórbido» justifica J.C.
Depois das vanguardas, o itinerário equaciona toda a complexidade do primeiro pós-guerra segundo os eixos de uma figuração que hesita entre o optimismo da máquina, tomando o robot como padrão do homem novo, e os modelos clássicos visitados por um impossível «regresso à ordem», de que os manequins de Chirico são a melancólica interrogação.  Momento particularmente impressivo do percurso é, depois, a secção dedicada ao período de 1930 e 1945, onde as imagens do líder (Mussolini e Kirov) e dos corpos idealizados pelas normas totalitárias (Adolf Wissel e Samochvalov) se contrapõem aos auto-retratos dos «artistas degenerados» (Kokoschka e Felix Nussbaum) e, com uma máxima violência, às imagens do extermínio recordado por Zoran Music. A outra face dos mesmos anos é a da «beleza convulsiva» dos surrealistas, na explosão erótica de Lachaise e Spencer, ou no corpo distorcido por Kertesz e desmembrado por Picasso.
O segundo pós-guerra é revisto nas suas problemáticas cruzadas, em que a inquietação existencialista emparceira com um novo realismo militante, sobre a impossibilidade da figuração dos Otages de Fautrier ou os homúnculos de Dubuffet. O «eclipse do rosto» está também presente quer num monócromo negro de Rauschenberg e no gesto iconoclasta do apagamento de um desenho de de Kooning, em 53, quer na tela branca (Achrome) de Manzoni, em frente de Hélion e Artaud.  Mas a presença central é já a de Pollock, visto na junção de uma abstracção «clássica» e da emergência de um rosto, na sua final volta à figura, sobre a mesma técnica do «dripping».

SEXOS

É um «regresso ao corpo» (1962-1985) que se afirma mais plenamente numa segunda sala em torno de nove Donne di Venezia de Giacometti, com Gruber, Balthus e Bacon, Kossoff e Eugène Leroy, com outra presença indispensável de Picasso. Mas é ao paralelismo da pintura de Baselitz e Philip Guston, na sala seguinte, que o comissário chama «o ponto de viragem, 1962-73». O alemão volta ao retrato, não-naturalista, invertendo o quadro e o americano, ao abandonar o expressionismo abstracto, representa-se sob a máscara da Ku Klux Klan a desafiar a intolerância da crítica.
A seguir, a secção «Human Clay» (barro humano) retoma o título da exposição pioneira que Kitaj organizou em 76. Aí estão Hockney, com os retratos duplos dos anos 70 e com uma última série de desenhos onde a procura de uma interioridade psicológica sobreleva o virtuosismo do traço; o próprio Kitaj, que seria distinguido com o prémio máximo da Bienal para a pintura, presente com os retratos «diasporistas»; Freud, o espanhol López Garcia e esse pintor admirável que é Avigdor Arikha onde a disciplina do modelo vivo se retoma com a limpidez de um recomeço, na evidência do elo («link») estabelecido «entre o olho e a mão».
Notar-se-á que Clair ignora aqui o regresso à imagem do corpo, sempre já mediatizado, que definiu a Pop Art e o hiper-realismo, não convocando, por exemplo, Wesselman e Larry Rivers ou Alex Katz e Duane Hanson, que dariam outras configurações do tema. A insistência numa visão trágica do corpo justifica também exclusões como a de Niki de Saint-Phale, e em toda a exposição descobrir-se-á numa pintura «vache» de Magritte o único afloramento consentido ao humor. 
Mas o termo do itinerário do Palácio Grassi é ainda uma sequência de falsos fins sucessivos e de novos temas em aberto, num prodigiosa encenação de espaços que contou com a direcção de Gae Aulenti. «Ars Amandi» é a conjunção de obras muito diversas em torno da representação realista ou metafórica do sexo, de Georgia O'Keeffe, Fontana e Picasso a Robert Morris e Bruce Nauman. A seguir, uma sala de fotografias estabelece um confronto de atitudes perante a nudez do corpo e do rosto, em referência à diversidade das convenções culturais, com a série dos campos de nudistas de Diane Arbus e um díptico esplendoroso e voyeurista de Helmut Newton, em paralelo com duas séries de imagens de mulheres argelinas (Gatian de Clérembault e Marc Garanger). Por último, os volumes maciços dos lutadores Nuba do nigeriano Ousmane Sow, a única presença de um artista do Terceiro Mundo proposta por Jean Clair, que rejeita a tentação do exotismo que está presente nas recentes temáticas do multiculturalismo, mostram-se diante dos monstros sanguinários, brancos, de Jane Alexander, uma artista da África do Sul. É um último confronto, de corpos e de civilizações, entre «identidade e alteridade».
Duas outros secções que acolhem jovens artistas ou expressões e processos de mais recente emergência, desde os anos 60, alargam a exposição do Palácio Grassi a outros locais, numa distribuição por vezes confusa em que se reflectem dificuldades logísticas resultantes do gosto italiano pela improvisação — um mês antes da inauguração, Clair dirigiu-se ao primeiro ministro para pôr em causa a inauguração e impôr a cedência, não prevista, do Museu Correr.
«O corpo real e virtual» é um diálogo entre abordagens do corpo e do sexo em exemplos recentes de continuidade da pintura e de uma fotografia que, depois de ter tido valor de afirmação e prova, descobre a necessidade de se pôr em dúvida como manipulação e desrealização. Aí se mostram imagens de um discurso feminista sobre a identidade sexual, de Ines van Lamsweerde, Jeanne Dunning e Helen Chadwick, e também, noutro fim de percurso sobre a «monstruosidade», de Nancy Burson, fotógrafa que passou da reformulação informática dos rostos à reportagem sobre os efeitos de disfunções neurológicas. No entanto, a presença inicial dos registos fotográficos deixados pelos accionistas vienenses (G. Brus e Schwarzkogler) estabelece um preâmbulo de violência e abjecção que não mais será ultrapassado, num efeito de permanente interrogação do novo que se prolonga com as fotografias de Wols, frente aos corpos femininos, e da italiana Wanda Wulz, de 1932, diante das novas tecnologias da manipulação da imagem.
Pinturas de Marlene Dumas (holandesa, também presente no pavilhão do seu país e cuja projecção actual se comprova com a inauguração de uma dupla retrospectiva no Palácio Rivoli, ao lado de Bacon), Marie Lassnig e Chantal Wicki, bem como de Vincent Corpet e Michel Haas,  Clemente e Eric Fischl encenam outros olhares cruzados sobre o corpo nu e a guerra dos sexos. No Pavilhão Itália mostram-se ainda instalações e vídeos de Gary Hill (prémio de escultura), Nauman, Clegg & Guttman e Mona Hatoum.
Por último, «Impressões do corpo e do espírito», com organização de Adalgisa Lugli, é um núcleo temático sobre o uso da moldagem enquanto sinal tangível da presença directa do corpo, como vestígio de uma acção que ocupou nos anos 60 e 70 o lugar da representação, através do aprisionar de uma sombra ou silhueta, impressão («empreinte») e marca, ou ainda através de objectos metafóricos. Das telas queimadas de Burri aos moldes fechados de Tony Cragg, passando pelo polegar de César e múltiplos exemplos da Arte Povera, o percurso surge como uma amálgama de vestígios. Mas, também aqui, uma pegada de dinossauro e uma cabeça renascentista, a máscara de Rossini e a Elevage de Poussière de Duchamp vêm questionar todas as cronologias, com a evidência de um elo nunca quebrado, para lá da experimentação dos materiais e das diferenças de linguagem, com a questão da presença real do corpo.