quarta-feira, 28 de outubro de 2009

2009, Serralves, Augustro Alves da Silva, Entrevista no Público, Sérgio B. Gomes

 Augusto Alves da Silva e uma história da sobrevivência

PÚBLICO 28 de Outubro de 2009 por Sérgio B. Gomes




https://www.publico.pt/2009/10/28/culturaipsilon/noticia/augusto-alves-da-silva-e-uma-historia-da-sobrevivencia-243945?fbclid=IwY2xjawSSY1xleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFEN095V2I3TVhWbjg0bWkzc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHmg1D7a5LF-apwJK_I73r7yBgMwKF1cHoiCXPRQDFjPu0LkPCtoWuiuch2HW_aem_GmYqqzjZghBYQdtZsfVWDg

Augusto Alves da Silva e uma história da sobrevivência
0 Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, inaugurou há precisamente uma semana, uma das exposições do ano: "Sem Saída/Ensaio Sobre o Optimismo", de Augusto Alves da Silva (Lisboa, 1963), nome fundamental da fotografia portuguesa contemporânea. A mostra, comissariada por João Fernandes, reúne um assinalável corpo de trabalho realizado pelo artista desde meados dos anos 1980. Entre as obras apresentadas, que incluem também vídeos e livros de artista, destacam-se quer "Síntese", composta por imagens provenientes de séries anteriores, uniformizadas agora através de novas impressões, quer dois novos projectos, "Iberia", exercício sobre a paisagem composto por mais de cinco mil instantâneos, e "Book", que coloca questões relacionadas com o incessante consumo de imagens "supostamente eróticas". Neste caso, o processo iniciou-se com a publicação de um anúncio na Internet, através do qual o artista se propunha contratar para sessões fotográficas modelos não profissionais, com a condição de estas não terem experiência nos contextos da moda e da arte. 

Neste conjunto de imagens, Augusto Alves da Silva confronta o espectador com situações na fronteira entre o erotismo e a pornografia - embora não exista uma única fotografia em que o rosto e a nudez surjam associados e a modelo, que recebe parte do dinheiro de uma futura venda, tenha tido sempre a última palavra. Entre o vagabundo que realiza um gesto obsceno diante de um "stand" de Ferraris e um homem com uma espingarda junto a uma piscina, entre o aterrar dos aviões para a Cimeira das Lajes e umas unhas pintadas de vermelho, entre o desejo e o comentário político, entre a natureza e a arte, esta é uma exposição contra a hipocrisia.

Augusto Alves da Silva e uma história da sobrevivência
A exposição inclui um núcleo, "Síntese", que resulta de fotografias provenientes de séries anteriores. Qual foi o critério de selecção?
A ideia de "Síntese" foi reunir imagens que ressaltam das séries para as quais foram realizadas inicialmente. Funciono sempre com conjuntos de fotografias e procuro diálogos e interferências entre elas, contudo, notei ao longo dos anos que há umas que sobrevivem sozinhas, que me intrigam ou que atraem a atenção. Parece uma contradição, porque se estou a jogar com conjuntos à partida não devia estar interessado em exemplares únicos; porém, aconteceu.

Pode explicar melhor aquilo que define como intrigante?
Nas séries existem imagens aparentemente mais discretas do ponto de vista do impacto visual que equilibram o conjunto. Mas há algumas outras, poucas, que depois ressaltam, como o veado a olhar para a cidade ou o vagabundo na série "Ferrari".

Nestes casos, podemos falar em "instante decisivo", tal como o definiu Henri Cartier-Bresson?
Em qualquer fotografia, mesmo que encenada, o que está à frente da câmara é o momento em que a imagem fica produzida. Esse instante não o chamo decisivo. No caso do veado, aparece, em cima, do lado esquerdo, um pombo que não vi e que depois aceitei; no caso do vagabundo, há uma pessoa na rua a virar a esquina, que também não vi. No caso do veado consegui pré-visualizar a possibilidade de fazer aquela imagem, na medida em que o animal estava lá.

E no caso do vagabundo?
Também. Porque tinha montado o tripé, a máquina e o flash naquele sítio e queria captar uma situação de contraste entre a riqueza absurda do interior e o exterior daquele "stand" de automóveis. Sabia que, inevitavelmente, passaria lá fora alguém sem a capacidade de comprar um carro daqueles.

Como interpreta o gesto do vagabundo?
Ele pediu-me licença para fazer aquele gesto - em linguagem não verbal, porque tínhamos um vidro a separar-nos. Há uma primeira fotografia em que o flash não disparou: estava de tal maneira nervoso que me esqueci de o ligar. Fiz-lhe então um sinal com as mãos a explicar-lhe que aquilo tinha corrido mal. Respondeu-me com um sinal, como a dizer: "posso esperar". Carreguei o flash, ele voltou a fazer o gesto e eu tirei a segunda fotografia. Perguntou-me, sempre através de gestos, se a segunda imagem tinha ficado bem. Fiz-lhe um sinal de ok com o polegar para cima e despedimo-nos com um adeus. Ele viu-me como uma espécie de mensageiro para um público mais vasto.

Em "Síntese" nota-se a ausência de imagens provenientes das suas duas séries porventura mais políticas: "3.16" (2003) e "Die schönste Fahne der Welt" (2006)... Pode dizer-se que há uma ausência do político?
Não estou de acordo. A imagem do Ferrari é a mais gritante desse ponto de vista, mas todas têm coisas que se relacionam com desequilíbrios, perversões ou absurdos do mundo que construímos: a mota enterrada nas dunas com o motociclista lá atrás; as pessoas que dançam ao vento no convés de um navio - uma imagem à primeira vista bonita do ponto vista de luz e de cor, mas depois extremamente triste e patética, pois aquelas pessoas estão completamente isoladas umas das outras; o "shelter", que é uma espécie de sarcófago, túmulo, nave espacial, no meio da paisagem; as árvores todas queimadas na Serra da Estrela - no Inverno de 1992, tudo o que fotografei em serras portuguesas foram florestas queimadas. A imagem mais feliz é aquela em que podemos perguntar: o que faz um homem com uma espingarda na mão à beira de uma piscina?

É uma imagem plena de humor...
O humor é uma das melhores formas de cativar as pessoas para as coisas. Gosto de pensar num público geral. Não gosto de pensar nem na crítica especializada, nem no público da arte, nem nos directores de museus: não estou a dizer que não respeito essas pessoas, contudo é para mim muito gratificante quando vejo alguém de fora deste meio a entrar num museu ou a folhear um trabalho publicado... A imagem do homem da espingarda na piscina cativa as pessoas, primeiro porque nos faz sorrir - ele tem um sorriso estranho, é mais um esgar do que um sorriso - e depois porque nos faz pensar...

Podia ser um serial-killer...
No laboratório, na Alemanha, por questões práticas, tinha que dar títulos de trabalho. Chamei a essa fotografia "Shooting Tourists", o que provocou um sorriso no técnico que estava a trabalhar comigo.

Em "Síntese" fizeram-se também novas impressões, as imagens ganharam uma outra escala...
Achei que devia unificar as imagens através da dimensão e através da técnica. Se não, tínhamos uma manta de retalhos: uma imagem com 50 por 60 centímetros, outra com um metro e sessenta por dois metros e dez. Pareceria um "bric-à-brac", uma ideia de retrospectiva: a de ir buscar bocadinhos de coisas. No fundo, na minha cabeça, o que fiz foi como se tivesse produzido um trabalho novo. Imprimi as imagens todas com a mesma dimensão e também uniformizei a técnica, porque havia algumas com "passepartout", outras sem. Uma pessoa que nunca tenha visto o meu trabalho pode entrar no museu e achar que aquilo é uma nova série. Disso gosto muito: a possibilidade de se olhar para aquelas imagens desligadas do contexto da série original a que pertencem.

Apresenta novos trabalhos, como "Iberia", um exercício sobre a paisagem realizado em Espanha. Qual a razão da escolha desta geografia?
No "Iberia" fascinou-me a possibilidade de conseguir inventar um trajecto de automóvel do Mar Mediterrâneo ao Mar Cantábrico sem praticamente tocar o asfalto. Consegui encontrar liberdade para isso: nunca passei um sinal de proibido e, das poucas vezes que encontrei um sinal de propriedade privada, não o passei. A ideia surgiu há mais de dez anos, ao encontrar um troço da Cañada Real Leonesa. Depois pesquisei a rede das Cañadas, em Espanha, que já estão muito destruídas e danificadas, por causa das auto-estradas e das obras: segundo me lembro, eram vias de transporte de gado de Norte para Sul e vice-versa. A partir desse momento, começou a fascinar-me o facto de se conseguir atravessar um país inteiro na Europa, sem estar a transgredir nada, através de vias alternativas: juntei estradas agrícolas, estradas usadas por caçadores, algumas difíceis de transitar. Ao longo de dez anos, com recurso a um GPS, fui juntando troços que depois percorri numa só viagem de 18 dias: fazia uma média de 100 quilómetros por dia, desde o nascer ao pôr-do-sol. A viagem transmitiu-me uma alegria e uma calma que dificilmente consegui ter até hoje. Quando cheguei à Cordilheira Cantábrica ao fim dos 18 dias e encontrei as montanhas todas nevadas parecia haver uma lógica qualquer, difícil de explicar, em sair do Mar Mediterrâneo e acabar ali, num ponto em que já não podia avançar mais: o jipe ficou enterrado na neve,.

Essa série transmite também uma ideia de solidão, de tristeza mesmo, acentuada pela banda sonora: uma gravação de estações de rádio espanholas...
Sim. A tristeza tem sentido também, mas é difícil descobrir a linha que a separa da alegria... Ao introduzir a música já se recupera mais a alegria, porque a rádio espanhola faz-me inevitavelmente sorrir. A voz das pessoas, a maneira que têm de falar, de traduzir os títulos, a alegria que têm como locutores e a própria escolha das músicas.

Esta série é quase o oposto de "Síntese", não há quase escolha...
Aqui o critério de escolha foi eliminar as imagens muito escuras ou muito claras ou as que ficaram brutalmente tremidas sem intenção. Devo ter feito seguramente 20 mil imagens: há muitas que são tão repetidas e tão parecidas, porque guiava e fotografava ao mesmo tempo - também eliminei algumas assim. A máquina estava colada dentro do carro, fixa sempre num mesmo ponto: ia guiando e fotografando; como estamos numa era digital, não pensava nos custos. Se conseguisse ter tido mais calma a fotografar, poderia nem ter tido necessidade de editar.

Esta viagem é feita em paralelo ao projecto "Book"?
Começou a ser preparada muito antes. A viagem foi feita entre Dezembro de 2007 e Janeiro de 2008. Há 20 anos que vou para Espanha no Natal e no Ano Novo: há uma alegria e uma paz no facto de esquecer essa época durante a viagem. O "Book" começou em Agosto de 2007. Aquilo é em 18 dias, o "Book" demorou dois anos a fazer.

Há uma razão para ir para Espanha nesse período do ano?
São questões pessoais, de família. E a alegria que encontro no meio de desconhecidos.

A propósito de "Book" pode fazer-se a mesma pergunta que Susan Sontag levanta no livro "Olhando o Sofrimento dos Outros": "Que fazer com um conhecimento como o que as fotografias nos trazem de sofrimentos distantes?" Aquilo que nos transmite essa série é, uma vez mais, uma profunda solidão...
O sexo não é indissociável de tudo aquilo que vivemos e sentimos: aquelas imagens são muito mais do que sobre sexo. São sobre mim, são sobre aquelas pessoas. São também sobre a solidão daquelas pessoas, porque ao serem fotografadas estão afastadas das famílias, dos namorados, dos maridos, de quem quer que seja: é uma decisão delas. Há ainda a questão do anonimato, no sentido de não haver coexistência entre nu e cara, que elas colocam como determinante para as imagens poderem fazer-se. Eu próprio me pergunto muitas vezes porque é que estas pessoas quiseram ser fotografadas. Estou bastante satisfeito com as imagens, depois de as ver nas paredes do museu, porque estão distantes de qualquer sensacionalismo, de qualquer abuso ou de qualquer obscenidade gratuita. Reconheço essa tristeza no conjunto total das imagens, apesar de haver outras coisas. Sabia que me queria desviar de fotografias "standard", do género das que inundam as prateleiras dos quiosques. Se havia algum nervosismo, ele era de ambas as partes, no sentido de conseguirmos perceber o que é que cada um de nós estava ali a fazer.

Que razões o levaram a fazer essa série?
Exorcizar o bombardeamento de imagens de carácter supostamente erótico a que somos submetidos, e tentar perceber se era possível criar uma outra coisa baseada nesse exercício. Acho que esse bombardeamento é extremamente agressivo. Quis criar algo que não tivesse esse lado violento.

Quais foram os critérios de selecção, para além dos estabelecidos "a priori"?
Quis ter imagens exemplificativas de que não havia pudor da minha parte, por exemplo, no sentido de mostrar o sexo. Quis também fazer retratos. Procurei ainda lugares estereotipados, como a praia, a cama, mas quis fotografar um nu sem produzir uma coisa que fosse obscena.

Contudo, quando se vê um grande plano de uma masturbação feminina, existe sempre a questão das fronteiras entre o pornográfico e o erótico...
Quis assumir esse risco. Porque não o fazer seria uma coisa inócua, seria um meio-termo. Às vezes é preferível correr riscos e falhar do que não correr. Achei que tinha chegado o momento de abordar o assunto directamente. Quis também acabar com a hipocrisia do que é que se pode e do que é que não se pode ver e pô-lo à vista, tal como o faço com as fotografias de casas, de árvores, de veados ou de neve.

É tudo a mesma coisa...
Sim. Não esteve fora de questão abordar o nu masculino. Quase dava vontade de o fazer, porque a hipocrisia associada às coisas é de facto algo que detesto. O trabalho tem muito a ver com isso também.

Uma outra série, a "3.16", visível na exposição sob a forma de livro, pode servir como exemplo da distância que toma relativamente ao fotojornalismo. Escolheu um ponto de vista invulgar para fotografar a Cimeira das Lajes, nos Açores...
Para mim a Cimeira da Lajes é o momento mais triste da história portuguesa depois do fascismo. Para além de ser um momento tristíssimo da própria história da humanidade. O distanciamento tem a ver com isto: para registar aquele acontecimento através de um trabalho meu não me iria juntar aos 300 ou 400 fotojornalistas que lá estavam todos metidos numa espécie de curral, com aquelas teleobjectivas brutais, para tirar retratos às pessoas a saírem de aviões. Acho que é muito mais interessante construir um objecto que faça reflectir sobre a natureza do acontecimento: fotografei a Base das Lajes à distância, os aviões mínimos a aterrarem, e incluí na série um 12º elemento, um texto, que ocupa a área de uma fotografia, onde, de forma clara e dura, digo o que significa para mim a Cimeira das Lajes e o absurdo de toda aquela situação. É mais eficaz mostrar a escala dos aviões e das pessoas em relação ao mar, ao céu e à terra: como é que alguém com aquela insignificância tem a capacidade de poder destruir o mar, o céu e a terra?

Como surgiu o título da exposição? Ele lembra, de certa forma, o slogan punk "no future"...
Ou o "goth as fuck" que se vê numa fotografia minha de 2001, que me dá vontade de sorrir, porque, apesar de tudo, com tanta coisa má, não se desiste de viver, excepto nos casos em que se comete suicídio, e isso pode acontecer a qualquer um de nós... Até fantasiei com o título em inglês: "A Peculiar Aproach to Optimism", embora ache a versão final bastante melhor... Na situação mais dura da minha vida, a morte da minha irmã Guida, a quem dediquei o livro "Shelter", consegui recuperar a alegria de viver através de duas coisas. Uma delas foi a natureza, a ideia de que há uma coisa que não é construída por nós; a outra, a arte: a actividade humana que acaba por nos transcender. Se às vezes tinha dúvidas se gostava de arte, nesses momentos comprovei que, das actividades humanas, a arte era a coisa que retinha.

A sua arte ou a dos outros?
A dos outros. O optimismo presente no título relaciona-se com a nossa capacidade de nos regenerarmos das situações mais difíceis e conseguirmos continuar a viver, apesar de Auschwitz, da Cimeira das Lajes ou de coisas que acontecem agora. Em Hollywood ainda hoje se realizam filmes sobre a Alemanha nazi quando estamos a passar por coisas tão brutais, cruéis e perversas quanto as vividas naquela época. Perante tudo isto consegue-se continuar a viver, conseguem-se fazer coisas.

Na Pedro Oliveira, agarra o espaço da galeria, que ainda tem uma dimensão considerável, com apenas cinco fotografias de médio formato tiradas em Veneza, lugar onde quase toda a gente pode ser feliz...
Quando os autocarros e os táxis passam a ser barcos e não há carros parece que se está num mundo de fantasia. Estive em Veneza em casa de pessoas amigas: senti neles essa alegria de viverem e trabalharem nessa cidade; um sentimento que não é comum a todos os venezianos, com certeza.

Há nesta série uma obsessão pelos cabelos de mulheres fotografadas de costas e uma imagem "tipo postal" que completa o conjunto...
Essa é uma fotografia bonita, de fim de dia: um barquinho com uma luz na proa, a lua cheia no céu e um canal de Veneza. E depois quatro cabeças de mulheres com os cabelos que brilham com o flash. São imagens de desejo, são imagens belas, bonitas. São imagens pacíficas. Não pretendem ser muito mais do que isso.


sábado, 11 de julho de 2009

2009, Fazal Sheikh (e Martin Parr) em Bamako

 11/07/2009

Fazal Sheikh é um dos fotógrafos presentes no programa das representações individuais dos Encontros de Bamako, que hoje inicia a sua semana de inauguração para profissionais (e onde eu gostava de estar). Martin Parr comparece com Luxury em resultado de uma primeira parceria de Arles com Bamako. É uma mostra sobre a ostentação da riqueza, à roda do mundo e tb nos novos meios emergentes em Moscovo, Pequim ou Dubai:

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Martin Parr / Magnum Photos: Glyndebourne, Inglaterra, 2008.

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Fazal Sheikh, duas páginas de A Camel for the Sun

Nascido em 1965 em Nova Iorque (de ascendência keniana e indiana), mas sediado também em Zurique e no Kénia, Fazal Sheikh é um "artista-activista" (e é assim que o seu site o apresenta) que tem trabalhado longamente com as populações deslocadas em África, mas também no Paquistão e na Índia, no Brasil ("Simpatia", um projecto em curso), Cuba , etc.

"Fazal Sheikh is an artist-activist who uses photography to create a
sustained portrait of different communities around the world,
addressing their beliefs and traditions, as well as their political and
economic problems. By establishing a context of respect and
understanding, his photographs demand we learn more about the people in
them and about the circumstances in which they live"

Fazal Sheikh

Em Bamako mostra duas das suas séries mais importantes: A Sense of Commun Ground (Scalo, 1996) – que foi brevemente mostrada nos Encontros de Coimbra de 1996 (na Galeria-Bar de Santa Clara) – e A Camel for the Sun (IHRS – International Human Rights Series , 2001) / Un Chameau por le Fils, Actes Sud 2005 (Um camelo para o filho), dedicada aos refugiados somalis que vivem desde há 16 anos no Kénia e em especial nos campos de Ifo, Dagahaley, and Hagadera – cerca de 120 mil e 80% são mulheres e crianças. É uma exposição com uma grande circulação, por exemplo, em 2005, no Martin-Gropius-Bau, Berlin; 2004, The United Nations, New York City; Henri Cartier-Bresson Foundation, Paris (Prémio HCB em 200); Museum of Contemporary Art, Moscow; Museum Ludwig, Cologne; 2003, Tate Modern (nós por cá é mais arte como diria o outro).

Picture 2

"A Sense of Common Ground" is the culmination of three year's documentation of the African refugee camps of Kenya, Tanzania and Malawi. In chronicling these camps, Sheikh captures the aftermath of conflicts throughout African countries including the Sudan, Ethiopia, Somalia, Mozambique and Rwanda."

"As part of the ideology behind the International Human Rights Series and in order to bring the issues contained within A Camel for the Son to an international audience, it may be read in its entirety on-line in both English and Somali. For more information about this project and other projects visit http://www.fazalsheikh.org

Retrospectiva em Madrid em 2009: Mapfre

e agora em San Diego: beloved-daughters-at-museum-of-photographic-arts-in-san-diego

sexta-feira, 3 de julho de 2009

José Cabral. URBAN ANGELS. 2009 ("Human condition")


Human condition

Photography in Mozambique was a great collective adventure for about two decades. It was defined by a few books, which, as a rule, were an extension of exhibits and gestures of international cooperation (Moçambique, A Terra e os Homens, 1983; Karingana ua Karingana, 1990; Maputo - Desenrascar a vida, 1997; Iluminando Vidas, 2002). When Europe discovered photography made by Africans, a few years back, Mozambique was in the front line (Africa, Africa, Copenhagen, 1993; Revue Noire, n. º 15, Paris, 1994). With life slowly turning normal in Mozambique (after the revolution and the civil war, after the election of 1994 or 1999…), the chapter of mobilization and propaganda that had called for photography headed to its natural demise and the routes forcibly turned personal. There had been nototious exceptions, such as José Henriques da Silva with Pescadores Macua (Lisbon, 1983 and 1998) and Moira Forjaz with Muitipi, Ilha de Moçambique (Lisbon, 1983).
The aforementioned adventure had trailblazers, Ricardo Rangel and Kok Nam, who came very soon into a colonial press that was more permissive that the one based in Lisbon and who set the models for the transition. More than some Portuguese tradition (Século Ilustrado?), the exciting example of the photographers of Drum magazine, in South Africa, must have made an impact. The adventure then had its headquarters and school, the Associação Moçambicana de Fotografia [Mozambican Association of Photography] and the Centro de Formação Fotográfica [Photography Learning Centre], in which dozens of photographers were trained, some of them more perseverant than others. It had a documental and political style, as a way to answer to the urgencies of socialism, war, hunger and the reconstruction. Times changed.
José Cabral came to this collective history in a unique way, having trained with his amateur photographer and filmmaker father — he also had a grandfather, homonymous, on his father’s side, who was a governor (1910-1938) and who had a park named after him in the old capital (Continuadores Park, today). He started in cinematography and he joined his experience as a news photographer to documental programmes of a less urgent nature. Later, he was probably the first to distance himself from the routines of journalism, and he made that challenge very clear with the choice of works in display in the Iluminando Vidas exhibit: instead of war, misery, victims, ruins and promises of reconstruction, that can still be seen yet another face for exoticism, he showed feminine nudes without any ethnographical pretext. The representation encountered some problems in Bamako, Mali, photographical capital in a country of Islamic severity.
His photography — particularly the fact that he shows it as the work of an artist — became more autobiographical and even more intimate, albeit free from any pretence to self-reference or narcissism. In the country’s new situation of economic growth, that is a battle that matters, a more individualist battle for convivial spaces. As Linhas da Minha Mão [The lines of my hand], in 2006, during the third edition of Photofesta, was an affirmation of the personal dimension of a gallery of portraits and places — meetings with people, landscapes, cities and trees all through Mozambique’s recent history.
The Urban Angels are children: his own three and then four and other people’s children, street children. The differences of colour and of social condition aren’t hidden, quite the opposite, they make the record of the unbearable inequalities more pungent and penetrating. José Cabral’s images are simple and beautiful, tender and terrible, but they always lack the weightings of chance, artifice and policy that so often are the easy formula of the art of photography. They are simultaneously direct and charged with emotion, without distancing themselves from life in search of metaphors. There’s a personal history and many collective histories in these images of Mozambique. One of them associates General Mouzinho de Albuquerque, who defeated Gunganhana in 1895, to Colonel José Cabral’s great-grandson, who had continued his plans for rail tracks and who made a statue to him, which has meanwhile gone down. It is just a family photograph, a child playing…




José Cabral. ANJOS URBANOS. 2009



Condição humana

A fotografia em Moçambique foi uma grande aventura colectiva durante cerca de duas décadas. Ficaram a marcá-la alguns livros, que em geral prolongam exposições e gestos de cooperação internacional (Moçambique, A Terra e os Homens, 1983; Karingana ua Karingana, 1990; Maputo - Desenrascar a vida, 1997; Iluminando Vidas, 2002). Quando a fotografia feita por africanos foi descoberta na Europa, há poucos anos, Moçambique estava na primeira linha (Africa, Africa, Copenhaga, 1993; Revue Noire, nº 15, Paris, 1994). Com a normalização lenta da vida do país (depois da revolução e da guerra civil, depois das eleições de 1994, ou das de 99…), esse capítulo de mobilização e propaganda a que a fotografia tinha sido chamada encaminhou-se para o seu fim natural e os itinerários passaram a ter de ser individuais. Tinha havido alguns casos de excepção, como José Henriques e Silva e os Pescadores Macua (Lisboa, 1983 e 1998), Moira Forjaz e Muitipi, Ilha de Moçambique (Lisboa, 1983).
A referida aventura teve pioneiros, Ricardo Rangel e Kok Nam, que entraram muito cedo numa imprensa colonial mais liberal que a de Lisboa e construíram os modelos da transição. Mais do que uma tradição portuguesa (o Século Ilustrado?), terá contado o exemplo empolgante dos fotógrafos do magazine Drum, da África do Sul. A aventura teve depois uma sede e uma escola, a Associação Moçambicana de Fotografia e o Centro de Formação Fotográfica, no qual se fizeram dezenas de fotógrafos mais ou menos perseverantes. Teve um estilo testemunhal e militante, para responder às urgências do socialismo, da guerra, das fomes e da reconstrução. Os tempos mudaram.
José Cabral chegou por uma via original a essa história colectiva, praticando com um pai amador de fotografia e cinema – e, por sinal, também teve um homónimo avô paterno que foi governador (1910-1938) e um parque com o seu nome na velha capital (hoje Parque dos Continuadores). Começou pela fotografia de cinema e aliou a prática de foto-repórter a programas documentais menos determinados pela urgência. A seguir, terá sido o primeiro a distanciar-se da dinâmica jornalística, e tornou muito claro esse desafio com a escolha das obras para a exposição Iluminando Vidas: em vez de guerra, miséria, vítimas, ruínas e promessas de reconstrução, que podem ser ainda uma outra face do exotismo, mostrou nus femininos que não tinham qualquer pretexto etnográfico. A representação acabou por ter problemas em Bamako, no Mali, sede fotográfica e país de rigores islâmicos.
A sua fotografia – em especial a forma de a mostrar como trabalho de artista - tornou-se mais autobiográfica e até intimista, sempre sem pretender ser auto-referencial e narcísica. Essa é a outra luta que importava travar nas novas condições de crescimento do país, uma batalha já mais individualista para abrir espaços conviviais. As Linhas da Minha Mão, em 2006, por ocasião do 3º Photofesta, afirmava a dimensão pessoal de uma galeria de retratos e de lugares – encontros com pessoas, paisagens, cidades e árvores ao longo da história recente de Moçambique.
Os seus Anjos Urbanos são as crianças: os três e depois quatro filhos do fotógrafo e os filhos dos outros, as crianças da rua. Há diferenças de cor e de condição social que se não escondem, pelo contrário, e que tornam mais incisivo ou mais pungente o testemunho sobre as insuportáveis desigualdades. As imagens de José Cabral são simples e belas, ternas e terríveis, mas sempre sem os cálculos de acaso, artifício ou programa que são tantas vezes a fórmula fácil da arte fotográfica. São ao mesmo tempo directas e carregadas de emoção, sem se distanciarem da vida à procura de metáforas. Há uma história pessoal e há muitas histórias colectivas nestas imagens de Moçambique. Uma delas associa o general Mouzinho de Albuquerque, o vencedor de Gungunhana em 1895, ao bisneto do coronel José Cabral, que tinha continuado os seus planos de vias férreas e lhe ergueu a estátua, entretanto apeada. É só uma fotografia de família, uma criança que brinca…



texto do catálogo, com 3 poemas de Luís Carlos Patraquim




quinta-feira, 11 de junho de 2009

2009, Ricardo Rangel 1924-2009

Ricardo Rangel

Foto *L / Luisa Cortesão (Maputo 11 Setembro de 2007)http://www.flickr.com/photos/luisa/1361550741/

 

Era um nome maior da fotografia em português e também da fotografia portuguesa que se fazia em Moçambique, antes da independência. Fotógrafo moçambicano antes e depois, mestiço de muitas origens, grega por parte do pai.

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da série O Pão Nosso de cada Noite, anos 60/70

Foi o primeiro fotojornalista "de cor" na imprensa branca - desde o «Notícias da Tarde», em 1952, depois, no Notícias, 1956; A Tribuna, 1960-64; Diário de Moçambique, Beira; Notícias da Beira, 66-67; e Tempo (co-fundador em 1970); fotógrafo-chefe no Notícias em 1977; director do semanário Domingo, 1981, etc. Foi também o pilar da criação em 1983 do Centro de Formação Fotográfica em Maputo (de Documentação e Formação - a partir de 2001), que continuava a dirigir - tinha 84 anos.

A França concedera-lhe o grau de Oficial das Artes e Letras em 2008 e era doutor "honoris causa" pela U. Eduardo Mondlane (Outubro de 2009) - ver: http://www.jornalnoticias.co.mz/.

Em 2005 - http://arquivo.maputo.co.mz ** - publicou O Pão Nosso de Cada Noite, a sua mais famosa série de fotografas (as mulheres e os bares da Rua Araújo, imagens furtivas dos anos 60-70), num álbum que veio imprimir em Santo Tirso, mas sem distribuição em Portugal - onde tinha exposto em 1998 (no Arquivo Fotográfico de Lisboa - ver aqui ). 

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O Centre Culturel Franco-Mozambicain e Editions Findakly (Paris) editou uma 1ª monografia em 1994: Ricardo Rangel Fotógrafo de Moçambique / Photographe du Mozambique(bilingue), com textos de Zé Craveirinha ("Carta para o Ricardo sobre as suas fotografias") e Mia Couto ("Os deuses espreitaram por seus olhos"), e uma curta biografia. Fotografias de Moçambique, 1953-1993. 120 pp.

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Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite / Our Nightly Bread (bilingue), textos de Calane da Silva ("Pão de neon na rua da vida"), José Luís Cabaço ("Ao Ricardo Rangel pelois seus 80 anos"), Luís Bernado Honwana ("Ricardo Rangel e o aparecimento do fotojornalismo em Moçambique"), Nelson Saúte (Carta a Ricardo Rangel) e dois poemas de José Craveirinha ("Felismina") e Rui Nogar ("Xicuembo"). Ed. Marimbique (impresso na Norprint, Santo Tirso - 1000 ex.), 2004.

6709 disponível em http://www.p4photography.com

Ricardo Rangel Fotógrafo / Photographer (bilingue), texto de Calane da Silva, Col. Les Carnets de la Création, Éditions de l'Oeil, Montreuil (com a colaboração da Embaixada de França em Moçambique), 2004.  24 pp. (apenas com fotografias de crianças)

e também:

Catalogue_cover_3  disponível em http://www.p4photography.com/photography_books

Iluminando Vidas - Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, ed. Bruno Z’Graggen e Grant Lee Neuenburg -  Christoph Merian Verlag, Basel 2002. 168 pp.
textos de Allan Porter (Perspectiva de Moçambique), Simon Njami (Saudade), António Sopa (O Fotojornalismo em Moçambique), Calane da Silva (Homenagem a R. Rangel). 
Fotografias de Ricardo Rangel e também Rui Assubuji, José Cabral, Luis Basto, Joel Chiziane, Naita Ussene, Sérgio Santimano, Ricardo Rangel, João Costa [Funcho], Alfredo Paco, Alfredo Mueche, Martinho Fernando, Ferhat Vali Momade, Albino Mahumana, Alexandre Tenias

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Ricardo Rangel lançou Pão Nosso de Cada Noite

O historiador e professor universitário moçambicano António Sopa considerou que o livro de fotografia "Pão Nosso de Cada Noite" do ícone da fotografia moçambicana e um dos célebres fotógrafos africanos Ricardo Rangel é a apresentação de uma realidade vivida por um grupo de mulheres no tempo colonial, obrigadas, pelos infortúnios da vida, a venderem o seu corpo para sobreviverem.

António Sopa, que fez esta apreciação momentos antes do lançamento do livro, na passada terça-feira, em Maputo, sustentou que, Ricardo Rangel, com o seu trabalho, de uma qualidade inquestionável e com uma carga artística impressionante, aproximou o considerado mundo marginal e: "tenta, através da sua arte, humanizar esse ambiente", disse o historiador. 

Num ambiente preenchido pela presença de diversas personalidades nacionais e internacionais, entre elas, académicos, políticos, fotógrafos, escritores, intelectuais, amantes e algumas figuras do "jet set" das artes moçambicanas, no seu discurso, o embaixador da Suécia, Adrian Hodom, caracterizou Ricardo Rangel como um poeta que escreve a sua poesia com a máquina fotográfica. 

Mais adiante, Hodom referiu que a presente obra retrata a Rua Araújo, famosa pela sua vida nocturna, dando-nos a imagem desse lugar de encontros, de ilusões e desenganos, que Rangel tão bem fixou com a sua objectiva. 

"Devo confessar que esta obra e a decisão do nosso apoio a ela, me deixou um tanto embaraçado. Ela associa a dor e a euforia, o boémio e a denúncia do mal-estar social. A prostituição como pano de fundo, "pão nosso de cada noite". 

Devemos apoiar tal projecto?, claro que sim porque é arte", declarou o embaixador, sustentando que, o grande poeta José Craveirinha, no poema que abre o livro, diz de uma das personagens, o seguinte: "vais evoluindo, Felismina, de mamana mal vestida / em bem despida artista de "streap-tease", ou seja, "a poesia, no caso de José Craveirinha, é a força da palavra, e em Rangel, da imagem". 

Porém, no seu delicado e afável estilo, RR, segundo Calane da Silva, disse que, ao fazer aquele conjunto de imagens a sua intenção não era publicar em livro, mas sim registar documentos de uma realidade social que ali acontecia. Contudo, mais tarde, foi seu desejo e dos poetas Rui Nogar e José Craveirinha verem esse material retratado em livro. 

"Estava interessado e gostava de conhecer mais a realidade que ali se vivia, é por isso que fotografava. Estas imagens são documentos que podem significar muito para os que queiram estudar o nosso passado. Uma fotografia pode suscitar interesse para pesquisa de várias matérias e em várias áreas. 

Para saber, por exemplo, como é que as pessoas se vestiam, os modelos de transporte, são fontes de história", disse Rangel, enfatizando que, 30 por cento das imagens ora publicadas tinha-as em negativos, tendo feito um trabalho de fundo para descobrir o que havia neles. 

Como um conjunto, o livro de fotografias, de acordo com Nelson Saúte, escritor e dirigente da Marimbique, editora que chancelou os mil exemplares, tem força de algo inédito no panorama da fotografia e edição fotográfica em Moçambique. Mais ainda, segundo suas palavras, a edição daquele livro foi um desafio estimulante, porque com o mesmo quiseram provar que é possível produzirem materiais com aquela dimensão. 

Mas também "esta é uma homenagem ao mestre Ricardo Rangel, que partiu duma aposta feita quando completou 80 anos o ano passado", frisou, acrescentando que, eventualmente, "Pão Nosso de Cada Noite" não seja o livro da vida do ícone, mas que não deixava de ser marcante. 

"O pão de néon na rua da vida é-nos dado e revelado por um artista, um poeta do foto-jornalismo, um homem que retratou este pais com o qual se confunde na moçambicana cidadania conquistada a ferro e fogo, a pulso e lágrimas empunhando na sua arma em disparos "clic's" de comunicação", assim expressou Calane da Silva, numa das passagens do texto que apresentou em louvor ao trabalho desenvolvido por Rangel. 

Calane da Silva, diz igualmente, numa das passagens do seu texto que, Rangel é, em auto-retrato vivo e actuante, um eterno jovem rebelde inconformado com a injustiça, as assimetrias sociais e com a mediocridade profissional e amante incondicional da liberdade. 

Por: Francisco Manjate 

Fonte: Jornal Notícias – 17.02.05

VER: exposições e publicações : http://216.197.120.164/artistbibliog.cfm?id=8950