sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ALICE NEEL, um grande espólio no mercado e 3 grandes galerias

 Uma das pistas de abordagem das exposições internacionais de Alice Neel é a consideração da chegada da sua obra a três grandes galerias de topo, com base num grande espólio (o Estate) gerido pelos seus dois filhos, Richard e Hartley.

Alice Neel pintou muito desde os anos 40 e vendeu sempre muito pouco durante 55 anos (desde os anos 1930 até à morte em 1985 com a idade do século). Os seus modelos da Village e de Spanish Harlem - amigos, vizinhos e familiares -, depois os intelectuais e artistas de Manhattan que ela convencia a posarem para os seus retratos, não tinham meios para comprar os quadros (alguns ficaram-se por retratos desenhados, aliás de grande qualidade). Também não os oferecia, depois das quatro ou cinco sessões de pose necessárias. O retrato é sempre o género de menos sucesso comercial, quando não se trata de encomendas e de figuras mundanas - antes das suas parcerias com Basquiat, Warhol tornara-se um retratista mundano, nos anos 70, usando a sua equipa da Factory, o polaroid e a serigrafia, mas essa carreira foi em geral (bem) esquecida.
Em 1982, três anos antes de morrer, já famosa mas ainda marginal (outsider), Alice Neel assinou um contrato com a importante Robert Miller Gallery de NY. (https://www.robertmillergallery.com/) e expôs nesse ano "Non figurative works"; em 1984 40 quadros desde os anos 30.
Deixava então a histórica e discreta Graham Gallery, que representou a sua obra desde 1962 até 82, com 8 exposições em 1963, 66, 68, 70, 73, 76, 78 (retrospectiva) e 80, com razoável e crescente sucesso de crítica e de estima. Nos anos 70 foi associada à vaga feminista, que em geral não praticava a pintura e optava por "acções" e novos media. Em 1984 teve uma primeira retrospectiva num museu, o Whitney, e um breve catálogo de 8 páginas! Note-se que o ritmo das individuais era muito diferente do actual.
Depois da retrospectiva de Filadelfia em 2000, que foi itinerante, regista-se "Alice Neel, Paintings and Drawings" March – April 2005, na Locks Gallery em Washington. A seguir a projecção da obra acelera-se. https://www.locksgallery.com/.../alice-neel-paintings-and...
Passam a ser três grandes galerias internacionais a representar a sua obra, David Zwirner, Victoria Miro e a Xavier Hufkens, as quais se associam à multiplicação das retrospectivas pelos grrandes museus, até chegar a Serralves, e aos recordes criteriosamente conseguidos em leilões. Atingindo os recentes 5 milhões!
David Zwirner: New York • Paris • Hong Kong: (https://www.davidzwirner.com/artists.)
Since 2008, The Estate of Alice Neel has been represented by David Zwirner, where her work was presented in 2009 in a critically acclaimed, two-venue solo exhibition, "Alice Neel: Selected Works" and "Alice Neel: Nudes of the 1930s".
Other solo exhibitions at the gallery in New York include "Alice Neel: Late Portraits & Still Lifes" (2012); and "Alice Neel: Drawings and Watercolors 1927–1978" (2015). The critically-acclaimed exhibition "Alice Neel, Uptown", curated by Hilton Als, took place at David Zwirner, New York, in 2017; followed by "Alice Neel: Freedom" (2019); and "Alice Neel: The Early Years" (2021). In 2022, "Alice Neel: Men from the Sixties", the artist’s first exhibition in Greater China, was on view at David Zwirner Hong Kong. At Home: "Alice Neel in the Queer World", curated by Hilton Als, was on view at David Zwirner Los Angeles in 2024.
Victoria Miro, Londres (https://www.victoria-miro.com/artists/ representa Paula Rego): "At Home: Alice Neel in the Queer World" 2025. (https://www.live.victoria-miro.com/.../at-home-alice.../) ; 2022 "Alice Neel: There's Still Another I See" (https://www.live.victoria-miro.com/.../alice-neel-theres.../); "Alice Neel: My Animals and Other Family" 2014 (Mayfer: https://www.meer.com/.../12124-alice-neel-my-animals-and....
E a 3ª galeria actual é a poderosa Xavier Hufkens com 3 locations on Brussels.(https://www.xavierhufkens.com/artists). Exposições: "Still Lifes and Street Scenes" 2025 (https://www.xavierhufkens.com/.../still-lifes-and-street...); "Seeing who we are" 2022 (https://www.xavierhufkens.com/exhibitions/alice-neel); "Alice Neel On Paper" 2021; "Alice Neel in New Jersey and Vermont" 2018; "Alice Neel" 2015. https://www.xavierhufkens.com/artists/alice-neel.

Em 2014 a circulação de mostras pessoais e a entrada nas colecções de museus tinha esta lista:
Recent posthumous solo exhibitions have included "Alice Neel: Intimate Relations" at Nordiska Akvarellmuseet, Skarhamn (2013); "Alice Neel: Painted Truths", a retrospective that toured to the Museum of Fine Arts Houston (2010), the Whitechapel Art Gallery, London (2010) and the Moderna Museet, Malmö (2010-11); "Alice Neel: Collector of Souls" at the Moderna Museet, Stockholm (2008) and "Alice Neel", organised by the Philadelphia Museum of Art that travelled to the Whitney Museum of American Art (2000).
Her work is in the collections of major museums including the the Art Institute of Chicago; the Brooklyn Museum of Art, New York; the Denver Art Museum; the Milwaukee Art Museum; the Moderna Museet, Stockholm; the Museum of Contemporary Art, Los Angeles; the Museum of Fine Arts, Boston; the Museum of Fine Arts, Houston; the Museum of Modern Art, New York; the Philadelphia Museum of Art; Tate, London and the Whitney Museum of American Art, New York.)

É uma reviravolta do mercado de arte, que tem por base um imenso legado, e também uma revisão radical da história do século XX. Vem à superfície o que as "histórias" e as representações norte-americanas ignoraram ou excluíram.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

2026, Graça Morais em Algés (Palácio Anjos) e no Expresso: entrevista de João Pacheco , 31 07 26

 8 páginas merecidas.

Graça Morais não faz uma pintura amável, 'delicada', decorativa, fácil, lúdica ou bonitinha. Mas tem uma imensa multidão de admiradores e uma grande projecção mediática que não passa pela "crítica especializada". Muita da sua pintura é crua, invulgar, estranha mesmo, desafiadora, singular e mais idiossincrática que alinhada por estilos formais vulgarizados, é ancorada em realidades locais distantes, vindas de profundezas culturais de Trás-os-Montes sem ser folclórica, e sem deixar de ser uma produção culta com marcantes afinidades internacionais (anos 80, os 'genius loci' ou espírito do lugar, a transvanguarda, Clemente) .
As suas entrevistas ajudam a abrir caminhos para melhor se entenderem os seus temas e as suas figuras, por quem é distante das suas raízes, e também as suas preocupações face ao estado do mundo, que tem sido outra vertente de intervenção, mas para lá das descrições e interpretações tudo se joga na intensidade visível da pintura e dos seus materiais, na veemência sensorial dos retratos, humanos e animais, na força das imagens que estabelecem cumplicidades entre personagens e espectadores.

João Pacheco faz uma boa entrevista na presente edição da Revista (31 de Julho) e já tinha apresentado na Revista de 4 de Abril - "A beleza da natureza, o horror da guerra, a memória da mãe" - a antologia que se vê ainda no Palácio Anjos, ate 13 de setembro.
A chamada crítica vive de patrocinar casos menores e arreda-se, como acontece no Público, e os museus mais institucionais nunca lhe abriram as portas. Face à arte que "reflecte" sobre ideias de arte e repete as receitas secas de estilos colectivos com décadas de envelhecimento, o mundo da Graça Morais (mulher e pintora de figuras) é uma diferença violenta. Demasiado difícil? demasiado admirada? demasiado popular? demasiado grande?

Na semana seguinte o Celso Martins escreveu na Revista sobre a exp em Algés





2026. Alice Neel e Isabel Bishop.

 Isabel Bishop e Alice Neel.

Fazem-se grandes retrospectivas de obras individuais (e individualizadas), mas não se sabe nem se mostra nada do que faziam outros (outras) artistas na mesma época, com afinidades e distâncias. Cultiva-se uma historia de bolhas e de génios, de fenómenos e de excepções mediatizáveis (de "descobertas"), sem terem rectaguardas nem companhias, sem raizes ou confrontos com os movimentos activos no início ou no curso da respectiva carreira. Sem catálogos editados a tempo (é o caso de Serralves) a falta de informação de contexto é mais abissal.

A.N. data não indicada / abaixo 1974


2005, Madrid, Museo Thyssen, Die Brucke, expressionismos, "Uma ponte centenária". E Paula Modersohn-Becker

Uma ponte centenária

Die Brucke, centenário em Madrid

             Cem anos de Die Brücke comemorados em Madrid no Museu Thyssen

Expresso/ Actual de 09 Abril 2005

    O ano de 1905 é apontado como a data de começo do século XX, quando se procura localizar com algum acontecimento preciso uma dinâmica de viragem no terreno das artes plásticas. A tradição francesa toma como início da era das vanguardas o escândalo desencadeado na imprensa à volta da sala que reuniu as obras de Matisse, Marquet, Derain e Vlaminck, no Salão de Outono de Paris, em Outubro; alertado a tempo, o Presidente da República recusou-se a comparecer à inauguração, e a polémica em torno da «jaula das feras» («la cage aux fauves») deu origem, como sucedera com o impressionismo, à designação de uma nova estética.

Poucos meses antes, precisamente a 7 de Junho, em Dresden, quatro jovens artistas – Ernst Ludwig Kirchner e Fritz Bleyl, arquitectos recém-diplomados, e Erich Heckel e Karl Schmidt-Rottluff, ainda estudantes – firmavam o «acordo fundacional do grupo de artistas Brücke» (Ponte), logo depois transformado em associação, com membros activos e sócios passivos que os apoiavam. À data, não eram mais do que quatro amigos determinados a vencer as recusas das galerias, mas o grupo iria rapidamente afirmar-se, já com os ecos do fauvismo impregnados pelas raízes culturais nórdicas, como o primeiro movimento expressionista alemão – em 1911 surgiria, em torno de Kandinsky e Franz Marc, o grupo Blaue Reiter (Cavaleiro Azul)


Cat. comis. Javier Arnaldo e Magdalena M. Moeller

O nome escolhido não identificava um programa, mas uma vontade de mudança: «Do que nos tínhamos de afastar estava claro; aonde iríamos parar, porém, era algo mais incerto», escreveu depois Karl Schmidt-Rottluff. Com uma muito provável influência do vitalismo filosófico de Nietzsche, para quem «a grandeza no ser humano é ser uma ponte, não uma meta».

O centenário de Die Brücke é assinalado em Madrid (até 15 de Maio) por uma exposição organizada pelo Museu Thyssen-Bornemisza e pela Fundação Caja Madrid, em colaboração estreita com o Brücke-Museum de Berlim, que será acolhida em Junho pelo Museu Nacional da Catalunha e em Outubro estará na capital alemã. Preparada desde 2001 com base no importante acervo de obras expressionistas do Thyssen, a mostra pôde contar com numerosos empréstimos do Museu Die Brücke e do Museu Nolde de Seebüll, na Silésia, tornando-se numa muito vasta apresentação das origens e do apogeu do movimento, de 1905 a 1913/14, ilustrados com 196 obras, que se distribuem pelos dois espaços das entidades organizadoras. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

2026, Alice Neel, histórias americanas

 Quem foi Alice Neel? Como se faz a história contemporânea? Como procede a crítica? Quem expôs, referiu ou analisou a Alice Neel nas últimas décadas? Como se ignorou ALICE NEEL até ao séc. XXI?



1. Robert Hughes, um dos grandes críticos norte-americanos, 1997, no índice passa-se de Nauman, Bruce para Neagle, John.
2. "Art since 1945", 2000, de Nauman, Bruce para Neo-expressionism.
3. "Walker Evans & Company", Peter Galassi, MoMA 2000, de Wright Morris para Nicholas Nixon (e a Grande Depressão e o Retrato são tópicos do volume)
4. "The American Century, art & culture 1950-2000",
Lisa Phillips, Whitney Museum 1999.
"...raw depictions of human vulnerability and intensity" p. 46; "Pull My Daisy" p.68; "... they embraced subject matter and psychological content"... "Several older artists, among them Guston, Neel, Pearlstein, Twombly... N., who had been at work since the thirties, was valued for her frank and confrontational portraits of strong-willied characters depicted against blank groans. Both (Guston and Neel) used rough, somewhat crude and expressionist methods in their emotionally charged works -- the paint announced itself as material even in the service of subject matter. Both embraced the subjective and emotional and helped pave the way for the reintroduction of recognizable subject matter in painting." p. 260; rep. John Perrault 1972, Col. Whitney.
5. "Art in the Seventies",
Edward Lucie-Smith, 1980.
"Erotic Feminist", rep. John Perrault 1972. "Political Art- feminist", rep. Andy Warhol" 1970, Col. Whitney. Refere retrospectiva em 1975 no Georgia Museum of Art, Athens, Georgia.
6. "Modern Art Despite Modernism", Robert Storr, MoMA 2000. ignorada no capítulo "Depression Era Realism & the American Scene". De Nadelman, Elie para Noguchi, Isamu (e Jim Nutt, Guston "Postmodernism"...)
7. "Making Choices", Galassi, Storr, Anne Umland, MoMA 2000. Se Munkacsi,Martin a Nelson, George... <vê-se que o MoMA foi o museu + sectário: ver 3, 6 e 7>

COMO SE RECONSTROI A HISTÓRIA e a arte viva?
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&

À procura da Alice Neel nas estantes. E só está num dos quatro livros.
1. Não está no primeiro, de 1995, que foi uma grande montra de um século de "Figuras do corpo" na edição da Bienal de Veneza comissariada por Jean Clair, no respectivo centenário. (ver artigo no comentário). O turning-point do "regresso do corpo" era Baselitz e Guston, numa opção mediatizada)…




1. Bienal de Veneza de 1995 exposição do Centenário comissariada por Jean Clair e um imenso catálogo:" Identidade e Alteridade - Figuras do corpo 1895-1995". O auto-retrato e o corpo nu (sexuado, doente, morto) são tópicos destacados, incluindo os capítulos "O regresso do corpo 1962-1985" e "O corpo real e virtual 1985-1995". O "turning Point", em 1962-1973, é marcado por Baselitz e Guston, a que segue "Human Clay, o barro humano, na exp organizada por Kitaj em 1976 incluiu Arikha, Freud, o próprio Kitaj, António Lopez, e aparece também Chuck Close (mas não há pops e hiper-realistas). Clemente está adiante, é o único dos "regressos à pintura" dos anos 80. O subcapítulo "Arts amandi" conta com Georgia O'Keeffe. O nigeriano Ousmane Sow é a única presença de um artista do Terceiro Mundo. A fotografia feita por mulheres aparece com bastante força: Diane Arbus, Nancy Burson, etc, num capítulo "real-virtual" confuso, com a sul-africana Jane Alexander, que dominava o topo do Palácio Grassi, e Mona Hatoum. Estão Marlene Dumas e Maria Lassnig de passagem, e antes os rostos de Helene Schjerfbeck (Finlândia, 1862-1946), mais Chantal Wiki (auto-retratos obsessivos - Zurique n.1963), mas não se marca qualquer entendimento de mudança com as obras de algumas mulheres que são decisivas, ignoradas ou não: é que Paula Modersohn-Becker, Frida Kahlo e Alice Neel não comparecem na exp. de Veneza. As mulheres presentes fazem só parte da cronologia, não sustentam um foco próprio; J.C. não quis compilar um hit-parade mas fazer a crítica do sistema das vanguardas e de algumas ideias feitas, segundo escreve. Depois de ter sido um crítico vanguardista (Art d'Aujourd'hui), foi autor de grandes exposições, incluindo Duchamp a abrir o Pompidou, tornou-se conservador e reaccionário, às vezes um idiossincrático insuportável.
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