segunda-feira, 18 de maio de 2026

2026, MMP, AVERIGUAÇÕES : "Colecção do Estado", 3 obras de PANCHO GUEDES + valores de compra absurdos + Disparates oficiais sobre JOÃO ABEL MANTA

Duas notas no Facebook e dois casos comunicados por email à empresa Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E.

1. "ALGUÉM ESTÁ METER A UNHA NAS COMPRAS DO ESTADO (do Estado da Sandra).

A tal comissão que compra obras para a chamada Colecção do Estado adquiriu em 2025 três trabalhos de PANCHO GUEDES - Família vegetal, 1974 / A força do seu olhar, 1996 / Um navio aborigene, 2005 - que de modo algum representam adequadamente a sua produção de pintor. Raramente Pancho Guedes aceitou vender obras da sua autoria, mas estas peças estiveram há alguns anos presentes na exposição individual de uma galeria (vendeu-as ou estiveram em depósito?). Agora integraram as aquisições da Comissão segundo o relatório comunicado. Onde foram buscar estas obras?

Pancho Guedes [Lisboa, 1925 - Joanesburgo, África do Sul, 2015]

"Família vegetal", 1974 / "A força do seu olhar", 1996 / "Um navio aborigene", 2005

Guache sobre papel, 51 x 73 cm / Acrílico sobre tela, 50 x 40 cm /

Tinta-da-china sobre papel, 21 x 30 cm

Valor de aquisição: €41.032

É grave a compra de três obras insuficientemente representativas (a haver Colecção ela deve fazer escolhas seguras e garantir acesso ao melhor) e é grave o preço especulativo que se afirma ter pago. Para além da muito original obra de escultura em madeira, Pancho Guedes fez uma pintura importante pela relação com a sua arquitectura, pela intenção do comentário sócio-político e pela procura de um estilo "luso-africano" de matriz popular - nada disso está aqui presente. Foram e fomos enganados.
Entre as compras do relatório abundam obras irrelevantes e preços muito superiores aos do mercado. Tudo ou quase tudo é muito mal feito e as responsabilidades da empresa Museus e Monumentos de Portugal E.P.E. devem ser apuradas.
Se não é possível escrutinar a idoneidade da Comissão nem ajuizar da qualidade das obras (vale tudo depois da "Merda de Artista" do Manzoni e da banana do Cattelan), pelo menos é possível averiguar como se formaram preços muito superiores aos do mercado, ou seja, falseados e especulativos.

É também o caso da pintura de Maria José Aguiar, que é sem dúvida a melhor obra do conjunto de aquisições. Ou é mesmo a única obra importante adquirida. De uma pintora original e admirada que escolheu há anos uma situação de invisibilidade face ao panorama aviltante das artes actuais. Mas o preço é exagerado e inverosímil (algum intermediário meteu a unha. Se não a própria comissão)
Não sou o único a dizer que se trata de casos de polícia.

Maria José Aguiar (Barcelos, 1948)

Festas das cruzes, 1974

Óleo e acrílico sobre tela, 160 x 130 cm

Valor de aquisição: €40.000


Impõem-se averiguações, estamos certamente perante casos de polícia.



2. Uma incorrecta homenagem a JoÃo Abel Manta

A ingénua ministra principiante não pode ser "incomodada" por estes dislates? O partido não percebe?
Quem escreve estas prosas oficiais disparatadas? "UMA CRÍTICA À BURGUESIA E AO CONCEITO DE FAMÍLIA"...!!!
"Fiel a uma conceção de arte como intervenção cívica, a obra em análise apresenta uma crítica à burguesia e ao conceito de família, recorrendo à representação de uma fotografia de retrato doméstico segundo os estreitos cânones formais oitocentistas."
Como se podem pedir responsabilidades a um organismo do Ministério da Cultura, a empresa MMP? A um governo de centro-direita assim infestado por complexados e provocadores (anónimos?) em rédea solta, sob tutelas ignorantes e desacreditadas, que deixam correr.
Infiltram-se aqui afirmações inconsequentes e interpretações erradas ao sabor das modas, agora parasitadas por um esquerdismo infantil.
João Abel Manta foi um homem de família, dos pais que herdou à família que criou e com quem viveu.
Falar em "crítica à burguesia" é também um abuso, e poderia dizer-se o contrário. Esta burguesia que retrata e de que faz parte é antiga e sólida, assumida como tal, digna e orgulhosa, uma burguesia consciente e interventiva - e não se trata de forma alguma de uma caricatura.


O texto oficial no Facebook:
"A profícua obra de João Abel Manta, um dos artistas plásticos mais marcantes da contemporaneidade, é lembrada sobretudo pelo cartoon político e pelos trabalhos associados à Revolução dos Cravos.
Contudo, ultrapassa amplamente esse âmbito. Fiel a uma conceção de arte como intervenção cívica, a obra em análise apresenta uma crítica à burguesia e ao conceito de família, recorrendo à representação de uma fotografia de retrato doméstico segundo os estreitos cânones formais oitocentistas.
📍Retrato da família Manta: Abel Manta, Clementina, João Abel Manta, Maria Alice e Isabel.
Século XX [1956]
João Abel Manta (1928)
Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado
Fotografia de José Pessoa
Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E / Arquivo de Documentação Fotográfica"

domingo, 17 de maio de 2026

2007, Margarida Correia, "THINGS" na 111

Margarida Correia

 05/18/2007 (no Blog Typepad, depois Wordpress, agora Blogspot)

Com Edgar Martins, com Brígida Mendes, com Margarida Correia, e outros haverá, muitas das fotografias de novos autores portugueses estão a ser feitas fora de portas. Importa agora a terceira, com uma primeira exposição na Galeria 111, "Things", depois da presença forte na Monumental em 2006, com "Saudade", onde tinha sido também possível consultar o prometedor catálogo de  "Gueiko e Maiko", de uma exposição em Torres Vedras. 

A partilha de espaços de escrita <no Expresso>tinha então adiado um primeiro comentário, e agora confirma-se que se consolida a coerência do trabalho e a continuidade dos processos e  projectos, com a variação suficiente para se tratar de um aprofundamento de direcções.  A revisão do percurso pode fazer-se em https://www.margaridacorreia.com/


 

 Living room I, 2006, C-Print (74 x 94 cm)  

Tratava-se então (2006) de uma série de trípticos ou de composições triplas, onde constavam uma fotografia familiar recuperada, em geral cena ou retrato de grupo; o registo isolado e objectivo, actual, de um objecto reconhecível nessa primeira imagem, quase sempre uma peça de vestuário (ou chapéu, óculos), e  de um retrato contemporâneo de alguém que usa esse mesmo objecto. Nesse jogo de reconhecimentos abria-se um trânsito entre épocas, gerações, gostos ou modas vestimentares, mas era também o retrato contemporâneo, em condições de encenação e cumplicidade com o fotógrafo, que se afirmava como género, ou como problematização de uma prática. De uma adivinhada circulação familiar (passando de mães a filhas os objectos e as suas memórias, ou situações) transitava-se também para uma relação de companheirismo entre artista e modelo. O que poderia ser um exercício escolar tinha uma eficácia e uma abertura de sentidos, uma suspensão de certezas, que lhe asseguravam outra projecção.    

Agora importam os cenários domésticos e os retratos neles situados, sempre discretamente expostos, avolumando-se uma ideia de concentração sobre dois lugares (Roterdão e Lisboa) e duas famílias, num processo de lenta aproximação do observador a espaços e relações de intimidade - o site confirma a identidade e a localização de duas séries paralelas. Importam as figuras retratadas, entre exposição e intimidade, os espaços ou cenários em que se incluem, a relação entre ambos (as figuras e os seus lugares), alguns objectos que  assumem uma presença mais relevante e certamente significativa, algumas redes de relações familiares que se sugerem ou esboçam, mas também os lugares por si mesmos, só parcialmente ou parcimoniosamente legendados. Há sempre sucessivas leituras para cada fotografia, isolada, em sequência, revendo-se o conjunto, etc.

Numa grande variedade referencial das imagens fotográficas, surgem fotografias isoladas (retratos, pormenores de interiores domésticos, objectos), mas também dípticos e trípticos, por vezes incluindo páginas de álbuns fotografadas onde se reencontram os objectos vistos nas fotos actuais. Havendo um prévio projecto estabelecido, a produção dos trabalhos (as fotografias isoladas ou em séries) parece construir-se como o avolumar da distância entre o programa e o resultado - nada é óbvio ou unívoco. A cada aproximação as imagens parecem resistar mais à ideia da ilustração de um projecto, ganham  sempre mais  densidade significante,  atraem mais a curiosidade   do observador e mantêm-no à distância.

Note-se como mesmo no caso mais directo de apropriação de uma fotografia anterior se criam as sucessivas instabilizações de sentidos, num contexto (ensaio ou ficção?) em que o que se vê é sempre a pequena parte do iceberg.

(?) 


Daphne de Jong, MOMA (1982), 2006, C-Print, 25" x 20" (64 x 51 cm)




sexta-feira, 15 de maio de 2026

1987, "OS PINTORES DA EUROPA" à escolha para Estrasburgo em 16 de maio

 OS PINTORES DA EUROPA, parte I, 16 maio 1987

Propostos 16 pintores para a escolha de 2 nomes pelos leitores do Expresso


1987, "OS PINTORES DE EUROPA", exposição-concurso e colóquio

 UM EPISÓDIO EUROPEU EM 1987, OBVIAMENTO ESQUECIDO

A PINTURA DA EUROPA APRESENTADA EM ESTRASBURGO, EXPOSIÇÃO CONCURSO por iniciativa da revista EIGHTY

16 países e 75 artistas - 4 portugueses. 

Por Portugal: António Dacosta e Graça Morais, por escolha dita institucional; Paula Rego e Eduardo Batarda escolhidos por votação "popular". Participaram na selecção o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, o Tempo e o Expresso (4 páginas e "16 PINTORES DOS ANOS 80", na Revista de 16 maio)

Arquivo Expresso, 12 dezembro 1987 (artigos de José Luis Porfírio: "Grandes e pequenos em Estrasburgo" e A P: "Por um lugar no mercado" - exposição e colóquio no Parlamento Europeu com Bonito Oliva)

terça-feira, 5 de maio de 2026

2026, "Tratado", livro de amigos e de retratos do José M. Rodrigues, edição EGEAC

 Já saiu o livro da exposição do José M. Rodrigues na Galeria Avenida da Índia, 28 09 a 22 12 2024. "Tratado". Era um espaço ingrato, árido, enorme, mas o livro é perfeito.

São retratos de amigos e familiares, tornados intimidades fotográficas e exercícios de invenção do que pode ser o retrato. Sempre em poses demoradas, pensadas caso a caso, ao ritmo (não ao acaso) das relações, das cumplicidades, das situações de comunicação mútua, intercomunicação encenada e afinal sempre surpreendida, vivida e/ou vívida. É um trabalho muito pessoal, mesmo íntimo, mas aberto, uma escolha de amigos que paradoxalmente se dirige a todos os não-participantes e observadores disponíveis. Retratos frontais ou não (os rostos ocultados, até por vezes de costas), dialogando com a paisagem ou o próximo ambiente natural, a vegetação, com alguma iluminação dirigida e por vezes com uso de espelhos. Mãos, cabelos, corpos, alguns auto-retratos não narcísicos, rostos singulares ou grupos de 2 e 3, nomes com datas nos títulos, no final, em geral muito recentes (2022-24) mas também vindos desde 1996 - o retrato e/ou a presença de modelos, os rostos e corpos, são uma das muitas "vertentes" da muito extensa e diversa obra do José Rodrigues.
Magnífica impressão na Maiadouro, em apenas 300 exemplares, edição EGEAC / Galerias Municipais. 40 fotografias em páginas duplas, abreviando a exposição.
Magnífico design gráfico de Arne Kaiser https://www.arnekaiser.com/ Os livros são cosidos e todas as fotos ocupam mais do que uma página, com cortes meticulosamente medidos.
Textos a ler de Óscar Faria, comissário da exposição, de José Bértolo sobre "alguns livros de José M. Rodrigues", do próprio artista e dos responsáveis pela programação da galeria (Sara Antónia Matos e Pedro Faro).

2022, viagem a Gandía: Fideuà uma reportagem

 Fideuà em Gandía (aliás Daimús), 01 10 2022, uma festa familiar, uma narrativa:

segunda-feira, 4 de maio de 2026

2026, o José Manuel Rodrigues e Gandía, memórias nos seus 75 anos

 A fotografia e o resto



Desfoco da fotografia para me lembrar de uma viagem directa a Gandía com o Zé, partilhando o volante. Abaixo de Valência, aonde nunca tinha descido; a cidade de onde partia a família dos Bórgias no século XV - o Zé dedicou-lhe uma série conceptual "La producció de la presència", em 2010, evocação teatralizada dos tempos dos três papas, com que interveio nas celebrações do 5º centenário do nascimento de São Francisco de Borja (foi o 4º duque de Gandia, 1510-1572; wiki/Francisco_de_Borja).


Era então (01 a 04 outubro 2022) o tempo das festas -- Fira i Festes, em honra desse São Francisco, patrono da cidade --, nos inícios de outubro, e nunca vi nada assim: os espectáculos de rua ao longo do percurso demarcado, com excelentes teatros, orquestras e circos actualizados, e depois o cortejo nocturno dos demónios mascarados e do fogo de artifício lançado aos pés dos espectadores-participantes, ora em fuga ora envolvidos pela cor, fumo e pólvora: o Correfoc de la Colla de Dimonis numa "noite mágica de fuego y tradición", e em Espanha as festas antigas mantém uma energia única, organizada e vibrante (o grande Cristóbal Hara visitava-as com génio, e a Cristina García Rodero também). 

E igualmente em Gandía acedi à excelência das paellas locais (mais o fideuà e arròs a banda ou al forno) em festas familiares e almoços de fim de semana com casais amigos da Fabi. Uma ocasião sem paralelo de gastronomia convivial só acessível aos íntimos. Eram dois lados da Espanha viva, em toda a sua excelência.


Outra memória pode ser a das fotografias do Zé que aconteceu programar por três vezes. Parte substancial do meu gosto pela fotografia vem da lição do Zé, quando comecei a acompanhar os Encontros de Coimbra, aos quais trazia os seus contactos holandeses, quando era possível reunir no programa Nozolino, Molder, o José Rodrigues (ainda sem o M. de Manuel), mais a Ether de António Sena. Isto logo em 1982 nos 3ºs Encontros, ainda não havia o Albano, quando se afirmou a geração dos novos fotógrafos nacionais e já internacionais, quando o público da fotografia convergia em Coimbra. Foi um dos fundadores do grupo Perspektief de Roterdão, programava a respectiva galeria e trouxe "A touch of Dutch Photography".