terça-feira, 5 de maio de 2026

2026, "Tratado", livro de amigos e de retratos do José M. Rodrigues, edição EGEAC

 Já saiu o livro da exposição do José M. Rodrigues na Galeria Avenida da Índia, 28 09 a 22 12 2024. "Tratado". Era um espaço ingrato, árido, enorme, mas o livro é perfeito.

São retratos de amigos e familiares, tornados intimidades fotográficas e exercícios de invenção do que pode ser o retrato. Sempre em poses demoradas, pensadas caso a caso, ao ritmo (não ao acaso) das relações, das cumplicidades, das situações de comunicação mútua, intercomunicação encenada e afinal sempre surpreendida, vivida e/ou vívida. É um trabalho muito pessoal, mesmo íntimo, mas aberto, uma escolha de amigos que paradoxalmente se dirige a todos os não-participantes e observadores disponíveis. Retratos frontais ou não (os rostos ocultados, até por vezes de costas), dialogando com a paisagem ou o próximo ambiente natural, a vegetação, com alguma iluminação dirigida e por vezes com uso de espelhos. Mãos, cabelos, corpos, alguns auto-retratos não narcísicos, rostos singulares ou grupos de 2 e 3, nomes com datas nos títulos, no final, em geral muito recentes (2022-24) mas também vindos desde 1996 - o retrato e/ou a presença de modelos, os rostos e corpos, são uma das muitas "vertentes" da muito extensa e diversa obra do José Rodrigues.
Magnífica impressão na Maiadouro, em apenas 300 exemplares, edição EGEAC / Galerias Municipais. 40 fotografias em páginas duplas, abreviando a exposição.
Magnífico design gráfico de Arne Kaiser https://www.arnekaiser.com/ Os livros são cosidos e todas as fotos ocupam mais do que uma página, com cortes meticulosamente medidos.
Textos a ler de Óscar Faria, comissário da exposição, de José Bértolo sobre "alguns livros de José M. Rodrigues", do próprio artista e dos responsáveis pela programação da galeria (Sara Antónia Matos e Pedro Faro).

2022, viagem a Gandía: Fideuà uma reportagem

 Fideuà em Gandía (aliás Daimús), 01 10 2022, uma festa familiar, uma narrativa:

segunda-feira, 4 de maio de 2026

2026, o José Manuel Rodrigues e Gandía, memórias nos seus 75 anos

 A fotografia e o resto



Desfoco da fotografia para me lembrar de uma viagem directa a Gandía com o Zé, partilhando o volante. Abaixo de Valência, aonde nunca tinha descido; a cidade de onde partia a família dos Bórgias no século XV - o Zé dedicou-lhe uma série conceptual "La producció de la presència", em 2010, evocação teatralizada dos tempos dos três papas, com que interveio nas celebrações do 5º centenário do nascimento de São Francisco de Borja (foi o 4º duque de Gandia, 1510-1572; wiki/Francisco_de_Borja).


Era então (01 a 04 outubro 2022) o tempo das festas -- Fira i Festes, em honra desse São Francisco, patrono da cidade --, nos inícios de outubro, e nunca vi nada assim: os espectáculos de rua ao longo do percurso demarcado, com excelentes teatros, orquestras e circos actualizados, e depois o cortejo nocturno dos demónios mascarados e do fogo de artifício lançado aos pés dos espectadores-participantes, ora em fuga ora envolvidos pela cor, fumo e pólvora: o Correfoc de la Colla de Dimonis numa "noite mágica de fuego y tradición", e em Espanha as festas antigas mantém uma energia única, organizada e vibrante (o grande Cristóbal Hara visitava-as com génio, e a Cristina García Rodero também). 

E igualmente em Gandía acedi à excelência das paellas locais (mais o fideuà e arròs a banda ou al forno) em festas familiares e almoços de fim de semana com casais amigos da Fabi. Uma ocasião sem paralelo de gastronomia convivial só acessível aos íntimos. Eram dois lados da Espanha viva, em toda a sua excelência.


Outra memória pode ser a das fotografias do Zé que aconteceu programar por três vezes. Parte substancial do meu gosto pela fotografia vem da lição do Zé, quando comecei a acompanhar os Encontros de Coimbra, aos quais trazia os seus contactos holandeses, quando era possível reunir no programa Nozolino, Molder, o José Rodrigues (ainda sem o M. de Manuel), mais a Ether de António Sena. Isto logo em 1982 nos 3ºs Encontros, ainda não havia o Albano, quando se afirmou a geração dos novos fotógrafos nacionais e já internacionais, quando o público da fotografia convergia em Coimbra. Foi um dos fundadores do grupo Perspektief de Roterdão, programava a respectiva galeria e trouxe "A touch of Dutch Photography".

sábado, 2 de maio de 2026

ARQUIVO 1996, há 30 anos, um mês de abril de exposições internacionais em notas do Cartaz do Expresso

Um mês em 1996, abril 

A circulação de exposições não era o que é hoje. Via-se Matisse na Fundação Arpad & Vieira, o Grupo Cobra (vindo do Stedelijk de Amsterdão) e Julio González (do Centro Reina Sofia) e ainda a Magnum na Culturgest, Tàpies no CCB, vindo do Auditorio de Galicia, de Santiago de Compostela - e outros mais; havia vários colaboradores a escrever notas e artigos. E viam-se pintores africanos no Espaço Oikos, uma ONG sediada junto à Sé que à época tinha uma assinalável acção cultural e importava a Revue Noire. 

A circulação internacional de exposições chegava a Portugal; mais tarde são só os directores e comissários que viajam. Não há informação, não há referencias. Nesse ano ainda se poderiam ver em Lisboa GEORGE ROUAULT na Gulbenkian, ARSHILE GORKY no CAM, NAM JUNE PAIK e TOM WESSELMANN na Culturgest.


05 04 96

EDOUARD BOUBAT

Institut Franco-Portugais

Todos os lugares comuns foram ditos sobre Boubat, o «correspondente de paz» segundo Prévert, mas as suas fotografias, que se sabe serem um dos paradigmas da tradição humanista, descobrem-se ou voltam a ver-se incólumes à passagem do tempo, dos estilos ou das modas. São raras, aliás, as suas imagens que transportam a marca de um tempo preciso, talvez porque, como sucede com as fotografias da Nazaré e do Minho (1956-58) ou com a série «Anjos», sobre as procissões do Norte (1973), nelas reconhecemos — em «momentos em que não se passa nada, salvo a vida de todos os dias» — as marcas mais fundas de um país. «Les Voyages» reúne imagens feitas ao longo de quatro décadas, do México ao Tibete, e é uma notável exposição. (Até 29)

A 15 04 "Toda a beleza do mundo - as viagens fotográficas de Boubat, com passagens repetidas por Portugal"



Edouard Boubat, «Nova lorque, Ponte de Brooklyn», 1982



HENRI MATISSE

Museu Arpad Szenes/ Vieira da Silva

Nos estudos para a grande pintura mural "A Dança", encomendada pelo Dr. Barnes, no início dos anos 30, Matisse serviu-se pela primeira vez do recorte de papeis previamente coloridos a guache, processo que continuaria a usar quando a idade ia tornando mais difícil o manejo dos pincéis, e que lhe permitiria explorar novas relações entre a cor e o desenho. «Recortar a cor ao vivo lembra-me o talhe directo dos escultores», escreveu o pintor em "Jazz", um belíssimo livro publicado em 1947, impresso ao «pochoir», cujas «imagens de tons vivos e violentos provêm de memórias cristalizadas do circo, de contos populares ou de viagens». (até 5 Maio)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

1970, revista TEMPO, Maputo, Ricardo Rangel e José Craveirinha na fronteira Caniço/Cimento

 Na revista Tempo, nº 12, 06 dezembro de 1970, o poeta e um fotógrafo

"Ginásio descoberto da Mafalala: uma fábrica de músculos com tecto de estrelas"

"Os camnpeões nascem nas areias da Mafalala"

"Paredes de zinco / teto de estrelas / piso de areia / o ginásio descoberto da Mafalala / é uma fábrica de campeões / / Quem o ajuda?"

terça-feira, 28 de abril de 2026

DO ARQUIVO: 1990, "O conceito de desenho", Sol LeWitt no Belém Clube-Museu de Fernando Gonçalves. E em 1993 o Zutzu com Pedro Cabrita Reis

"O conceito de desenho"

expresso 30 01 1990

Um painel de Sol LeWitt no Belém Clube-Museu de Fernando Gonçalves (ex São Jerónimo - depois Zutzu...) com intervenção de Luís Serpa na compra e instalação de obras de arte, e arquitectura de interiores de Manuel Graça Dias.

        foto Luiz Carvalho / Expresso


Em 1985, a «Exposição-Diálogo» trouxe ao Centro de Arte Moderna duas obras de Sol LeWitt <1928-2007: https://en.wikipedia.org/wiki/Sol_LeWitt > Eram grandes estruturas modulares que desenhavam no ar uma sequência de cubos brancos. Vinham dos Museus de Estocolmo e de Berlim.

Agora, uma outra peça de Sol LeWitt foi instalada em Lisboa. Para ficar. Está no Belém Clube-Museu e ocupa toda uma parede do respectivo restaurante. E um «desenho de parede» (a designação é a atribuída pelo autor, embora também se pudesse chamar-lhe pintura mural), dominado pelo volume geométrico de uma pirâmide cujas faces se definem por planos de cores diferentes: uma tensão paradoxal ou um movimento de vai-e-vem é estabelecido entre a afirmação do carácter plano da parede acentuado pela porosidade do gesso, que absorve uniformemente as cores e a representação do volume da pirâmide. Trata-se, tal como no caso das peças mostradas em 1985, de uma obra bem representativa da produção de Sol LeWitt.


sábado, 25 de abril de 2026

2026, reflexões sobre o novo MUZEU em Braga. "Quanto mais oferta menos recepção informada e crítica"

Inaugurou o  MUZEU

Le lotissement du ciel, 1963. (foto via Elisa Camarinha no FB)

Um bom René (1935-2005) dos inícios da Figuração Narrativa, uma das novas figurações parisienses. Nesse ano acaba o KWY. Individual na Galerie du Dragon com (Jacques) Chemay; e "Images à cinq branches" na Mathias Fels (B., Klasen, Reuterswärd, Télémaque e Voss). 



(FB 25/26, à distância de Braga, tx revisto)
Espero agora um texto crítico sobre a exposição inaugural do Muzeu (Z de Zé Teixeira) aberto com pompa presidencial e cardinalícia em Braga, com sólida rectaguarda empresarial do grupo Dst. Tivemos o grande jornalismo noticioso e/ou promocional do Público e do Diário do Minho, entre outros OCS - será agora a vez de se lerem vozes reflexivas, analíticas, críticas, que incomodem ou sustentem a emoção mediática. Promete-se no Muzeu o Pensamento além de Arte Contemporânea (AC).

sexta-feira, 17 de abril de 2026

1999, Carlos Carreiro na Árvore e em 2005 na Sala Maior, Porto (Expresso)... e já em 1982

 CARLOS CARREIRO

Árvore 

In "Três artistas no Porto", com Fátima Mendonça e Pedro Cabrita Reis  

Exoresso 27-11-99



Os truques do Adamastor
180x200cm, 1999
Assembleia da Republica


Carlos Carreiro dá agora às suas pinturas um título geral, «Dos Truques do Adamastor à Vingança dos Perus», que as situa de imediato no seu terreno habitual da celebração do imaginário, onde impera a fantasia, o humor e também algum comentário corrosivo.

 Com as novas obras, que, entre outras motivações pessoais, terão tido algum ponto de partida concertado com o calendário comemorativo dos Descobrimentos – lá estão, na tela maior que é referida na primeira metade do título geral, as caravelas e bandeiras pátrias, uma torre de Belém de barbatanas a tentar andar em direcções opostas, um Adamastor marionetista (seria imperdoável que este exemplo excepcional de «pintura de historia» no presente não tivesse destino institucional,... mas não podemos ter ilusões sobre os museus que temos <acertei ou ouviuram-me: a Assembleia da República comprou e expôs o quadro>) –, assiste-se a mais uma inflexão fortemente afirmativa do trajecto de pintor, prosseguido como um percurso original e solitário, marginal, se se usar o termo com sentido positivo face a valores correntes e dominantes.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

2026, Vasco Trancoso, "88", fotografias

 Vasco Trancoso é um fotógrafo amador. Editou um livro com o título "99" em 2019 e reincidiu agora, ou no final de 2025, com o livro "88" - trata-se sempre do número de fotografias incluídas: não haverá outro significado editorial nem qualquer mistério. Neste caso o formato ao baixo e a larga dimensão do livro prestam-se melhor à horizontalidade da imensa maioria das imagens. A impressão da Maiadouro é perfeita, o design gráfico é exacto, sem perdas nem efeitos.



Vasco Trancoso, médico reformado, assume-se como amador - esta é uma das grandes condições da arte fotográfica - e como 'street photographer', fotógrafo de rua, paradigma de tanta da melhor fotografia também profissional desde sempre. Interessado no quotidiano urbano e no encontro ocasional com as pessoas que o habitam: fotógrafo em movimento, que se adivinha incessante, cruza-se com quem se move pelas ruas, nas praias, nos parques, em alguns interiores públicos. Surpreende os seus próximos sem ser um voyeur, sem hostilidade trocista ou pose amável, sem ser descritivo e sempre atento à surpresa presente no que vê: ela está lá mas há quem descortiná-la.
As Caldas da Rainha, onde vive, e o seu território próximo, Foz do Arelho e Óbidos, são o palco da sua itinerância, com ocasionais descidas a Lisboa e Algarve. Não faz um "levantamento" documental nem persegue temas, situações ou tipos, e não organiza os volumes por assuntos ou tópicos. A livre disponibilidade de quem procura e encontra a singularidade dos "achados", os acasos surpreendidos, passa com felicidade do que é vivido como atenta circulação urbana para a sequenciação aleatória das imagens impressas.

terça-feira, 14 de abril de 2026

2026, Carlos Carreiro na galeria São Mamede

 Carlos Carreiro reivindica-se do surrealismo, mas não segue o cansado formulário surrealista. O seu surrealismo quer-se antigo e intemporal, inato, diz. É o direito ao delírio, o jogo das aproximações insólitas: "Vou fazer 80 anos no próximo mês de Julho, ando a participar em exposições de pintura colectivas e individuais há 59 anos. E parece-me que sempre tive uma tendência para o Surrealismo, ou pelo menos para o delírio. O Surrealismo não tem tempo, nem moda, é uma expressão inata ao ser humano, que conseguiu apagar a fronteira entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente, é um exercício a jogar com o paradoxo das aproximações insólitas, que vão além do racional. O Surrealismo é um símbolo da união dos contrários e identidade dos opostos: os sonhos, o nonsense e o automatismo são ferramentas recorrentes."

até dia 21 04



Chamou à exposição "A Festa do Costume", o que é uma auto-provocação, porque vemos os seus quadros sempre como se fosse pela primeira vez (e fez mais de 75 individuais, conta-as). Há sempre novas histórias, que não são histórias narrativas, mas conjunções de episódios, situações, imagens e objectos díspares dispostos em espaços complexos, que são paisagens impossíveis só viáveis na imprevisibilidade das telas. Há personagens, arquitecturas, máquinas, brinquedos - aqui os "paper toys" que talvez apareçam pela primeira vez - e pinta a cores como poucos, que por cá os "curadores" não gostam de cor. Aliás, vai uma grande diferença entre a imagem que a fotografia reproduz e o plano material da pintura, que é denso ou intenso, rico e não liso. Há também que fazer um baloiço permanente entre a configuração total de cada quadro e a acção em pormenor das figuras que se dispersam em movimento. E note-se como a luz é uma invenção constante e mutável ("A propósito da luz", "Pirilampos implicam com o Dr. Tibúrcio").

segunda-feira, 13 de abril de 2026

2026, Caseirão, desenhos

Tive a sorte de Jorge Caseirão me ajudar a ver melhor os desenhos da sua exposição "PONTES E OUTRAS OBRAS DE ARTE", que se mostra só por uma semana em Carnide, a agitar a monotonia do mainstream oficial. Ar fresco.

Há pontes, como no título, e muito mais: caminhos serpenteantes e torres vertiginosas, um poço iniciático (Regaleira), labirintos e arquitecturas fantásticas que aprenderam com Escher e Piranesi, espaços interiores e infinitos (o anel de Moebius), retratos (mais as cabeças de Ana Bolena e Caeser, o macaco do Planeta), naturezas mortas (também por via de Arcimboldo), vistas urbanas frontais (o Casal Ventoso e o Palácio da Pena, estes a cor), corpos (um coração aberto, onde a coluna vertebral é demasiado maleável). Ali sem títulos, abertos à invenção do observador.
Esta é uma arte cultíssima (sem o querer exibir) e pessoalissima que brinca tanto com referências eruditas como com práticas de Outsiders, e também me lembra as esculturas maconde "Ujamaa” em que as figuras se acrescentam e entrelaçam. Aqui o desenho que se dirá obsessivo (sistemático, repetitivo, minucioso) molda-se na diversidade dos assuntos e igualmente se deixa percorrer no olhar próximo com variações imprevisíveis e micro-histórias. O que parece um sistema gráfico estabilizado é um universo de viagens, invenções e pistas de leitura. O que parece opressivo é também e especialmente humor, mais crítica que paródia, irreverência e independência idiossincrática.
Jorge Caseirão expunha com frequência na galeria Novo Século de Carlos Barroco, que era um espaço libertário e convivial, foi muito tempo cenógrafo na RTP e é professor de desenho na Faculdade de Arquitectura. Alguns pequenos relevos escultóricos sinalizam aqui uma outra prática regular. É autor de uma grande produção de desenhos em liberdade e também os mostra no Facebook (https://www.facebook.com/ajorge.caseirao).
Carnide, Junta de Freguesia, Espaço Bento Martins, só até sábado dia 18, 15-18h

 A Besta (Apocalipse 13:18); Europa, foto nº 2; Diogo Alves (da série das cabeças perdidas, nº 3)….

quinta-feira, 9 de abril de 2026

2006, Dreyer & Hammershoi no Ordrupgaard de Copenhaga

 Dreyer & Hammershoi

O pintor e o cineasta reunidos numa exposição exemplar, em trânsito entre Copenhaga e Barcelona 

07-10-2006




«Interior», c. 1903-04
 
Vilhelm Hammershoi não é só um artista relevante no mapa da pintura dinamarquesa. As retrospectivas que o apresentaram no Museu d’Orsay e no Guggenheim de Nova Iorque em 1997-98 (e na Kunsthalle de Hamburgo em 2003) revelaram um grande artista solitário da viragem dos séculos XIX e XX. A obra, alheia às vanguardas oficializadas pelas sínteses da história da arte, chegou a ser bastante admirada fora da Dinamarca, mas o pintor (1864-1916) mergulhou no esquecimento ao desaparecer com 52 anos durante a I Guerra Mundial. Sucedem-se nos seus quadros, melancólicos e austeros, pequenas variações de vistas de quartos desertos ou com vultos femininos isolados e absortos, por vezes de costas. O silêncio dos espaços e das figuras, na ausência de episódios narrativos, leva a que sobre eles se projectem interpretações opostas. Atravessa-os uma estranha tensão entre vazio e harmonia, entre a calma e equilíbrio de uma intimidade reservada ou a angústia de um drama secreto, prisão doméstica ou ameaça, talvez um peso existencial de matriz protestante. Pintou também, sempre numa gama estreita de cores, dominada pelos cinzentos, alguns nus monumentais e enigmáticos, retratos, paisagens enevoadas ou sintéticas e lugares históricos.

A descoberta de Hammershoi começara já antes com a valorização das diversidades nacionais na pintura dos séculos XIX-XX e o interesse pelo simbolismo. Os países nórdicos estiveram em foco em «Northern Light: Realism and Symbolisme in Scandinavian Painting», com direcção de Kirk Varnedoe, em Washington e Nova Iorque, em 1982-83, acompanhada por mostras em ambas as cidades dedicadas apenas ao «pintor do silêncio e da luz».

O americano James Whistler é uma referência directa, visível na simplificação das linhas e da gama cromática que se afasta do realismo convencional, e é mais geométrica e ascética no dinamarquês. A associação ao simbolismo faz-se por via da melancolia enigmática, mas sem revivalismos românticos e mitos nórdicos, o que o liga aos belgas Fernand Khnopff e Léon Spilliaert. Robert Rosenblum, do Guggenheim, traçou afinidades desde Vermeer e Pieter de Hooch a Caspar Friedrich e a Edward Hooper. A mostra de Hamburgo, que chamou a Hammershoi um protagonista do movimento simbolista, colocou-o em diálogo com obras de Ferdinand Hodler, Khnopff, Degas, Nolde e Valotton. Entretanto, têm sido referidos ecos em artistas recentes como Gerhard Richter ou Luc Tuymans, por via da imitação de fotografias (o olhar fotográfico de Hammershoi é outra coisa), e até em Gregor Schneider (já visto em Serralves), cuja casa Ur faria referência aos espaços domésticos do dinamarquês.


 


«Gertrud», 1964
 
Uma nova exposição no Ordrupgaard de Copenhaga (o Museu do Impressionismo Francês, que em 2005 Zaha Hadid ampliou com um novo edifício) veio agora abordar Hammershoi através da relação com Carl Dreyer (1889-1968), apontado como o seu melhor herdeiro e passando da atenção à história da pintura para a observação dos dispositivos imagéticos e narrativos do cinema. No catálogo de 97, Poul Vad, biógrafo do pintor, começava por afirmar que Dreyer encontrou nele, logo em 1918, a combinação da intensidade emocional com uma austera e clássica estrutura visual que marcou o seu sentido da composição da imagem e desenho cenográfico dos filmes. Gertrud (1964) é, para um dinamarquês, inimaginável sem Hammershoi. A tese foi posta à prova numa retrospectiva paralela de Dreyer no Museu d’Orsay. E é ela que está na origem da exposição «Hammershoi >Dreyer. The Magic of Images», inspirada e co-comissariada por Jordi Balló, director do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, que a receberá em Janeiro-Abril. Jordi Balló é autor de Imágenes del Silencio, Los Motivos Visuales en el Cine, sobre composição visual e sentido iconográfico, ou seja, sobre dispositivos fílmicos cujo poder evocativo e riqueza de sentidos ultrapassam a mera qualificação como «quadro pictórico» (por exemplo, a mulher à janela ou ao espelho, a «pietá», as escadas, etc.).

Estruturada em cinco capítulos (o rosto, interior, a figura, exterior, a luz e as linhas), a mostra reúne em cada secção grupos de pinturas e fragmentos de filmes, acompanhados por fotografias de álbuns pessoais e imagens de trabalho do cineasta, numa montagem exemplar de eficácia e sobriedade. Através da comparação com outra forma de representação, o entendimento da pintura liberta-se das malhas estreitas das genealogias estilísticas e das leituras formalistas que trocam o sentido das imagens pela «autonomia» modernista do plano da tela.

A propósito do primeiro filme, The President, Dreyer disse ter-se inspirado em Whistler (a citação do retrato da mãe, Arranjo em Preto e Branco, de 1871, é uma imagem emblemática do filme, de cuja literalidade se arrependeu) e igualmente em Hammershoi, que nunca conhecera pessoalmente. Subvertendo a questão das influências, são as palavras do cineasta que iluminam agora o pintor. Por exemplo, quando afirma: «A arte deve descrever a vida interior, não a exterior. Por isso, temos de nos afastar do naturalismo e encontrar vias para introduzir a abstracção nas nossas imagens... a via mais óbvia chama-se simplificação... Essa abstracção pela simplificação e o insuflar de uma alma num objecto pode ser praticada por um realizador com meios modestos... Pode dar-se a alma de um quarto pela simplificação que remove todas as coisas supérfluas, deixando os poucos objectos que de uma maneira ou outra dão testemunho da personalidade do residente ou caracterizam a sua relação com a ideia do filme» (1955). As analogias formais, os dispositivos iconográficos aparentados, são aqui, em pintura e cinema, maneiras idênticas de abrir caminhos à imaginação do espectador, «baseadas na convicção de que a maior intensidade dramática ocorre no interior de uma casa, de uma imagem, de uma face» (J. Balló). É por se despirem de elementos expressivos que os interiores de Hammershoi podem ser vistos como lugares de protecção ou prisão.



2026, Lourdes Castro na SNBA (3)

 Com a documentação que agora é exposta na SNBA, em geral pela primeira vez, não é só o itinerário da Lourdes Castro que se percorre. A viragem de 1955-60, com a afirmação de uma nova geração que sucede à de 1945, fica visível nos catálogos e recortes de uma imprensa que então era atenta (do Diário da Manhã e do Panorama ao República). Contrariam-se ideias feitas sobre a rotina e o alheamento do meio nacional, e mostra-se a imediata notoriedade da LC e amigos, activos na revista Ver, de estudantes da ESBAL (ed. de abril 1955 não exposta), e da sua Galeria Pórtico, 1955-57.



Em 1955 participa na 9ª EGAP, certamente convidada por Julio Pomar, como René Bertholo. Depois de reprovada na Escola é capa do Século Ilustrado (abril 1957 - ver legenda no comentário abaixo: "Os jovens pintores sem benção"). Exposições na Pórtico e partida para Munique e Paris.
Em 1959 está na 5ª Bienal de São Paulo, em 61 na 1ª Bienal de Parisa e nos salões seguintes, com RB associado à Figuração Narrativa (Mythologies Quotidiennes no MAMVP em 64) - é um caso raro de integração imediata nas movimentações colectivas (parisienses) da década. As edições KWY, exposições de grupo e edições, de 58 a 63-64, asseguraram uma projecção rápida.
A dinâmica neo-realista tinha chegado ao fim, numa coincidência significativa com o aparecimento da Gulbenkian, instituída em 1956; a relação com a política mudava, deixando de recusar-se a colaboração com o SNI, designadamente nas bienais internacionais; os católicos do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, com Teotónio Pereira, José Escada e outros, desde 1953, traziam outras orientações (expõe no Centro Nacional de Cultura em 55, com Escada) ; o mercado alarga-se com novas galerias, em especial a Diário de Notícias, desde 1957, dirigida por Faria de Carvalho.

2026, Lourdes Castro na SNBA (2)

Esta é uma exposição feliz (outras podem ser depressivas, subversivas, indiferentes, etc). Tudo se passa a partir ou em torno do quotidiano (os objectos usuais, as práticas correntes), das amizades e cumplicidades (os amigos, os retratos), dos "lavores" (bordados, costura, recortes). Como se a facilidade e a felicidade se tivessem encontrado numa pequena prática artística, de vanguarda (?) e despreocupada(?), que defende tranquilamente o seu lugar no mundo e no mercado das artes tidas por maiores. Sem urgência, mas ocupando um lugar bem visível, e sem "mensagem" para lá dessa facilidade-felicidade que é uma arte de viver.

A exposição não marca rupturas ao longo de uma carreira extensa que foi pondo em prática, e em cena, diferentes modos de fazer - e de fazer pouco, o bastante para ser mais uma arte de viver do que uma carreira. O inicial abstraccionismo dito lírico, a mancha e o gesto (1956-59?), em que outros se estabeleciam como estilo comum, e já era tão "académico" como as receitas escolares que na Escola a excluíam. As caixas em que acumulava objectos e que pintou de prateado (62-63), também uma prática então colectiva ("nouveau realisme"), mas o exemplo de Louise Nevelson bloqueava um caminho que exigia escala e meios de produção - já coexistiam com os espalhamento de figuras e contornos desenhados, seguindo Arman e acompanhando de outro modo Bertholo. Depois, já como "linguagem" própria, os contornos recortados, sombras projectadas que ficaram como marca indelével e disponível para muitas variações, em pintura (63), em plexiglas (64), depois em lençóis bordados (69) e logo em teatro ou performance (66, 72), em desenhos e fototipias de flores (72). Primeiro em acordo com o gosto pop pelos múltiplos (e os gadjets de artista), depois com vocação decorativa - a tapeçaria e o azulejo - sem nunca se banalizar como mercado invasor.

A retrospectiva  de 1982 na Gulbenkian ("Além da sombra") não mostrou as iniciais abstracções, ou não figurações - entrava com os auto-retratos escolares (..."excluída" na Escola), era desde logo a representação questionada. A de 2010 em Serralves ("À luz da sombra"), partilhada com a produção pessoal discreta ou marginal de Manuel Zimbro, deixou de fora os múltiplos/gadgets e a produção decorativa - queria ser mais etérea. Nos dois casos, a informação documental era escassa e ambas as mostras tinham uma visível intenção de auto-apresentação, assim propostas também como obra própria. Tudo é diferente nesta exposição póstuma de grande dimensão ("Existe luz na sombra", apresentada por Márcia de Sousa), que tem por base o espólio deixado por Lourdes Castro (ainda de incerto destino) e por agora depositado no MUDAS. Museu de Arte Contemporânea da Madeira. É uma primeira aproximação a um inventário, mesmo que o levantamento documental esteja apenas em curso.

Magic Circus, 1971

Sacos de compras


 Flores

 

domingo, 29 de março de 2026

2026, Lourdes Castro na SNBA

 A documentação apresentada é um dos trunfos da exp da Lourdes Castro na SNBA.

É talvez excessivo o número de obras expostas, prefiro mostras mais compactas e escolhidas quando a produção é continuada.
É excessivo o número de obras dos primeiros anos de Lisboa, a "abstracção" impressionista/expressionista que era então a regra. Os objectos e as caixas dos primeiros anos 60 ficaram de lado no itinerário, e são o começo parisiense.
Gostava que as obras do espolio da artista fossem identificadas como tal, em vez de referenciadas como "colecção particular" sem distinção de colecções privadas. O herdeiro e sobrinho Nuno Brasão depositou em 2022 316 objetos e 241 conjuntos documentais no Mudas - Museu de Arte Contemporânea da região. “O contrato em causa tem a vigência de cinco anos, renovando-se automaticamente por períodos sucessivos de um ano”.
As obras decorativas, tapeçarias e azulejos, da "fase" madeirense tardia têm uma sólida presença.
O catálogo da retrospectiva de 1992 na Gulbenkian, organizada por Lourdes Castro e Manuel Zimbro, além de Sommer Ribeiro, continua a ser a leitura de referência.

Mas é só uma primeira impressão, tenho de voltar.





nas fotos: a "arte-gadget" (as gravatas impúdicas)
O Grand Magic Circus de Jerome Savary, "Chroniques coloniales ou Les aventures de Zartan, frère mal-aimé de Tarzan", que vi na Cité Universitaire em 1971 (onde está a Lourdes?).

E fui repescar os artigos sobre a exp. no CCB sobre o grupo-revista KWY no Expresso de 2001

2026, Arquivo, o outro blog desde 2007, Worpress

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/

 acesso à PESQUISA de textos por assuntos:

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/?s=indice 

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/?s=indice&fbclid=IwY2xjawRDJypleHRuA2FlbQIxMABicmlkETAyeDVnUVJXcUhsNzNPb3dQc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHnpN99j2GmEWB9oipw28E3PEMN2wmHkuydCPB7oysF1dYOjrBzLj5iC987Kf_aem_3Ns31kvb-QubH_dkFcL8WQ 

 

O blog Typepad (2007-2025) desapareceu por extinção da marca . 

Continua a aparecer em alheias referências bibliográficas mas sem haver acesso.

Em princípio muita coisa passou para o Wordpress, mas muitas imagens perderam-se

Arquivo 

O outro blog desde 2007 vindo do Typepad desde 2007 

Arquivo Alexandre Pomar Vindo do Typepad desde 2007

https://alxpomararquivo-enzhl.wordpress.com/page/2/?s=chiado


sexta-feira, 27 de março de 2026

2026, João Francisco, "Paredes de Papel", Torres Vedras (último dia)

 João Francisco, Torres Vedras, último dia de "Paredes de Papel " na Fábrica das Histórias/Casa Jaime Umbelino, instalação de pintura (ou "pintura expandida"). Duas salas, duas estratégias de ocupação.

Foi um dos acontecimentos periféricos (e discretos - não se trata de um pintor mediático ou oficializado, um artista da corte) que aconteceu em 2025. Com ele mesmo na inauguração (foto abaixo).

Uma das salas é assim, o "Quadro azul", com intervenção do João Francisco sobre dezenas (ou centenas?) de antigas folhas usadas de moldes de tapetes de de Arraiolos. A outra sala é um jardim, e ambas respeitam e se apropriam dos espaços anteriores do coleccionador-proprietário

É outro dos meus pintores preferidos.

 A SALA AZUL





Ele mesno na inauguração, descrevendo o paciente processo de construção do seu trabalho e apontando as suas pistas e referências históricas