sábado, 23 de novembro de 1991

Europália'91, "Portugal 1890-1990", Ether, António Sena, Jorge Calado

"Retrato de grupo"

sábado, 1 de junho de 1991

1991, PS, A cultura do ressentimento

A cultura do ressentimento

EXPRESSO, Cartaz, 1 de Junho de 1991. pp. 38-39 (Actual / Opinião)


 

Comentário ao programa do PS para o sector da Cultura – eleições de 2001, com Jorge Sampaio como secretário geral e presidente da CML. (Em várias sessões públicas de 1995, durante os Estados Gerais, alguns assistentes não tinham esquecido este “ataque” ao PS)


Jorge Sampaio tinha já recebido (ou iria ainda receber a seguir?) um grupo informal de intelectuais e artistas numa reunião que teve lugar no centro comercial Arco-Iris, destinada à apresentação de críticas e sugestões sobre política cultural. As divergências de entendimento político e cultural foram-se tornando cada vez mais claras nesse encontro, chegando por parte de Sampaio a uma clara rejeição da sua arrogância “elitista”. Em grande parte, esse grupo regressou nas reuniões dos Estados Gerais, quatro anos depois, e veio a ter êxito.



Edite Estrela e António Reis apresentaram no passado sábado, num hotel de Lisboa, as propostas do Partido Socialista para o sector da cultura. A quatro meses das eleições, um extenso documento intitulado «A política cultural do PS em debate» foi oferecido à apreciação dos «agentes culturais»; a quatro meses das eleições, também, Edite Estrela e António Reis perfilaram-se como candidatos à pasta da cultura num possível governo socialista. 

Acontece, entretanto, que as propostas formuladas se revelam absolutamente distanciadas da actual realidade do sector (por efeito do longo afastamento do Poder?, por sobrevivência de um quadro ideológico de referência que impede a compreensão das dinâmicas culturais que atravessam o quotidiano?). São todas as marcas da velha ideia da «mudança das mentalidades», do entendimento burocrático e livresco da cultura como o plano mais «nobre» de uma política de instrução pública de modelo oitocentista, que se reconhecem como inspiradoras do documento. O prazo parece ser curto para que, neste domínio e nesta direcção, a intervenção socialista venha a revelar-se mobilizadora, ou sequer positiva num contexto que é, por outro lado, o do caos generalizado no campo da política governamental da cultura. 


Velhas dicotomias 

O documento de E. Estrela e A. Reis é, com efeito, um exemplo extremo da regra corrente de evitar, através da repetição dos lugares-comuns mais exangues, a consideração global de uma política, a caracterização de realidades actuais, a definição de princípios e de estratégias de acção sectorial, substituindo-as por longas listas de «medidas», que vão sempre da mais absoluta generalidade (a «alteração e regulamentação da lei 13/85» - lei do património -, ou o «apoio às organizações artísticas existentes») até ao pormenor totalmente circunstancial e finalmente ridículo (o «estabelecimento de protocolos com a
RTP, com vista à utilização em 'separadores' e em 'fundos' de obras de artistas plásticos nacionais»). 

A sequência dos capítulos é por si mesma significativa de um quadro mental improdutivo: «Salvaguardar, defender e valorizar o património cultural»; «Incentivar a criação cultural e apoiar a divulgação das suas obras»: «Democratizar e descentralizar a vida cultural»; «Lisboa capital europeia da cultura»; «Preservar e promover a língua e a cultura portuguesas». 

Assim se começa desde logo por estabelecer a sobrevivência da velha dicotomia entre o património (conservação) e a criação actual - logo no primeiro capítulo, com efeito, surgem «medidas de carácter sectorial» para o domínio da arquitectura e arqueologia; do património escultórico, pictórico e de artes decorativas; do património audiovisual, musical edançado; e do património escrito, para a seguir se voltar a considerar, no segundo capítulo, as «medidas» para os sectores do livro; da música, ópera e dança; das artes plásticas (desaparece a referência às artes decorativas, falta a atenção ao design), do teatro e circo; e do cinema (esqueceu-se o audiovisual). 

Mais adiante restabelece o documento de A. Reis e E. Estrela a antiga divisão entre «promover a criação» e «democratizar o acesso à cultura», sempre num mesmo quadro mental herdeiro das mais empobrecidas concepções do iluminismo, onde as tentações aristocráticas e populistas se correspondem num mesmo nevoeiro de intenções. 

 

A miragem do subsídio 

A criação promove-se por uma generalizada política de apoios e subsídios (“atribuição de bolsas de estudo para aquisição de conhecimentos, especialização e investigação a jovens criadores e intérpretes»; «intensificação dos subsídios à edição de obras contemporâneas, literárias e científicas de reconhecido mérito»; «apoio à criação de grupos independentes de música, ópera e dança, que, em contrapartida, se disponham à itinerância»; «apoio à primeira apresentação pública da obras de jovens artistas», etc., etc. - sem esquecer que entre tais medidas figuram também as referidas generalidades, no estilo «criação de condições de dignidade funcional ao Teatro Nacional de S. Carlos», «organização descentralizada de concertos e festivais»; «reestruturação do Teatro Nacional D. Maria II»; «revisão da lei do Mecenato de forma a incentivar um maior apoio ... »). 

Aprofunde-se um só exemplo suficientemente revelador, o proposto apoio às primeiras exposições. Os autores mostram ignorar que logo no primeiro ano das Escolas de Belas-Artes os alunos são agora sujeitos à desenfreada atenção de uma ou duas dezenas de galeristas que procuram novos artistas. Fazer a primeira exposição não custa mais do que é necessário que custe; elas sucedem-se todos os dias, para todos os gostos. O que custa, por vezes, é fazer a segunda ou a terceira exposição, se o êxito não foi imediato. Este é um terreno em que o mercado cumpre o seu papel, obviamente a seu modo - e em que a estratégia do subsídio geral apenas significa o desperdício de verbas e o afogar burocrático dos serviços públicos. 

Quanto à democratização-descentralização, tudo oscila entre as referências à «itinerância», a intenção genérica de «articulação com a administração regional e local» e o anúncio de mais algumas «acções»: «apoio à consolidação e desenvolvimento da rede de centros culturais/regionais polivalentes, que não deverá esquecer as grandes áreas urbanas»; «formação de animadores culturais e definição do seu estatuto em termos que garantam a sua profissionalização», etc. 

Toda esta «filosofia do subsídio», quando não é absoluta demagogia eleitoralista e ocultação da falta de ideias precisas sobre objectivos a defender, esbarraria inevitavelmente com uma situação cultural que é radicalmente diferente do deserto que os políticos conhecem de S. Bento. 

A proliferação das iniciativas a todos os níveis (dos pequenos grupos de amadores aos propósitos de festivais internacionais, em todas as áreas e regiões) impõe ao Estado, pelo contário, o corte radical com a atitude paternalista do apoio e da subvenção indiscriminada. Tratar-se-á, antes, de reequacionar em absoluto o papel do aparelho central perante todos os parceiros que partilham o terreno - as autarquias, as fundações, as associações, as empresas comerciais. Tratar-se-á, em todos os sectores, de promover acções exemplares, segundo a regra simples de «fazer pouco mas muito bem feito», e de condicionar o patrocínio à aprovação de modelos de gestão das iniciativas que se mostrem correctamente programados, de modo a evitar todo o desperdício. Para além, obviamente, da intervenção básica nos sectores não investidos pelas dinâmicas dos outros intervenientes, e fiscalizadora naqueles que o são. 

Mas, se sectorialmente falta ao documento qualquer hierarquização de conceitos e objectivos que traduza um entendimento globalizante do que significam hoje as práticas culturais, é na «Introdução» do documento que a vacuidade das ideias gerais mais radicalmente se expressa. 

Aí se começa por afirmar que a cultura portuguesa é «dotada de uma insofismável vocação universal suportada por uma singular capacidade de se reproduzir, absorver e impregnar outras culturas». 

Aí se diz que o PS rejeita a «visão redutora da cultura como acervo de manifestações mais ou menos eruditas, domínio exclusivo de elaboração de elites». Tal como, na pressa de estabelecer supostas barreiras à esquerda e à direita, aí se «condena a conversão da política cultural em mero instrumento de ideologização, propaganda e ostentação do Estado». 

Candidamente, e com o simplismo da linguagem de comício, «o PS entende a cultura como a forma contemporânea de afirmação de dignidade humana»; avançando em seguida com um novo esforço conceptual, «entende que o espaço cultural tem a sua autonomia própria e é, por natureza, inequadrável e libertador, aberto à contestação e ao exercício do direito à diferença». Das ideias vagas nascem as palavras de ordem vagas: «pluralismo» (na «diversidade das formas e conteúdos das expressões criativas a apoiar e a dífundir»), «descentralização» (que será «multiplicadora dos meios disponíveis do acesso ao saber e à arte») e «participação» (“crítica e críadora»). 

Como passar à prática? Continuando no plano das generalidades: atribuir «prioridade estratégica» à política cultural, promover a Secretaria de Estado a Ministério (com a inclusão neste das políticas de investigação científica e... de comunicação social). De concreto, apenas a promessa de aumentar substancialmente a percentagem inscrita no Orçamento - será o fim da «perspectiva miserabilista com que o Estado vem encarando as suas obrigações constitucionais neste domínio». 

Não se encontra aqui qualquer pequeno eco do que são as transformações do universo da cultura. 


Consumismo, conformismo 

Ignora-se por completo que a cultura é hoje mercado (é-o obviamente nas artes plásticas), é indústria (nos domínios do livro, disco, audiovisual, imprensa), é emprego (o teatro, a «animação» cultural), é turismo (o património, os festivais, as grandes exposições), enfim, que este é um campo totalmente «invadido» pela economia. Cultura é também tempos livres, lazer, diversão, consumo; é a concorrência internacional ditada pela lei do mais forte; é a afirmação das novas tecnologias e dos novos «media». Cultura são (e não são) actividades como o design dos objectos, a moda, a publicidade, o mobiliário urbano, o urbanismo; cultura é o vedetariado artístico, que coloca no mesmo plano de notoriedade o desportista, o actor, o pintor ou o bailarino, o músico «pop» e o intérprete erudito (Bernstein e Karajan, antes; Pavarotti, as irmãs Labeque, Nigel Rogers, o Kronos Quartet, agora). 

Mas não é justo afirmar que os autores do programa não se apercebam desse novo universo da cultura. De facto, E. Estrela e A. Reis mostram por vezes intuir que algo mudou, mas são incapazes de o pensar senão pelo lado do ressentimento. Lá está, na introdução do documento, a frase-chave, funcionando apenas como bloqueamento para pensar e agir no presente: «Reagir ao consumismo conformista alimentado por indústrias culturais massificantes». 

Tudo o que mudou, desde Raul Proença e António José de Almeida, que continuam a ser os guias mais citados nos discursos, parece resumir-se para os autores às ameaças do consumismo, da massificação, da estandardização, da banalização, etc. Por isso se entende «promover a criação» para contrariar uma suposta «asfixia da criação» a que se assistiria actualmente em tempos do audiovisual e da explosão do mercado cultural. Por isso, A. Reis e E. Estrela chamaram José-Augusto França e Lídia Jorge para, de pontos de vista ainda mais ancilosados, comentarem o seu programa, e por isso a romancista se enredaria na teia das mais pobres contraposições entre livro e televisão, na saudade de um mundo em que as crianças eram «ouvintes de histórias» (porque havia avós e criadas, senhores...) em vez de espectadores de televisão. (É algo de mais lamentável que uma simples reedição da velha guerra contra a banda desenhada, porque o audiovisual e a informática talvez só sejam um fenómeno civilizacional comparável com a invenção da escrita ou com a romanização do Império). 

Importa sublinhar que o «debate» não se reduziu a esta perspectiva passadista. Fernando Pereira Marques tentou introduzir três vertentes estratégicas que deveriam orientar a definição de uma política cultural actuante no presente: a interdisciplinaridade e a atenção às mutações do quotidiano, o significado económico/industrial da cultura (pedindo timidamente licença para a situar no quadro dos factores de desenvolvimento e das forças do mercado) e a dimensão comunitária. 

Coimbra Martins, desenvolvendo esta última vertente, que será determinante a partir do alargamento do Tratado de Roma, terá surpreendido os presentes ao alertá-los para a urgência da política europeia da Alta Definição. Mas a surpresa foi tão grande que ficou sem efeito, como se um marciano tivesse atravessado a assembleia. 

E Jorge Sampaio, numa intervenção brilhante e inteligente, mostrou-se aberto a todas as interrogações, propôs questionamentos essenciais no terrenos das opções e das metodologias, alertou para outras realidades, precisamente aquelas com que contacta agora à frente da CML, isto é, a proliferação das iniciativas, a circulação dos públicos. 

Todas estas intervenções não tiveram eco visível na pequena assembleia. O museu em que vivem E. Estrela e A. Reis (e o PS?) vinha-se instalando há muito tempo. (12440 c.)


&


A.R. e E.E. responderam em “A pós-cultura ressentida”, publicado a 15 de Junho, pp. 34-36.


Outros textos próximos:


“Os luxos do Estado”. Festival de teatro e feira de arte. Cartaz 26 Janeiro. pág. 35

“Para que serve a cultura?”. A nomeação de Marcelo Rebelo de Sousa, líder da oposição na CML, como alto-comissário de Lisboa capital cultural. Cartaz 2 Março. pág. 35

Entrevista com Pedro Santana Lopes: “Estar na Cultura ajudou a aperfeiçoar o meu gosto”, Joaquim Vieira e AP, Revista, 6 de Abril. pp. 8-19. E “Caso a Caso”, com Inês Pedrosa, pp. 10-18.

“A razão do mais forte”. A demissão de José Afonso Furtado, presidente do IPLL. Revista. 1 de Junho, pp. 92-93.

“O que se passa no Nacional?”. O TNDMII de Agustina. Revista. 29 Junho. Pp 79-80

“Gulbenkian: outras músicas”. O ballet e orquestra. Revista. 28 Setembro. Pp. 57-8. (“Reestruturar ou reorientar” Documento interno)

“Agustina empresária”, entrevista, AP/José Mendes. Revista, p. 108-110. p 16 Novembro

Cultura, “Antigos e novos feitos”, na transição do governo. Revista, 23 Novembro. p. 12

sábado, 6 de abril de 1991

1991, SEC, Política Cultural, Santana Lopes, Caso a Caso

 "Caso a Caso" (com Inês Pedrosa), a acompanhar uma entrevista com Pedro Santana Lopes, 

EXPRESSO Revista de 6 de Abril 1991, pp. 10, 11, 12, 15, 16, 18.

"Os casos da Cultura são já tantos que a sua inventariação só se pode fazer através de um dicionário". Em pouco mais de um ano de mandato já se podia falar da balbúrdia da SEC. Mas podia falar-se..., dentro de alguns anos iam ser usados, por outros, métodos sujos de silenciamento


ACORDO ORTOGRÁFICO - S.L. assinou-o. (Ver 
CNALP)

ÁGUA - A EPAL costuma cortá-Ia aos Museus, por acumulação de facturas em atraso. A EDP e os TLP também 
fiam: em Janeiro o total das dívidas do IPPC às três 
empresas públicas ultrapassava os 21 mil contos, tendo 
aquelas começado a ser saldadas, segundo o «DN», com 
verbas saídas (ou desviadas?) do Fundo* de Fomento Cultural. (Ver Museus)

ANOS DE PROJECÇÃO - Santana Lopes anunciou que 
os «anos de ouro» já começaram em 1990 e que vão até 
1994, assim calendarizados:
1990. Comemorações dos 150 anos da restauração da inde
pendência (tratou-se de um início simbólico e talvez por 
isso não se deu por nada - mesmo assim, os festejos em 
Vila Viçosa com a respectiva publicidade devem ter orçado 
em 70 mil contos).
1991. Exposição dos «Tesouros da Coroa Portuguesa» (que 
se deverá inaugurar este Verão na Ajuda, mesmo antes de 
seguirem para Bruxelas). Europália*.
1992. Presidência* do Conselho das Comunidades Europeias, no 1º semestre. Programa anual de animação das 
regiões fronteiriças. Exposição de Sevilha. Circa 92, em 
Washington (Ver Painéis).
1993. Supressão das fronteiras.
1994. Lisboa, Capital * Europeia da Cultura.


AQUECIMENTO - Na Biblioteca* Nacional não funciona. O Inverno foi um perigo para os investigadores assíduos.

AUDIOVISUAL, Secretariado Nacional do - As responsabilidades da SEC 
são, nesta área, diminutas. As directivas 
gerais emanam de Bruxelas; por cá, o 
SNA tem a missão de harmonizar os vá
rios sectores do audiovisual, o que foi 
entendido por alguns cineastas como 
uma posível secundarização do cinema 
face à televisão. O coordenador, António Pedro Vasconcelos, depende directamente do ministro adjunto do primeiro ministro e para a 
Juventude, e S.L. explicou que procurava para o IPC um 
presidente que se adaptasse ao estilo de APV. Encontrou-o 
em Manuel Falcão. (Ver Cinema)

AVIÃO - S.L. tem medo de andar de A. Só em circunstâncias excepcionais não se faz substituir, fora de Lisboa, 
pela subsecretária* de Estado.

BAILADO, Companhia Nacional de - Este mês não 
dançou O Lago dos Cisnes, acompanhando as movimentações da Orquestra em defesa de melhores condições sala
riais e de respeito por uma «profissão de desgaste rápido». 
Está integrada na empresa pública Teatro de São Carlos*, 
mas certamente vai deixar de estar, regressando a uma 
anterior situação de autonomia.

BARBIE - Designação dada às assessoras e secretárias do 
gabinete de S.L. Mudam com frequência e parecem ter importante intervenção nos assuntos da SEC, sobrepondo-se 
em muitos casos aos responsáveis pelos Institutos e outros 
serviços. Segundo a oposição interna levará uns dez meses 
a refazer toda a orgânica da SEC.

BELÉM, Centro Cultural de - Para alojar a Presidência* 
da CEE construiu-se um conjunto de equipamentos culturais de que Lisboa tinha absoluta necessidade. O projecto 
foi escolhido por concurso internacional e é de um grande arquitecto italiano (Gregotti, com Manuel Sal
gado) - os que lhe chamam um «mamarracho» mostram a 
leviandade dos ignorantes ou despeitados. O problema não 
está, igualmente, em que o CCB oculte parte de um prolongamento-pastiche oitocentista dos Jerónimos, mas sim em 
saber-se como tudo aquilo vai funcionar, em especial os auditórios, o museu, as áreas de exposições, depois da estadia 
dos burocratas de Bruxelas. E para se inaugurarem as actividades em Janeiro de 92, a direcção devia estar nomeada 
e em funções, já com os seus programas em execução. S.L. 
propõe entregar a gestão do CCB a uma Fundação, que se 
chamaria das Descobertas, e a transferência do Museu dos 
Coches para o novo edifício, depois de se ter antes falado 
em possíveis museus da Ciência, dos Descobrimentos, da 
Modernidade, da Portugalidade, etc ... Entretanto, os custos 
da obra ultrapassaram todas as previsões (eram 6,5 milhões 
de contas, depois 13,5, agora 27 ou 40?) e o Tribunal de 
Contas descobriu irregularidades processuais.

BIBLIOTECA NACIONAL - Esteve em riscos de 
fechar as portas em 1990 por 
falta de verbas. Este ano 
(com um défice de partida de 
220 mil contos), essa ameaça terá sido para já adiada 
graças a um reforço orçamental de 50 mil contos, mas 
há vários serviços que estão 
paralisados. Por exemplo, os 
restauros estão interrompi
dos e 25 por cento do espólio 
está degradado, não poden
do ser cedido para leitura. 
«Deus Nosso Senhor nos 
proteja», comentava S.L. no 
fim de recente visita à instituição, segundo o «Público». Os 
críticos de S.L. pretendem que não é necessária a intervenção divina, bastariam os dinheiros previstos para a 
PIAF*.

CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA - Lisboa será 
em 94. O início dos preparativos não podia ser mais polé- 
mico, graças à nomeação de Marcelo Rebelo de Sousa como 
alto-comissário, sem acordo prévio da Câmara Municipal, 
directa interessada na matéria.

CINEMA - A maioria dos realizadores fez grosso barulho 
quando S.L. anunciou que o C. seria integrado na política 
do Audiovisual*. Os protestos transformaram-se em perplexidade com a nomeação de um jornalista especializado em 
música rock para a presidência do IPC. Manuel Falcão foi 
nomeado após ter desancado por escrito, no «Sete», a 
política de C. da SEC. S.L. explicou que naquele texto trans
parecia um homem com ideias e iniciativa, e que o facto de M.F. não ter qualquer relação com o 
sector só lhe garantia independência e 
isenção. Depois dos Estados Gerais do 
Cinema, tudo se acalmou: S.L. jurou 
proteger a arte e desenvolver a indústria, 
e remeteu o IPC às suas funções de pura 
gestão de financiamentos básicos. Cons
tituiu-se um júri, os concursos norma
lizaram-se, e concederam-se incentivos 
ao investimento de capitais privados.

CNALP, Comissão Nacional da Língua Portuguesa - 
Foi criada em 1986 por Cavaco Silva como órgão consultivo 
do Governo para a «salvaguarda da língua portuguesa». 
Dotada de ampla representatividade e presidida por Aguiar 
e Silva, a CNALP tomou uma posição crítica sobre o 
projectado Acordo Ortográfico*. Viu depois extinguir-se o 
seu mandato sem ser reconduzida. A 6/12/90, foi empossada nova CNALP, para semanas depois se perceber que a 
SEC não tencionava ter em conta, nessa matéria, a opinião 
do órgão que ressuscitara.

DEMISSÕES - António Lamas (IPPC), Baquero Moreno 
(Torre do Tombo), José Matoso (IPA) , Maria Alice Beau
mont (MNAA), José Manuel Moser (IPPC), Martim de 
Albuquerque (Torre do Tombo), Ricardo Pais (T.N. 
D.Maria II), Raquel Henriques da Silva (MNAC), Margarida Veiga (IPPC). (Ver Nomeações)

DESCOBRIMENTOS - Vão ser comemorados até ao ano 2000. Mas 1998 
é o «horizonte estratégico», com as candidaturas à fase final do Campeonato 
Mundial de Futebol e à Expo'98. Para já, 
Vasco Graça Moura, ao leme do respec
tivo Comissariado, ruma a Sevilha e prepara o pavilhão português na Exposição 
Universal.

EUROPÁLIA - É um superfesti
val dedicado à cultura portuguesa que 
decorrerá na Bélgica a partir de 17 de 
Setembro e até Dezembro, esperando- 
se que consiga provar aos «europeus» 
que Portugal não é apenas um dos países 
de origem da mão-de-obra barata. Para 
isso haverá um extenso programa de 
exposições históricas e actuais, e inicia
tivas nas áreas do cinema, música, 
dança, teatro, literatura, ciência, etc. com extensões à Holanda e à França. Nalguns casos, como nos campos da 
dança, da fotografia e da edição, a E. conseguiu ter efeitos 
positivos sobre a produção cultural. Outro lucro directo foi 
a oportunidade de restaurar e fotografar parte do património, mantendo-se assim o Instituto José de Figueiredo e o 
Arquivo Português de Fotografia em actividade. Rui Vilar 
comanda as operações e, desta vez, não se esperam grandes 
atrasos na organização. Custará algo mais de um milhão de 
contos.

FIT, Festival Internacional de Teatro - A passa
gem por Portugal dos espe
táculos de Savary, Lyubimov, Bergman e Langhoff 
será a coroa de glória de 
S.L.? A importação de grandes espectáculos estrangeiros é sempre positiva, mas a 
paralisia do Teatro Nacional* ensombra as festividades. Organizado num 
prazo curtíssimo, sem significativo apoio do mecenato, o FIT levará cerca de 
250 mil contos do Fundo* de 
Fomento Cultural. (Ver Tea
tro)

FOTOGRAFIA - Em Janeiro reabriu a Galeria Almada 
Negreiros para expor a colecção da SEC, reunida por Jorge 
Calado em 1989 e 1990 - mas aguarda-se a nomeação de 
um novo comissário para prosseguir a colecção e também 
a entrada da exposição em itinerância. Em Serralves, o 
Fotoporto foi um êxito; em Coimbra, o cancelamento dos 
Encontros de F. foi uma derrota. (Quando reabrirá a citada 
Galeria?)

FUNDO DE FOMENTO CULTURAL - Tem este ano 
2,6 milhões de contos, provindos quase totalmente do jogo 
e destinados a acções e actividades não ordinárias de cada 
organismo da SEC. Também serve, muitas vezes, como 
saco azul para compensar a sub-orçamentação habitual dos 
serviços, mas o Festival* de Teatro, a elevação dos 
subsídios às companhias, as comemorações de Vila Viçosa, 
etc., parecem ter desiquilibrado as respectivas contas, aliás 
sempre muito pouco transparentes.

GREGOS E TROIANOS - Quando iniciou as suas 
funções (a 9 de Janeiro de 1990), S.L. declarou que não 
queria agradar a «gregos e a troianos», numa provável 
referência ao largo consenso que a sua antecessora parecia 
reunir. Segundo os observadores mais pessimistas tem 
conseguido não agradar nem a uns nem a outros.

GREVE - Ver Museus, São Carlos, Bailado. 


IMAGINAÇÃO - Foi anunciada já em 1990 a realização 
de um «Grande Congresso da I.».

INTELECTUAIS - Reúnem em Queluz com Cavaco 
Silva e entregam em Belém baixo-assinados de apoio a 
Mário Soares.

IPLL, Instituto Português do Livro e 
Leitura - O sector foi uma das prioridades mais fortes da política de Teresa 
Gouveia. O presidente do IPLL, José 
Afonso Furtado, é um dos raros resistentes desses tempos; depois de um 
episódio insólito durante a última Feira 
do Livro (do género «a minha barraca é 
melhor que a tua»), a sua demissão 
esteve por um fio. Adoptou então um 
rigoroso «Iow profile», tentando levar a 
bom termo, pelo menos, o programa da rede de leitura 
pública (estão em curso cerca de 70 obras de construção ou 
readaptação e há uma dezena de bibliotecas a inaugurar este 
ano, atingindo-se um terço da cobertura do país) e também 
o das feiras do livro nos Palops.
- A instauração do princípio do preço fixo para o L. foi 
uma das promessas de S.L.

IPPC, Instituto Português do Património Cultural 
- S.L. já se afirmou «fulo com o que se está a passar no 
IPPC», não percebendo «porque é que não funciona» ("Público», 28/Nov./90). Antero Ferreira, o presidente, já 
pediu a demissão duas vezes, a primeira devido às afirma- 
ções acima citadas, a segunda em «protesto contra os 
cortes orçamentais impostos ao organismo pela SEC» 
("EXPRESSO», 5/Jan./91); os vice-presidentes têm sido 
remodelados. (Ver Prodiatec)

MECENATO, Lei do - Aguarda-se a revisão anunciada. 

MNAC, Museu Nacional de Arte Contemporânea - A 
seguir ao incêndio do Chiado, a França propôs oferecer um 
projecto de recuperação-ampliação assinado por um arqui
tecto famoso, Jean-Michel Wilmorte. Depois de gravosas 
negociações de espaços com a ESBAL, e de um alongamen
to infindável de todo o processo (chegou a prever-se a 
exposição da maqueta do estudo prévio, em Paris, em 
Fevereiro de 90... ), a coordenadora do MNAC, Raquel 
Henriques da Silva, foi afastada por se bater (com excesso 
de energia?) pelo aproveitamento desta oportunidade única. 
As obras estão agora inscritas no Prodiatec*.

MUSEUS - Passaram a abrir nos feriados e a fechar à 
semana devido a greves de funcionários que não são pagos.
- S.L. anunciou a criação de um M. do Cinema e um M. 
da Criança.
- Com a criação do Instituto Português dos M. vão sair da 
tutela do IPPC*. Os seus problemas não vão terminar por 
isso: os mais prementes devem-se à insuficiência dos orçamentos, à precaridade dos edifícios, à falta de pessoal 
especializado, à ausência de políticas de aquisições. (Ver 
Água e IPPC)

NACIONAL, Teatro - Em Julho de 90 o director do D.Maria II arrependeu- 
se de ter convidado Filipe Lá Féria a 
passar pelo Rossio; depois, em Novembro, arrependeu-se de partilhar com S.L. 
a direcção do Teatro. Agustina Bessa 
Luís já disse que «teria reagido, de 
certo, como Ricardo Pais» mas 
acrescenta: «Não estamos aqui para 
entrar em litígio» (<<Sábado»). O tempo 
e as verbas da temporada 90-91 esgotam-se com a revista de 
Lá Féria, anunciada agora para 15 de Maio. E nem sequer 
as obras do «foyer», projectadas por Gonçalo Byrne, estão 
concluidas.

NOMEAÇÕES - Algumas N. insólitas ou polémicas: Manuel Falcão para o IPC; Agustina Bessa Luís para o 
Teatro Nacional; Marcelo Rebelo de Sousa para a capital 
cultural; Eduarda Coelho para a vice-presidência do 
IPPC. (Ver Demissões)

OLIVEIRA, Manuel de - É, claramente, o cineasta do regime. S.L. não se 
cansa de repetir que financiará todos os 
projectos de O., porque «ele é o nosso 
realizador mais distinguido». Uma 
atitude contraditória com a política de 
igualdade de oportunidades para todos 
os cineastas que S.L. tem vindo a defender.

ORÇAMENTO - Cresceu alguma coisa este ano, mas 
continua a ser insuficiente. Não é a causa de todos os 
males.

ORQUESTRAS - Não existe «uma 
coisa essencial que é uma política de 
fundo articulada para as orquestras 
em Portugal. E preciso pensar quais 
ou quantas são as orquestras que 
Portugal pode ter nesta fase, o que elas 
significam em termos de custos» - 
disse o director artístico do São Carlos*, 
José Ribeiro da Fonte ("Sete», 7/3/91). 
(Ver Régie)

PAINÉIS de S. Vicente - O «Painel do Infante» vai ou 
não vai a Washington, para integrar a exposição Circa 92, 
que comemorará a chegada de Colombo? Os especialistas dizem que o seu carácter de peça única e não substi
tuível proíbe qualquer deslocação, tratando-se de pintura 
antiga sobre madeira e, para mais, de uma obra emblemática; os comissários políticos, como lhes cabe, dizem o 
que convém que digam. Do mesmo lote de candidatos à 
travessia do Atlântico (é significativo que para a Europália*, por sinal uma exposição portuguesa, o problema 
não se tenha levantado) faziam parte a Custódia de Belém, o Livro das Horas de D. Manuel e as Tentações 
de St. Antão, de Bosch (por acaso, os espanhóis têm uns dez, de menos valor, e não emprestam nenhum).

PATRIMÓNIO - S.L. disse que era uma das suas  prioridades. (Ver IPPC e Prodiatec)

PIAF - No português da SEC quer dizer Portuguese 
lnternational Art Fair: segundo veio anunciado na revista 
«Beaux Arts» de Março realiza-se 
no Porto de 29 de Junho a 3 de 
Julho, mas não é verdade. O que se 
passou foi que S.L. foi à Arco de 
Madrid e ficou entusiasmado: Portugal também deveria ler a sua 
feira de arte; as galerias acharam 
que antes de avançar para tais 
aventuras se deveria definir uma 
política global e coerente de apoio 
às artes plásticas (e, por exemplo, 
apoiar fortemente os artistas que 
conseguem penetrar nos circuitos internacionais). O 
excesso actual de feiras, a crise do mercado da arte e a 
Guerra do Golfo permitiram chegar a um consenso 
provisório: a feira (certamente com outro nome) far-se-á em 
92, em Lisboa.

PORTO - Não tem a Gulbenkian, mas tem Serralves* e 
a Régie*; não tem Cinemateca, mas tem o Fantasporto (é o 
festival de cinema protegido de S.L., mas se tiver de 
abandonar a vocação «fantástica» perderá toda a sua 
importância). Tem também um mini-Centro Cultural na 
Delegação da SEC (por equipar), um Auditório Nacional no 
antigo e degradado cinema Carlos Alberto, o Rivoli 
(comprado pela Câmara). Espera-se uma decisão próxima 
sobre o destino da Cadeia da Relação (mais um Centro 
Cultural?) e a provável compra do Teatro S.João. Edifícios 
não vão faltar; quanto a projectos e a meios para uma 
dinamização efectiva a questão é outra. Mas Manuela de 
Melo, na CMP, prepara algumas iniciativas.

PORTUGUESES AUSENTES - S.L. anunciou em 
tempos a organização de uma Semana dos Artistas P.A., ou 
dos «portugueses universais" para Junho de 1991.

PRESIDÊNCIA DA CEE - O Centro Cultural de Belém* 
estará concluido a tempo? Foi já anunciada a inauguração 
do semestre com um «réveillon» de gala no S. Carlos (com 
orquestra ou música gravada?), a apresentação em Lisboa 
das exposições da Europália* (mas, à falta de coordenação 
entre projectos, as peças pedidas para Bruxelas têm a 
devolução prometida para 31 de Janeiro), e mais um 
calendário-tipo de espectáculos (exemplo: 2ª, Teatro - 
D.Maria II. 3ª, Música/ópera - S.Carlos. 4ª, Bailado - 
S.Carlos. 5ª, Espectáculo equestre - PaI. Queluz; Corrida 
à Portuguesa - Campo Pequeno, etc.) Vai ser uma roda-viva.

PRODlATEC, Programa de Infra-estruturas Turísticas 
e Equipamentos Culturais - 14 milhões de contos serão 
investidos em equipamentos culturais com interesse 
turístico, ao abrigo do P. A lista de edifícios a recuperar, 
beneficiar ou adaptar inclui, entre outros: Mosteiro de 
Alcobaça, MNAC*, Museus Soares dos Reis e Machado de 
Castro, Casa de Serralves*. Cadeia da Relação, Teatro 
S.João, Palácios de Queluz e da Pena, Conventos de 
Cristo e de S.Bento da Vitória, Mosteiro de Tibães. A 
CEE participa neste programa com 60 por cento, através do FEDER, Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.

RÉGIE Cooperativa Sinfonia - Uma orquestra sinfónica 
tem cerca de 90 músicos, custa actualmente perto de 900 mil 
contos por ano e, num país sem «infra-estruturas» musicais, 
constrói-se mediante a importação de músicos estrangeiros, 
em geral dos países do Leste. A Andaluzia, por exemplo, 
estreou duas orquestras sinfónicas em Fevereiro/Março. Em 
Portugal chama-se a isto um luxo faraónico. Por isso a 
Orquestra do Porto só tem 50 músicos - ainda é uma 
orquestra de câmara - e esteve, em 1990, em risco de 
fechar. Possui um bom maestro, Latharn Koeniz, e tem sido 
reconhecida a qualidade das suas actuações, Actualmente procura-se mobilizar os «cooperantes» (autarquias, 
RDP, RTP, CGD) para uma participação mais digna, e a 
nova direcção, chefiada por Luís Barbosa, reorganiza a 
casa.

ROLHA, Lei da - Os responsáveis pelos departamentos 
e serviços (Museus, Palácios, Institutos, etc) dependentes 
do IPPC* foram impedidos de prestar declarações à Imprensa, por despacho de 6/12/90. Porque «se torna imperioso 
evitar o veicular de informações parcelares e desinseridas de um contexto mais vasto e global...» Antes tinha-se 
anunciado a intenção de lhes atribuir uma progressiva 
autonomia administrativa e financeira.

RTP - S.L. considera-se discriminado na Informação 
da RTP. Será em «protesto» contra uma taxa sobre a 
publicidade, destinada ao IPC, que levou também à suspensão do apoio da RTP ao cinema português?

SAGRES - O cancelamento da construção de um monumento projectado para a Ponta de S., depois de aprovado por 
concurso nacional, é um pontos positivos do mandato de 
S.L. (alguns arquitectos discordam).

SERRALVES, Fundação de - 
Para a construção do Museu Na
cional de Arte Moderna (cujo 
projecto foi formalmente encomendado, em Fevereiro, a Alvaro 
Siza) está inscrita no PIDDAC, 
Plano de Investimento da Administração Central, uma verba de 
2,4 milhões de contos, dos quais 
1,9 milhões serão da responsabilidade do Orçamento de Estado, 
graças a um apoio comunitário do FEDER orçado em 1,4 
milhões.

S.CARLOS - Durante muito tempo não se soube quando 
abria a temporada 90/91; depois, a programação foi divulgada e bem acolhida, mas, de facto, nunca se sabe se há 
função e até já se ouviram óperas sem orquestra. É que há 
um processo reivindicativo dos músicos por resolver, inspi
rado no nível salarial fixado para a Orquestra do Porto. S.L. 
já garantiu que os salários da Orquestra do São Carlos serão 
progressivamente nivelados pelos da Régie*, embora neste 
caso se trate de contratos a termo, após provas de concurso. 
Actualmente analisa-se a hipótese de passagem da Orques
tra para a tutela da Régie.

SUBSECRETÁRIA de Estado da Cultura - Natália 
Correia Guedes. Nomeada em 12 de Julho de 1990, foi-lhe 
atribuída competência sobre a Biblioteca Nacional * , o 
Instituto Português de Arquivos e as Delegações Regionais 
da SEC, além do encargo de promover a inventariação do 
património nacional, embora não tenha a tutela do IPPC. 
Costuma substituir S.L. em várias circunstâncias (ver 
Avião). É muito avara em declarações públicas.

TEATRO - É uma das prioridades da política da SEC. Os 
subsídios às companhias profissionais ditas independentes 
subiram em flecha (exemplos do topo da tabela: Novo 
Grupo e TEC passaram de 30 mil contos em 90 para 55 mil 
em 91); as Normas de Apoio à Actividade Teatral foram 
revistas, introduzindo-se a fórmula do contrato bianual e 
impondo intercâmbios entre companhias; algumas salas de 
espectáculos tiveram, têm ou vão ter obras de beneficiação 
(Lethes, em Faro; Circo, em Braga; Garcia de Resende, em 
Evora, etc.). Fala-se em apoio a «novos valores», mas os 
jovens produtores independentes, que pareciam trazer um 
novo fôlego a um panorama estagnado, entraram em crise. 
Comprou-se um Festival* a peso de ouro, mas o Teatro 
Nacional* ficou paralisado e deveria ser ele a «cúpula» do 
sistema. O balanço final é controverso.

TORRE DO TOMBO, Arquivo Nacional da - A José 
Mattoso (no Instituto Português de Arquivos) e a Baquero 
Moreno, sucederam-se no ANTT os directores Martim de 
Albuquerque e, finalmente, Jorge Borges de Macedo. A 
transferência dos velhos volumes fez-se sem acidentes e a 
18 de Setembro os investigadores tiveram acesso ao novo 
edifício, mas em condições de consulta, de espaço e de 
comodidado que têm originado protestos na Imprensa. Pode 
acolher 140 quilómetros de prateleiras e a informatização é 
o objectivo próximo. Por outro lado, o acesso à documentação da história contemporânea é um dos problemas por 
resolver, no quadro mais amplo de uma esperada lei sobre 
o funcionamento dos arquivos. 

sábado, 14 de abril de 1984

1984, René Bertholo, Entrevista, Expresso

 


domingo, 8 de abril de 1984

1983, René Bertholo, Galeria Ana Isabel, DN

 René Bertholo 1984 DN Galeria Ana Isabel

(Há 40 anos escrevi pela primeira vez sobre René Bertholo. Continuei)

O jogo das memórias de René Bertholo

DN 8 / 4/ 1984

Bertholo dn 1 1

Há circunstâncias em que apetece invocar um argumento de autoridade. Por exemplo, tentar dizer quem é René Bertholo antes de falar da sua última exposição, aberta há dias na Galeria Ana Isabel.
René Bertholo não é muito conhecido em Lisboa. Tem trabalhado e exposto principalmente «lá fora», entre a partida para Munique e Paris em 1957 e o regresso, para o Algarve, em 1981. Nos começos da década de 60 fez parte dos grupos de artistas que romperam com a abstração dominante e recomeçaram - é uma forma de resumir a História, porque muita gente continuara por outros caminhos - a pintar figuras reconhecíveis, onde os graffitti, a banda desenhada, a publicidade, a imagem estandardizada pelo consumo, o imaginário surrealista, naïf, louco ou popular eram de diversos modos apropriados. A esse vasto movimento se chamou nova figuração, novo realismo, figuração narrativa, pop art, conforme os seus diferentes polos geográficos, ou direcções particulares ou preferências dos críticos.


Dessa actividade de R. B. foram chegando a Portugal poucas notícias: em 65 foi um dos seis pintores de Paris reunidos na Bucholz; em 72 expôs na 111. No Centro de Arte Moderna da Gulbenkian há um quadro de R. B. (representação exígua, como aliás sucede com alguns outros artistas, e são raros, cuja obra excedeu os limites do mercado e do gosto interno); também os dois ou três livros que historiam a pintura portuguesa das última décadas incluem uma reprodução a preto e branco, que se poderá rever com proveito, e gosto.
Se vale a pena referir tudo isto é porque importa partir da actual exposição para conhecer uma obra, porque o trabalho actual prolonga com excepcional constância uma linha de criação original de que há a reter três momentos centrais.
Nos anos 60, R. B. espalhava sobre a tela inúmeras figuras e objectos, reconhecíveis uns, «abstractos» outros: casas, emblemas, rostos, um relógio, um livro, um pão, etc., ou formas inventadas, sem identificação possível. O espaço em que as figuras pairam, sem volume e sem centro, é indefinido; as formas dos objectos são «populares» - as do desenho infantil ou naïf, as da B. D. ou do grafritti - remetendo para uma memória aparentemente simples do quotidiano, do qual faz parte a possibilidade da fantasia. Nenhuma interpretação única ou óbvia, na aparência narrativa do quadro, se impõe ao espectador: há uma acumulação de sugestões e múltiplos sinais para a construção de sentidos (o título é muitas vezes uma proposta de leitura). As referências à publicidade, à comunicação massificada estão em geral ausentes, tal como a perspectiva crítica ou a violência que dominam em muito da nova figuração ou arte pop.
Entre 1965 e 1975, R. B. passou a construir objetos de três dimensões, dotados de movimento - máquinas. As figuras ganham uma ainda maior simplicidade (são quase brinquedos), mas movimentam-se graças a complexos mecanismos eléctricos e electrónicos que o próprio pintor fabrica artesanalmente. São, por exemplo, um banco de jardim, uma palmeira e uma ventoinha que agita as suas folhas; ou um arco-íris constituído por seis lâminas de cor que oscilam aleatoriamente movidas por 13 motores; ou um golfinho que salta entre lâminas ondulantes, o mar, e que até pode ser «chamado» com a voz ou batendo as palmas. Conhecidos por «modelos reduzidos», os objectos de R.B. acentuam a comunicabilidade do seu trabalho, desafiando a «seriedade» da arte para reencontrar uma dimensão directamente lúdica, onde a diversão, a fantasia, a infância são palavras-chaves.
O terceiro momento (haveria que falar, não fosse este percurso apenas esquematizado, nas peças escultóricas integradas em espaços colectivos, como no Hospital Distrital do Barreiro), é o da exposição da Ana Isabel. Aí se vêem quadros - o «regresso à pintura» é de 75! - onde se sobrepõem três espaços, em geral quartos teatralmente representados (as três paredes), ou três momentos de um mesmo espaço, em que se acrescentam, ou faltam, uma porta, uma janela, uma escada, etc., e que se preenchem com personagens e objectos (reconhecíveis ou não, como antes acontecia), que também parcialmente se repetem de plano para plano, se deslocam, se modificam.
Ao contrário das primeiras obras referidas, existe agora um espaço definido, tradicional, e os objectos têm volume, por vezes sombra; por outro lado, o quadro continua a não ter um centro, nos seus três planos sucessivos. O seu teor narrativo intensifica-se (a b.d. é uma comparação fácil), e a presença do movimento, na leitura que percorre os três quartos e o aparecer e desaparecer dos objectos - como se em cada um se fizesse uma nova tentativa de recordar um espaço e uma situação -- é também a manitestação de um tempo.
A memória, sabendo-se como nela se juntam o real e o sonho, ou a fantasia, o consciente e o inconsciente, será assim algo que estrutura esta pintura sempre diretamente comunicativa e supostamente «fácil», cuja leitura se faz reconhecendo e recomeçando um idêntico processo de perturbação dos níveis do real.
Estamos longe de uma pintura que se dê como propósito a investigação dos elementos (a luz, a cor..) dela própria, como exercício de reflexão virtuosística. No entanto, no próprio espaço desejado de uma larga comunicação, R. B. inscreve, sobre o imediato carácter lúdido do seu jogo, uma aprofundada revisão da história da pintura, ensaiando e transgredindo todos os seus códigos nas suas figuras miniaturizadas. É de novo a memória que se exerce, a história que se revê na aparente banalidade de um gesto quotidiano. Perpétuo descentramento.
(Galeria Ana Isabel, Rua da Emenda, 111)

2

(Esta semana - DN 14-4-1984)
O REGRESSO

A exposição de René Bertholo numa galeria de Lisboa (de que há uma semana se assinalou a importância noutra página) e também a de Jorge Martins integrada na evocação que o Centro de Arte Moderna dedicou ao poeta Saint-John Perse, que constitui (constituem?) a sua terceira apresentação desde o fim da temporada passada, vêm tornar manifesto que se encontra praticamente restabelecido o mercado das artes plásticas em Portugal.
Se é verdade que o mercado pode ser tema de interessantes discussões, parece incontestável que é no seu funcionamento e na sua lógica que se confirmam - sempre antes dos museus - os valores de criação neste domínio das artes (e diz-se «confirmam», para deixar à crítica e à teoria funções de descoberta ou explicação). Sabe-se também como as alterações político-económicas surgidas com o 25 de Abril vieram pôr em causa os fundamentos de todos os mercados - mas não importa agora, também, julgar as causas da referida «normalização», dez anos depois.

O que se afigura decisivo é aquelas exposições, e outras anteriores, como as de Costa Pinheiro, Paula Rego ou Eduardo Luís (a de António Dacosta é um caso diferente, por se tratar de um recente regresso à pintura e de um pintor de outra geração), virem significar o contacto regular com artistas que, desde os anos 60, ou finais de 50, desenvolveram a sua actividade criativa no estrangeiro, integrados - e não como epígonos - nos movimentos internacionais que vêm renovando as artes.
De facto, apesar dos círculos mundanos, das academias e outros meios mais ou menos institucionais viverem das pequenas glórias caseiras, que duramente defendem os pequenos privilégios, a realidade das artes plásticas é internacional e a sua história, tal como o seu mercado, não têm fronteiras. Como se prova pelos casos raros de um Amadeu, uma Vieira, uma Paula Rego, uma Lourdes Castro, um René Bertholo, um Jorge Martins, e pouco mais.

É natural que esse refazer de contactos venha a produzir como efeito uma moralização daquilo que têm sido os critérios do gosto público - formado, na ausência de mercado, por um pequeno comércio e seu cortejo de pobres favores. No entanto, na falta de uma política estatal de cultura (vejam-se as portas fechadas da Galeria Almada Negreiros e observe-se como os artistas apenas vão servindo para abrilhantar jantares de governantes), há que sugerir à Fundação Gulbenkian que prolongue a sua acção permitindo rever e principalmente descobrir o que foram esses itinerários artísticos percorridos no estrangeiro. Para todos os artistas citados, e alguns outros mais jovens, a apresentação de retrospectivas (na medida em que for ainda possível reunir as obras dispersas lá por fora) é - não a homenagem que certamente dispensariam - mas o preenchimento de graves lacunas culturais nossas. Foi em geral a Gulbenkian que, felizmente, os ajudou a partir; cabe-lhe agora a responsabilidade e o mérito do «regresso».

quinta-feira, 18 de novembro de 1982

Arquivo Nacional de Fotografia em 1982, Encontro de Fotografia Antiga, José Luis Madeira

Há quase 32 anos...

DN 18 Nov. 1982: 1º Encontro Nacional de Fotografia Antiga. Org. de José Luís Madeira


Arquivo Nacional de Fotografia (em organização), Instituto Português do Património Cultural, Palácio da Ajuda,

DN 23 Nov. 1982:





O José Luís Madeira (1948-2012). Foto de Guta de Carvalho, trazida do Instante Fatal
 do Luíz Carvalho (12 Abril 2012). "He developed an important work in Portuguese photographic history, at several levels, and left unfinished books and exhibition projects, in particular those concerning Lisbon and Portuguese India photographic history. His death was a severe blow to the knowledge of these subjects in Portugal."Nuno Borges de Araújo

quarta-feira, 17 de novembro de 1982

1982, Encontro de Fotografia Antiga, Arquivo Nacional de Fotografia, José Luis Madeira

17-19 Nov. 1982, 
Arquivo Nacional de Fotografia, 
antigo Laboratório de Química do rei D. Carlos, Palácio da Ajuda
José Luís Madeira




parte de telex da Lusa (ou seria ainda Anop?)
O ANF desde 1976

Bibliog.: António Sena, " A fotografia contra o património", Expresso 27 Nov. 1982, pág. 31-31 R