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sábado, 1 de julho de 2006

2006, CCB, Jorge Martins, Colecção Helga de Alvear, Abel Salazar, "Verão no CCB" (01 07)

 Verão no CCB

 
    Três propostas diferentes em tempo de transição entre temporadas e projectos 
 

Jorge Martins «Simulacros - Uma Antologia»    
 Helga de Alvear «Conceitos para Uma Colecção»    
 Abel Salazar «O Desenhador Compulsivo»    
 Centro Cultural de Belém

Expresso 01-07-2006

 

    Jorge Martins, «Slow Ruin», 1998

 
Em matéria de exposições, o Verão no CCB é variado. Estão no programa, ontem inauguradas, a retrospectiva das quase cinco décadas de trabalho de um dos maiores artistas portugueses contemporâneos, Jorge Martins; uma extensa colectiva internacional, incluindo sete portugueses, organizada a partir das 2000 obras da colecção da galerista madrilena Helga de Alvear; e uma visita aos desenhos deixados por uma figura desconhecida das gerações mais novas, Abel Salazar, médico e professor perseguido pelo regime fascista.

O ano tem sido de transição no CCB, entre gestores e entre projectos, prevendo-se para 2007 a transformação do módulo de exposições numa entidade protagonizada pelo «Museu Berardo», o que não impedirá a rotação de mostras temporárias, como sucede na primeira sede da colecção, em Sintra. Depois do enorme êxito de público que foi a apresentação de Frida Kahlo (onde se esteve à beira, pelo menos à beira, da publicidade enganosa, devido à confusão com outra exposição da Tate Britain), as novas mostras não têm condições de popularidade fácil mas são projectos consistentes e dirigidos a públicos diversificados.

A obra de Jorge Martins é exposta em toda a extensão das galerias do piso superior, numa escolha de cerca de 170 pinturas e desenhos realizada pelo artista e por Margarida Veiga, administradora do CCB e comissária. O que permite seguir todo um percurso original e solitário (não identificado com grupos ou movimentos) que alcançou notoriedade logo nos anos 60, no contexto das várias neofigurações internacionais. Nascido em 1940, em Lisboa, o artista instalou-se muito cedo em Paris, num exílio que só terminou com o 25 de Abril, embora o seu trabalho fosse regularmente exposto em Portugal.
     
A partir de meados dos anos 70, a figura humana deixou de estar presente e o artista iniciou um longo processo analítico sobre os meios e elementos da pintura, designadamente sobre a luz, o espaço e a cor, às vezes com utilização da palavra escrita, num caminho que ficou associado à vigência das estratégias reducionistas (minimalismo e conceptualismo). Tratou-se sempre, porém, de recusar as orientações formalistas mais puritanas ou auto-sacrificiais, conduzindo Jorge Martins um itinerário experimentalmente reflexivo em que, de certo modo contra a corrente, explorou a sensualidade dos meios plásticos e as virtualidades da ilusão pictural, mantendo aberta a possibilidade de sugerir outros sentidos para lá da presença literal dos materiais. Mais recentemente, já depois da retrospectiva que a Fundação Gulbenkian lhe dedicou em 1993, o artista voltou a ensaiar os caminhos da representação figurativa, e mesmo tendencialmente narrativa, num trabalho em que as referências à história da arte e a atracção erótica pelo corpo feminino estão muito presentes.


A colecção de Helga de Alvear, considerada a maior de Espanha de iniciativa privada no segmento contemporâneo, foi apresentada no ano passado em exposições realizadas em Cáceres e em Badajoz (no MEIAC), estando prevista a sua instalação em 2007 num novo centro de arte com o seu nome na primeira destas cidades da Estramadura espanhola. De nacionalidade alemã, começou a comprar arte nos anos 60 e associou-se depois à galeria madrilena Juana Mordó, assumindo mais tarde a sua direcção até criar em 1995 outra com o seu nome.

Através de uma selecção de obras de 59 artistas, a mostra documenta os caminhos do «mainstream» institucional desde os anos 1970 até ao presente, com particular interesse por exemplos da chegada da fotografia de grande formato ao mercado de arte.

Exposta na grande galeria do piso inferior, conta com uma primeira sala com trabalhos de Joseph Beuys, Jürgen Klauke, Helena Almeida e Marina Abramovic, representativas de alguns tipos de acções fotográficas dos anos 70, apresentando adiante, num percurso não cronológico, artistas representativos da arte minimal (Donald Judd e Dan Flavin) ou conceptual (Joseph Kosuth e Hanne Darboven). Instalações de grande vulto, como as dos britânicos Angela Bulloch e Isaac Julien (vídeo) ou do brasileiro Ernesto Neto, acompanham as obras de, por exemplo, Barnard Frize, Luc Tuymans, Michael Majerus ou Pia Fries.

    

 Rebecca Horn, «O Híbrido», instalação, 1987


A simultaneidade com a primeira mostra da colecção Ellipse (em Alcoitão) permite apontar a repetição dos nomes de Candida Höfer, Bernd & Hilla Becher, Thomas Struth, Thomas Hirschhorn, Ernesto Neto, Gabriel Orozco, Rosemarie Trockel, Jeff Wall, John Baldessari, Mona Hatoum, Julião Sarmento e Rui Chafes. Outros portugueses representados são ainda Augusto Alves da Silva, Joana Vasconcelos, João Penalva e José Pedro Croft, mas mostra-se um só espanhol, o falecido escultor Juan Muñoz.

 

    Abel Salazar, desenho


Por fim, no espaço habitual da fotografia, cerca de duzentos desenhos de Abel Salazar (1889-1946) são apresentados em colaboração com a Fundação Mário Soares, que procedeu à sua inventariação e restauro, tendo origem na casa-museu com o nome do médico e artista, em São Mamede de Infesta, Matosinhos. Presente em grandes exposições individuais em 1938 e 1940, e depois numa homenagem póstuma em 1946, a sua obra foi reivindicada pelo nascente movimento neo-realista como exemplo de resistência ética, mas tem sido considerada como uma prática amadora marcada pelo gosto oitocentista, o que agora se poderá reexaminar. Nestes trabalhos, e na sua obra em geral, predomina a figura feminina, que tanto pode representar as «elegantes» dos cafés de Paris ou Berlim como mulheres do povo em ambientes de trabalho.