sexta-feira, 12 de junho de 2026

1996, 2026, HOCKNEY em Nova Iorque: "Snails Space" (e Arikha e Ross Bleckner)

 Hockney (duas exposições em NY) mais as flores de Arikha – 1996




Nova York 1996. Por ocasião de Picasso e o retrato, no MoMA, Hockney, numa coincidência feliz, e também Arikha e Ross Bleckner


EXPRESSO/Revista de 10-08-96, pp. 72-76

"Flores de Nova Iorque"

"Três exposições voltam à pintura de flores: Hockney, Arikha e Ross Bleckner. As emoções continuam a habitar o território da arte"


Os girassóis de David Hockney são uma homenagem a Van Gogh e fazem parte de uma série de naturezas mortas de 1995. As figuras humanas, que foram, por muito tempo, o motivo mais constante da sua pintura, desapareceram das últimas obras, mostradas em Maio-Junho em duas exposições simultâneas em diferentes andares do mesmo edifício da rua 57, nas galerias Andre Emmerich e Robert Miller.

No início dos anos 90, a abstracção passou a dominar a pintura de Hockney, aplicada numa exploração de formas e ilusões espaciais que partiu da observação da paisagem e do mar para prescindir depois de toda a aparência representativa, seguindo uma nova direcção mais especulativa, sem, no entanto, nunca se afastar da comunicabilidade directa e lúdica. Como que a compensar essa deriva pelos caminhos do imaginário, estimulada pela experiência do desenho cénico para óperas, o pintor regressa agora ao real através da observação dos objectos mais próximos e simples, naturezas mortas em que os motivos (girassóis ou antúrios, três pães num prato, algumas maçãs sobre uma toalha, duas alcachofras, uma truta sobre uma mesa azul, etc) são vistos num enquadramento cerrado, em pinceladas muito rápidas de cores quase puras.


Flores


1995, 2026, HOCKNEY: That's the Way I See it ("A mão e a máquina")

 David Hockney 1993, em livro

That's the Way I See it (1993 Thames & Hudson, Londres)
(Así lo Veo Yo, Ediciones Siruela, Madrid / C'est Ainsi que Je le Vois, Éditions Plume, Paris)

Hockney em 1995, a propósito do livro That's the Way I See it (de 1993 Thames & Hudson): "A mão e a máquina", Os últimos 20 anos da obra de Hockney mostrados e contados pelo próprio pintor: do corpo-a-corpo com Picasso e dos cenários para óperas até às pesquisas de fotografia e das novas tecnologias. Com 'regresso à pintura'


Antes, a Gulbenkian e Sommer Ribeiro tinham exposto Desenhos de David Hochney em 1977 (há catálogo), com grande escândalo de Azeredo Perdigão por causa de dois homens deitados na mesma cama, escândalo que o presidente traria à superfície muito mais tarde;
em 1985 mostraram David Hochney – Fotógrafo (catálogo),
e pouco antes em 1984 Rake's Progress, juntamente com as gravuras de Hogarth. Foi aí que assisti à mais extraordinária cena do presidente, diante do embaixador inglês e outros dignatários, num ataque descabelado a DH – "arte é arte, isto (Hogarth) é arte e aquilo não é nada", irado quando alguém ousou apontar a evolução das artes ou dos gostos. "O belo é o belo, e o belo não se discute", gritava ele frente ao representante de sua magestade, tudo por causa dos tais dois homens muitos anos antes, sem que disso se tivesse falado na ocasião, ao que julgo. A inauguração tinha pouca gente, mas a cena foi uma vergonha. Eram "bons tempos", apesar de tudo, e comparando com o que veio depois. 
Além de peças soltas, nunca mais se viu Hockney por cá, que é persona non grata para muita gente, desde que ousou fazer perguntas sobre uns ladrilhos comprados muito caros, de um tal Carl André. Chamava-se qualquer coisa como "Não há alegria na Tate" o artigo que então publicou.



#

Expresso Revista de 29-04-95, pp. 102-105

a propósito do livro That's the Way I See it (1993 Thames & Hudson, Londres)
(Así lo Veo Yo, Ediciones Siruela, Madrid / C'est Ainsi que Je le Vois, Éditions Plume, Paris)

"A mão e a máquina"

Os últimos 20 anos da obra de Hockney mostrados e contados pelo próprio pintor: do corpo-a-corpo com Picasso e dos cenários para óperas até às pesquisas de fotografia e das novas tecnologias. Com regresso à pintura"

David10

1999 em Paris, HOCKNEY

Em Lisboa foi exposto três vezes (1977, 1984 e 1985). Fui ver o David Hockney a Paris em 1999, a Londres em 2012 e a Rouen em 2024, mas não o quis ver na Louis Vuitton e até estava em Paris. 

Aconquistadoespaco


Em 1999 eram 3 exposições 3, no Centro Pompidou, no Museu Picasso e na Maison Européenee de Photographie. Ele tinha então 61 anos e estava em plena forma. 


Em Lisboa teve 3 exposições na Gulbenkian, ao tempo de Sommer Ribeiro: 1977, desenhos; 1984, The Rake's Progress, gravuras, com Hogarth; 1985, polaroids.


Fui vê-lo a Londres em 2012 e a Rouen em 2024. Em 2025 estava em Paris mas evitei o gigantismo da exp. da Louis Vuitton/Frank Gehry (400 obras…), e a opção de privilegiar os últimos 25 anos, que não são os melhores da carreira. E não gosto do edifício que representa o mercado do luxo e do turismo de massas. 


HOCKNEY  2012

Rouen 2014
E O GRANDE LIVRO:

Captura de ecrã 2025-06-10  às 14.04.49

No site oficial: https://www.thedavidhockneyfoundation.org/chronology


quarta-feira, 10 de junho de 2026

2003 Augusto Alves da Silva, La Gomera, Canarias, Gal. Elba Benitez

Um varão de blusões, o mercado das identidades, a Helena Mendes Pereira, a Zet Galeria, o Muzeu, a dst

Sobre os mercados institucionais

Volto à conversa com a Helena Mendes Pereira, permita que a trate assim, com admiração, sem nos conhecermos ainda pessoalmente. Sou um chato, mas acho que a Helena, com a sua apreciável ingenuidade e o acelerado voluntarismo, meteu-se em trapalhadas, enfiou o pé na argola ou pôs a pata na poça, mais coloquialmente.





Quero dizer que o artigo do DN (09 06 26 - um ensaio sobre a arte que tem, afinal, por assunto a "identidade") seria uma boa oportunidade para nos elucidar sobre o mercado da arte - o mercado não é o mal, a arte sempre existiu no mercado, ou nos mercados, a igreja, os príncipes, o poder, em suma, antes de se ter democratizado entre menos ricos com a ascensão das burguesias no séc. XIX (o povo foi sempre só consumidor, ou entra no mercado dos cromos). E hoje os museus, nacionais, locais, fundacionais, empresariais, pessoais, ou seja, as colecções institucionais ou afins, são hoje um grande mercado poderoso e influente, preponderante (seguido com devoção pela crítica e a imprensa: ...o "Y" ou o "E" viajou a convite de X). Mas note-se que o mercado dos cromos continua a ser maioritário e descontrolado - basta ver as feiras de artesanato, as galerias discretas, as decorações de hotel.
Na minha opinião, essa presença ostensiva e mesmo agressiva dos mercados institucionais, que se diz ser "política cultural", e de que a imprensa é o reflexo cúmplice, tem afastado o público amador (ou "amante", não gosto da palavra assim empregue) e os pequenos ou médios coleccionadores privados, mais compradores devotados que coleccionadores - a palavra coleccionador assusta.

domingo, 7 de junho de 2026

2026, Atelier-Museu: A sequência da assemblagem (1967) e da colagem (1975) na obra de JP. Parte I

Metro 1964

1967 assemblages

1967-75 Rugbys, Maios, Banhos Turcos, Retratos, até Gris/Chardin em 76

1975 guaches recortados

1976 serigrafias

Considerando a exp do Atelier-Museu "A cola não faz a colagem", deve dizer-se que os comissários não entenderam seguir um critério estritamente focado na colagem e assemblagem, fazendo digressões periféricas e interrompendo a exibição sequencial de colagens entre 1980 e 2000.

Parte-se, no Piso 1, sem ordenação cronológica (há vários começos), de uma pintura que se pode dizer premonitória, um Metro de 1964 (50x150cm), que teve o motor de um brinquedo colocado sobre um rasgão da tela: foi um acidente feliz e um 1º objecto colado. É exposto ao lado de uma das 1ªs colagens de 1976, Sem Título, nº 154, uma banda de tela também horizontal, 37,5x93cm, com as figuras recortadas em tela crua, e de uma pequena tartaruga em bronze de 2003 (o único bronze presente, e eles partem de assemblages de peças encontradas numa fundição francesa).


Metro 1964, pormenor com objecto colado


De facto, a colagem como processo sistemático aparece muitos anos mais tarde nas séries que vieram a ser referidas como O Espaço de Eros e Teatro do Corpo, títulos de textos de catálogos de exposições em Bruxelas 1978 e Paris 1979. Note-se q a anterior exp de JP ocorrera num já longínquo 1973 na 111 (5 anos antes e nas vésperas do 25 de abril, que interrompeu o mercado de arte, e só volta a expor na 111 em 1982, os Tigres). Na individual de1973 havia apenas 'pinturas pintadas' (Banhos Turcos e Retratos); antes Jorge de Brito comprara quase por completo as importantes séries dos Rugbys e Maios'68, que não se mostraram em Paris e só se puderam ver na antologia de 1986 devido à captura da sua colecção.
1978 é o ano da 1ª retrospectiva, na FCG, levada ao Soares dos Reis e em parte a Bruxelas. Aí se mostraram pela primeira vez, com surpresa e escândalo, as séries eróticas que vinham de 1976 e também em estreia as assemblages de 1967 e 1977.

sábado, 30 de maio de 2026

2026, "A cola não faz a colagem", Atelier-Museu Júlio Pomar, visita orientada: uma cronologia, antes das colagens e das rupturas de 1966-68

Antes da colagem. E a ruptura de 1967

Com obras que vão de 1944 (pinturas anteriores ao neo-realismo) até aos anos 2000 (as pinturas com objectos, em especial), a exp "A cola não faz a colagem", centrada na prática da colagem e da assemblage, não segue um itinerário cronológico, e ainda bem. Uma visita pode ter vários começos e proporcionar pistas diversas sobre uma produção sempre a transformar-se.

Nas obras experimentais de 1944, com estudo do cubismo e de Léger, as formas recortadas e lisas "circulam" no espaço abstracto e plano da tela, como voltará a acontecer na série dos "Banhos Turcos d'aprés Ingres" (1968) e nas colagens do chamado "Teatro do Corpo" que lhe sucedem (1976).

"Pintura", 1944, ø 86cm. Col. Rui Victorino (1944 e 45, Exposições Independentes, Coliseu do Porto e IST, Lisboa)

São de 1960 esculturas de FERROS SOLDADOS, associadas às ilustrações para D. Quixote sem serem ilustrativas; o seu desenho em volume liga-se à sua pintura gestual e a uma nova escultura expressionista da época. Não tiveram continuidade, até por razões oficinais, e só já no novo século a escultura voltou a ter importância em peças em bronze que resultaram da assemblagem de peças encontradas numa fundição francesa (só uma pequena tartaruga é mostrada).

Bispo, Sem Título (Pássaro) e Guerreiro, 1961 (antigas Colecções Manuel Torres, 1 e 2; e Alice Jorge>Atelier-Museu, 3)

Estão num lugar próximo das ASSEMBLAGES que Pomar realizou nos anos 1967 e 1977 (e continuou depois até ao fim) com objectos recolhidos nas praias, usados pelo mar e dispostos num jogo formal não representativo mas com referências corporais e por vezes eróticas. Uma tradição clubista-dadaísta que só deu a conhecer na 1ª retrospectiva, 1978, e ocupou a mostra "Trabalho de Férias" que se deferia ter chamado ...de Verão.

Sem título, 1967 ou 1977?, alt. 49cm