quarta-feira, 16 de setembro de 2026

ALICE NEEL E A BEAT GENERATION "Pull My Daisy" e Allen Ginsberg

 ALICE NEEL E A BEAT GENERATION

Durante a sua longa vida activa de pintora, Alice Neel atravessou sucessivos contextos das artes norte-americanas, que foram sustentando o itinerário à margem do mainstream abstraccionista; foi associada a conjunturas e movimentos diversos, mas mantendo sempre uma indestrutível singularidade: aqui foco-me na relação com a boémia Beat.
Depois dos anos de formação, da aventura cubana e das dificuldades pessoais que se lhe seguiram, de miséria e internamentos, viveu com o apoio do financiamento público criado durante a Grande Depressão, desde 1933 até ao fim do WPA (Works Progress Administration) decidido pelo Congresso em 1943 - um apoio reduzido atribuído pela secção de "pintura de cavalete": não pintou murais em espaços públicos, ao contrário da maioria, e a sua produção de cenas urbanas, vistas de Nova Iorque e retratos não se identifica com o estilo do realismo social dominante, apesar das suas posições políticas de esquerda, e do foco na população desfavorecida, em especial os porto-riquenhos de Spanish Harlem.
Até meados dos anos 1950 continuou a contar com meios da assistência pública.
Na década de 50 era uma figura conhecida da boémia intelectual de Greenwich Village e passou a frequentar The Club (https://en.wikipedia.org/wiki/The_Club_(fine_arts), sede da “escola de Nova Iorque”, lugar de debates e bailes. Para conhecer artistas, disse. A participação no filme de Robert Frank e Alfred Leslie (pintor q conheceu no Club) vai associá-la à Beat Generation.
A intervenção no filme é reduzida, quase uma figurante, na pele de uma avó tradicional sentada no sofá (também se senta ao piano) entre as presenças indisciplinadas de Alan (sic) Ginsberg, Gregory Corso, Peter Orlofsky, Larry Rivers (pintor), etc.

2026, Cabrita Reis no MAAT

 Mais do que "esfregonismo" enquanto estilo, como Cabrita propõe no Público, porque usa a esfregona para espalhar tintas, em vez do pincel, como outros a vassoura, ou a lata furada, ou o pote entornado, eu falo de facilitismo, uma espécie talvez inovadora de espontaneísmo sem metafísica, notoriamente desinibida, franca, porque se trata de experimentar e propor uma prática acessível a todas as mãos (mas não a todas as bolsas), contando com grandes suportes de madeira ou tela - ou extensas e acumuladas estruturas metálicas para o que se poderá dizer escultura: há no interior espelhos que multiplicam imagens pouco distintas, ampliando caleidoscópios de brincar. Uma grande produção, portanto.

Importa a quantidade e a dimensão, importa a repetição e a variação (seguindo a lição dos grandes ateliers do barroco, e a estratégia da Factory), importa o local de acolhimento e exposição, com vantagem de se associar a um programa comemorativo (10 anos de MAAT, 70 anos do artista).

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Alice Neel década a década. Cronologias

 Alice Neel dizia que pintava o Zeigeist, o espírito do tempo. Argumentava que os seus retratos - as suas figuras - exibiam as marcas dos anos 50, 60, 70 e que elas eram também a sua verdade...




Todas as retrospectivas que conheço, a do Pompidou em 2022, "Alice Neel: Un regard engagé" - https://www.centrepompidou.fr/.../agenda/evenement/JonpUmK - , que vi; a de Filadélfia, Whitney, Massachussetts, Minneapolis e Denver, itinerante em 2000-2001, de que trouxe o catálogo em 2000, quando o MoMA fazia o seu balanço do século em que ela não entrava; a recente de Turim, Pinacoteca Agnelli, 2025 até abril 2026, "Alice Neel: I Am the Century" - https://www.davidzwirner.com/.../alice-neel-i-am-the-century - , a produção mais aproximada da que mostra em Serralves, foram montagens cronológicas, com uma ou outra liberdade temática.


A cronologia é aqui indispensável, e os retratos pintados mudam a partir dos anos 60 - importa ver como: o maior formato, quase o tamanho natural. os fundos "abstractos", de cor clara, a demorada intensidade pictórica dos rostos, e o frequente inacabado depois de definida a figura. (Mas é chocante ver como os visitantes, quase todos, não se detêm diante dos quadros, não observam ou contemplam ou escrutinam o que são superfícies pintadas - julgo que a habitual profusão dos gadjets e das obras que se vêem de longe, en passant, como a Holzer, marca a não-relação com as obras.)
Não importa arrumar a cronologia seguindo os seus mais duradouros companheiros e amantes (mas lá chegaremos como se fez com Picasso). A divisão por décadas não tem de ser rígida, mas importa distinguir o que pintou em Havana (uma modernidade procurada com aprendizagem escolar sólida) dos anos do regresso a Colwyn e Filadélfia, durante as suas graves crises emocionais. Depois, em 1932, Greenwich Village e logo os primeiros contratos dos programas de assistência (e emprego) aos artistas, a partir de 1934 com o New Deal de Roosevelt. Aí as vistas das cidades e cenas urbanas podiam aproximar-se do realismo social exigido e em voga, mas são outra coisa, Alice Neel parece evoluir numa aparente vontade de desaprendizagem que a aproxima de artes naives, primitivas ou outsiders, com uma pintura crua ("raw", que é o nome americano para a arte bruta). Ao longo do tempo voltará ocasionalmente a esse expressionismo duro, grotesco, quase infantil, caricatural por vezes.




A montagem de Serralves prescindiu da cronologia, e coloca na última sala o que deveria estar no princípio, numa amálgama de referências históricas. A prioridade dada à "Beleza imperfeita" e ao retrato de familiares oculta o continuado empenhamento político.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 Não se trata de acrescentar um nome à lista dos famosos, ou ao que chamam o cânone. Essa é a pista preguiçosa e mesmo cúmplice de quem excluía Alice Neel.




Não era uma desconhecida, não foi uma figura marginal que vivesse escondida nalguma reclusão voluntária, ou não; pelo contrário. Teve várias ocasiões de reconhecimento, desde os anos 20 em Havana, expôs com a frequência que era habitual nas décadas de 30-50, foi tendo críticas favoráveis em especial nos anos 60 e 70. A partir de finais de 50, depois do filme underground de Robert Frank e Alfred Leslie, em que apareceu como uma vulgar avó norte-americana, explorou a rede de relações artísticas de Manhattan e batalhou com notório voluntariasmo pelo reconhecimento. Mas ficava de fora sempre que se tratava das representações panorâmicas da pintura norte-americana ou dos balanços do século XX. Não por ser mulher (mas a cumplicidade da segunda vaga feminista foi importante); mas por fazer uma pintura de figuras quando o "abstracionismo" da Escola de Nova Iorque e o formalismo das vanguardas seguintes eram a regra. Não era também um caso de isolada notoriedade como foram antes e depois os realistas Edward Hopper (1882 – 1967) ou Andrew Wyeth (1917 – 2009). Mas acabou por se "bater" com eles, e também com o mito Pollock.
Neel movia-se entre as vanguardas do seu tempo, o realismo social da WPA, as abstrações, a Pop e os novos realistas. Não participou de nenhum estilo colectivo, nem teve a tutela de qualquer crítico - duas razões fortes para a exclusão.
Só em 1972 foi incluída na exposição anual do Whitney Museum, onde sempre cabiam todos; dois anos depois o mesmo Whitney dedicou-lhe a primeira retrospectiva, com um catálogo de 8 páginas... Começou a entrar no grande mercado ainda em vida, aos 82 anos, quando assinou um contrato com a Robert Miller Gallery, e hoje são três as grandes galerias internacionais que trabalham o seu enorme espólio (Legado ou Estate) com que se montam as retrospectivas que percorrem museus (ver nota anterior).
Expor no Metropolitan em 2021, no Pompidou em 2022 (agora em Serralves) é um passo decisivo na revisão da história da arte do século XX. Ela entra nessa história, que quis ser canónica, e outros (famosos e mediáticos que enchem os museus de arte contemporânea) passam a ser notas de rodapé, que estabeleceram um dia um record e se ficaram por essa marca, fugaz. Nada volta a ficar como dantes, mesmo se alguma crítica se fique pelo elogio de mais um nome, mais uma "descoberta" acrescentada a um calendário rotineiro.
É preciso ver o acontecimento Alice Neel, a revelação de uma carreira longa e consistente, pessoal e independente, diferente e irreverente, como mais uma ruptura decisiva com o mainstream museológico, montado na sucessão de estilos e de figuras que se sucedem como marcas progressivas (?) e progressistas (!), apontados a uma aridez crescente e/ou à comercialização de gadjets mais ou menos insólitos ou engraçados.

É insólito ver Alice Neel em Serralves, que se estabeleceu com o calendário Circa 1968 e ainda não sabe repensar-se, tal como era surpreendente vê-la no Pompidou em 2023 (sem ter nenhuma obra em colecções públicas francesas), como foi estranho ver a seguir, 2025, Suzanne Valadon (1865 – 1938). Mostra-se agora o que não se quis ver ou que se visse.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ALICE NEEL, um grande espólio no mercado e 3 grandes galerias

 Uma das pistas de abordagem das exposições internacionais de Alice Neel é a consideração da chegada da sua obra a três grandes galerias de topo, com base num grande espólio (o Estate) gerido pelos seus dois filhos, Richard e Hartley.



Alice Neel pintou muito desde os anos 40 e vendeu sempre muito pouco durante 55 anos (desde os anos 1930 até à morte em 1985 com a idade do século). Os seus modelos da Village e de Spanish Harlem - amigos, vizinhos e familiares -, depois os intelectuais e artistas de Manhattan que ela convencia a posarem para os seus retratos, não tinham meios para comprar os quadros (alguns ficaram-se por retratos desenhados, aliás de grande qualidade). Também não os oferecia, depois das quatro ou cinco sessões de pose necessárias. O retrato é sempre o género de menos sucesso comercial, quando não se trata de encomendas e de figuras mundanas - antes das suas parcerias com Basquiat, Warhol tornara-se um retratista mundano, nos anos 70, usando a sua equipa da Factory, o polaroid e a serigrafia, mas essa carreira foi em geral (bem) esquecida.
Em 1982, três anos antes de morrer, já famosa mas ainda marginal (outsider), Alice Neel assinou um contrato com a importante Robert Miller Gallery de NY. (https://www.robertmillergallery.com/) e expôs nesse ano "Non figurative works"; em 1984 40 quadros desde os anos 30.
Deixava então a histórica e discreta Graham Gallery, que representou a sua obra desde 1962 até 82, com 8 exposições em 1963, 66, 68, 70, 73, 76, 78 (retrospectiva) e 80, com razoável e crescente sucesso de crítica e de estima. Nos anos 70 foi associada à vaga feminista, que em geral não praticava a pintura e optava por "acções" e novos media. Em 1984 teve uma primeira retrospectiva num museu, o Whitney, e um breve catálogo de 8 páginas! Note-se que o ritmo das individuais era muito diferente do actual.
Depois da retrospectiva de Filadelfia em 2000, que foi itinerante, regista-se "Alice Neel, Paintings and Drawings" March – April 2005, na Locks Gallery em Washington. A seguir a projecção da obra acelera-se. https://www.locksgallery.com/.../alice-neel-paintings-and...
Passam a ser três grandes galerias internacionais a representar a sua obra, David Zwirner, Victoria Miro e a Xavier Hufkens, as quais se associam à multiplicação das retrospectivas pelos grrandes museus, até chegar a Serralves, e aos recordes criteriosamente conseguidos em leilões. Atingindo os recentes 5 milhões!
David Zwirner: New York • Paris • Hong Kong: (https://www.davidzwirner.com/artists.)
Since 2008, The Estate of Alice Neel has been represented by David Zwirner, where her work was presented in 2009 in a critically acclaimed, two-venue solo exhibition, "Alice Neel: Selected Works" and "Alice Neel: Nudes of the 1930s".
Other solo exhibitions at the gallery in New York include "Alice Neel: Late Portraits & Still Lifes" (2012); and "Alice Neel: Drawings and Watercolors 1927–1978" (2015). The critically-acclaimed exhibition "Alice Neel, Uptown", curated by Hilton Als, took place at David Zwirner, New York, in 2017; followed by "Alice Neel: Freedom" (2019); and "Alice Neel: The Early Years" (2021). In 2022, "Alice Neel: Men from the Sixties", the artist’s first exhibition in Greater China, was on view at David Zwirner Hong Kong. At Home: "Alice Neel in the Queer World", curated by Hilton Als, was on view at David Zwirner Los Angeles in 2024.
Victoria Miro, Londres (https://www.victoria-miro.com/artists/ também representa agora Paula Rego):
"At Home: Alice Neel in the Queer World" 2025. (https://www.live.victoria-miro.com/.../at-home-alice.../) ; 2022 "Alice Neel: There's Still Another I See" (https://www.live.victoria-miro.com/.../alice-neel-theres.../); "Alice Neel: My Animals and Other Family" 2014 (Mayfer: https://www.meer.com/.../12124-alice-neel-my-animals-and.... "Alice Neel: The Cycle of Life", 2007.
E a 3ª galeria actual é a poderosa Xavier Hufkens com 3 locations on Brussels.(https://www.xavierhufkens.com/artists).
Exposições: "Still Lifes and Street Scenes" 2025 (https://www.xavierhufkens.com/.../still-lifes-and-street...); "Seeing who we are" 2022 (https://www.xavierhufkens.com/exhibitions/alice-neel); "Alice Neel On Paper" 2021; "Alice Neel in New Jersey and Vermont" 2018; "Alice Neel" 2015. https://www.xavierhufkens.com/artists/alice-neel.

Em 2014 a circulação de mostras pessoais e a entrada nas colecções de museus tinha esta lista:
Recent posthumous solo exhibitions have included "Alice Neel: Intimate Relations" at Nordiska Akvarellmuseet, Skarhamn (2013); "Alice Neel: Painted Truths", a retrospective that toured to the Museum of Fine Arts Houston (2010), the Whitechapel Art Gallery, London (2010) and the Moderna Museet, Malmö (2010-11); "Alice Neel: Collector of Souls" at the Moderna Museet, Stockholm (2008) and "Alice Neel", organised by the Philadelphia Museum of Art that travelled to the Whitney Museum of American Art (2000).
Her work is in the collections of major museums including the the Art Institute of Chicago; the Brooklyn Museum of Art, New York; the Denver Art Museum; the Milwaukee Art Museum; the Moderna Museet, Stockholm; the Museum of Contemporary Art, Los Angeles; the Museum of Fine Arts, Boston; the Museum of Fine Arts, Houston; the Museum of Modern Art, New York; the Philadelphia Museum of Art; Tate, London and the Whitney Museum of American Art, New York.)

É uma reviravolta do mercado de arte, que tem por base um imenso legado, e também uma revisão radical da história do século XX. Vem à superfície o que as "histórias" e as representações norte-americanas ignoraram ou excluíram.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

2026, Graça Morais em Algés (Palácio Anjos) e no Expresso: entrevista de João Pacheco , 31 07 26

 8 páginas merecidas.

Graça Morais não faz uma pintura amável, 'delicada', decorativa, fácil, lúdica ou bonitinha. Mas tem uma imensa multidão de admiradores e uma grande projecção mediática que não passa pela "crítica especializada". Muita da sua pintura é crua, invulgar, estranha mesmo, desafiadora, singular e mais idiossincrática que alinhada por estilos formais vulgarizados, é ancorada em realidades locais distantes, vindas de profundezas culturais de Trás-os-Montes sem ser folclórica, e sem deixar de ser uma produção culta com marcantes afinidades internacionais (anos 80, os 'genius loci' ou espírito do lugar, a transvanguarda, Clemente) .
As suas entrevistas ajudam a abrir caminhos para melhor se entenderem os seus temas e as suas figuras, por quem é distante das suas raízes, e também as suas preocupações face ao estado do mundo, que tem sido outra vertente de intervenção, mas para lá das descrições e interpretações tudo se joga na intensidade visível da pintura e dos seus materiais, na veemência sensorial dos retratos, humanos e animais, na força das imagens que estabelecem cumplicidades entre personagens e espectadores.

João Pacheco faz uma boa entrevista na presente edição da Revista (31 de Julho) e já tinha apresentado na Revista de 4 de Abril - "A beleza da natureza, o horror da guerra, a memória da mãe" - a antologia que se vê ainda no Palácio Anjos, ate 13 de setembro.
A chamada crítica vive de patrocinar casos menores e arreda-se, como acontece no Público, e os museus mais institucionais nunca lhe abriram as portas. Face à arte que "reflecte" sobre ideias de arte e repete as receitas secas de estilos colectivos com décadas de envelhecimento, o mundo da Graça Morais (mulher e pintora de figuras) é uma diferença violenta. Demasiado difícil? demasiado admirada? demasiado popular? demasiado grande?

Na semana seguinte o Celso Martins escreveu na Revista sobre a exp em Algés





2026. Alice Neel e Isabel Bishop.

 Isabel Bishop e Alice Neel.

Fazem-se grandes retrospectivas de obras individuais (e individualizadas), mas não se sabe nem se mostra nada do que faziam outros (outras) artistas na mesma época, com afinidades e distâncias. Cultiva-se uma historia de bolhas e de génios, de fenómenos e de excepções mediatizáveis (de "descobertas"), sem terem rectaguardas nem companhias, sem raizes ou confrontos com os movimentos activos no início ou no curso da respectiva carreira. Sem catálogos editados a tempo (é o caso de Serralves) a falta de informação de contexto é mais abissal.

A.N. data não indicada / abaixo 1974