quinta-feira, 9 de abril de 2026

2026, Lourdes Castro na SNBA (2)

Esta é uma exposição feliz (outras podem ser depressivas, subversivas, indiferentes, etc). Tudo se passa a partir ou em torno do quotidiano (os objectos usuais, as práticas correntes), das amizades e cumplicidades (os amigos, os retratos), dos "lavores" (bordados, costura, recortes). Como se a facilidade e a felicidade se tivessem encontrado numa pequena prática artística, de vanguarda (?) e despreocupada(?), que defende tranquilamente o seu lugar no mundo e no mercado das artes tidas por maiores. Sem urgência, mas ocupando um lugar bem visível, e sem "mensagem" para lá dessa facilidade-felicidade que é uma arte de viver.

A exposição não marca rupturas ao longo de uma carreira extensa que foi pondo em prática, e em cena, diferentes modos de fazer - e de fazer pouco, o bastante para ser mais uma arte de viver do que uma carreira. O inicial abstraccionismo dito lírico, a mancha e o gesto (1956-59?), em que outros se estabeleciam como estilo comum, e já era tão "académico" como as receitas escolares que na Escola a excluíam. As caixas em que acumulava objectos e que pintou de prateado (62-63), também uma prática então colectiva ("nouveau realisme"), mas o exemplo de Louise Nevelson bloqueava um caminho que exigia escala e meios de produção - já coexistiam com os espalhamento de figuras e contornos desenhados, seguindo Arman e acompanhando de outro modo Bertholo. Depois, já como "linguagem" própria, os contornos recortados, sombras projectadas que ficaram como marca indelével e disponível para muitas variações, em pintura (63), em plexiglas (64), depois em lençóis bordados (69) e logo em teatro ou performance (66, 72), em desenhos e fototipias de flores (72). Primeiro em acordo com o gosto pop pelos múltiplos (e os gadjets de artista), depois com vocação decorativa - a tapeçaria e o azulejo - sem nunca se banalizar como mercado invasor.

A retrospectiva  de 1982 na Gulbenkian ("Além da sombra") não mostrou as iniciais abstracções, ou não figurações - entrava com os auto-retratos escolares (..."excluída" na Escola), era desde logo a representação questionada. A de 2010 em Serralves ("À luz da sombra"), partilhada com a produção pessoal discreta ou marginal de Manuel Zimbro, deixou de fora os múltiplos/gadgets e a produção decorativa - queria ser mais etérea. Nos dois casos, a informação documental era escassa e ambas as mostras tinham uma visível intenção de auto-apresentação, assim propostas também como obra própria. Tudo é diferente nesta exposição póstuma de grande dimensão ("Existe luz na sombra", apresentada por Márcia de Sousa), que tem por base o espólio deixado por Lourdes Castro (ainda de incerto destino) e por agora depositado no MUDAS. Museu de Arte Contemporânea da Madeira. É uma primeira aproximação a um inventário, mesmo que o levantamento documental esteja apenas em curso.

Magic Circus, 1971

Sacos de compras


 Flores

 

Sem comentários:

Enviar um comentário