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quinta-feira, 19 de março de 2026

1990 - 2026, índice artistas históricos, e modernos, exposições e outros (in progress)

 

1990 Monet, as séries de 1889 a 1900Royal Academy: "O novo velho Monet" (15-09)

1994 Poussin, Grand Palais, Paris: «Inesgotável Poussin» (29-10)

1995 Marino Marini, Museu do Chiado: "Esta arte de primitivos" (08-07)

1995 Cézanne, Grand Palais, Paris: "Razão e emoção" (28-10)

1996 Rouault, F Gulbenkian: "A condição humana" (03-02)

1996 Vermeer, Haia: "As cores do silêncio" (09-03)

1996 Balthus em Madrid, Reina Sofia:  "Da vida das imagens" (16-03)

    2000 Balthus de l'Autre Côté du Miroir", filme

    2001 Balthus (1908-2001): "A magia do real" 24/02

1996 Picasso Os retratos de..., MoMA Nova Iorque (31-08)

1997 Picasso e o Mosqueteiro, Museu do Chiado: "Picasso contemporâneo" (01-11)

1997 Picasso, Suite Vollard, Centro Cultural de Cascais
2001 Picasso, Suite 347,  Centro Cultural de Cascais: "Picasso inesgotável"  (08-09)
2006 Picasso«El Contemplador Activo», 1966 ed. 1981, C C Cascais: "Voltar a viver" (01-12)

 

2003 Gauguin, no centenário da morte: "Gauguin, o bárbaro" (03-05)

2004 Matisse, Lettres Portugaises litografias (24-01)

2005 Corot, Museo Thyssen, Madrid: "Corot por inteiro" (30-07)


e modernos

1995, Menez, necrologia, "Nome: Menez" (15-04)

1995, Kabakov no CAM, Encontros Acarte, "Arte total" (09-09)


1996, Bacon em Paris (Beaubourg)  (06-07)


as exposições 


1998 Espanha, OS 98' IBÉRICOS E O MAR, Expo'98, "Pistas para um fim de século" (15-08)

1998 Espanha, DE PICASSO A DALÍ, AS RAÍZES DA VANGUARDA ESPANHOLA, Museu do Chiado, Expo'98, "Espanha, reforma e revolução" (04-07)

1999, Espanha, Palácio Galveias, Pintura Espanhola e Cubana do Séc. XIX (Museu de Havana): "Viragem de século" (25-09)

2000, Espanha, Museu das Comunicações, Col. Telefónica, A FIGURAÇÃO RENOVADORA: "Espanha distante" (01-07)

 

2004 Català-RocaBarcelona/Madrid Anos 50, Galeria da Mitra, "A Espanha do interior" (13-03)


1999 "A Arte do Retrato. Quotidiano e Circunstância", Fund Gulbenkian, "Os rostos do poder" (30-10)

2005 «Mimesis. Realismos Modernos 1918-1945»,  Tomàs Llorens, Museo Thyssen, "Regresso ao real"  (19-10)

2006, Colecção Rau no MNAA,  "De Fra Angelico a Bonnard" (07-01)


e outros artistas

1995, NEMO em Lisboa, Street Art (02-09)



sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

2006, Picasso, «El Contemplador Activo», Centro Cultural de Cascais: "Voltar a viver"

Voltar a viver

01-12-2006

 

    As gravuras de um momento de crise na vida e na obra de Pablo Picasso, aos 85 anos 


 

 Pablo Picasso

«El Contemplador Activo»    

Centro Cultural de Cascais

«A Inspiração Trabalha e o Pintor Está de Mãos Cruzadas», 12 de Abril de 1967; cobre, ponta seca

 


Alguns preferem a inactividade de Duchamp. Com as suas sequelas, separou-se mais a arte e a artesania, dispensando qualquer qualificação ou habilidade técnica, o que «dessacralizava» a criação e prometia a democratização universal. No pólo contrário está a hiperactividade de Picasso, habilitada pelo que se chama saber fazer, talento, dom ou génio, que são atributos desigualmente distribuídos e de origem algo obscura.


A grande produção de obra gráfica pelo velho Picasso, que culmina nas «suites» 347 e 156, de 1968 e 69-71, ambas já mostradas em Cascais, não se explica por qualquer voragem mercantil, nem corresponde a uma última estabilização de processos. Na vertiginosa luta contra a morte que se avizinhava, ela procura ainda associar vitalidade e criatividade, num tempo em que o pintor, passados os 85 anos, se encontra já quase retirado do mundo. O período final, incompreendido nas exposições do Palácio dos Papas de Avignon (1970 e 73), é um dos cumes da obra de Picasso e enfrenta plenamente os caminhos contemporâneos que pareciam esquecê-lo - esse confronto está longe de se dar por encerrado.


Não é o caso de uma outra série de 60 gravuras em que Picasso trabalhou de Agosto a Dezembro de 1966 (com a junção de algumas peças posteriores), e que nunca decidiu editar, ultrapassada pelas «suites» referidas ou preterida por razões não ditas. Impressas postumamente nas oficinas de Pierre Crommelynk, o habitual gravador de Picasso que nelas trabalhara, seriam apenas lançadas no mercado no ano do centenário do nascimento, 1981, pela Galerie Louise Leiris.


Se a vida pessoal e a do seu tempo está sempre presente na obra de Picasso, sem que a mais profunda meditação sobre os problemas da pintura se distancie em busca de uma qualquer pureza ou autonomia, esta sequência de gravuras dá conta da mais grave das crises por que passou o pintor. O que continuou a referir-se como uma operação ao estômago (ainda no Dictionaire Picasso, de Pierre Daix, 1995), encobria um cancro na próstata. «Abriram-me como a um frango», brincava o pintor, enquanto reaprendia a viver diminuído na anterior equivalência pública entre potência sexual e artística. Interrompida a pintura por mais de um ano, Picasso recomeça a desenhar no cobre, com hesitações ou dificuldades visíveis. O tema o pintor e a modelo dá lugar crescente ao dos velhos e mulheres nuas, vendo-se o artista a si mesmo como espectador, enquanto o ateliê se torna sala de teatro; há falos que surgem como personagens, mas será só em séries seguintes («Rafael e a Fornarina», de 68, por exemplo) que a «excitação do fazer» segue com êxito os caminhos da sexualidade explícita. Esta é apenas uma produção de crise, quase sempre menor, embora iluminada por alguns súbitos fulgores.



sábado, 8 de setembro de 2001

Picasso, “Suite 347” em Cascais

 

Picasso (2001) – a “Suite 347”

1.
Picasso, «Suite 347»
   
(Centro Cultural de Cascais, Setembro – até 4 de Novembro)
Expresso Cartaz de 8/9/2001  (nota)


Exposta pela primeira vez na Galerie Louise Leiris a 19 de Dezembro de 1968, em Paris, é uma gigantesca série de gravuras que Picasso realizou no seu
atelier de Notre-Dame-de-Vie (Mougins) entre 16 de Março e 5 de Outubro
desse mesmo ano, em mais um ciclo de extraordinária energia ou
compulsão criadora, já cinco anos antes da sua morte mas com plena
posse dos seus meios.
Através de uma grande diversidade de formatos e continuando a explorar
todos os recursos técnicos da gravura, o velho artista regressa ao tema
espanhol da Celestina, parodia os pícaros e os mosqueteiros do Siglo de
Oro, dedica-se às cenas do circo e aos temas da mitologia
mediterrânica, para concluir com Rafael e a Fornarina, uma sequência de
21 gravuras que tomou lugar destacado na recente mostra parisiense
«Picasso Erótico» (a partir de 15 de Outubro, em Barcelona), mas que em
1968-69 só podia ver-se numa sala privada da galeria.
Nessa série, Picasso inspira-se em dois quadros de Ingres para evocar
mais uma vez, mas com uma veemência ou ousadia inédita, através do
famoso episódio amoroso da vida de Rafael, o tema do pintor e o
modelo-amante, na presença de um «voyeur», que é em geral o próprio
papa, mas pode ser também Miguel Ângelo ou o gravador Piero
Crommelynck. Pertencente à Fundação Bancaixa, de Valência, a
apresentação desta série de gravuras segue-se, em Cascais, às da "Suite
Vollard", datada dos anos 30, e «156», de 1970-72. (Até 4 Nov.)

2.
Expresso Cartaz de 15/9/2001

"Picasso inesgotável"
As gravuras completas da «Suite 347» expostas em Cascais. Uma explosão criativa de 1968

Ao longo das salas do Centro da Gandarinha, as gravuras de Picasso cobrem as paredes em filas compactas de duas ou três estampas sobrepostas. Alinhadas por ordem cronológica, muito diversas nas suas dimensões, técnicas e temas, são um espectáculo inesperado que não se poderá esgotar numa única visita. Aproveitando o facto de a entrada ser gratuita, há que dividir o percurso em etapas e voltar à exposição uma vez e outra.

São as páginas de um longo diário pessoal que se expõem, uma imensa
banda desenhada sem fio narrativo reconhecível, uma torrente de imagens
fantasistas feitas numa só explosão de humor (de bom humor) durante a
qual Picasso revisita muitos dos temas da sua obra, percorre as suas
memórias imaginárias de Espanha e dialoga com todos os maiores pintores
que o precederam, num exercício de criação que se diria totalmente
despreocupado, de tal forma é rápido e livre o traço inscrito nas
pranchas de cobre.

O nome da «Suite 347» refere o número das gravuras realizadas num
jacto de sete meses, entre 16 de Março e 5 de Outubro, e a data não é
indiferente. Não existe uma sintonização directa com os acontecimentos
desse ano, que se anunciaram em Fevereiro em Espanha e a partir de
Março se agravaram em Paris, até à paralisação geral da França, mas as
circunstâncias foram propícias à febre criativa em o velho pintor de 86
anos mergulhou.

Instalado no que foi o seu último atelier, com o nome profético de
Notre-Dame-de-Vie, em Mougin, Picasso estava recuperado da operação que
fizera no final de 1965 e o retiro em que vivia, controlado por
Jacqueline, torna-se com a crise política uma clausura total, apenas
furada pelo uso constante da televisão e do telefone. A gasolina falta
e interrompem-se as visitas dos amigos e galeristas. A única presença é
a de Aldo Crommelynck, o gravador inteiramente disponível ao seu
serviço, com um oficina montada nas imediações, que todos os dias lhe
traz as chapas preparadas e volta com as provas impressas.

De Gaulle aparece numa das gravuras (21-22 de Abril), caricaturado
de calças em baixo e armadura do tempo dos Filipes, com ar de não
compreender o que lhe estava a acontecer. Picasso também não entenderia
o curso dos acontecimentos e não é de política que se ocupa, ainda que
se possa associar aos ventos da contestação da época o carácter
irreverente e paródico das gravuras. No excelente catálogo que também
vem da Fundação Bancaja, de Valência, um texto de Brigitte Baer, autora
do catálogo «raisonné» da sua obra gráfica, busca algumas referências
factuais (filmes exibidos na televisão, o assassínio de Robert Kennedy,
por exemplo), mas as pistas são escassas para decifrar as charadas que
o pintor nos oferece.

É o universo autobiográfico da sua obra (não da sua vida) que
Picasso desenha, inteiramente entregue às fantasias sexuais e à revisão
livre de uma memória muito pessoal da história da Arte. «Picasso, a sua
obra e o seu público» é o título da primeira estampa, onde se
auto-retrata de perfil, e a sua imagem mais ou menos reconhecível surge
noutros desenhos, na figura de um velho que, de lado, no lugar do
«voyeur», contempla uma cena erótica. Há, por vezes, algo de pungente
nessa distância, mas mais do que a melancolia é a expressão do desejo e
um humor libertário que orienta toda a «suite», até à sequência quase
final dedicada aos amores de Rafael e Fornarina, nova variação,
raramente exposta, sobre o tema predilecto do pintor e o modelo.

O circo, com saltimbancos e palhaços, a mitologia clássica, com
raptos de sabinas, carros de combate gregos, bacantes e faunos, os
espadachins e mosqueteiros do «Siglo de Oro», a figura da Celestina (a
alcoviteira do século XV que retratara já durante o período azul)
servem de temas a uma produção que tem a figura da mulher, o corpo
feminino, como pólo inesgotável. Citando, de Velázquez a Monet, todos
os grandes antepassados directos, Picasso procede a uma esfusiante
dessacralização da arte.

sábado, 1 de novembro de 1997

1997, Picasso e o Mosqueteiro, Museu do Chiado, "Picasso contemporâneo" (1 e 2)

 Picasso contemporâneo

1 11 1997 e capa

Museu do Chiado





O MOSQUETEIRO foi o último personagem a entrar na galeria das criações de Picasso. A gola de renda, a cabeleira encaracolada, a barbicha afiada, o bigode espetado — e, eventualmente, o chapéu de plumas, a espada e os sapatos de fivela — definem a sua figura vinda do passado, da Espanha do Século de Ouro e da Ronda da Noite de Rembrandt. Aparece em desenhos dos finais de 1966, quando Picasso começava a sair da demorada convalescença que se seguira à intervenção cirúrgica do ano anterior (ablação de dois terços do estômago), e vai acompanhá-lo ao longo de mais cinco anos de trabalho. Sem contar com as gravuras, o mosqueteiro reconhece-se em 450 pinturas e desenhos, na produção torrencial e tumultuosa que realiza entre os 85 e os 90 anos (Picasso deixa de trabalhar no Outono de 72 e morre em 8 de Abril de 73).

É o último Picasso que está presente no Museu do Chiado, na primeira exposição da sua pintura que desde sempre se mostra em Lisboa. Não se tratou, agora, de fazer a impossível síntese de uma obra desmedida, que pretendesse recuperar de uma vez a «falha traumática que impediu gerações sucessivas de artistas e amadores do contacto directo com uma das mais impressivas revoluções do imaginário do século», como escreve Raquel Henriques da Silva no catálogo, referindo-se, em geral, à «invisibilidade nacional» da arte moderna. Na realidade, esta exposição de obras afinal muito recentes — note-se que são posteriores à quase totalidade das que apresentam no CCB os anos Pop de 60 — tem também o mérito de fazer vacilar as cronologias simplificadas que parecem sujeitar a arte a um devir evolucionista de curtíssimos ciclos, quase sempre redutor e niilista, ao mesmo tempo que nos faz participar da lenta e mais recente ainda descoberta da importância da obra tardía de Picasso (desta vez quase sem atraso, portanto). 

É esta a primeira vez que ao tema do mosqueteiro é dedicada uma exposição monográfica, apontando-o como uma presença maior da obra final de Picasso e questionando o sentido dessa figura de outros tempos que surgia no início de uma derradeira fase de vitalidade criativa, tão explosiva como soberana. O mosqueteiro reconhece-se aqui como uma espécie de alter-ego do pintor, de auto-retrato metafórico, sujeito de um último confronto com os seus contemporâneos de eleição, Greco, Velazquez e Rembrandt, referidos explicitamente em alguns destes quadros e desenhos. Nascido num período que pode ser visto como um derradeiro combate contra o envelhecimento e a morte, ele é igualmente o protagonista de uma última luta com a pintura, que é mais forte do que o pintor mas está tão ameaçada de morte como ele — segundo dizia Picasso, que assistira ao fim do academismo «pompier» e à academização de sucessivas vanguardas. 

A esse último período, ao mesmo tempo «sombrio e alegre», «mais vivo que nunca apesar dos avanços da morte», Michel Leiris aponta toda a ambiguidade de um mozarteano «dramma giocoso» (drama jocoso): o mosqueteiro é o fidalgo orgulhoso e patético, o pintor e espadachim burlesco, o herói mascarado de romance picaresco, trazido do «Grande Século» por um artista que ri da sua decadência física e continua a criar, nas suas séries paralelas de nus femininos, retratos de Jacqueline, pares, beijos, etc, as mais irreverentes pinturas do seu tempo. Com «a desenvoltura de um desenho libertado de todos os condicionamentos estilísticos e a intensidade das cores» (Leiris), Picasso desafia o tempo e todos os limites, possuído pela urgência de prosseguir infindavelmente um jogo sem regras estabelecidas, onde em cada quadro se convocam infindáveis memórias da pintura e ela novamente recomeça («Je n'ai fait seulement que commencer», citado por Hélène Parmelin), construindo-se sempre sobre o máximo risco de a destruir.

Quando foram mostradas pela primeira vez, no Palácio dos Papas de Avignon, em 70 e em 73, poucos foram os que souberam admirar a prodigiosa lição de vitalidade e invenção do velho pintor e lhe reconheceram um lugar no seu tempo. Mesmo um dos mais próximos comentadores, Douglas Cooper, falava de «garatujas incoerentes executada por um velho frenético». A resposta foi mudando nos anos seguintes, desde as exposições de Basileia (1981, «Picasso, das Spätwerk), do Guggenheim (83, «The Last Years») e «O Último Picasso», 87-88, Tate Gallery e Centro Pompidou. Mas, hoje ainda, esta exposição lisboeta não é, «apenas», a oportunidade de visitar um pintor moderno consagrado e arrumado numa prateleira histórica; é o encontro com uma obra contemporânea e um desafio colocado a um presente que raramente consegue erguer-se sobre a sua gigantesca herança. 

Comissariada pela directora dos Museus de Arles, Michèle Moutashar, a partir da colecção de desenhos que o pintor ofereceu ao Museu Réattu, «Picasso e o Mosqueteiro/Le Final des Mousquetaires» é uma magnífica pequena exposição. Com um total de 39 obras datadas de 1967 a 72, incluindo 16 pinturas mais desenhos e gravuras, é uma produção original para o Museu do Chiado e, como se disse, uma abordagem monográfica inédita. Feita de peças de excepção, mesmo se é em geral impossível fazer chegar a Portugal empréstimos dos museus centrais (ressalve-se a presença de uma tela do Metropolitan de Nova Iorque), e continuada por um catálogo onde os breves textos de Michèle Moutashar são sempre preciosos apoios de informação e de iluminação, escritos com o fulgor de quem se deixa seduzir pelo jogo da pintura.

Na entrada da Sala dos Fornos, os primeiros trabalhos expostos colocam o personagem do mosqueteiro sob a dupla invocação de Rembrandt e Velazquez e, por outro lado, na descendência de um tema mais amplo, o pintor e o seu modelo, que atravessa a obra de Picasso desde o regresso à figuração de 1914. 

Rembrandt é explicitamente representado nos pequenos desenhos que envolvem uma Cabeça de Mosqueteiro desenhada e estava de há muito (desde as gravuras da «Suite Vollard», de 34, ainda visíveis em Cascais) presente na sua obra, em retratos e na revisitações de alguns dos respectivos temas. Esse fascínio por Rembrandt, pelo pintor e pelo mais exímio dos gravadores, podia associar-se então ao exemplo da absoluta liberdade que o holandês praticara na sua obra mais tardia, com o risco da incompreensão dos contemporâneos (tal como sucedia nas últimas décadas de Picasso). E é com os sucessivos auto-retratos onde Rembrandt observava a sua decadência física que Picasso partilha a interrogação inquieta e desapiedada sobre o seu próprio envelhecimento como homem e como pintor. Os olhos vazios deste mosqueteiro são dois terríveis buracos negros que olham a morte ao espelho. 

Velazquez está certamente presente no Homem  com Gola de Renda, mas Picasso já o tinha directamente defrontado na sua série sobre As Meninas, de 57, e é com Rembrandt que o diálogo continua em Homem e Mulher Nua, onde retoma os gestos de A Noiva Judia. Aí, tal como sucede em Nu de Pé e Cabeça de Mosqueteiro e Nu de Pé e Mosqueteiro Sentado, trata-se de retomar o tema do pintor e do modelo, mas o quadro deixa de fazer referência ao espaço do atelier bem como ao trabalho do pintor diante da tela, com a dupla presença do modelo e da sua representação. O cenário desaparece e ambos os personagens ocupam um lugar frontal, nascem do quadro com a presença imediata e directa de um reflexo no espelho, com os olhos bem abertos de quem se olha para dentro de si mesmo, sem a mediação distanciadora que antes era o interrogar da obra realizada. O olhar penetrante ou a «mirada fuerte» de Picasso não nasce aqui de um teatro erótico de posse, desejo ou violação, e a figura feminina vai sendo sucessivamente mulher-modelo, criação arquetípica e presença sonhada.    

Na segunda sala, os mosqueteiros fumam cachimbo, atributo que lhes acentua o arspecto paródico de espadachins de opereta. Noutras telas que não vieram a Lisboa, o mosqueteiro também maneja o pincel, clarificando o trânsito das identidades, e nos quadros exibidos adiante ver-se-á que o grande retrato de aparato se completa com a espada. São sempre atributos da virilidade, mas o cachimbo, presente noutros inúmeros fumadores dos últimos anos de Picasso, confere também aos personagens um aspecto mais pensativo e nostálgico. Picasso fora proibido de fumar em 65 e essa privação associa-se à perda de outros prazeres, como o próprio declara a Brassai: «Foi a idade que nos forçou a parar, mas continua o desejo de fumar. É o mesmo quanto a fazer amor. Não fazemos mais mas ainda desejamos.»   

Na segunda galeria por onde continua a exposição, três outras telas de data posterior, interrompendo a sequência das gravuras e desenhos, estabelecem uma diferente e crescente intensidade dramática do itinerário, sem nunca se tratar de expressionismo, a declaração de estados de alma, mas sempre de fazer coincidir com a construção-desconstrução do corpo, na dissolução das formas e na tensão que ainda as conjuga, a sorte da pintura.  Richard Wollheim diz que «para Picasso a arte é o remédio vital, sobretudo quando se pratica como uma extensão da vida» (Painting As an Art), mas não é da busca da salvação que se trata. Identificando-se a pintura e o pintor no desafio de um último prolongar de todos os limites, a sua obra mantem intacta o questionamento dos poderes da arte e, contra todas as versões de puritanismo, dos poderes da imagem.

O primeiro espaço da exposição é feérico, na explosão do humor e da imaginação das figuras, nos achados de um desenho-pintura limitado ao essencial, na festividade da cor  — ou por vezes apenas a branco e preto, construindo rapidamente os volumes do corpo com o vazio da tela por pintar. Assiste-se, neste prolongar frenético da vida e da pintura, à conquista de uma facilidade que pode ser o reencontrar da urgência despreocupada da infância. No segundo  espaço, a diversidade dos suportes traz o emprego mais narrativo da gravura, que já não é o espelho público do pintor mas o detonador de uma incontinência voyeurista mais privada, de um imaginário erótico com curso livre, mais obscuro e mais cruel, onde o atelier se muda ainda em cena de bordel. Traz também o desenho, brincado na galeria de retratos imaginários dos mosqueteiros de Arles ou outra vez terrivelmente dramático no Mosqueteiro com Adaga que é figura de matador, identificação com a morte num derradeiro desafio. E ambos, gravura e desenho, na exigência de um traço sem emendas ou hesitações, comprovam, se necessário for, que a extrema vontade de simplificação das figuras e a uurgência dos gestos nada têm de uma  perda de qualidades, quase até ao fim.  





2 (nota) - 1997


Prolonga-se apenas até o fim de Janeiro a exp. «Picasso e o Mosqueteiro», que pela primeira vez apresentou em Portugal um conjunto significativo das suas pinturas. Dedicada ao último período da sua produção (1967-72), esta mostra oriunda do Museu Réattu, de Arles (tal como sucedera com a excelente retrospectiva do escultor Marino Marini, em 1995, também comissariada por Michèle Moutashar), tem a originalidade de revelar a importância de um último personagem do seu universo criativo, espécie de auto-retrato metafórico que vem empunhar por uma última vez a bandeira da pintura, em confronto com memórias de Rembrandt, El Greco e Velazquez e, simultancamente, com a sua própria decadência física e com a morte. 


Descobrir a obra de Picasso através das suas últimas obras é ter a oportunidade de participar em algo mais do que a descoberta de um «clássico" do século XX. 

Por um Iado, tem-se assistido a um interesse crescente pela releitura das obras tardias de artistas que num dado momento participaram de movimentos de vanguarda e seguiram depois longos percursos geralmente isolados e marginais à sucessão dos estilos colectivos (é o caso, nomeadamente, de Braque e de Bonnard, revistos pela Tate Gallery). Passa por aí a necessária revisão das ideologias modemistas. 

Por outro lado, a obra final de Picasso conheceu uma sequência de incompreensões que importaria reconsiderar: inicialmente rejeitada por uma crítica dominante ocupada com as versões minimalista e conceptual do modemismo tardio, quando das exposições de Avignon, em 1970 e 73, a última obra seria valorizada no final dessa década no quadro de um «regresso a pintura» que se associava ao neo-expresstonismo, proporcionando outros equívocos. Se a interpretação do modemismo por Greenberg tinha tentado desclassificar a obra realizada por Picasso desde os anos 30, a permanência e o revigoramento da sua pintura constituíam sucessivas desautorizações de um formalismo auto-referencial defendido enquanto narrativa histórica tomada como paradigma. Do mesmo modo, as tentativas de fundar a pós-modemidade sobre a ideia da morte da arte, a partir de uma suposta conclusão da história modernista (Danto, entre outros), esbarram com a reconsideração daquilo que o vanguardismo exclui do modemo. 

Por outro lado ainda, Picasso não é expressionista, no sentido exacto da procura de uma expressão espontânea e originária de uma alma ou um eu «profundos», de origem romântica e metafísica, desmentindo toda sua obra, «obstinadamente aplicada a dizer o real» (Jean Clair), as versões simplistas que reduzem os caminhos da pintura ao formalismo e ao expressionismo. 

Reconhecer Picasso como contemporâneo é um antídoto excelente para desconstruir a ingenuidade teórica que grassa por aí. Entretanto, já outra exposição de Picasso se anuncia (de novo em Cascais), com a série das 156 gravuras realizadas entre 1968 e 72... 



quarta-feira, 1 de janeiro de 1997

1997, Picasso, Suite Vollard, Centro Cultural da Gandarinha, Cascais

 Outubro 1997


FALTA de conhecimento directo da obra de Picasso é certamente uma das marcas distintivas da cultura visual portuguesa — corrija-se para incultura e aponte-se o exemplo recentíssimo de um catálogo oficial onde se atribui a Warhol a condição de «primeiro ou único artista do século XX»... Não pode deixar de ter consequências (porque um cromo não é o mesmo que uma pintura) que a primeira exposição monográfica dedicada a Picasso de que há memória tenha decorrido apenas em 1993, dedicada à colaboração com a Companhia de Serge Diaghilev e promovida pelos Encontros Acarte. Este mês, porém, a Câmara de Cascais traz-nos a série de cem gravuras, de 1930-37, que ficou conhecida como «Suite Vollard» e o Museu do Chiado anuncia para dia 28 uma outra exposição sobre obras mais tardias («Picasso e o Mosqueteiro, 1967-72»). Serão preciosas contribuições para que um artista que marcou incontornavelmente três quartos do século XX e tem sido objecto de constantes abordagens temáticas originais — que, com a sua obra desmesurada, é toda uma outra história da arte do século — deixe de ser um pintor «conhecido» mas não visto. 

Apresentada pela Fundação D. Luís, ligada à Câmara de Cascais, a exposição é uma das primeiras iniciativas do novo Centro Cultural da Gandarinha, ainda em construção. Numa pequena publicação que a acompanha, Rui Mário Gonçalves, Salvato Teles de Menezes, José Jorge Letria e José Luís Judas, seus responsáveis a diversos níveis, propõem-na como indicação do nível de intenções da sua actividade futura, e resta-nos esperar que o propósito sobreviva à circunstância eleitoral. 

As gravuras da «Suite Vollard» têm um lugar central na extensa obra gravada de Picasso (mais de 2200 números de inventário) e incluem algumas das suas mais belas produções. O seu título associa-as a Ambroise Vollard (1868-1939), o «marchand de tableaux» que apresentou a sua primeira exposição em Paris, em 1901. Editor de obra gráfica de Gauguin, Redon e Bonnard, e depois de Rouault e Chagal, entre muitos outros, Vollard lançara em 1913 a série «Os Saltimbancos», gravada por Picasso em 1904-05, e encomendou-lhe em 1927 as ilustrações para Chef-d'Oeuvre Inconnu de Balzac. Pouco depois propôs a realização de uma centena de gravuras sem tema preciso, que viriam a ser editadas já a seguir à sua morte e só foram postas em circulação no final da Segunda Guerra. 

A «série Vollard» é habitualmente dividida em conjuntos temáticos: cinco gravuras da «Batalha do Amor», o Minotauro (11) e o Minotauro Cego (quatro), retratos de Rembrandt (quatro) e Vollard (as três finais), mais um conjunto inicial de 27 trabalhos de temas diversos, realizados entre 1930 e 36, por vezes associados aos tópicos anteriores, e um mais extenso corpo central dedicado ao «Estúdio do Escultor», com 46 números. É essa a organização da mais conhecida das suas edições impressas, realizada por Hans Bolliger em 1956. Entretanto, a exposição é acompanhada por uma edição muito cuidada produzida pela fundação Bancaja, de Valência, de onde vêm as obras expostas, que segue uma outra ordenação, estritamente cronológica — deve notar-se, porém, que algumas datações são problemáticas e que os títulos não foram atribuidos pelo autor e são sempre meramente descritivos, variando conforme as edições (de «Abraço» a «Violação», por exemplo).

A sequência da montagem apresentada em Cascais diverge destas duas edições e opta, de um modo muito estimulante, por uma outra ordenação por temas (embora estes não constituam núcleos diferenciados), que é parcialmente coincidente com a sucessão cronológica. Dos primeiros nus isolados, «couples» e modelos adormecidos ou cenas tranquilas do «repouso do escultor» até às irrupções terminais das tauromaquias, à monstrificação dos corpos e ao tema do Minotauro, segue-se um percurso em se acrescentam sucessivamente novos motivos e se adensam as referências simbólicas, num crescendo de carga dramática que é coincidente com as circunstâncias da vida pessoal de Picasso (até à tentativa de divórcio de Olga, em 1935) e com o agravamento da situação política europeia (da subida de Hitler ao poder, em 33, até ao início da guerra de Espanha, em 36). Passo a passo, a atracção sexual torna-se ferocidade, a inocência do sono dá lugar à violência da luta, a posse é ritual de morte e surge o Minotauro como incarnação da bestialidade primitiva, parceiro ou personificação de Picasso.  

É habitual invocar a respeito da «Suite Vollard» a condição de um quase diário onde se registariam as alterações da vida e do humor de Picasso, ao longo dos sete anos da sua produção. Esse é o tempo em que a relação com Marie-Thérèse Walter domina a obra do pintor — a amante tomada como uma referência figurativa constante e o modelo de uma plasticidade ideal, o corpo juvenil e escultural que se reconhece, em paralelo, nas mais extremas metamorfoses físicas que acompanharam os anos de contacto com o surrealismo e nas cenas neo-clássicas que dominam a maioria das gravuras da série. À evolução por períodos estilísticos sucedera, para Picasso, a possibilidade da circulação constante pelas diferentes linguagens formais antes experimentadas, como na «Suite» se comprova.

Para Picasso, o início dos anos 30 fora um tempo de renovado interesse pela escultura, com a aprendizagem das técnicas do ferro soldado junto de Julio Gonzalez e depois com a modelação em relevo. Adquire então o «chateau» de Boisgeloup, perto de Gisors, a 80 Km de Paris, e aí instala um estúdio de escultura: datam de 31-32 as cabeças esculpidas de Marie-Théràse que estão presentes em inúmeras gravuras.

Tema dominante da «Suite», o estúdio do escultor está directamente associado a um dos tópicos mais persistente na obra de Picasso, o pintor e o seu modelo, surgido pela primeira vez em 1914, a interromper o período cubista, num retrato de Éva Gouel. Indissociável do tema do par ou do casal, que atravessa toda a sua obra da maturidade, o tema do pintor/escultor e do modelo pode entender-se como uma profunda meditação sobre a relação do artista com o seu trabalho, como metáfora da criação artística, demiúrgica, e é permanente referência mais ou menos explícita à sua própria vida emocional. Sabe-se desde os anos 60, e em especial desde a recente exposição «Picasso e o Retrato», em Nova Iorque e Paris, em 1996 (EXPRESSO, 1-9-96), que essa dimensão autobiográfica é essencial na obra de Picasso, sendo a representação da figura humana quase sempre referida aos seus amores, encontros e estados emocionais, etc.

domingo, 1 de setembro de 1996

1996, Os retratos de Picasso, MOMA NY

Os retratos de Picasso 

MOMA, NY

1 - 9 - 96



Depois desta exposição, é ainda mais difícil do que antes definir o que Picasso entendia por retrato. Quem o diz, com visível satisfação, aliás, é o próprio comissário, William Rubin, adivinhando o riso trocista do fantasma do pintor, que sempre gostou de pôr em causa as definições estabelecidas. A certeza das conclusões nem sempre é o mais importante num trabalho de investigação, por mais rigoroso e aprofundado que ele tenha sido, em especial quando está em causa o entendimento e a fruição das obras de arte. Ao contrário do que se poderia julgar, Picasso é ainda um pintor em grande parte desconhecido e pouco investigado.

«Picasso e o retrato», apresentada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque até 17 de Setembro — com passagem para o Grand Palais de Paris, entre Outubro e Janeiro, mas em versão reduzida — constitui a primeira tentativa para identificar, isolar e estudar os retratos pintados e desenhados ao longo da sua longa carreira (a consideração das esculturas não foi ainda possível, devido a limites de espaço e orçamento). Preparado durante cinco anos pelo ex-director do departamento de pintura e escultura do MoMA, desde 1988 seu director emérito, com a colaboração do Museu Picasso de Paris, este é um projecto muito mais complexo do que parece à primeira vista, porque os títulos das obras raramente distinguem a representação de uma pessoa realmente existente de uma figura imaginada ou genérica e, mais ainda, porque, perante a obra de Picasso, o critério tradicional da semelhança entre o modelo e a sua imagem nem sempre pode, ou deve, ser seguido. 

Os 130 quadros e 100 trabalhos sobre papel agora reunidos, alguns deles expostos pela primeira vez, e os muitos outros reproduzidos num catálogo com 757 ilustrações, não pretendem ser um inventário dos retratos que Picasso realizou ou sequer dos modelos que retratou. Pelo contrário, a exposição concentra-se apenas sobre as pessoas mais próximas ou mais decisivas na vida do pintor, todas elas sempre identificadas através de fotografias e curtas informações biográficas. A ordenação é globalmente cronológica, mas, como se de uma sucessão de mostras temáticas se tratasse, os retratos de cada modelo são exibidos em conjuntos separados, dando a ver como o mesmo rosto ou corpo foi sendo diversamente tratado ao longo do tempo, em consequência do aprofundar de um questionamento formal ou, noutros casos, em função da adopção sucessiva de diferentes estilos e por efeito provável da alteração da relação sentimental entre o artista e o seu modelo.   

O resultado é, em primeiro lugar, uma extraordinária exposição autobiográfica, em que figuram, como capítulos de uma espécie de imenso diário íntimo, os pais, os amigos da juventude em Barcelona, as mulheres e as amantes — as quais fornecem, naturalmente, desde Fernande Olivier até Jacqueline Roque, os conjuntos mais numerosos —, os companheiros de Paris, alguns coleccionadores e «marchands», os poetas preferidos  e os filhos do pintor, numa sequência de oito décadas de criação que termina com uma antologia de auto-retratos, incluindo as terríveis imagens do confronto com a morte, aos 92 anos. 

Através dessa galeria de retratos, que em grande parte se poderá ver como um impressionante testemunho confessional sobre a turbulenta vida afectiva de Picasso, é toda  a evolução da sua pintura que a exposição percorre, num exaustivo documentário sobre a inextricável ligação entre a vida e a obra do pintor, que é igualmente uma incessante interrogação da natureza e dos limites da representação pictural. 


NOVOS ESTILOS...


Só muito raramente Picasso realizou retratos por encomenda ou pintou alguém com quem não mantivesse uma forte relação intelectual ou sentimental. O retrato, para ele, é sempre a ocasião, ou o resultado, de um investimento emocional, mas também, em diversos momentos da sua carreira, a marcação privilegiada de uma nova linguagem formal, por exemplo nos casos do retrato de Gertrude Stein, de 1906, ou dos retratos masculinos do período do cubismo analítico, em 1910.  Sabe-se que o retrato da escritora foi iniciado com uma série de mais de 80 sessões de pose, sem resultados tidos por satisfatórios; mais tarde, depois de um verão passado em Gosol, sob o impacto da descoberta da estilização hierática das esculturas do românico catalão, o rosto antes apagado foi rapidamente substituído, de memória, por uma espécie de máscara, de desenho esquematicamente escultural — a solução é a mesma do retrato de Fernande Olivier em Mulher Penteando o Cabelo, da mesma data. A seguir viriam As Meninas de Avignon, o interesse pela esquematização primitivista da «arte negra» e o início do cubismo. 

Quanto aos retratos dos «marchands» Wilhelm Uhde, Ambroise Vollard e Daniel-Henry Kahnweiller, realizados já em plena fase do cubismo analítico, eles parecem funcionar como um teste à possibilidade de manter a semelhança fisionómica num processo de crescente abstractização e conceptualização dos dados visuais, onde a figura se torna cada vez menos reconhecível. A evolução da arte moderna, «libertando-se» dos dados perceptivos para reduzir as formas naturais à respectiva estrutura geométrica, parecia conduzir à impossibilidade do retrato, no momento da deflagração da Primeira Guerra. Retrato de Rapariga, de 1914, é certamente uma celebração de Éva Gouel, mas a hipótese da veromilhança perdera-se com a rejeição do ilusionismo espacial; noutros quadros do mesmo período do cubismo sintético Picasso teve de recorrer à incorporação  de frases escritas («Ma Jolie», «J'aime Eva») para declarar o seu amor.

Pouco depois, porém, cada sequência de retratos das mulheres que Picasso amou e pintou volta a poder ser visto, na expressividade própria de cada um e na diversidade das opções estilísticas sucessivamente adoptadas, como um barómetro dos estados de alma do pintor ao longo de cada uma das suas relações sentimentais. Neles é possível «ler» toda a gama de afectos que vai do desejo à plenitude erótica, da atracção fascinada à dominação, da inquietação ao cansaço ou mesmo ao ódio. Para Picasso, os retratos femininos podiam ser instrumentos de sedução, declarações de amor, registos dos dramas quotidianos ou, terminada a paixão, actos de tortura e exorcismo. 


... E NOVAS AMANTES


O carácter autobiográfico desses retratos deu origem à banalização de uma fórmula que pretende justificar cada período e estilo da obra de Picasso pela entrada de uma nova mulher na sua vida. Fernande Olivier é vista como a musa do período «ibérico» e dos primeiros estádios do cubismo; Olga  Kokhlova identifica-se com o intervalo neo-clássico; Marie-Thérèse Walter dá lugar à fase das metamorfoses surrealizantes; Dora Maar inaugura um expressionismo angustiado, etc. A sequência da exposição torna evidente o simplismo de tal interpretação, mas também comprova a impossibilidade de uma leitura estritamente formalista das mutações estilísticas, orientada por uma busca de motivações puramente plásticas e que ignore a importâncias dos conteúdos expressivos, emocionais e biográficos presentes em cada obra e em cada fase da carreira.  

W. Rubin, que é com certeza o mais competente dos investigadores da obra de Picasso e que, em 1980, também no MoMA, lhe dedicou a mais completa das retrospectivas, com um milhar de obras, tem sobre aquela fórmula uma posição de complexa ambiguidade. Declara taxativamente que «a linguagem artística de Picasso não é determinada pelas entradas e saídas de diferentes amantes na sua vida», mas acrescenta de imediato que «é possível considerar, pelo contrário, que essas entradas e saídas eram determinadas pelo desejo que tinha Picasso de explorar diferentes tipos de experiências artísticas e emocionais».

O mesmo historiador escrevera, a propósito da utilização de objectos tribais (a «arte negra») como pontos de partida de trabalhos de Picasso, que mais do que a fonte de inspiração, nos casos em que é possível identificá-la, o que importa é a metamorfose a que o pintor a sujeita: o que acontece no fazer de um quadro. Ou seja, a identificação de um determinado modelo não explica o tratamento plástico que lhe é dado, mas é um dos factores a ter em conta numa conjunção interpretativa que envolve circunstâncias biográficas, psicológicas, históricas e formais. Por outro lado, Rubin recorda que a constante mutação estilística de Picasso corresponde a uma necessidade sistematicamente sentida pelo pintor de contrariar os riscos do seu próprio virtuosismo, impedindo-se de se fixar num formulário, na assinatura de um estilo e na facilidade do auto-academismo. Picasso entendia o estilo como uma armadilha em que um artista se pode deixar cair, coartando-se a possibilidade de concretizar na sua pintura toda a possível riqueza pictural do seu pensamento e identidade.

Entretanto, o filósofo Arthur Danto, na crítica que dedicou à exposição («The Nation»), faz do lugar-comum de que Picasso inventaria um novo estilo cada vez que se apaixonava por uma mulher uma interpretação igualmente sugestiva: «na medida em que tal é verdade, o estilo pertence à mulher em questão como um atributo seu, como o que ela é para o artista que a ama.»

Num artigo entusiástico que não é fácil compatibilizar com a teoria da arte que desenvolveu, onde faz de Duchamp e Warhol os vectores de um processo evolucionista em direcção ao fim da arte, Danto diz que «Picasso pinta o seu amor, o seu ódio, o seu desdém, o seu desespero, a sua perplexidade, a sua enfermidade, e é por isso que uma exposição apenas de retratos é o melhor caminho para o seu mundo. É como viver a sua vida com ele.» 

Apesar de considerar a invenção do cubismo como a sua maior contribuição, Danto previne que «Picasso não desenvolveu o cubismo para revelar uma estrutura exterior do mundo mas para projectar uma íntima estrutura de sentimentos e atitudes sobre o que no mundo despertava as suas emoções.» Na sua obra, acrescenta, «o mundo real é metabolizado e apresentado ao observador como energia emocional transcrita e tornada visual». No entanto, a complexidade do processo criativo mantem-se por inteiro, quando diz que «a obra artística de Picasso é uma vasta autobiografia pictural, mas é impossível inferir da sua vida o entendimento das suas realizações formais como artista». 


ROSTOS COM NOME


Particularmente significativo é o exame a que a exposição sujeita a habitual identificação do período neo-clássico de Picasso com Olga Kokhlova, a bailarina dos Ballets Russes de Diaghilev que o pintor conheceu em 1917 e desposou no ano seguinte. É sabido que a ela são dedicados os retratos mais realistas, mas que, ao mesmo tempo, Picasso prosseguia as realizações sintéticas e esquemáticas de novos sub-estilos cubistas. No entanto, não é com Olga que se inicia o retorno à representação descritiva, mas exactamente com a já referida Éva Gouel. Data de 1914 uma pintura deixada inacabada e só conhecida depois da morte de Picasso, O Pintor e o Modelo, onde se inclui o seu único retrato «clássico» (Éva morreu no ano seguinte). 

Segue-se a esse ensaio, uma série de retratos desenhados de Max Jacob, Vollard e Apollinaire, de 1915-16, que são momentos decisivos do processo de reconquista da possibilidade do retrato, recuperando a exacta descrição fisionónima, num estilo que é também uma revisitação deliberada do classicismo de Ingres. É sobre essa direcção de trabalho que vem depois incorporar-se a presença de Olga, não sendo esta, ou o universo mundano que o pintor passara a frequentar, que justificam a viragem. 

Toda a complexidade da relação entre os dois estilos, cubista e neo-clássico, simultaneamente prosseguidos, pode ser revelada por uma muito «abstracta» pintura de 1920, Mulher numa Cadeira de Braços, onde Rubin reconheceu um retrato transformado de Olga através do exame com infravermelhos: subjacente ao estádio final encontra-se uma composição clássica na mesma posição e com contornos coincidentes, incluindo o livro que dá origem ao rectângulo ao centro da parte inferior. Desenhos preparatórios confirmam a metamorfose do modelo até à linguagem do chamado cubismo curvilinear.

Por outro lado, é ao mesmo tempo que a tensão se exacerbava no seio do casal Picasso, a partir de 1925, que a figura de Olga se torna menos naturalista e tende para uma espécie de deformação surreal, que culmina em imagens de um monstro predador, seco e agressivo. A temível Banhista Sentada, de 1930, onde o corpo se reduz ao esqueleto estilhaçado e o rosto ao emblema da «vagina dentata», numa imagem que influenciou muito surrealismo biomórfico, é ainda um retrato de Olga, segundo uma confidência feita muito mais tarde pelo pintor. 

Entretanto tinha entrado em cena Marie-Thérèse, a quem o pintor dedicou os retratos onde é mais explícita a expressão da satisfação sexual, mas, por muito tempo a nova modelo-amante-musa foi apenas um corpo e um rosto sem nome. O ano de 1927 foi referido por ambos como data do primeiro encontro, embora investigações recentes a façam recuar um ou dois anos; a questão é polémica, até porque Marie-Thérèse teria então apenas 15 anos, mas Rubin reconhece a existência de desenhos e óleos que a retratam já no inverno de 1925-26. 

Por outro lado ainda, a identificação também recente de Sara Murphy como outra das paixões de Picasso, veio ocupar um inesperado lugar na interpretação do período dito neo-clássico, uma vez que numerosas obras de 1922-23, antes consideradas como representações genéricas da beleza ideal ou sugeridas pela maternidade de Olga, têm afinal por referência um outro modelo e uma outra história sentimental, mas esta, por uma vez, uma «abortada canção de amor» (Rubin). Mulher de Branco, de 1923, é um dos seus testemunhos. Sara era uma bela e rica americana que chegara a Paris em 1921 com o marido e os filhos, entrando rapidamente nos círculos de artistas e escritores (Fitzgerald fez deles os protagonistas de Terna É a Noite). Rubin conseguiu entretanto comprovar, através de exames radiológicos e da observação de estudos preparatórios que o misterioso quadro A Flauta de Pã, de 1923, é o resultado da transformação de uma inicial composição alegórica em que Sara começou por ocupar o lugar de Venus.

Dora Maar entrou em 1936 na vida de Picasso, mas sem substituir a presença sempre discreta de Marie-Thérèse, e surge não exactamente associada a um outro estilo, mas a um novo tipo de mulher. Fotógrafa e pintora ligada aos surrealistas, Dora foi a companheira activa dos anos dramáticos da Guerra de Espanha. Em dois quadros realizados no mesmo dia de 1939, em telas das mesmas dimensões e com a mesma pose, embora certamente sem a presença directa dos modelos, Picasso representou sucessivamente ambas as mulheres com quem partilhava a sua vida, no que parece ser uma meditação sobre o sentido de cada uma das suas relações. O rosto sereno de Marie-Thérèse e a inquietação «expressionista» do de Dora prolongam-se nas curvas suaves de uma e no corpo tenso de outra; Marie-Thérese ocupa um espaço fechado ao exterior, íntimo e recolhido, enquanto com Dora as janelas se abrem para o exterior. 

Muito mais tarde, os 21 retratos de Jacqueline Roque exibidos na exposição são, nas últimas duas décadas de vida do Picasso, a mais comovente demonstração da diversidade estilística a que um mesmo modelo pode dar lugar, evidenciando como cada linguagem desenvolvida pelo pintor — esquemática (cubista), surreal, clássica e expressionista — podia ser permanentemente recuperável e objecto de renovadas explorações.


REINVENTAR O RETRATO


Não é tarefa fácil, nem pacífica, distinguir na produção imensa de Picasso, quase sempre dedicada à figura humana, o que seriam as representações intencionais de pessoas reais, levadas a cabo como retratos «exactos» ou transformados, e, por outro lado, as composições em que a utilização de um modelo concreto deve ser vista como motivo plástico ou exercício de especulação narrativa e ainda as imagens onde se sobrepõem traços de dois ou três modelos ou que correspondem à criação de rostos e corpos idealizados ou alegóricos. 

Picasso não gostava de dar títulos às obras, tal como detestava discutir classificações e terminologias artísticas. No «catálogo geral» da sua obra publicado por Christian Zervos, com a colaboração do pintor, quer a palavra retrato quer a identificação de um determinado modelo surgem de modo aleatório e até contraditório, para além de serem em número ínfimo entre a maioria esmagadora de designações como mulher reclinada, cabeça de mulher, banhista, nu, mãe e filho, etc.

O próprio carácter confessional das obras e a necessidade de manter a discrição sobre as relações clandestinas justificavam os títulos genéricos, em especial durante o demorado episódio da frustrada tentativa para se divorciar de Olga: o nome de Marie-Thérese, por exemplo, foi mantido sempre secreto, mesmo quando a sua presença esplendorosa dominava as exposições da primeira metade dos anos 30. Depois, o livro de Françoise Gilot, Life with Picasso, em 1964, veio publicitar a vida sentimental de Picasso e deu origem a penosas intrigas jornalísticas. Entretanto, o próprio pintor ía procedendo a identificações de modelos em confidências, nas últimas décadas de vida, aos seus biógrafos oficiais Pierre Daix e John Richardson, ou a W. Rubin.

Não é a devassa da vida privada de Picasso que motiva a exposição de Nova Iorque, mas o entendimento do modo como Picasso concebia o retrato e do papel essencial que nele tem a metamorfose do modelo, a qual deve ser vista como ruptura decisiva com a tradição estabelecida do retrato pictural — e mesmo com o retrato expressionista, já no século XX. É particularmente significativo o facto de, ao contrário do que se poderia supor, muitas das representações mais esquemáticas corresponderem a um processo de conceptualização realizado diante do modelo, usando os diversos modos figurais disponíveis, enquanto outros retratos de exacto realismo foram feitos com recurso à sua prodigiosa memória visual. 

O título da exposição traduz todo o carácter problemático da definição do retrato na obra do pintor. Em vez de «os retratos de Picasso», Rubin intitulou-a «Picasso e o retrato: representação e transformação». E em inglês a palavra «portraiture», que é arte do retrato ou da representação, tem um sentido mais amplo que «portrait».

Em cada série invidividual dedicada aos diferentes modelos de Picasso, incluem-se tanto as pinturas e desenhos que podem ser considerados como retratos segundo a interpretação convencional do termo, ou seja, onde se procura comunicar a aparência e a personalidade de modelo cumprindo a condição da verosilhança, como aqueles em que a representação ou referência a um rosto concreto surge totalmente transformada e até irreconhecível. 

Com esta opção, polémica para alguns, a exposição põe radicalmente em causa a noção tradicional de retrato, que tem a semelhança fisionómica por critério, considerando Rubin que Picasso redefiniu os parâmetros e as possibilidades do retrato como género, mais do que qualquer outro pintor da era moderna.

Picasso, segundo a sua tese, não abandonou o realismo, mas deixou de atribuir ao seu entendimento tradicional um papel privilegiado na definição do retrato, dissociando-o de uma obrigatória relação com os dados da percepção directa, na sequência do que, logo em 1912, Apollinaire apontava como ruptura inaugural da arte do século XX na passagem da «arte de imitação» à «arte conceptual».

De acordo com o historiador, Picasso transformou o retrato entendido como documento intencionalmente objectivo, que pressupõe um paralelismo visual entre a coisa vista e a sua imagem, num documento abertamente subjectivo. O retrato passa a ser o registo da reação pessoal do artista perante o seu tema.

É, depois da fotografia, a questão da permanência do retrato na arte do século XX, como prolongamento de uma tradição anterior ou sua renovação radical, que está em causa.  E é também por isso que W. Rubin conclui o seu estudo principal no catálogo estabelecendo um surpreendente paralelo entre Picasso e Leonardo da Vinci, o autor do mais famoso e influente retrato da arte ocidental. Com Mona Lisa, o sentido de intimidade entre o artista e o seu modelo já passara a integrar a tradição do retrato ocidental, e existe uma afinidade profunda entre os dois artistas na capacidade para utilizar pormenores formais para servir intenções expressivas, por exemplo para evocar a tensão psicológica enfatizando a assimetria do rosto humano. «O pintor pinta-se sempre a si próprio», era uma frase de Leonardo que Picasso gostava de repetir.