Filipa César
“Zona oculta”
«PISO TÉRREO», Fund. Gulbenkian

Expresso, 01-04-2006
Abre-se uma porta e entramos nos subterrâneos da Fundação, no Piso Térreo. A câmara avança num movimento lateral que varre uma área de recepção e segurança, cacifos, secretárias de telefonistas. Atravessa o espaço num longo «travelling» e no ecrã entram e saem pessoas que trabalham ou circulam e desfilam peças de mobiliário, balcões, paredes. O plano muda quase imperceptivelmente, sobre a vertical negra de uma esquina ou coluna, sem que o movimento se interrompa, com a câmara sempre à mesma altura. É um olhar fixo e baixo, como de um pessoa sentada, certamente sobre uma cadeira de rodas. Já estamos num espaço de oficinas, a que se sucederão, mais adiante, uma zona de reservas (com estátuas do Egipto e da Mesopotâmia), cozinhas, uma lavandaria, salas de ensaios, depósitos, máquinas.
Os lugares atravessados, às vezes percorridos num olhar panorâmico, desenhando uma curva larga, desfilam interminavelmente, sempre fugindo da direita para a esquerda. Não há informações adicionais ao que vemos, não sabemos exactamente o que vemos, e a câmara a média altura, rasante, secciona os objectos mais próximos por que passa: estantes de livros, armários de gavetas, molduras e quadros, estátuas, depósitos de figurinos (de ballet ?) envoltos em plástico. Por vezes, instala-se com a fuga constante das imagens uma impressão de vertigem, mas ela vence-se logo com a atenção a um novo espaço atravessado, uma nova situação. Um elevador de palco desce lentamente um piano, o maestro do coro dá instruções em francês, uma mulher passa roupa a ferro. Por vezes a câmara abranda o seu curso, parece hesitar diante das grelhas móveis dum depósito de obras de arte que não podemos ver, sustém-se para acompanhar a passagem, em movimento contrário, de um quadro (de Julião Sarmento), pára frente à porta de um elevador que se abre, vazio, e continua sempre. Voltamos às vezes aos mesmos lugares, e vemos o afinador de pianos em acção, o coro a ensaiar. Interrompendo o silêncio, a música invade a projecção, antecipando-se um ou dois planos ao que será depois som ambiente. Outra vez as grandes máquinas que alimentam a vida artificial do edifício. Armazéns cheios de mobiliário que terá rodeado o espaço doméstico do Fundador.
Adiante estatuária neoclássica, pinturas académicas e românticas que o gosto moderno relegou para o museu oculto e desordenado das reservas. As garagens (primeiro vistas de cima, num único movimento de câmara descendente). Outra sala de ensaios onde num letreiro pousado se pode ler «The End». E depois de um brevíssimo intervalo tudo recomeça, ao longo de 40 minutos velozes.
Filipa César respondeu à encomenda documental para a exposição sobre a Sede da Fundação com um fortíssimo objecto visual. O que vemos, espreitamos, descobrimos no Piso Térreo, é também o exercício de uma observação que se pensa e exibe a si mesma, porque não há lugares transparentes.
* No quadro das comemorações dos 50 anos da FG e da exp. "Sede e Museu Gulbenkian. A Arquitectura dos anos 60" (art. de José Manuel Fernandes) + "Os primeiros anos" (AP)
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