terça-feira, 12 de setembro de 2023

2023, Porfirio e o Neo-Realismo, no Expresso (12-09)

 12 09 23 (fb)

Porfirio e o Neo-Realismo, no Expresso (8 set): 


“Episódicos são todos os movimentos modernos, transformando e transformando-se — foi isso mesmo que aconteceu com o neorrealismo quando olhamos para os artistas que o praticaram, bem como para companheiros próximos e afins como Augusto Gomes ou Resende. 

Além destes artistas sempre lembrados, outros há que me surgem imediatamente na memória, com obras que podem entender-se como um prolongamento das exigências estéticas e éticas do neorrealismo: 

Paula Rego é uma evidência nas suas indignações, tal como Graça Morais nos retratos de mulheres, bem como na recente evocação das misérias deste mundo. Especial é o caso de Manuel Botelho com a sua figuração preocupada em resposta à figuração despreocupada dos anos 1980; Clara Menéres expondo um soldado morto em tempos de guerra colonial; Artur Varela afundando no Tejo a Torre de Belém; Henrique Manuel blasfemando contra tudo e todos; Virgílio Domingues com os seus monumentos anticapitalistas; José Miguel Gervásio na alegoria de uma “aurora da liberdade” sem fronteiras e... e basta! 

Seria possível juntar mais nomes a estes, mas estes bastam para afirmar, mais do que uma posteridade, uma continuidade em expansão de intencionalidades que o neorrealismo afirmou, ele também na continuidade dos realismos dos anos de 1920 e 1930."


É uma passagem do artigo de José Luís Porírio na última revista do Expresso (8 set.23), a propósito de uma exp do museu de Vila Franca de Xira: "O poder do neo-realismo". E é uma tese, ou proposta de entendimento da história q me parece bem problemática.

É possível identificar como "prolongamentos das exigências  estéticas e éticas do neorrealismo" obras de Paula Rego, pela "evidência nas suas indignações"; ou Graça Morais, "na recente evocação das misérias do mundo"; ou Manuel Botelho, "com a sua figuração preocupada", que se identifica a expressões críticas da Escola de Londres? Parece-me que não.


Pofírio vem lembrar artistas que lhe interessam, e a mim também, como Artur Varela e Henrique Manuel, dois irreverentes e/ou  provocadores, e também José Miguel Gervásio, este vivo mas pouco mostrado pelas galerias, depois de passar pela Módulo. E também refere Clara Meneres e Virgílio Domingues, este que se afigura ideologicamente próximo. 

A pressão ou transmissão neo-realista, ou o movimento, encerra-se pelo fim das Gerais e pela intervenção da Gulbenkian no mercado expositivo. Artistas como Sá Nogueira e Nikias Skapinakis praticam já uma outra figuração urbana e informada; a nova geração da galeria Pórtico e da revista Ver, depois do exílio e do KWY, a par da renovação da arte religiosa, separa-se radicalmente dos interesses do movimento, que desaparece sem ruído. A oposição ao neo-realismo, o corte com o complexo partidário que de vários modos o prolonga, afigura-se mais determinante do que qualquer continuidade.  Sim, Querubim Lapa, entre as encomendas decorativas, e  Rogério Ribeiro por afinidade partidária, podem ser prolongamentos, mas só esses. 

Porfírio, decano da crítica de arte, é nestes dois casos sensível a relacionamentos pessoais, mas os outros nomes que cita pertencem a outras linhagens críticas (como também o Batarda da prineira figuração).

E tb tenho mt dificuldade em considerar o Júlio Resende um "companheiro afim" - muitos pintaram o povo, também à direita ou sem consciência/propósito... Há fronteiras formais, além das ideológicas. #neorrealismo #neoNR

domingo, 3 de setembro de 2023

2023, O catálogo da Colecção Berardo à maneira do Pedro Lapa: Joana Vasconcelos excluída

 03/09/2023, no blog

A política da exclusão no "meio da arte". Pedro Lapa e o catálogo da Colecção Berardo. O caso de Joana Vasconcelos


1. Chamaram-me a atenção para o facto do catálogo do Museu Berardo recentemente editado não incluir nenhuma obra de Joana Vasconcelos. Não foi ela que me disse e deve estar-se soberanamente nas tintas. Está bem representada na Colecção, fez no Museu Berardo aquela que foi a exposição mais vista, programada pelo primeiro director Jean-François Chougnet, em 2010, e a carreira da Joana é hoje internacional e global, situada com grande êxito no 1º plano da notoriedade artística.

Mas a ausência é um facto óbvio que permite apontar o escandaloso facciosismo do coordenador da edição, Pedro Lapa, que foi o 2º director do Museu e se encarregou do catálogo recente.


Não é um facto isolado, pelo contrário. O panorama nacional que se reflecte nas práticas de comissários-curadores e críticos que integram o sistema do que chamei o "mainstream de ponta", ainda a actual arte oficial, assenta na gestão implacável de ocultações e exclusões de muitos dos artistas melhores ou mais interessantes e mais independentes. Prefiro quase sempre os excluídos, enquanto os medíocres abundam na circulação institucional.


Não quis o catálogo oferecido (deve haver montes de sobras e é uma prenda desagradável. Bastou-me uma versão digital

 


 

 

 Nectar 2005


2. Obras de Joana Vasconcelos na Colecção Berardo (Aladino,1999, Néctar, 2005; Coração Independente Vermelho, 2006). Pelo menos estas três estão referenciadas no site da Colecção.

Pedro Lapa, que apaga JV no recente Catálogo representativo da Colecção, fez retirar da entrada do Museu, quando o dirigiu, a obra Néctar, referência forte ao Secador de Garrafas de Duchamp, que ganhara um concurso por convites a 8 escultores para a escolha de uma escultura a instalar no exterior. à data da inauguração do museu.

A actuação reconhecidamente sectária de P.L. (desde que dirigiu e descaracterizou por algum tempo o Museu do Chiado) é uma demonstração escandalosa dos processos de apagamento e exclusão que regem a circulação e aquisição de obras para colecções públicas e exposições institucionais. A outra face da moeda é a escolha preferente de artistas débeis ou medíocres que são tutelados por "curadores" corruptos ou dependentes e que se imitam uns aos outros, fechando a circulação a um grupo restrito de privilegiados instalados na repetição acrítica das suas maneiras.


A desconsideração de Joana Vasconcelos é tanto mais gravosa quanto a sua retrospectiva, intitulada “Sem Rede” (2010), lidera (ainda?) a lista das exposições mais visitadas no CCB, com 167.852 entradas.

Trata-se obviamente uma pulhice. Há no "meio da arte" uma máfia instalada, com três ou quatro padrinhos e com uma roda de gente receosa e reverente. O Pedro Lapa é ainda sobrevivente, um medíocre participante dessa rede - e há quem o ature como professor, outros abandonam.

 

Aladino,1999

 Coração Independente Vermelho, 2006



3. Passamos de Vasarely para Vedova, a Vasconcelos não consta. É vergonhoso, é pulhice.

E passa-se por Ana Vieira e João Vieira...