sábado, 29 de julho de 2006

2006, Serralves, Gego, Barry Le Va e Fernanda Gomes, "Das Américas" (29 07)

Das Américas

 
    Três artistas do outro lado do Atlântico apresentados no programa de Verão de Serralves 

 

Gego, Barry Le Va, Fernanda Gomes

Expresso 29-07-2006

 

        Gego, «Esfera nº 2», 1976 (arame de aço)

 
Três artistas das Américas completam, desde ontem, o programa do Museu de Serralves para o Verão, já iniciado com a exposição do belga Luc Tuymans na antiga Casa. Se este tem notoriedade recente como emblema de mais um revivalismo pictural, embora a sua figuração «deceptiva» não seja consensualmente apreciada (são os críticos que antes desvalorizaram a pintura que agora lhe atribuem importância), Gego, Barry Le Va e Fernanda Gomes são nomes pouco conhecidos, com discretos lugares marginais.

Gego (Gertrud Goldschmidt, 1912-1994) faz parte da história do construtivismo latino-americano, em particular da Venezuela, mas foi menos divulgada na Europa do que os artistas que se instalaram em Paris nos anos 50, como Jesús Rafael Soto (que Serralves expôs em 1993) e Carlos Cruz-Diez. Nascida em Hamburgo, formada em arquitectura e fugida ao nazismo, participou na histórica exposição «The Responsive Eye» (MoMA, 1965), que consagrou a arte Op numa década de múltiplos e efémeros rótulos.

Partindo da abstracção geométrica que evoluiu como arte cinética (com a ilusão ou a realidade do movimento) e da integração da escultura monumental na arquitectura, de que foi sempre professora, Gego desenvolveu um original construtivismo orgânico que a levou a explorar estruturas aéreas em espaços interiores, volumes virtuais sob a forma de ambientes ocupados por redes e malhas de aço («Reticulares»). A exposição «Desafiando Estruturas», que segue para Barcelona e se anuncia como a mais completa jamais realizada na Europa, reúne obras tridimensionais e numerosos desenhos, valorizando a produção das décadas de 60 a 80 numa releitura próxima do neoconcretismo brasileiro.


 

    Barry Le Va, «Estudo para Escultura Dupla Ligada», desenho, 2001

 
Barry Le Va (n. 1941) é outro artista de modesta projecção que conhece agora um novo momento de promoção internacional, com Serralves a apresentar, depois duma digressão alemã em 94, a maior retrospectiva europeia de sempre. Inscrito nos episódios do chamado pós-minimalismo, Le Va tem por caução a presença na exposição «Anti-Illusion: Procedures/Materials» no Whitney Museum, que juntou em 1969 Carl Andre, Robert Morris, Tuttle, Ryman e os músicos Phil Glass e Steve Reich a nomes emergentes como Bruce Nauman, Richard Serra e Eva Hesse. Estes três tinham surgido associados em 68 às orientações da «Process Art» ou Antiforma, com que R. Morris pretendia acentuar a presença física (material e processual) dos objectos, mas já em Novembro desse ano Le Va fora capa da «Artforum».

A sua «marca» pessoal são os espalhamentos ou distribuições de feltro, vidro e madeira sobre o chão, sendo a decisão sobre a forma (ou melhor, antiforma) das obras, se assim se lhe pode chamar, dependente do espaço físico onde se mostraram. Tratava-se, à partida, de objectos que não podiam ser transportadas, portanto efémeros, embora tenham vindo a ser recuperados como valiosas mercadorias artísticas. A produção posterior, que inclui desenhos e estudos, distribui formas em relevo sobre o chão e a parede, atribuindo-se-lhe qualidades expressivas e até um lirismo de índole musical.

Por último, Fernanda Gomes é uma artista brasileira (Rio, 1960) que tem sido apresentada nos grandes certames institucionais, caracterizando-se o seu trabalho, ou a sua actuação, pela utilização de objectos pré-existentes e encontrados - fios, sacos de papel, pedaços de madeira, garrafas, bolas, etc - em intervenções discretas, por vezes quase invisíveis, nos espaços de exposição. Tratar-se-á de pôr em cena uma poética do objecto vulgar e de uso quotidiano, relacionando-o com a arquitectura dos lugares e com outros objectos presentes, invocando-se uma tradição que passaria por Lygia Clark, Hélio Oiticica e Artur Barrio. Sobre a sua apresentação no Porto, anunciou-se que a artista trabalha a relação da arquitectura interior das galerias do Museu com o espaço exterior do Parque.

sábado, 1 de julho de 2006

2006, CCB, Jorge Martins, Colecção Helga de Alvear, Abel Salazar, "Verão no CCB" (01 07)

 Verão no CCB

 
    Três propostas diferentes em tempo de transição entre temporadas e projectos 
 

Jorge Martins «Simulacros - Uma Antologia»    
 Helga de Alvear «Conceitos para Uma Colecção»    
 Abel Salazar «O Desenhador Compulsivo»    
 Centro Cultural de Belém

Expresso 01-07-2006

 

    Jorge Martins, «Slow Ruin», 1998

 
Em matéria de exposições, o Verão no CCB é variado. Estão no programa, ontem inauguradas, a retrospectiva das quase cinco décadas de trabalho de um dos maiores artistas portugueses contemporâneos, Jorge Martins; uma extensa colectiva internacional, incluindo sete portugueses, organizada a partir das 2000 obras da colecção da galerista madrilena Helga de Alvear; e uma visita aos desenhos deixados por uma figura desconhecida das gerações mais novas, Abel Salazar, médico e professor perseguido pelo regime fascista.

O ano tem sido de transição no CCB, entre gestores e entre projectos, prevendo-se para 2007 a transformação do módulo de exposições numa entidade protagonizada pelo «Museu Berardo», o que não impedirá a rotação de mostras temporárias, como sucede na primeira sede da colecção, em Sintra. Depois do enorme êxito de público que foi a apresentação de Frida Kahlo (onde se esteve à beira, pelo menos à beira, da publicidade enganosa, devido à confusão com outra exposição da Tate Britain), as novas mostras não têm condições de popularidade fácil mas são projectos consistentes e dirigidos a públicos diversificados.

A obra de Jorge Martins é exposta em toda a extensão das galerias do piso superior, numa escolha de cerca de 170 pinturas e desenhos realizada pelo artista e por Margarida Veiga, administradora do CCB e comissária. O que permite seguir todo um percurso original e solitário (não identificado com grupos ou movimentos) que alcançou notoriedade logo nos anos 60, no contexto das várias neofigurações internacionais. Nascido em 1940, em Lisboa, o artista instalou-se muito cedo em Paris, num exílio que só terminou com o 25 de Abril, embora o seu trabalho fosse regularmente exposto em Portugal.
     
A partir de meados dos anos 70, a figura humana deixou de estar presente e o artista iniciou um longo processo analítico sobre os meios e elementos da pintura, designadamente sobre a luz, o espaço e a cor, às vezes com utilização da palavra escrita, num caminho que ficou associado à vigência das estratégias reducionistas (minimalismo e conceptualismo). Tratou-se sempre, porém, de recusar as orientações formalistas mais puritanas ou auto-sacrificiais, conduzindo Jorge Martins um itinerário experimentalmente reflexivo em que, de certo modo contra a corrente, explorou a sensualidade dos meios plásticos e as virtualidades da ilusão pictural, mantendo aberta a possibilidade de sugerir outros sentidos para lá da presença literal dos materiais. Mais recentemente, já depois da retrospectiva que a Fundação Gulbenkian lhe dedicou em 1993, o artista voltou a ensaiar os caminhos da representação figurativa, e mesmo tendencialmente narrativa, num trabalho em que as referências à história da arte e a atracção erótica pelo corpo feminino estão muito presentes.


A colecção de Helga de Alvear, considerada a maior de Espanha de iniciativa privada no segmento contemporâneo, foi apresentada no ano passado em exposições realizadas em Cáceres e em Badajoz (no MEIAC), estando prevista a sua instalação em 2007 num novo centro de arte com o seu nome na primeira destas cidades da Estramadura espanhola. De nacionalidade alemã, começou a comprar arte nos anos 60 e associou-se depois à galeria madrilena Juana Mordó, assumindo mais tarde a sua direcção até criar em 1995 outra com o seu nome.

Através de uma selecção de obras de 59 artistas, a mostra documenta os caminhos do «mainstream» institucional desde os anos 1970 até ao presente, com particular interesse por exemplos da chegada da fotografia de grande formato ao mercado de arte.

Exposta na grande galeria do piso inferior, conta com uma primeira sala com trabalhos de Joseph Beuys, Jürgen Klauke, Helena Almeida e Marina Abramovic, representativas de alguns tipos de acções fotográficas dos anos 70, apresentando adiante, num percurso não cronológico, artistas representativos da arte minimal (Donald Judd e Dan Flavin) ou conceptual (Joseph Kosuth e Hanne Darboven). Instalações de grande vulto, como as dos britânicos Angela Bulloch e Isaac Julien (vídeo) ou do brasileiro Ernesto Neto, acompanham as obras de, por exemplo, Barnard Frize, Luc Tuymans, Michael Majerus ou Pia Fries.

    

 Rebecca Horn, «O Híbrido», instalação, 1987


A simultaneidade com a primeira mostra da colecção Ellipse (em Alcoitão) permite apontar a repetição dos nomes de Candida Höfer, Bernd & Hilla Becher, Thomas Struth, Thomas Hirschhorn, Ernesto Neto, Gabriel Orozco, Rosemarie Trockel, Jeff Wall, John Baldessari, Mona Hatoum, Julião Sarmento e Rui Chafes. Outros portugueses representados são ainda Augusto Alves da Silva, Joana Vasconcelos, João Penalva e José Pedro Croft, mas mostra-se um só espanhol, o falecido escultor Juan Muñoz.

 

    Abel Salazar, desenho


Por fim, no espaço habitual da fotografia, cerca de duzentos desenhos de Abel Salazar (1889-1946) são apresentados em colaboração com a Fundação Mário Soares, que procedeu à sua inventariação e restauro, tendo origem na casa-museu com o nome do médico e artista, em São Mamede de Infesta, Matosinhos. Presente em grandes exposições individuais em 1938 e 1940, e depois numa homenagem póstuma em 1946, a sua obra foi reivindicada pelo nascente movimento neo-realista como exemplo de resistência ética, mas tem sido considerada como uma prática amadora marcada pelo gosto oitocentista, o que agora se poderá reexaminar. Nestes trabalhos, e na sua obra em geral, predomina a figura feminina, que tanto pode representar as «elegantes» dos cafés de Paris ou Berlim como mulheres do povo em ambientes de trabalho.