Eduardo Luis e António Areal QUESTÕES DE MÉTODO
Expresso,18 08 1990 (II)
A RECÉM-publicação do catálogo da retrospectiva de Eduardo Luiz na Fundação Gulbenkian (ver «Eduardo Luiz: crítica da crítica», EXPRESSO de 11 de Julho) permite observar que, mais uma vez, a exposição da obra não significou a produção paralela de uma investigação sobre as circunstâncias que a acompanharam, sobre os condicionalismos da sua circulação e recepção, etc. - ou mesmo só a recolha exaustiva das respectivas informações.
O apagamento da figura de um comissário, uma vez que cabe a responsabilidade directa da exposição ao director dos serviços da F.G., limita a eficácia das iniciativas deste tipo. Áquele deveria competir, como é prática universal, a pesquisa das obras dispersas, a sua selecção e, num mesmo processo de trabalho de investigação crítica recolhido num catálogo monográfico, a analise aprofundada da evolução dos processos criativos.
Uma vez que as retrospectivas raramente se repetem, há um trabalho de investigação histórica cuja oportunidade assim se perde. E tratando-se de um artista já falecido e de uma obra realizada no estrangeiro quanto mais tarde se tentar o seu estudo menos acesso haverá aos informadores directos (familiares, galeristas, colecionadores, artistas contemporáneos, etc.).
O que fica de uma exposição
O prefácio de José Gil, por mais perspicaz que seja a sua análise da pintura de E.L., não cumpre essa função; quanto à cronologia biográfica que se publica, ela é de uma exiguidade óbvia, que não ultrapassa o que se inclui em muitos catálogos de galeria. Por outro lado ainda, há regras de trabalho que se esperaria ver utilizados em todas as retrospectivas a que a FG meritoriamente se tem dedicado (e quase só ela): por exemplo, as reproduções de cada obra deveriam ser acompanhadas por indicações sobre quando e onde foi exposta, sobre a respectiva bibliografia, eventualmente sobre anteriores proprietários. E, nos casos maiores, o seu estudo crítico, as influências acolhidas e transmiti-das, etc.
De facto, o investimento organizativo concentra-se apenas na exposição, que será o lado mais efémero do acontecimento, entendendo-se o catálogo como mero acessório comemorativo, quando será precisamente ele que permanecerá como acervo de informações disponíveis para o futuro. Mas deve dizer-se a propósito que a mostra dedicada à pintura de E.L. está correctamente montada, no seu ensaio de articulação de percursos cronológico e temático, balizado por peças exemplares (ainda que o relevo dado a "Mort de Rembrant" e "Noir d'Ivoir" me pareça um equívoco), e dentro da opção tomada de não proceder a uma contracção mais selectiva.
No entanto, é provável que uma procura realizada no estrangeiro (onde E.L. teve alguns colecionadores fiéis) contribuísse com algumas outras obras maiores. E a não exibição do filme de animação La Brûlure de Mille Soleils, de Pierre Kast e Chris Marker, para o qual realizou desenhos e pinturas em 1964, com grande êxito de críticas e prémios em festivais, é uma lacuna que não seria certamente difícil de preencher.
Algumas das reservas metodológicas formuladas atenuam-se no caso do catálogo dedicado à retrospectiva de António Area, em co-edição da Casa de Serralves (SEC) e da FG, embora, como se verá, mais no plano das intenções aparentes do que quanto a resultados efectivos.
Material em bruto
Neste caso procedeu-se a uma ampla recolha de textos críticos produzidos quando das exposições anteriores de A.A. e também dos manifestos e outros textos do próprio artista (aliás, estes já coligidos em livro pelo autor), organizando essa antologia de modo a acompanhar as diferentes fases da obra. No entanto, para além de um tratamento gráfico de gosto e eficácia contestáveis, e de um luxo editorial excessivo a que não corresponde a diminuição das gralhas, verificar se-á que a leitura dessa informação bruta acumulada se faz dificilmente na ausência de um paralelo comentário crítico condutor.
A ausência de um inventário das exposições individuais e colectivas é inadmissível, não sendo metodologicamente substituído por um «Esboço biográfico» que tem lacunas diversas e que segue um alinhamento cronológico por demais acidentado. Igualmente a bibliografia é falha de rigor, logo começando por chamar «monografias» a edições que o não são. Um trabalho rigoroso neste campo seria utilissimo para compreender o percurso do pintor e contrariar as interpretações mitificadoras que sempre lhe são associadas.
A visibilidade da vanguarda
De facto, importa ver que com as suas 22 exposições individuais (um número passível ainda de acréscimo numa investigação mais alargada) realizadas entre 1956 e 1973 - e são 16 as exposições que fez só no anos decisivos de 66 a 73, duas delas «retrospectivas» -- A.A. é certamente o artista com uma presença mais insistente na sua época. Elementos inscritos em algumas análises, como a invisibilidade da obra ou a marginalidade do seu itinerário vanguardista no seu próprio tempo, perante as instituições (sejam elas a cooperativa Gravura, onde em 61 e 62 expôs as tentativas abstraccionistas — e assim se contrariam acusações de fechamento conservador dos meios que tinham sido neo-realistas na década anterior, mas já não o eram então --, ou o próprio SNI, o que levanta outras questões políticas que não devem ignorar-se), e perante o comércio de arte, seriam assim corrigidos.
As questões do êxito (tão insistentemente procurado quanto polemicamente rejeitado), da profissão, da ética do artista atravessam aquela frenética actividade expositiva, e devem ser vistas na sua ambiguidade.
Tal como a consideração da constante atualização vanguardista da sua obra, do seu lugar de pioneiro ou dos seus «atrasos», do seu pretenso isolamento criativo e, por outro lado, do significado de algumas obras que resistem ao tempo como incontornáveis e inquietantes objectos, terá de ser equacionada num contexto que já era, então, de rápida actualização da informação intemacional, de alargamento do mercado e da circulação, e. em especial, de multiplicação muito rápida das expressões de vanguarda. A.A. não é um caso isolado, embora seja um caso radical.
(Eduardo Luiz. 4000$00: António Areal, Primeira Retrospectiva, 220 págs., 5000500)
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