segunda-feira, 18 de maio de 2026

2026, MMP, AVERIGUAÇÕES : "Colecção do Estado", 3 obras de PANCHO GUEDES + valores de compra absurdos + Disparates oficiais sobre JOÃO ABEL MANTA

Duas notas no Facebook e dois casos comunicados por email à empresa Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E.

1. "ALGUÉM ESTÁ METER A UNHA NAS COMPRAS DO ESTADO (do Estado da Sandra).

A tal comissão que compra obras para a chamada Colecção do Estado adquiriu em 2025 três trabalhos de PANCHO GUEDES - Família vegetal, 1974 / A força do seu olhar, 1996 / Um navio aborigene, 2005 - que de modo algum representam adequadamente a sua produção de pintor. Raramente Pancho Guedes aceitou vender obras da sua autoria, mas estas peças estiveram há alguns anos presentes na exposição individual de uma galeria (vendeu-as ou estiveram em depósito?). Agora integraram as aquisições da Comissão segundo o relatório comunicado. Onde foram buscar estas obras?

Pancho Guedes [Lisboa, 1925 - Joanesburgo, África do Sul, 2015]

"Família vegetal", 1974 / "A força do seu olhar", 1996 / "Um navio aborigene", 2005

Guache sobre papel, 51 x 73 cm / Acrílico sobre tela, 50 x 40 cm /

Tinta-da-china sobre papel, 21 x 30 cm

Valor de aquisição: €41.032

É grave a compra de três obras insuficientemente representativas (a haver Colecção ela deve fazer escolhas seguras e garantir acesso ao melhor) e é grave o preço especulativo que se afirma ter pago. Para além da muito original obra de escultura em madeira, Pancho Guedes fez uma pintura importante pela relação com a sua arquitectura, pela intenção do comentário sócio-político e pela procura de um estilo "luso-africano" de matriz popular - nada disso está aqui presente. Foram e fomos enganados.
Entre as compras do relatório abundam obras irrelevantes e preços muito superiores aos do mercado. Tudo ou quase tudo é muito mal feito e as responsabilidades da empresa Museus e Monumentos de Portugal E.P.E. devem ser apuradas.
Se não é possível escrutinar a idoneidade da Comissão nem ajuizar da qualidade das obras (vale tudo depois da "Merda de Artista" do Manzoni e da banana do Cattelan), pelo menos é possível averiguar como se formaram preços muito superiores aos do mercado, ou seja, falseados e especulativos.

É também o caso da pintura de Maria José Aguiar, que é sem dúvida a melhor obra do conjunto de aquisições. Ou é mesmo a única obra importante adquirida. De uma pintora original e admirada que escolheu há anos uma situação de invisibilidade face ao panorama aviltante das artes actuais. Mas o preço é exagerado e inverosímil (algum intermediário meteu a unha. Se não a própria comissão)
Não sou o único a dizer que se trata de casos de polícia.

Maria José Aguiar (Barcelos, 1948)

Festas das cruzes, 1974

Óleo e acrílico sobre tela, 160 x 130 cm

Valor de aquisição: €40.000


Impõem-se averiguações, estamos certamente perante casos de polícia.



2. Uma incorrecta homenagem a JoÃo Abel Manta

A ingénua ministra principiante não pode ser "incomodada" por estes dislates? O partido não percebe?
Quem escreve estas prosas oficiais disparatadas? "UMA CRÍTICA À BURGUESIA E AO CONCEITO DE FAMÍLIA"...!!!
"Fiel a uma conceção de arte como intervenção cívica, a obra em análise apresenta uma crítica à burguesia e ao conceito de família, recorrendo à representação de uma fotografia de retrato doméstico segundo os estreitos cânones formais oitocentistas."
Como se podem pedir responsabilidades a um organismo do Ministério da Cultura, a empresa MMP? A um governo de centro-direita assim infestado por complexados e provocadores (anónimos?) em rédea solta, sob tutelas ignorantes e desacreditadas, que deixam correr.
Infiltram-se aqui afirmações inconsequentes e interpretações erradas ao sabor das modas, agora parasitadas por um esquerdismo infantil.
João Abel Manta foi um homem de família, dos pais que herdou à família que criou e com quem viveu.
Falar em "crítica à burguesia" é também um abuso, e poderia dizer-se o contrário. Esta burguesia que retrata e de que faz parte é antiga e sólida, assumida como tal, digna e orgulhosa, uma burguesia consciente e interventiva - e não se trata de forma alguma de uma caricatura.


O texto oficial no Facebook:
"A profícua obra de João Abel Manta, um dos artistas plásticos mais marcantes da contemporaneidade, é lembrada sobretudo pelo cartoon político e pelos trabalhos associados à Revolução dos Cravos.
Contudo, ultrapassa amplamente esse âmbito. Fiel a uma conceção de arte como intervenção cívica, a obra em análise apresenta uma crítica à burguesia e ao conceito de família, recorrendo à representação de uma fotografia de retrato doméstico segundo os estreitos cânones formais oitocentistas.
📍Retrato da família Manta: Abel Manta, Clementina, João Abel Manta, Maria Alice e Isabel.
Século XX [1956]
João Abel Manta (1928)
Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado
Fotografia de José Pessoa
Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E / Arquivo de Documentação Fotográfica"

domingo, 17 de maio de 2026

2007, Margarida Correia, "THINGS" na 111

Margarida Correia

 05/18/2007 (no Blog Typepad, depois Wordpress, agora Blogspot)

Com Edgar Martins, com Brígida Mendes, com Margarida Correia, e outros haverá, muitas das fotografias de novos autores portugueses estão a ser feitas fora de portas. Importa agora a terceira, com uma primeira exposição na Galeria 111, "Things", depois da presença forte na Monumental em 2006, com "Saudade", onde tinha sido também possível consultar o prometedor catálogo de  "Gueiko e Maiko", de uma exposição em Torres Vedras. 

A partilha de espaços de escrita <no Expresso>tinha então adiado um primeiro comentário, e agora confirma-se que se consolida a coerência do trabalho e a continuidade dos processos e  projectos, com a variação suficiente para se tratar de um aprofundamento de direcções.  A revisão do percurso pode fazer-se em https://www.margaridacorreia.com/


 

 Living room I, 2006, C-Print (74 x 94 cm)  

Tratava-se então (2006) de uma série de trípticos ou de composições triplas, onde constavam uma fotografia familiar recuperada, em geral cena ou retrato de grupo; o registo isolado e objectivo, actual, de um objecto reconhecível nessa primeira imagem, quase sempre uma peça de vestuário (ou chapéu, óculos), e  de um retrato contemporâneo de alguém que usa esse mesmo objecto. Nesse jogo de reconhecimentos abria-se um trânsito entre épocas, gerações, gostos ou modas vestimentares, mas era também o retrato contemporâneo, em condições de encenação e cumplicidade com o fotógrafo, que se afirmava como género, ou como problematização de uma prática. De uma adivinhada circulação familiar (passando de mães a filhas os objectos e as suas memórias, ou situações) transitava-se também para uma relação de companheirismo entre artista e modelo. O que poderia ser um exercício escolar tinha uma eficácia e uma abertura de sentidos, uma suspensão de certezas, que lhe asseguravam outra projecção.    

Agora importam os cenários domésticos e os retratos neles situados, sempre discretamente expostos, avolumando-se uma ideia de concentração sobre dois lugares (Roterdão e Lisboa) e duas famílias, num processo de lenta aproximação do observador a espaços e relações de intimidade - o site confirma a identidade e a localização de duas séries paralelas. Importam as figuras retratadas, entre exposição e intimidade, os espaços ou cenários em que se incluem, a relação entre ambos (as figuras e os seus lugares), alguns objectos que  assumem uma presença mais relevante e certamente significativa, algumas redes de relações familiares que se sugerem ou esboçam, mas também os lugares por si mesmos, só parcialmente ou parcimoniosamente legendados. Há sempre sucessivas leituras para cada fotografia, isolada, em sequência, revendo-se o conjunto, etc.

Numa grande variedade referencial das imagens fotográficas, surgem fotografias isoladas (retratos, pormenores de interiores domésticos, objectos), mas também dípticos e trípticos, por vezes incluindo páginas de álbuns fotografadas onde se reencontram os objectos vistos nas fotos actuais. Havendo um prévio projecto estabelecido, a produção dos trabalhos (as fotografias isoladas ou em séries) parece construir-se como o avolumar da distância entre o programa e o resultado - nada é óbvio ou unívoco. A cada aproximação as imagens parecem resistar mais à ideia da ilustração de um projecto, ganham  sempre mais  densidade significante,  atraem mais a curiosidade   do observador e mantêm-no à distância.

Note-se como mesmo no caso mais directo de apropriação de uma fotografia anterior se criam as sucessivas instabilizações de sentidos, num contexto (ensaio ou ficção?) em que o que se vê é sempre a pequena parte do iceberg.

(?) 


Daphne de Jong, MOMA (1982), 2006, C-Print, 25" x 20" (64 x 51 cm)




sexta-feira, 15 de maio de 2026

1987, "OS PINTORES DA EUROPA" à escolha para Estrasburgo em 16 de maio

 OS PINTORES DA EUROPA, parte I, 16 maio 1987

Propostos 16 pintores para a escolha de 2 nomes pelos leitores do Expresso


1987, "OS PINTORES DE EUROPA", exposição-concurso e colóquio

 UM EPISÓDIO EUROPEU EM 1987, OBVIAMENTO ESQUECIDO

A PINTURA DA EUROPA APRESENTADA EM ESTRASBURGO, EXPOSIÇÃO CONCURSO por iniciativa da revista EIGHTY

16 países e 75 artistas - 4 portugueses. 

Por Portugal: António Dacosta e Graça Morais, por escolha dita institucional; Paula Rego e Eduardo Batarda escolhidos por votação "popular". Participaram na selecção o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, o Tempo e o Expresso (4 páginas e "16 PINTORES DOS ANOS 80", na Revista de 16 maio)

Arquivo Expresso, 12 dezembro 1987 (artigos de José Luis Porfírio: "Grandes e pequenos em Estrasburgo" e A P: "Por um lugar no mercado" - exposição e colóquio no Parlamento Europeu com Bonito Oliva)

terça-feira, 5 de maio de 2026

2026, "Tratado", livro de amigos e de retratos do José M. Rodrigues, edição EGEAC

 Já saiu o livro da exposição do José M. Rodrigues na Galeria Avenida da Índia, 28 09 a 22 12 2024. "Tratado". Era um espaço ingrato, árido, enorme, mas o livro é perfeito.

São retratos de amigos e familiares, tornados intimidades fotográficas e exercícios de invenção do que pode ser o retrato. Sempre em poses demoradas, pensadas caso a caso, ao ritmo (não ao acaso) das relações, das cumplicidades, das situações de comunicação mútua, intercomunicação encenada e afinal sempre surpreendida, vivida e/ou vívida. É um trabalho muito pessoal, mesmo íntimo, mas aberto, uma escolha de amigos que paradoxalmente se dirige a todos os não-participantes e observadores disponíveis. Retratos frontais ou não (os rostos ocultados, até por vezes de costas), dialogando com a paisagem ou o próximo ambiente natural, a vegetação, com alguma iluminação dirigida e por vezes com uso de espelhos. Mãos, cabelos, corpos, alguns auto-retratos não narcísicos, rostos singulares ou grupos de 2 e 3, nomes com datas nos títulos, no final, em geral muito recentes (2022-24) mas também vindos desde 1996 - o retrato e/ou a presença de modelos, os rostos e corpos, são uma das muitas "vertentes" da muito extensa e diversa obra do José Rodrigues.
Magnífica impressão na Maiadouro, em apenas 300 exemplares, edição EGEAC / Galerias Municipais. 40 fotografias em páginas duplas, abreviando a exposição.
Magnífico design gráfico de Arne Kaiser https://www.arnekaiser.com/ Os livros são cosidos e todas as fotos ocupam mais do que uma página, com cortes meticulosamente medidos.
Textos a ler de Óscar Faria, comissário da exposição, de José Bértolo sobre "alguns livros de José M. Rodrigues", do próprio artista e dos responsáveis pela programação da galeria (Sara Antónia Matos e Pedro Faro).

2022, viagem a Gandía: Fideuà uma reportagem

 Fideuà em Gandía (aliás Daimús), 01 10 2022, uma festa familiar, uma narrativa:

segunda-feira, 4 de maio de 2026

2026, o José Manuel Rodrigues e Gandía, memórias nos seus 75 anos

 A fotografia e o resto



Desfoco da fotografia para me lembrar de uma viagem directa a Gandía com o Zé, partilhando o volante. Abaixo de Valência, aonde nunca tinha descido; a cidade de onde partia a família dos Bórgias no século XV - o Zé dedicou-lhe uma série conceptual "La producció de la presència", em 2010, evocação teatralizada dos tempos dos três papas, com que interveio nas celebrações do 5º centenário do nascimento de São Francisco de Borja (foi o 4º duque de Gandia, 1510-1572; wiki/Francisco_de_Borja).


Era então (01 a 04 outubro 2022) o tempo das festas -- Fira i Festes, em honra desse São Francisco, patrono da cidade --, nos inícios de outubro, e nunca vi nada assim: os espectáculos de rua ao longo do percurso demarcado, com excelentes teatros, orquestras e circos actualizados, e depois o cortejo nocturno dos demónios mascarados e do fogo de artifício lançado aos pés dos espectadores-participantes, ora em fuga ora envolvidos pela cor, fumo e pólvora: o Correfoc de la Colla de Dimonis numa "noite mágica de fuego y tradición", e em Espanha as festas antigas mantém uma energia única, organizada e vibrante (o grande Cristóbal Hara visitava-as com génio, e a Cristina García Rodero também). 

E igualmente em Gandía acedi à excelência das paellas locais (mais o fideuà e arròs a banda ou al forno) em festas familiares e almoços de fim de semana com casais amigos da Fabi. Uma ocasião sem paralelo de gastronomia convivial só acessível aos íntimos. Eram dois lados da Espanha viva, em toda a sua excelência.


Outra memória pode ser a das fotografias do Zé que aconteceu programar por três vezes. Parte substancial do meu gosto pela fotografia vem da lição do Zé, quando comecei a acompanhar os Encontros de Coimbra, aos quais trazia os seus contactos holandeses, quando era possível reunir no programa Nozolino, Molder, o José Rodrigues (ainda sem o M. de Manuel), mais a Ether de António Sena. Isto logo em 1982 nos 3ºs Encontros, ainda não havia o Albano, quando se afirmou a geração dos novos fotógrafos nacionais e já internacionais, quando o público da fotografia convergia em Coimbra. Foi um dos fundadores do grupo Perspektief de Roterdão, programava a respectiva galeria e trouxe "A touch of Dutch Photography".

sábado, 2 de maio de 2026

ARQUIVO 1996, há 30 anos, um mês de abril de exposições internacionais em notas do Cartaz do Expresso

Um mês em 1996, abril 

A circulação de exposições não era o que é hoje. Via-se Matisse na Fundação Arpad & Vieira, o Grupo Cobra (vindo do Stedelijk de Amsterdão) e Julio González (do Centro Reina Sofia) e ainda a Magnum na Culturgest, Tàpies no CCB, vindo do Auditorio de Galicia, de Santiago de Compostela - e outros mais; havia vários colaboradores a escrever notas e artigos. E viam-se pintores africanos no Espaço Oikos, uma ONG sediada junto à Sé que à época tinha uma assinalável acção cultural e importava a Revue Noire. 

A circulação internacional de exposições chegava a Portugal; mais tarde são só os directores e comissários que viajam. Não há informação, não há referencias. Nesse ano ainda se poderiam ver em Lisboa GEORGE ROUAULT na Gulbenkian, ARSHILE GORKY no CAM, NAM JUNE PAIK e TOM WESSELMANN na Culturgest.


05 04 96

EDOUARD BOUBAT

Institut Franco-Portugais

Todos os lugares comuns foram ditos sobre Boubat, o «correspondente de paz» segundo Prévert, mas as suas fotografias, que se sabe serem um dos paradigmas da tradição humanista, descobrem-se ou voltam a ver-se incólumes à passagem do tempo, dos estilos ou das modas. São raras, aliás, as suas imagens que transportam a marca de um tempo preciso, talvez porque, como sucede com as fotografias da Nazaré e do Minho (1956-58) ou com a série «Anjos», sobre as procissões do Norte (1973), nelas reconhecemos — em «momentos em que não se passa nada, salvo a vida de todos os dias» — as marcas mais fundas de um país. «Les Voyages» reúne imagens feitas ao longo de quatro décadas, do México ao Tibete, e é uma notável exposição. (Até 29)

A 15 04 "Toda a beleza do mundo - as viagens fotográficas de Boubat, com passagens repetidas por Portugal"



Edouard Boubat, «Nova lorque, Ponte de Brooklyn», 1982



HENRI MATISSE

Museu Arpad Szenes/ Vieira da Silva

Nos estudos para a grande pintura mural "A Dança", encomendada pelo Dr. Barnes, no início dos anos 30, Matisse serviu-se pela primeira vez do recorte de papeis previamente coloridos a guache, processo que continuaria a usar quando a idade ia tornando mais difícil o manejo dos pincéis, e que lhe permitiria explorar novas relações entre a cor e o desenho. «Recortar a cor ao vivo lembra-me o talhe directo dos escultores», escreveu o pintor em "Jazz", um belíssimo livro publicado em 1947, impresso ao «pochoir», cujas «imagens de tons vivos e violentos provêm de memórias cristalizadas do circo, de contos populares ou de viagens». (até 5 Maio)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

1970, revista TEMPO, Maputo, Ricardo Rangel e José Craveirinha na fronteira Caniço/Cimento

 Na revista Tempo, nº 12, 06 dezembro de 1970, o poeta e um fotógrafo

"Ginásio descoberto da Mafalala: uma fábrica de músculos com tecto de estrelas"

"Os camnpeões nascem nas areias da Mafalala"

"Paredes de zinco / teto de estrelas / piso de areia / o ginásio descoberto da Mafalala / é uma fábrica de campeões / / Quem o ajuda?"

terça-feira, 28 de abril de 2026

DO ARQUIVO: 1990, "O conceito de desenho", Sol LeWitt no Belém Clube-Museu de Fernando Gonçalves. E em 1993 o Zutzu com Pedro Cabrita Reis

"O conceito de desenho"

expresso 30 01 1990

Um painel de Sol LeWitt no Belém Clube-Museu de Fernando Gonçalves (ex São Jerónimo - depois Zutzu...) com intervenção de Luís Serpa na compra e instalação de obras de arte, e arquitectura de interiores de Manuel Graça Dias.

        foto Luiz Carvalho / Expresso


Em 1985, a «Exposição-Diálogo» trouxe ao Centro de Arte Moderna duas obras de Sol LeWitt <1928-2007: https://en.wikipedia.org/wiki/Sol_LeWitt > Eram grandes estruturas modulares que desenhavam no ar uma sequência de cubos brancos. Vinham dos Museus de Estocolmo e de Berlim.

Agora, uma outra peça de Sol LeWitt foi instalada em Lisboa. Para ficar. Está no Belém Clube-Museu e ocupa toda uma parede do respectivo restaurante. E um «desenho de parede» (a designação é a atribuída pelo autor, embora também se pudesse chamar-lhe pintura mural), dominado pelo volume geométrico de uma pirâmide cujas faces se definem por planos de cores diferentes: uma tensão paradoxal ou um movimento de vai-e-vem é estabelecido entre a afirmação do carácter plano da parede acentuado pela porosidade do gesso, que absorve uniformemente as cores e a representação do volume da pirâmide. Trata-se, tal como no caso das peças mostradas em 1985, de uma obra bem representativa da produção de Sol LeWitt.


sábado, 25 de abril de 2026

2026, reflexões sobre o novo MUZEU em Braga. "Quanto mais oferta menos recepção informada e crítica"

Inaugurou o  MUZEU

Le lotissement du ciel, 1963. (foto via Elisa Camarinha no FB)

Um bom René (1935-2005) dos inícios da Figuração Narrativa, uma das novas figurações parisienses. Nesse ano acaba o KWY. Individual na Galerie du Dragon com (Jacques) Chemay; e "Images à cinq branches" na Mathias Fels (B., Klasen, Reuterswärd, Télémaque e Voss). 



(FB 25/26, à distância de Braga, tx revisto)
Espero agora um texto crítico sobre a exposição inaugural do Muzeu (Z de Zé Teixeira) aberto com pompa presidencial e cardinalícia em Braga, com sólida rectaguarda empresarial do grupo Dst. Tivemos o grande jornalismo noticioso e/ou promocional do Público e do Diário do Minho, entre outros OCS - será agora a vez de se lerem vozes reflexivas, analíticas, críticas, que incomodem ou sustentem a emoção mediática. Promete-se no Muzeu o Pensamento além de Arte Contemporânea (AC).

sexta-feira, 17 de abril de 2026

1999, Carlos Carreiro na Árvore e em 2005 na Sala Maior, Porto (Expresso)... e já em 1982

 CARLOS CARREIRO

Árvore 

In "Três artistas no Porto", com Fátima Mendonça e Pedro Cabrita Reis  

Exoresso 27-11-99



Os truques do Adamastor
180x200cm, 1999
Assembleia da Republica


Carlos Carreiro dá agora às suas pinturas um título geral, «Dos Truques do Adamastor à Vingança dos Perus», que as situa de imediato no seu terreno habitual da celebração do imaginário, onde impera a fantasia, o humor e também algum comentário corrosivo.

 Com as novas obras, que, entre outras motivações pessoais, terão tido algum ponto de partida concertado com o calendário comemorativo dos Descobrimentos – lá estão, na tela maior que é referida na primeira metade do título geral, as caravelas e bandeiras pátrias, uma torre de Belém de barbatanas a tentar andar em direcções opostas, um Adamastor marionetista (seria imperdoável que este exemplo excepcional de «pintura de historia» no presente não tivesse destino institucional,... mas não podemos ter ilusões sobre os museus que temos <acertei ou ouviuram-me: a Assembleia da República comprou e expôs o quadro>) –, assiste-se a mais uma inflexão fortemente afirmativa do trajecto de pintor, prosseguido como um percurso original e solitário, marginal, se se usar o termo com sentido positivo face a valores correntes e dominantes.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

2026, Vasco Trancoso, "88", fotografias

 Vasco Trancoso é um fotógrafo amador. Editou um livro com o título "99" em 2019 e reincidiu agora, ou no final de 2025, com o livro "88" - trata-se sempre do número de fotografias incluídas: não haverá outro significado editorial nem qualquer mistério. Neste caso o formato ao baixo e a larga dimensão do livro prestam-se melhor à horizontalidade da imensa maioria das imagens. A impressão da Maiadouro é perfeita, o design gráfico é exacto, sem perdas nem efeitos.



Vasco Trancoso, médico reformado, assume-se como amador - esta é uma das grandes condições da arte fotográfica - e como 'street photographer', fotógrafo de rua, paradigma de tanta da melhor fotografia também profissional desde sempre. Interessado no quotidiano urbano e no encontro ocasional com as pessoas que o habitam: fotógrafo em movimento, que se adivinha incessante, cruza-se com quem se move pelas ruas, nas praias, nos parques, em alguns interiores públicos. Surpreende os seus próximos sem ser um voyeur, sem hostilidade trocista ou pose amável, sem ser descritivo e sempre atento à surpresa presente no que vê: ela está lá mas há quem descortiná-la.
As Caldas da Rainha, onde vive, e o seu território próximo, Foz do Arelho e Óbidos, são o palco da sua itinerância, com ocasionais descidas a Lisboa e Algarve. Não faz um "levantamento" documental nem persegue temas, situações ou tipos, e não organiza os volumes por assuntos ou tópicos. A livre disponibilidade de quem procura e encontra a singularidade dos "achados", os acasos surpreendidos, passa com felicidade do que é vivido como atenta circulação urbana para a sequenciação aleatória das imagens impressas.

terça-feira, 14 de abril de 2026

2026, Carlos Carreiro na galeria São Mamede

 Carlos Carreiro reivindica-se do surrealismo, mas não segue o cansado formulário surrealista. O seu surrealismo quer-se antigo e intemporal, inato, diz. É o direito ao delírio, o jogo das aproximações insólitas: "Vou fazer 80 anos no próximo mês de Julho, ando a participar em exposições de pintura colectivas e individuais há 59 anos. E parece-me que sempre tive uma tendência para o Surrealismo, ou pelo menos para o delírio. O Surrealismo não tem tempo, nem moda, é uma expressão inata ao ser humano, que conseguiu apagar a fronteira entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente, é um exercício a jogar com o paradoxo das aproximações insólitas, que vão além do racional. O Surrealismo é um símbolo da união dos contrários e identidade dos opostos: os sonhos, o nonsense e o automatismo são ferramentas recorrentes."

até dia 21 04



Chamou à exposição "A Festa do Costume", o que é uma auto-provocação, porque vemos os seus quadros sempre como se fosse pela primeira vez (e fez mais de 75 individuais, conta-as). Há sempre novas histórias, que não são histórias narrativas, mas conjunções de episódios, situações, imagens e objectos díspares dispostos em espaços complexos, que são paisagens impossíveis só viáveis na imprevisibilidade das telas. Há personagens, arquitecturas, máquinas, brinquedos - aqui os "paper toys" que talvez apareçam pela primeira vez - e pinta a cores como poucos, que por cá os "curadores" não gostam de cor. Aliás, vai uma grande diferença entre a imagem que a fotografia reproduz e o plano material da pintura, que é denso ou intenso, rico e não liso. Há também que fazer um baloiço permanente entre a configuração total de cada quadro e a acção em pormenor das figuras que se dispersam em movimento. E note-se como a luz é uma invenção constante e mutável ("A propósito da luz", "Pirilampos implicam com o Dr. Tibúrcio").

segunda-feira, 13 de abril de 2026

2026, Caseirão, desenhos

Tive a sorte de Jorge Caseirão me ajudar a ver melhor os desenhos da sua exposição "PONTES E OUTRAS OBRAS DE ARTE", que se mostra só por uma semana em Carnide, a agitar a monotonia do mainstream oficial. Ar fresco.

Há pontes, como no título, e muito mais: caminhos serpenteantes e torres vertiginosas, um poço iniciático (Regaleira), labirintos e arquitecturas fantásticas que aprenderam com Escher e Piranesi, espaços interiores e infinitos (o anel de Moebius), retratos (mais as cabeças de Ana Bolena e Caeser, o macaco do Planeta), naturezas mortas (também por via de Arcimboldo), vistas urbanas frontais (o Casal Ventoso e o Palácio da Pena, estes a cor), corpos (um coração aberto, onde a coluna vertebral é demasiado maleável). Ali sem títulos, abertos à invenção do observador.
Esta é uma arte cultíssima (sem o querer exibir) e pessoalissima que brinca tanto com referências eruditas como com práticas de Outsiders, e também me lembra as esculturas maconde "Ujamaa” em que as figuras se acrescentam e entrelaçam. Aqui o desenho que se dirá obsessivo (sistemático, repetitivo, minucioso) molda-se na diversidade dos assuntos e igualmente se deixa percorrer no olhar próximo com variações imprevisíveis e micro-histórias. O que parece um sistema gráfico estabilizado é um universo de viagens, invenções e pistas de leitura. O que parece opressivo é também e especialmente humor, mais crítica que paródia, irreverência e independência idiossincrática.
Jorge Caseirão expunha com frequência na galeria Novo Século de Carlos Barroco, que era um espaço libertário e convivial, foi muito tempo cenógrafo na RTP e é professor de desenho na Faculdade de Arquitectura. Alguns pequenos relevos escultóricos sinalizam aqui uma outra prática regular. É autor de uma grande produção de desenhos em liberdade e também os mostra no Facebook (https://www.facebook.com/ajorge.caseirao).
Carnide, Junta de Freguesia, Espaço Bento Martins, só até sábado dia 18, 15-18h

 A Besta (Apocalipse 13:18); Europa, foto nº 2; Diogo Alves (da série das cabeças perdidas, nº 3)….