terça-feira, 16 de junho de 2026

2026, "Colecção do Estado": questão de preços, competência e idoneidade: "Como paga o Estado?"

Como paga o Estado? A quem?

O que se passou com os 40 mil euros pagos por uma importante pintura da Maria José Aguiar, a melhor compra da chamada “colecção do estado” em 2025, deve ser esclarecido. Deve saber-se quem vendeu e de que modo se comprou, mesmo que eu não concorde com essa suposta “Colecção do Estado” , uma espécie de saco roto (das esmolas?), nem respeite a comissão de compras.

Festa das Cruzes, 1974, de Maria José Aguiar

Se foi a própria artista que vendeu o quadro, poderia ter sido um acto de justiça e um gesto de humor da própria MJA, mas uma colecção institucional (estado ou não) não compra assim, negoceia com o artista ou a sua galeria (neste caso não tem) ou com intermediários, ou colecionadores, e adquire um conjunto significativo de obras: por exemplo, compra alguma(s) e recebe outra(s) como oferta. Se quer obras de um determinado artista procura no mercado (há para isso dealers, galeristas ou não ), informa-se sobre preços correntes e de leilões. Por mais que eu considere excelente e representativo esse quadro, e a melhor compra realizada em 2025, os 40 mil euros pagos são excessivos, absurdos e duvidosos. Deixam em duvida qual a parte da intermediação e em especial a idoneidade e a competência da comissão de aquisições. Os preços registados na Artprice pela MJA vão dos 2000 aos 4500 euros, obras vendidasm, e mesmo que os leilões estejam desacreditados são uma referência a ter em conta.
Deixemos o varão e os varões (assinalados?) em paz e foquemo-nos numa obra relevante.
Maria José Aguiar, que foi também professora da escola do Porto, afastou-se da circulação galeristica, julgo que desagradada. Foi em anos recentes reconsiderada e redescoberta à volta das orientações Pop. Mas uma obra por um preço exorbitante não basta para a representar nos museus públicos. Não se compra assim e impõe-se o inquérito.
Espero que ela se divirta com este quiproquó e esta imprevista notoriedade mediática.
Quanto à Coleção do Estado, que começou por comprar para Serralves, quando o museu estava ainda em projecto, e depois se dispersou e interrompeu e acabou a actuar - à maneira dos processos expeditos e levianos do António Costa - como instrumento de apoio a artistas, a pedido dos próprios (de alguns próximos), e à revelia das entidades especializadas, ela é um erro muito caro e uma arbitrariedade. Veja-se também nos anos Costa o irresolúvel caso do Museu do Design (na CML) e a “biblioteca” Manguel.
Para apoios a artistas deve haver bolsas, de trabalho, de viagem, de atelier, e prémios e programas pagos de exposições.
Convém distinguir as intenções, as práticas e as obras.

Mas se esta cena estranha chamar a atenção para a pintura da Maria José Aguiar já valeu a pena o preço.
Em tempo: embora integrada na malha da Museus e Monumentos EP, a comissão de compras depende directamente da ministra da cultura.


fonte: Artprice

e também:

quarta-feira, 10 de junho de 2026
Um varão de blusões, o mercado das identidades, a Helena Mendes Pereira, a Zet Galeria, o Muzeu, a dst. Sobre os mercados institucionais

quarta-feira, 27 de maio de 2026
2026, a arte contemporânea do Estado, as aquisições de 2025 são caso de polícia. €79.950 pelo varão de roupa usada?

segunda-feira, 18 de maio de 2026
2026, MMP EP, AVERIGUAÇÕES : "Colecção do Estado"... valores de compra absurdos 

1992, AAS : "Une si jolie famille", Bruxelas

"Une si jolie famille". Bruxelas, Botanique, 1992


E a primeira presença internacional, depois de três colectivas em Londres: 

"Making Time", Museum of London, 1987;

"Masks and Faces", The London Institute gallery, 1988; 

"BA Photography Degree Show", London College of Printing, 1988.

Além de representações nacionais na Europália 81, Anvers, e na

Bienal dos Jovens Criadores, Valência, 1992.


Une si jolie famille (Portraits photographiques), 26 set a 8 nov 19921


São 6 fotografias e os personagens presentes vão subindo de 1 a 6, crianças e adultos; alguns repetem-se (todos os 3 homens, as mulheres não sei), as roupas mudam e os lugares da casa (ou as casas) e as mobílias variam, mas todos se dispõe sempre à volta de uma mesa de refeição. O Augusto comparece duas vezes (nos 2 e 5, ao lado de outro homem e com uma criança ao colo).


É uma encenação fotográfica, o que é único no seu trabalho enquanto série (há fotos com encenação discreta noutras séries ou livros), e é também raríssima a auto-representação, não sendo aqui propriamente auto-retratos.


O título da série é o título colectivo do projecto e do catálogo, e trata-se de uma representação dos 12 países da então Comunidade Europeia, concebido como um álbum de família ou um refrato colectivo.


Do texto no catálogo: “Dès que nous abordons la mise en scène, nous quittons un peu plus le réel pour rejoindre la métaphore. C'est le cas avec la séquence imaginée par Augusto Alves Da Silva qui propose entre autres choses son regard sur l'évolution d'une famille dans le cadre délimité d'une salle de séjour. Du personnage solitaire à la tribu de six individus, il passe en revue la plupart des possibilités de cellule familiale dans un mouvement évolutif, n'omettant pas le cas échéant de remplacer un élément du groupe par un autre. Il y parle donc aussi de l'intrusion, de l'exclusion, du départ, de ces accidents qui jalonnent la vie d'une famille.” Alain D'Hooghe




sexta-feira, 12 de junho de 2026

1996, 2026, HOCKNEY em Nova Iorque: "Snails Space" (e Arikha e Ross Bleckner)

 Hockney (duas exposições em NY) mais as flores de Arikha – 1996




Nova York 1996. Por ocasião de Picasso e o retrato, no MoMA, Hockney, numa coincidência feliz, e também Arikha e Ross Bleckner


EXPRESSO/Revista de 10-08-96, pp. 72-76

"Flores de Nova Iorque"

"Três exposições voltam à pintura de flores: Hockney, Arikha e Ross Bleckner. As emoções continuam a habitar o território da arte"


Os girassóis de David Hockney são uma homenagem a Van Gogh e fazem parte de uma série de naturezas mortas de 1995. As figuras humanas, que foram, por muito tempo, o motivo mais constante da sua pintura, desapareceram das últimas obras, mostradas em Maio-Junho em duas exposições simultâneas em diferentes andares do mesmo edifício da rua 57, nas galerias Andre Emmerich e Robert Miller.

No início dos anos 90, a abstracção passou a dominar a pintura de Hockney, aplicada numa exploração de formas e ilusões espaciais que partiu da observação da paisagem e do mar para prescindir depois de toda a aparência representativa, seguindo uma nova direcção mais especulativa, sem, no entanto, nunca se afastar da comunicabilidade directa e lúdica. Como que a compensar essa deriva pelos caminhos do imaginário, estimulada pela experiência do desenho cénico para óperas, o pintor regressa agora ao real através da observação dos objectos mais próximos e simples, naturezas mortas em que os motivos (girassóis ou antúrios, três pães num prato, algumas maçãs sobre uma toalha, duas alcachofras, uma truta sobre uma mesa azul, etc) são vistos num enquadramento cerrado, em pinceladas muito rápidas de cores quase puras.


Flores


1995, 2026, HOCKNEY: That's the Way I See it ("A mão e a máquina")

 David Hockney 1993, em livro

That's the Way I See it (1993 Thames & Hudson, Londres)
(Así lo Veo Yo, Ediciones Siruela, Madrid / C'est Ainsi que Je le Vois, Éditions Plume, Paris)

Hockney em 1995, a propósito do livro That's the Way I See it (de 1993 Thames & Hudson): "A mão e a máquina", Os últimos 20 anos da obra de Hockney mostrados e contados pelo próprio pintor: do corpo-a-corpo com Picasso e dos cenários para óperas até às pesquisas de fotografia e das novas tecnologias. Com 'regresso à pintura'


Antes, a Gulbenkian e Sommer Ribeiro tinham exposto Desenhos de David Hochney em 1977 (há catálogo), com grande escândalo de Azeredo Perdigão por causa de dois homens deitados na mesma cama, escândalo que o presidente traria à superfície muito mais tarde;
em 1985 mostraram David Hochney – Fotógrafo (catálogo),
e pouco antes em 1984 Rake's Progress, juntamente com as gravuras de Hogarth. Foi aí que assisti à mais extraordinária cena do presidente, diante do embaixador inglês e outros dignatários, num ataque descabelado a DH – "arte é arte, isto (Hogarth) é arte e aquilo não é nada", irado quando alguém ousou apontar a evolução das artes ou dos gostos. "O belo é o belo, e o belo não se discute", gritava ele frente ao representante de sua magestade, tudo por causa dos tais dois homens muitos anos antes, sem que disso se tivesse falado na ocasião, ao que julgo. A inauguração tinha pouca gente, mas a cena foi uma vergonha. Eram "bons tempos", apesar de tudo, e comparando com o que veio depois. 
Além de peças soltas, nunca mais se viu Hockney por cá, que é persona non grata para muita gente, desde que ousou fazer perguntas sobre uns ladrilhos comprados muito caros, de um tal Carl André. Chamava-se qualquer coisa como "Não há alegria na Tate" o artigo que então publicou.



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Expresso Revista de 29-04-95, pp. 102-105

a propósito do livro That's the Way I See it (1993 Thames & Hudson, Londres)
(Así lo Veo Yo, Ediciones Siruela, Madrid / C'est Ainsi que Je le Vois, Éditions Plume, Paris)

"A mão e a máquina"

Os últimos 20 anos da obra de Hockney mostrados e contados pelo próprio pintor: do corpo-a-corpo com Picasso e dos cenários para óperas até às pesquisas de fotografia e das novas tecnologias. Com regresso à pintura"

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1999 em Paris, HOCKNEY

Em Lisboa foi exposto três vezes (1977, 1984 e 1985). Fui ver o David Hockney a Paris em 1999, a Londres em 2012 e a Rouen em 2024, mas não o quis ver na Louis Vuitton e até estava em Paris. 

Aconquistadoespaco


Em 1999 eram 3 exposições 3, no Centro Pompidou, no Museu Picasso e na Maison Européenee de Photographie. Ele tinha então 61 anos e estava em plena forma. 


Em Lisboa teve 3 exposições na Gulbenkian, ao tempo de Sommer Ribeiro: 1977, desenhos; 1984, The Rake's Progress, gravuras, com Hogarth; 1985, polaroids.


Fui vê-lo a Londres em 2012 e a Rouen em 2024. Em 2025 estava em Paris mas evitei o gigantismo da exp. da Louis Vuitton/Frank Gehry (400 obras…), e a opção de privilegiar os últimos 25 anos, que não são os melhores da carreira. E não gosto do edifício que representa o mercado do luxo e do turismo de massas. 


HOCKNEY  2012

Rouen 2014
E O GRANDE LIVRO:

Captura de ecrã 2025-06-10  às 14.04.49

No site oficial: https://www.thedavidhockneyfoundation.org/chronology


quarta-feira, 10 de junho de 2026

2003 Augusto Alves da Silva, La Gomera, Canarias, Gal. Elba Benitez

Um varão de blusões, o mercado das identidades, a Helena Mendes Pereira, a Zet Galeria, o Muzeu, a dst

Sobre os mercados institucionais

Volto à conversa com a Helena Mendes Pereira, permita que a trate assim, com admiração, sem nos conhecermos ainda pessoalmente. Sou um chato, mas acho que a Helena, com a sua apreciável ingenuidade e o acelerado voluntarismo, meteu-se em trapalhadas, enfiou o pé na argola ou pôs a pata na poça, mais coloquialmente.





Quero dizer que o artigo do DN (09 06 26 - um ensaio sobre a arte que tem, afinal, por assunto a "identidade") seria uma boa oportunidade para nos elucidar sobre o mercado da arte - o mercado não é o mal, a arte sempre existiu no mercado, ou nos mercados, a igreja, os príncipes, o poder, em suma, antes de se ter democratizado entre menos ricos com a ascensão das burguesias no séc. XIX (o povo foi sempre só consumidor, ou entra no mercado dos cromos). E hoje os museus, nacionais, locais, fundacionais, empresariais, pessoais, ou seja, as colecções institucionais ou afins, são hoje um grande mercado poderoso e influente, preponderante (seguido com devoção pela crítica e a imprensa: ...o "Y" ou o "E" viajou a convite de X). Mas note-se que o mercado dos cromos continua a ser maioritário e descontrolado - basta ver as feiras de artesanato, as galerias discretas, as decorações de hotel.
Na minha opinião, essa presença ostensiva e mesmo agressiva dos mercados institucionais, que se diz ser "política cultural", e de que a imprensa é o reflexo cúmplice, tem afastado o público amador (ou "amante", não gosto da palavra assim empregue) e os pequenos ou médios coleccionadores privados, mais compradores devotados que coleccionadores - a palavra coleccionador assusta.