Eu vi (Yo lo vi) refere Goya e os "Desastres de Guerra"; é uma dupla pista que indica os acidentes do mundo sobre que a pintura se ocupa (sem agenda de actualidades) e a relação desta pintura com o visto, mesmo se a imaginação, a fantasia e outras informações ou referências artísticas venham perturbar ou enriquecer a transcrição do que se viu. Existiram modelos vivos, encenações fotografadas e objectos físicos fabricados.
Vemos figuras-personagens, retratos e auto-retratos, e em muitos casos mascarados; vemos construções de cartão que são esculturas arquitectónicas -- noutras ocasiões foram também expostas; vemos as máscaras que ocultam rostos e outras que são elas mesmas esculturas pintadas e também são personagens (o "menino de cabeça mole", que com coroa é privadamente chamado Rei Balduíno). Figuras e construções (modelos) circulam entre vários quadros.
Vemos muitas paisagens, onde figuras e objectos se inscrevem desproporcionados, como em palcos de um teatro imaginado mas não narrativo (ou onde a narração permanece enigmática e resiste à “leitura”). Podem ser paisagens/fundos "realistas" e podem deixar adivinhar aproximações a (o estudo de) Cézanne (Montagne Sainte Victoire) ou a Hodler, entre água e céus róseos, simbolistas, O pintor aceita estas hipóteses de interpretação - é um pintor erudito e não só informado, além de virtuoso; falamos igualmente de Vallotton entre outros, de Kerry James Marshall.
Há também paisagens mesmo, só paisagem, em pequenos formatos, onde a condição dos volumes e a matéria da cor importam mais que a possível notação descritiva.
Anotamos os títulos que se repetem, são títulos comuns: "Retratos Falantes", podem ser figuras e máscaras; "Paisagens com Objectos Flutuantes", e também com figuras em acção, personagens; além dos "Quadro-âncora (Yo lo vi)" de maior formato, que dominam a montagem da exposição e sugerem talvez uma série em curso.
A montagem, como em exposições anteriores («Joyciana: Mollies, Pollies & Dollies (Exposição-Linguagem)» no Museu de Évora) em 2021 - e algumas obras de agora já aí se mostraram , 2021-26) é acumulada, continuada em telas de dimensões variadas, sem compartimentarão de géneros nem seriação cronológica, disposição contrária ao gosto pelo design de interiores que marca as apresentações habituais. "A montagem dá continuidade ao trabalho de atelier", escreveu.
Também não existe um "curador" que se interponha entre artista e público, e não faz falta: as paredes de pintura são assim mais poderosas. Há q passar da descrição à interpretação seguindo as pistas propostas pelo autor num texto do breve catálogo.
24 03 26
A exp. termina no dia 27 sexta, e eu ainda estou às voltas com a questão da interpretação. O J.M.G. oferece duas pistas: Goya (Yo lo vi) e Courbet (a "alegoria real, que é um oxímoro ou contradição nos termos).
Também escreveu numa noticia: "A exposição apresenta a pintura como ensaio visual, entendida enquanto processo de pensamento aberto a hipóteses e desvios. Cada quadro surge como uma proposição integrada numa série, em que o sentido se constrói por justaposição, repetição e deslocamento. Neste contexto, o conceito de "pintura-personagem" assume relevo, ao atribuir a cada obra um papel ativo na narrativa fragmentada que se estabelece entre as diferentes peças expostas."
Também oferece um texto no pequeno catálogo (é aí que refere Courbet) que não é fácil (é um excerto de uma tese? - é um pintor erudito e rebelde) onde interroga se "interpretar (é) necessariamente a forma correcta de relação com a pintura".
Fala em ficção ("margens de uma ficção") e em "desconcerto do homem face ao mundo".
25 03 26
As máscaras pintadas por José Miguel Gervásio (exp. em Montemor-o-Novo, até dia 27).
São e não são retratos, são personagens; por vezes vieram ocultar os rostos reais dos modelos que posaram para as suas cenas mais alargadas (alegorias, pintura de história sem mensagem literária); por vezes resultam das (ou concorrem com as) construções arquitectónicas enigmáticas (caixas, casas, torres) que povoam muitos quadros - são "retratos falantes" e/ou "objectos flutuantes".
Podem ser talvez robots ou autómatos, uma (des)humanidade alternativa: mutações, metamorfoses. Às vezes têm nomes privados - o menino de cabeça mole, que com coroa é chamado Rei Balduíno, e de outros nomes não soube. Podem circular por diferentes quadros, recriadas, retrabalhadas. São por vezes assustadores (um fantasma?) ou estão assustadas - introduzem uma dimensão de fantasia ou alucinação numa figuração que é realista até à fronteira declarada da Nova Objectividade. Gervásio não é um pintor de máscaras à maneira dos carnavais críticos de James Ensor.
Recortei aqui pormenores (não sei se é legítimo fazê-lo) ou escolhi máscaras de corpo inteiro que integram, entre paisagens e “Quadros-âncora", as duas grandes paredes da galeria (municipal) onde tudo se torna uma vista do atelier in progress e um teatro de figuras. Outra máscara, a do cartaz, surgiu fisicamente na inauguração.
Há também retratos reais intervencionados e pelo menos dois auto-retratos.
Em tempo: e as máscaras existem.
&
07 12 21
À volta das pinturas do José Miguel Gervásio. O R.B. Kitaj escrevia longos textos a acompanhar os quadros (a história, as referências, as condições...) - era uma das marcas de um artista genial (1932 – 2007). O Gervásio escreve títulos que não são menos enigmáticos que os seus quadros; eles fazem parte de um puzzle ou colagem de imagens, citações ou alusões, pistas, indícios, que se "entendem" ou não: os quadros são para ver, não para ler, para ver tudo. "Não se vê nada!" (título de Daniel Arasse, referido abaixo por ele) - não se percebe nada? - ou vai-se vendo, percorrendo, procurando?
Aqui, o Título: "A invenção das telecomunicações" (2021). Óleo s/ tela de linho. 114,5 x 98 cm.
Um aliás dois dos seus modelos/actores/personagens, uma vista de Montemor certamente, uma das suas construções-esculturas, os objectos-adereços de uma cena teatral (candieiro e manequim) -- os dois personagens comunicam?; o céu e a terra quase vermelhos, as nuvens-fumo (a envolver a árvore sem folhas ou como folhas), um espaço de céu e terra intranquilos e em que entramos ou escorregamos - lava ardente?; as línguas de cor ou balões de BD : mensagens-comunicação sem texto.
A pintura é "maximalista", ficcional sem história, diferente do habitual design preferido dos de-curadores, inalcansável, sedutora e incómoda, e é pintura mesmo, pintura a fazer-se e a ver-se. Desta pintura não se encontra aí pelas colecções públicas.
05 12 2021
pormenor ou parte de quadro.

Figuras que podemos reconhecer noutras pinturas, personagens identificáveis, às vezes nomeadas, "modelos" que participaram com brio em encenações ficcionais sem tradução conhecida (os títulos não explicam, desafiam), num jogo de cumplicidades; corpos intrigantes com que dialoga o observador, teatro visionário e pictural, visões.
O que acontece ali no ecrã da tela? A representação realista desrealiza-se para o lado da invenção, do imaginário, como um sobre-realismo não surrealista, embora referindo-o, tal como se refere a nova objectividade, a metafísica e outras figurações, clássicas e modernas, ingénuas e eruditas, para que se procurarão as chaves possíveis, as perguntas certas, sem resposta.
A figura na paisagem, mas paisagem abstracta <ou não, vista como real ou pintadas por outros, assim igualmente vistas>, matéria colorida, habitada por objectos e construções volumétricas não referenciais (abstractos <casas-máscara>) que são outra das práticas do pintor-escultor, às vezes expostas.
Formas invasoras, talvez ameaçadoras, que afirmam a possibilidade da criação de ilusões. Às vezes monstros. O que vemos? O que é o visível? Como representar com humor a inquietação? Como pensar as imagens sem literatura, cenas de fantasia, ficções não literárias?
&
Plumba 25 março 2005
Gervásio (na recém-inaugurada Gal. Plumba) expõe oito pinturas formadas pela montagem conjunta de telas de pequeno formato, e a dinâmica que se instala entre o quadro unificado e as suas partes respectivas, mais ou menos reconhecíveis como tal, constitui um dos caminhos que sustentam o olhar do observador. Há um teor narrativo inscrito no que se afigura ser um processo de acumulação, articulação e transformação das partes num todo mais ou menos agregado, mas todo o jogo pictural parece passar pela ocultação ou camuflagem do que, no fazer do quadro, como todo ou conjunção de «episódios», possa ter surgido como representação ou narração reconhecível. As histórias estão lá, mas ocultadas na pintura, numa tentativa determinada de separar imaginário pictural e literatura, e deixando esta para os longos títulos que o pintor dá aos seus quadros.
in "Diálogos e confrontações" - Em trânsito pelas galerias do Porto
25-03-2005
https://josemiguelgervasio.wpcomstaging.com/
Joyciana: Polies, Mollies & Dollies (Museu Frei Manuel do Cenáculo, Évora, 2021)
https://josemiguelgervasio.wpcomstaging.com/pintura/
https://www.facebook.com/reel/195877169147455
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